Thursday, May 01, 2014

Maios




1 de Maio

Na Praça da Figueira
a florista trabalha:
o que seria o Maio
sem as suas flores
sem o seu sorriso
sem as suas dores?

Sunday, March 16, 2014

Editado pela Abysmo de João Paulo Cotrim, mais um belo livro de poesia, Ritornelos, de Joana Emídio Marques.
Edição muito cuidada, bom papel, letra bem escolhida pensando em leitores de maior idade, aqueles que como eu já não lêem as letras invisíveis tão na moda.
Texto ilustrado, com desenhos que ora acompanham ora separam os três conjuntos contidos sob um mesmo título, que já de si encerra alguma dimensão simbólica. Não irei a Deleuze, até porque vejo a repetição de outro modo, vejo-a como ampliação, ou como aprofundamento que se vai intensificando à medida que se lê.
E agora não resisto a uma queixa: não tenho Índice que me facilite a vida, tenho de desfolhar para chegar aos outros conjuntos que se seguem aos Ritornelos! São eles Cânticos da Floresta e Litanias.
E aproveito ainda para dizer que tratando-se de uma voz nova e inédita, julgo, e de uma ilustradora igualmente jovem e inédita, julgo (posso estar enganada, já não sigo tudo e todos como antigamente) - então gostaria de poder ler algo mais sobre os seus percursos, ou em discretas badanas ou na contracapa.
É uma grande ajuda a um leitor.
Mas vamos aos poemas, que li de seguida, de um fôlego, por me surgirem tão diferentes do que hoje em dia se produz.
Não são poemas de quotidiano descrito, vivido, mas banal (os quotidianos poéticos são hoje em dia todos tão parecidos...) também não exprimem em confissão por vezes involuntária estados emocionais que Rilke julgaria serem apenas e mal expressão incipiente de algum amor passsageiro e desmerecedor do genuíno esforço poético.
Porque a poesia exige esforço, feito de contenção, e isso falta por vezes na quantidade produzida para o mercado. 
Há toda uma nova geração de escritoras que se têm afirmado, mais talvez na prosa de ficção do que na poesia, e que considero muito inovadoras, pela linguagem, finalmente directa e aberta, nos temas e nas estruturas que os suportam.
Na poesia, deixando de parte a minha geração - anos sessenta - que foi na época muito marcante, original, e procurando os desafios que já vinham dos surrealistas e se misturavam com uma enorme ânsia de libertação (vivia-se em Ditadura, política, religiosa, moral, sexual) foi mais devagar que vi surgirem por aqui as vozes femininas de novas gerações, com Adília Lopes, Ana Luísa Amaral, entre tantas outras.
E eis-me agora com uma novíssima geração e estes Ritornelos.
Leio e reencontro alguma vocabulário, algumas imagens fortes que buscam no suporte dos elementos terra, água, fogo, céu, o ponto de referência para conceitos mais abstractos e mais elaborados. 
Escolhe-se a rocha, como um Guillevic, poeta bretão que poucos terão lido, e da rocha e sua firme dureza, se fazem nascer as flores sonhadas de algum desejo que algum Anjo ainda pode guardar. Transporta-se a emoção da terra para um céu inatingível, pois bem sabemos que essas flores, pelo caminho murcham...O poema 15, de dimensão mítica, evocando as "filhas entardecentes", vozes de um poente, de um ocaso que apaga o dizer das vozes é a expressão dessa impossibilidade adivinhada (p.37).
Compraz-se a autora frequentemente numa desarticulação vocabular que aponta para a desarticulação de um eu a caminho de ser, desejo de ser numa totalidade outra que interpela, que poderia ser divina se Deus alguma vez desse resposta. Uma ou outra referência bíblica (no poema 40, p.87) não resolve o apelo, não aumenta a dimensão, e no espaço vazio nenhuma voz se ouve.
Nos Cânticos da Floresta e nas Litanias o discurso torna-se mais denso, mais elaborado, por vezes com um ou outro preciosismo que me remete para uma poética hermética bem conhecida, a de Paul Celan, cujo imaginário é atravessado por despedidas cruéis, silêncios absolutos, aspirações todas de sofrimento irreprimível, insónias em que vagueiam mortos, os de outrora, os de agora, os de sempre.
Não posso deixar melhor elogio do que este, em que Joana diz mover-se "junto à quietude de uma memória" (p.171) : não importa se de alguém em especial, de um amor que passou, do Sopro de um Deus nunca manifestado, - essa quietude é a que forja o poema, no seu distanciamento.
Paul Celan teria apreciado. 


Tuesday, March 04, 2014

RUI ZINK
AS NOVAS FORMOSURAS...
(A metamorfose e outras fermosas morfoses, 2014)

Rui Zink lançou um novo livro, uma espécie de bombom côr-de-rosa, apetecível ao olhar e ao tacto, como têm sido estas edições da Teodolito, onde também saiu A Instalação do Medo a que já me referi neste blog.
E não por acaso, é com um texto pré-meta-kafkiano que ele começa a primeira das "fermosas metamorfoses"... que serão sete e muito diferentes umas das outras.
O título deste primeiro texto não esconde, mas inova, de forma muito original, a sua relação com A Metamorfose de Kafka.
Rui joga com o tempo de antes, com os momentos que antecederiam a transformação de Gregor Samsa em barata, ou escaravelho, e de que modo à volta desse não herói, dessa sombra antecipada de si mesmo, o mundo reagiria. Mundo à dimensão de um quarto, de uma irmã mais bondosa, de pais bíblicos, cinzentos e cruéis. O que se esperava, antecipa Rui, para não deixar dúvidas, é que Gregor se transformasse em bicho insignificante, algo nojento, criatura de repelir, como na realidade ao acordar sabia que tinha de ser.
Não ser, seria mesmo não chegar a ser, não cumprir um destino: o que estava reservado, naquele tempo e naquela sociedade normalizada a qualquer cidadão.
Ironizando, Rui Zink toca no mais fundo do que há de negativo na espécie, e que leva (levou outrora, estará levando agora?) a que toda a diferença deva ser apagada, como na novela de Kafka, por um gesto de súbito repúdio onde não cabem entendimento nem compaixão.
Ler Kafka, e logo de seguida ler esta obra-prima, condensada em poucas páginas, onde Rui Zink exprime, em tom de realismo fantástico o que foi (e continua a ser) a vida mesquinha, ou amesquinhante de uma certa pequena burguesia que não perde os seus tiques, e para a qual só o refúgio de uma metamorfose, real ou imaginária, pode trazer solução: a chamada solução final!
São sete, os textos, e muito diferentes, no tom e exercício de estilo, no tema e na linguagem, que adquire então a rapidez do coloquial, do calão, se necessário, para que se tornem mais intensas as relações ou os laços - perdidos e mal achados - como em "Pandora Boxe", para dar um exemplo, onde há alguma meta- -memória do célebre Quem tem medo de Virginia Woolf.
Rui explica-se, no fim do livro. Não precisaria de o fazer, mas temos aí mais uma prova da sua dimensão cultural, reflexiva.
Dessas notas finais podíamos fazer um seminário para estudantes de literatura. Kafka, Harold Pinter, de mistura com os clássicos, o todo num desafio que ele lança a si mesmo, e de seguida ao leitor.
No trocadilho humorístico se escondem as verdades de Rui Zink. Ora pondo a nú os tiques que são de moda, e passam, como tudo passa - "Largar Kristeva" ora deixando que a mão lhe corra pelas ideias enquanto espera que os seus leitores, também eles, ascendam a alguma meta-metamorfose que não os deixe iguais ao que eram dantes.
Não se passa por Rui Zink impunemente: os seus murros são directos, mas leais. Erudição e criatividade.Só me lembro de outro como ele, o Alberto Pimenta...

Thursday, January 16, 2014

Shakespeare, As You Like it, Como Queiram
(Do You Tube estas imagens que não são da peça que comento, enquanto não houver outras para ver)

Shakespeare no Teatro São Luiz, pela mão de Beatriz Batarda.

Belíssima tradução de Daniel Jonas, que é ele mesmo poeta, e talvez por isso tenha dado à sua versão um sabor ao mesmo tempo poético e  actual ainda que sem nunca trair o espírito do texto do grande dramaturgo.
Estamos perante uma comédia de teor mais pastoril do que senhorial, embora a acção envolva aristocratas que por razões de confronto de poder se degladiam até que surge a reconciliação final, pela via amorosa, como é de bom tom.
Refugiados numa floresta onde tudo e todos se cruzam, Shakespeare tira partido do travesti de uma das heroínas, que foge com a prima e se esconde vestida de rapaz, o que proporciona, no enredo amoroso, trocadilhos divertidos, mas sobretudo exige da actriz uma performance que na encenação de Beatriz Batarda para o Teatro São Luiz é excepcionalmente e subtilmente conseguida.
Numa nudez de palco evocadora do espaço do antigo Globe, permitindo ver o que se passa mas definindo bem a marcação, vamos assistindo ao longo do tempo ao modo inspirado, divertido e sempre muito centrado do "desenho"e construção das figuras, dos caracteres intervenientes.
Os figurinos são de José António Tenente, e na verdade a elegância da côr e do corte, quando surgem as duas beldades, Carla e Leonor, enchem o palco de brilho.
Carla Maciel, no papel de Rosalinda/Ganymedes, faz um exercício primoroso de encanto semi-andrógino, algo autoritária e masculina enquanto mulher, e algo hesitante e feminina enquanto rapaz, numa confusão / contradição de sentimentos muito ao gosto de Shakespeare.
De excepcional rigor e inventividade é forçoso, nesta encenação, destacar a figura do Bobo, no desempenho de Luisa Cruz. Uma composição genial de um personagem em cuja boca surge a crítica, o bom senso ou a paródia, em doses medidas, e o desbocamento também próprio dessas figuras vivendo entre o grotesco e o sábio e que não faltavam a este género de concepção do entretenimento da comédia  shakespeareana.
Falei de desenho, colorido no figurino, paródico na coroa, mas sobretudo acutilante, numa gestualidade e  dicção perfeitas, enriquecendo o texto, já de si soberbo do dramaturgo inglês, na tradução de D.J.
Quanto a Sara Carinhas, a sua juventude e graça esvoaçante, diz tudo. É já uma grande actriz.
Faltaria uma palavra para o desempenho dos actores, em quem redescubro carreiras de há muito conhecidas e que ali se entregam, em total companheirismo a um trabalho que é também musical, regido pela batuta ao mesmo tempo rigorosa e amiga de Beatriz Batarda.
Na grelha dramatúrgica aplicada pela encenadora ao texto /versão livre de Daniel Jonas, estão presentes, e bem, os grandes temas favoritos de Shakespeare, Esse é o genio de um grande encenador: transformar sem ferir o fundamento da "lição" que o autor deseja transmitir.Assim vemos, logo de início, ser apresentado no diálogo entre as duas primas, o jogo de opostos de  Natureza/ Fortuna (destino). Grande tema que se reencontra ampliado na última peça que Shakespeare escreveu, The Tempest, onde a Natureza é expressa por Caliban, e a Fortuna, ainda que poderosamente manipulada, por Próspero, o mago exilado.
Será frequentemente pela boca do Bobo, TOCASPARTES, numa recriação ao mesmo tempo divertida, como competia aos bobos da Côrte, e sábia (recuperando o antigo Coro dos clássicos gregos) que o comentário sobre a acção irá sendo feito. Trocadilhos, mas não arbitrários, pontuam as intervenções, de dimensão crítica aguda:
"É de lamentar que os tolos não falem sabiamente das acções tolas dos sábios...", eis apenas um dos muitos exemplos, de novo no âmbito do engenhoso jogo de opostos que se descobre nesta como noutras peças, e que suportam a estrutura do enredo, as situações em que se envolvem os personagens, e o desfecho final.
E vou agora a um dos aspectos mais interessantes e sedutores da peça: o imaginário animal com que são sublinhados sentimentos e intervenções.
Assim LE BEAU, é comparado a um pombo, carregado de notícias;e Célia tem logo um dito não menos expressivo:
"em cheio na cabeça do prego", isto é, são trazidas, as notícias, sem mais subterfúgios de linguagem, sem maneirismos inúteis.
Característica de linguagem, que também define o seu carácter, será o modo com Rosalinda se experime: já se avançou na acção, estamos na cena 3 do Acto I, assistiu-se à luta do gignate do Duque contra os jovens espoliados, e desenha-se uma paixão ainda muda, que  Rosalinda define à prima sem palavras, "Nem uma para atirar a um cão".
Adiante, quando o severo Duque decide expulsar a jovem Célia, Rosalinda (será ela a força condutora da acção) exclama, recusando ficar sem a amiga de sempre:
"Aonde que que vamos somos cisnes/ Como os de Juno, um par inseparável!"
Afirmação que permite concluir com alegria, na última cançaõ da peça que ali mesmo, no casamento dos pares, a deusa Juno será finalmente coroada.
No entretanto fugirão para a floresta, Rosalinda, mais esguia e masculina de porte, disfarçada de homem - serão irmã e irmão, criando assim um novo momento de diversão e suspense, mantido quase até ao fim, como nos contos do género. Mudam de roupa, mudam de nome e Rosalinda será Ganymedes, o amado dos deuses (Júpiter, esposo de Juno, neste caso...)
Não me demorarei muito nos detalhes, mas chamo a atenção para a floresta, descrita com seus rumores, seus regatos,carvalhos seculares (Jung veria aqui uma descida, ou melhor um recolhimento que força ao encontro da alma consigo mesma), o cervo (animal de sacrifício) cujo sofrimento desperta as lágrimas de quem observa a matança. Um novo sentimento é aqui introduzido, o da compaixão pelo sofrimento, do veado, como de JACQUES, - o que irá adoçar a severidade do Duque ali presente.
Mudança de Acto e Tocaspartes, o Bobo fiel, toma o seu diálogo de jocosas observações, e eis-nos de novo num reino animal domesticado: ele recorda que "beijava as tetas da da vaca que a sua bela ordenhava...e explica como lhe foi oferecer ervilhas, para que as usasse(comesse) maliciosamente. Na sua boca amar é comer pasto...e não por acaso, a seguir é mesmo de rebanhos e de pasto à venda que se falará, num lugar que os tem à venda.
Assim se foi misturando o campo na floresta, o amor na ocultação ou na perseguição,e história nos vai prendendo, cena a cena.

Mas há mais, não se trata aqui apenas de uma versão pastoril de um conto antigo.
Nesta peça se desenvolve toda uma teoria poética e dramatúrgica, em que se afloram os males e as alegrias do amor, com uma adjectivação que no rolar do discurso sempre nos cativa e surpreende (não é por acaso que a obra de Shakespeare atravessou os séculos...).
Não menos interessante é a célebre afirmação de que todo o mundo é um palco, (Acto II, cena VII), reflexão cara a Shakespeare, feita em Macbeth, divisa inscrita no frontão do Globe, erguido em 1599, e retirada de Petrónio: 
totus mundus agit histrionem.
Segue-se a divisão das idades: pequena infância, infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice, e decrepitude (senilidade).
Quase passa despercebido a referência à música das esferas, outro dos grandes tópicos do teatro de Shakespeare, bebido nos temas de Platão, entre eles o da "Grande Cadeia de Ser". Quando harmoniosa, a música não é dissonante. Mas se algo se rompe na união, a dissonância surge, e manifesta-se em zangas, atropelos, sevícias, guerras, traições...mas deixemos este ponto para outra altura, marcando apenas aqui o diálogo entre o PRIMEIRO SENHOR e o DUQUE SENIOR, na cena 7 do Acto II.
Segue-se uma oportuna reflexão sobre as idades da vida, na vida que é um palco, que pode englobá-las a todas. Assim , em pleno espaço do riso ou do sorriso da comédia, uma chamada de atenção, e uma dolorosa observação: 
" E eis a cena final/que põe termo ao decurso desta estranha história/regressa-se à infância, criança recém-nascida/sem memória, sem dentes, sem olhos, sem gosto, sem nada".
Nos Actos III e IV pulsa o centro da acção amorosa, a que o disfarce de Rosalinda como Ganymedes confere uma subtil perversão, desenvolve-se com Febe e Sílvio e Rosalinda pelo meio a eterna história de quem ama aquele que não ama e ama outro (como num célebre poema brasileiro...) e pelo meio se ironiza sobra o modo de amor cortês, com seus rituais, numa floresta e em tais circunstâncias, difíceis de cumprir. De novo Rosalinda, na sua expressão irónica e directa, alude a um "caracol" como melhor amado do que Orlando.Segue-se, depois de uma doutrinação sobre o amor cortês, a reflexão, mais céptica e amarga, sobre a realidade do amor dos homens, efémero, como tudo na vida. Fala de si como "galo raçudo", como "papagaio", como "macaco", como "hiena" - denegrindo a imagem do que pode ser uma mulher, se desleixada pelo seu amado, seguindo na veia do bestiário shakespeariano, já referido acima.
A comédia, que é vida, continua, e no Acto V, no Epílogo, que se constitui em grande discurso de doutrina e inovação de género, se abre espaço à mútua entrega feliz de homens e mulheres, se assim quiserem..

Sunday, January 12, 2014

Falando de cabelos e cabeleiras....
La Chevelure, de Baudelaire

Evoco duas imagens, a de Salomé, e a de Sansão e Dalila (que cortando a cabeleira de Sansão lhe retira toda a força e poder que tinha). Salomé,  cruel na sua vingança ( pede a cabeça de João Baptista, que a despreza, numa salva) e Dalila que trai, variantes da Eva tentadora, perversa, que precipita a expulsão do Jardim do Éden.
Mas a mulher cuja cabeleira encanta Baudelaire, no seu célebre poema, sendo embora sensual, devolve ao poeta um pouco do paraíso nostálgico em que os corpos ainda inocentes se podiam amar sem medos nem entraves.
Não que Baudelaire fosse poeta de medos, como será Pessoa. Mas era um poeta de grandes nostalgias de um Além perdido, como se lê noutros poemas, e onde o prazer podia ter lugar.

Saturday, January 11, 2014

A História de Adão e Eva
Uma das minhas netas pediu-me que lhe contasse a história de Adão e Eva. Os professores tinham falado disso.
Admirou-se quando expliquei que tínhamos de ler a Bíblia, o Antigo Testamento, e no Génesis, que quer dizer Origem, Criação, sendo que se trata da narrativa da criação do mundo e da espécie humana, a primeira narrativa, em que se diz que ao princípio Deus criou o céu e a terra, a terra estava vazia e as trevas cobriam o abismo, com o espírito de Deus planando sobre as águas.
Já este início nos incita à meditação, e nos faz vislumbrar o mistério de um caos, de um vazio primordial que Deus, na sua infinita necessidade de luz ordenará e preencherá, em sucessivas esferas de criação marcadas por sucessivos dias, os seis mais o sétimo, dito de descanso e veneração, uma vez consumada a Obra.
Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
Fala-se de um homem macho e fêmea, o que sustenta para alguns a semelhança com o mito do andrógino que Platão descreve no Banquete, um dos seus mais belos diálogos.
Mas também podemos entender o texto como tendo Deus criado à sua imagem um homem e uma mulher, a quem confiou o dever de serem fecundos e ocuparem a terra, submetendo a si todas as espécies animais e vegetais entretanto criadas.
Já na segunda narrativa do Génesis a criação de um homem em primeiro lugar e de uma mulher depois é explícita:
"Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Preciso de lhe fazer uma companhia que o complete. Fez com que Adão caísse num sono profundo, tirou-lhe uma costela, fechou a carne de onde a tirara, e a seguir, com essa costela, moldou uma mulher e apresentou-a ao homem. Adão exclamou é carne da minha carne, e será chamada mulher, Eva.
Vemos assim que em Adão e Eva temos na verdade a matriz da espécie humana, criada por Deus à sua imagem, e por isso detentora de uma centelha de divino.
Vem depois o momento da Queda que marca, na espécie, a sua condição e destino, o castigo da expulsão do Paraíso, o Jardim do Éden onde o par primordial habitava até ser expulso, por ter desobedecido a uma ordem de Deus: não comer das duas árvores que ali estavam plantadas, a do Conhecimento, e a da Vida.
Foi por sugestão da Serpente (vista até hoje como energia negra, emanando do caos do anterior abismo) e curiosidade de Eva, que esta come a maçã que lhe é oferecida pela serpente e a entrega a Adão, que faz o mesmo.Tendo comido do fruto da árvore do Conhecimento, descobrem a sua condição, e serão expulsos, iniciando a étapa que se conhece da vida humana feita de trabalho e sofrimento.
Vendo com atenção o quadro de Cranach o Velho, repare-se como o braço esquerdo de Eva está ainda agarrado ao ramo da árvore de onde espreita a Serpente, numa curva que quase reproduz a curva do seu corpo, enquanto que, com o braço direito, estende a maçã a um Adão de rosto algo hesitante e surpreendido.
Repare-se também na cabeleira de Eva, de caracóis abundantes, frondosos como ramadas, identificando-a com parte de um mundo vegetal, primitivo e belo, de que Cranach capta a subtileza e os perigos...
Eva, a tentadora, ficará no nosso imaginário de muitos modos, o mesmo acontecendo à Serpente: pois como conhece e domina ela esta árvore do Conhecimento?

Saturday, December 21, 2013




Absolvendo o Anjo ( ainda Rilke) na Vida de Maria)

E pode o Anjo lutar 

com o Apóstolo

que só vendo acredita 

dizer-lhe 

afasta aquela pedra
do túmulo na colina
não há corpo
há perfume de flores 
esvaídas 
corre a chamar os outros
que lhe queriam bem
e diz 
que já no céu  os Anjos
lhe celebram a vida...

(19 de Dezembro, 2013)

Esta Primeira Elegia de Duíno, em trad. inglesa, é o mais belo e misterioso poema em que o Anjo, que habitou o poeta, a mim me habitou para sempre, desde o primeiro romance que escrevi e roubou o título ao seu primeiro verso...
A interpelação não terminará nunca...enquanto houver Anjos e universo e vida... 

Saturday, December 14, 2013



Absolvendo Maria
(respondo a Rilke)

Não podemos saber
em que momento
com que gesto
ou palavra
diante de nós
se precipita o destino
a sua hora...

Só mais tarde
quando os Anjos
o da luz e o da treva
abrirem os portões
e os ouvirmos gritar:
agora vai
é este o teu caminho!


Thursday, December 05, 2013





Um Rosto de Mulher

Tem o rosto suave
de quem já partiu.

Terá sido feliz
essa mulher?

Não podemos saber : 
não o disse antes
agora não o diz


Dezembro, 2013





Saturday, November 09, 2013

Passeando entre as Horas

  O eterno Pessoa...
I
Ler Fernando Pessoa é sempre para mim fonte de inspiração.
Os seus poemas, de qualquer um dos vários heterónimos, desafiam-me, forçam-me a ler e reler, por muito que já os tenha lido. À minha frente a PASSAGEM DAS HORAS.
Mas antes, é interessante ler "A Arte de Álvaro de Campos vista por Ricardo Reis", que António Quadros escolheu para acompanhar a selecção de poemas incluída por ele e Dalila Pereira da Costa, no vol.I da Obra Poética e em Prosa, (Lello e Irmãos editores, Porto, 1986) na bela edição de 3 volumes.
Ora o que diz Reis àcerca de Campos?
" Um poema é a projecção de uma ideia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão-somente o meio de que a ideia se serve para se reduzir a palavras.(...)Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao mesmo tempo emotivo e intelectual. A palavra contém uma ideia e uma emoção. Por isso não há prosa, nem a mais rigidamente científica, que não ressume qualquer suco emotivo. Por isso não há exclamação, nem a mais abstractamente emotiva, que não implique ao menos o esboço de uma ideia"(p.867). "É o que, em meu entender, sucede nos poemas de Campos. São um extravasar de emoção. A ideia serve a emoção, não a domina" (p.868).
Numa altura, 1916, em que se preparava o Manifesto sobre o Futurismo, um dos "ismos" de uma Europa em ebulição cultural, política e artística, em que se nega a Ordem, e se proclama por todo o lado a libertação do Eu, todos os eus que constituem uma espécie de Eu universal, globalizado, vem Ricardo Reis, o poeta da racionlaidade grega, o distanciado do sentir, pois a entrega ao sentimento é uma diminuição do intelecto, esclarecer como, a seu modo, se deve "ler" a poesia ou mesmo a prosa, do excessivo Álvaro de Campo, pseudo-engenheiro, figuração de uma alteridade mais moderna e actual(engenheiro) do que a dos subtis Caeiro (Mestre) e Reis, ou Fernando ele mesmo, o desdobrado.
Quanto à designação de poeta futurista, será correcta em certos momentos, para certos poemas, deverá ser lida com algum distanciamento, noutros poemas, noutros momentos.
Pois não podemos esquecer que a consciência pensante e actuante na palavra é sempre a de Fernando Pessoa, ele mesmo, ainda que pela voz que vai emprestando ao outros.
Os autores que de imediato ocorrem, no tocante ao Futurismo ou ao Sensacionismo são Mário de Sá-Carneiro, a quem dedica OPIÁRIO , longo poema estrófico e rimado, evocador das fugas e do prazer de um oriente sonhado. Para o Futurismo teremos Marinetti inspirando uma ODE TRIUNFAL, celebrando fábricas, com o seu formigar de gente à luz de lâmpadas eléctricas, as "horas europeias, produtoras, entaladas/ entre maquinismos e afazeres úteis /quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas"(p.879), e num atropelo febril, de descrições e imagens a enorme ânsia de tudo viver, tudo abarcar, ser o "souteneur"de tudo o que de novo roda na louca existência do mundo. Esta Ode, tal como a ODE MARÍTIMA, são sem dúvida o expoente máximo da vivência futurista de Campos: "Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!" é a conclusão deste extenso e intenso, belíssimo e Triunfal poema.
 Mas há ainda outro poeta, o panteísta Walt Whitman, cuja obra teríamos de ler como Pessoa a leu (estava na sua biblioteca pessoal) para entender melhor os arroubos sensuais de Campos, ou o nítido olhar de Caeiro, oscilando entre um misticismo quase neutro de tão transparente, e uma devoração carnívora e carnal, como nas Odes citadas.
Ver ainda SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN (p.921) que Campos proclama seu "irmão em universo....".
II
Passeando agora pela PASSAGEM DAS HORAS, tentaremos ir ao encontro do que está dentro do coração do poeta, como ele diz, num cofre que, de tão cheio, não se consegue fechar.
Retomam-se as imagens das Odes anteriores: os lugares", "os portos" ,"as paisagens", os "tombadilhos" de barcos que se tornara, fantasmagóricos, como o Navio Fantasma de um Wagner. Citam-se, em enumeração que não é descritiva, é mero apontamento ou listagem, cidades, ilhas países: Singapura, Maldivas, Macau,Madagascar, Cidade do Cabo "com a montanha da Mesa ao fundo".
Dir-se-á talvez que num exercício de exorcismo de alma Pessoa regressa qui às suas viagens, de ida para a África do Sul, com a mãe e o padrasto, e de regresso a Lisboa, adolescente e só.
A enumeração, longa, traz ainda mais à memória a solidão que é a sua, e se enraizará na sua alma, como semente doentia, para sempre.
Passado o tema e a evocação da Viagem, surge o tema da Vida: "Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei.
...
Seja o que fôr, era melhor não ter nascido".

Num deslizar semi-onírico de imagens soltas, passam palácios, bobos, chicotes, mendigos, crianças abandonadas, toda a "máquina imensa do mundo" que não ajuda, nem com música, a ultrapassar a mágoa do mundo, e já a noite se aproxima. (não se pode, face a esta amálgama dorida, falar de Futurismo, mas antes de uma poesia de reflexão e simbolismo, em que cada imagem referida, ou sofrida, porque é de sofrimento este conjunto descrito, antecipa já o que virá a ser a escrita surrealista, de mão automática, ao sabor do correr do inconsciente.
Di o poeta:
"Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente" (p.931).
Pelo meio deste longuíssimo desabafo poético, em que a alma se distende, correm os versos que pertenceriam a outra Ode à Noite:
"Vem, o´noite, e apaga-me,vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além,senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo."
A noite é Mãe, é Irmã mais velha, é Noiva - uma litania que de verso em verso conduz à imagem de uma vida perdida. "não sei sentir, não sei ser humano,  conviver...."(p.933).
O momento mais explícito, no desejo frustrado de sentir, e o verso em regra mais estudado nesta longa elegia, é o que se segue:
"Sentir tudo de todas as maneiras
Viver tudo de todos os lados
Ser a mesma cois de todos os modos possíveis ao mesmo tempo...".

Versos que ampliam o que já fora dito, de todas as maneiras,ideia a ideia, imagem a imagem, de dentro do enorme cofre da alma a abarrotar.
E de seguida, num mesmo ímpeto de tudo viver e abarcar, alarga a medida do seu Eu a toda a espécie humana, no que tem de bom e no que tem de abominável, num Todo imaginário em que o discurso poético, adiante, já mais veloz e descontrolado (ainda que o descontrolo não exista nunca numa obra verdadeira) caia de novo na "raiva panteísta", de "sentidos em ebulição",  em que tudo é " uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha de si para si...violências de velocidade louca.." etc.
Sim, nesta variações de emoção e estilo, ora poderia um crítico falar de futurismo, e sua raiva invencível( pois não se estava em guerra? ) ora de sensacionismo descontrolado por uma vertigem superior, a do panteísmo de fusão com a natureza violenta, subitamente a descoberto na alma, ponto negro num universo distante.
PASSAGEM DAS HORAS: Em resumo, um poema que por vezes cultiva um sado-masoquismo certamente inesperado na burguesa Lisboa de Pessoa, mas não na sua roda de amigos, no café, uma cavalgada que não voa por cima de montes, nem se desvia da fundura dos poços, mas procura uma tal desarticulação da consciência de ser que o poeta continuará, pela vida fora, em todos os poemas, a procurar recompôr os fragmentos que se espalharam, como pó de estrelas, pelo seu e nosso imaginário de leitores, até hoje.




            

Friday, November 01, 2013

O Anjo de Duerer

Tem as asas caídas.
Está zangado.

Foi posto ali de castigo
até que o círculo
se transformasse em quadrado.



Saturday, October 26, 2013

Morrer
é voltar para casa
aquela casa da infância
onde a cozinha era grande
a cozinheira ralhava
e lá fora o jardim
ainda maior
chamava...

Saturday, October 12, 2013

Acorrem as Erínias


Acorrem as Erínias
fugindo da sua noite

dos seus buracos
de sombra

ouvem-se os gritos
de fúria

garras que prendem 
os nomes

nomes que não são 
de vergonha 
ou
arrependimento

estão manchados
de sangue

o sangue 
da memória

(Lisboa, 2013)

Thursday, September 12, 2013




Dois corações partidos
no corredor da vida

caminham devagar

não falam
são muitos os degraus
que têm para contar

buscam sinais
outrora prometidos:
sinais de luz
de chegada
ou de partida

Sunday, September 01, 2013

Okoundji no seu caminhar

Pensamentos ao longo do caminho:
Onde o Espírito é livre o coração não teme, a harmonia é perfeita.
...
A grandeza do pensamento não tem limite nos territórios da emoção. É pois verdade que toda a beleza do sonho reside no elogio de um lugar não atingido.
...
Os ruídos no coração do homem não são senão os ruídos deste mundo laborioso que nos rodeia.
...
A vida não é um dom, é a obra incessante de uma oferenda.
...
A palavra do livro é muitas vezes silenciosa...

Friday, August 30, 2013

Au Matin de la Parole

De Gabriel Mwènè Okoundji
Au Matin de la Parole, com posfácio de Patrick Quillier, também ele poeta.
Foi uma leitura, ou melhor releitura, o Patrick já me tinha oferecido o livro há alguns anos atrás, gratificante, como bálsamo na alma, em momento que carecia de mais intensidade e mais simplicidade ao mesmo tempo.
Pode parecer contradição, mas não é.
O sentimento mais intenso é, ao fim e ao cabo, como lemos nas palavras dos Mestres de Okoundji, que ele evoca e retoma neste livro, é o sentimento mais simples.
Mais simples das coisas da vida, e também da vida no seu quotidiano, que esquecemos ou até desprezamos, no mundo actual demasiado apressado e demasiado febril. Vaidade das Vaidades...
No Amanhecer da Palavra seria o título em português. 
Comecemos por aí: pelo amanhecer, ao mesmo tempo Aurora e Nascimento de um Verbo que se tornará matéria mesma da vida.
Vida contemplativa, feita de atenção e de recolhimento humilde.
Okundji é natural de uma tribu do Congo Brazzaville, e actualmente Psicólogo Clínico num hospital de Bordeaux, e Professor da Universidade.
A sua obra poética define-o como uma das vozes maiores da poesia africana, distinguida com vários Prémios. E este seu título que agora intercala no seu nome, de Mwènè, significa que completou um longo processo de iniciação com os Sábios da tribu originária, e que nele foi delegada a responsabilidade de continuar com a tradição, actualizando-a, pela vida e pela obra.
Este amanhecer que aqui nos é oferecido é um renascimento, um processo ritual de maturação filosófica e religiosa que só o tempo, Sábio máximo, nos pode conceder.
O Tempo e a Vida. A vida na sua multipla abundância: de luz, de escuridão, de frio, de calor, de alegria e de dôr, aquilo a que o poeta chama " os estados do ser vivo".
O amor é parte integrante desse estado de ser vivo: amor de plenitude, entrega e compaixão.
Fico-me, esperando ter despertado a curiosidade por este poeta secreto, com uma das citações dos aforismos de Ampili, a Grande-Mãe e Pampou, o Pai Eterno:
" que a ignorância é o ninho que o pássaro perdeu"...
E como se torna imperioso que os pássaros que por todo o lado esvoaçam, perdidos, recuperem o ninho, ao recuperar também a Palavra perdida, no seu Amanhecer!

Friday, August 23, 2013

Lendo, em Férias...
Cristina Carvalho

Uma escrita fluida como onda, surpreendente de tão detalhada, herdeira de um realismo fantástico por vezes feliz, por vezes dorido, em que somos conduzidos por um desejo que é de amor, compaixão e saudade.
Em Ana de Londres é de nós todos que se fala.
Já em Marginal fui descobrir uma narrativa talvez mais pessoal, com atravessamento de memórias, numa escrita rápida e firme, de quem sabe o que pretende dizer, e não deseja perder tempo.
O início é sedutor, e os livros que prendem o leitor têm de seduzir.
A descoberta na rua de um conjunto de fotos antigas, que uma filha entrega à mãe, que por sua vez nelas redescobre um tempo que foi passado e vai tornar-se presente,- é o mote perfeito. 
À medida que progredimos na leitura o espaço materializa-se, as personagens adquirem vida própria, sob um olhar que se tornou exigente e contundente: a Marginal, estrada de atravessamentos múltiplos, torna-se quase perigosa, no fogo das emoções que (supomos, não é claramente afirmado) a Revolução de Abril despoletou.
Muitos amores, muitas separações.
O quotidiano banal torna-se insuportável: crítica bem detalhada de tiques e vaidades de pequena burguesia, que se julga de repente emancipada. Mas Cristina, no alter-ego da narradora, não perdoa. Poderia ter dito, como em Downtown Abbey: don't! It's so middle class!
O que me remete para a abertura do livro, antes do 1º capítulo, e a declaração frontal, como que de revolta:
" A Revolução não fui eu que a fiz".
E não foi, mas viveu com ela, ou através dela, todas a mudanças que um ar novo, ainda que de louca rabanada, introduziu.
Cristina tem um olhar arguto, que no traço grosso das personagens caricaturadas remete para algum realismo expressionista, de onde nos leva a seguir para vivências mais fundas, as do amor sentido.
As páginas que são tocadas ao de leve, numa estrutura musical, de "andamentos" preparam as que se seguem, do conjunto de negativos revelados, por onde escorre um amor secreto, amor passado e revivido: mas por quem? 
Um itálico separa amor passado de vida presente.
No itálico permanece encerrada uma paixão violenta, de entrega rápida, de desejo que não terá controle.
Mas nas Revoluções, como nas paixões, a intensidade depressa se esgota: a vida regressa a um decurso normal (que pode tornar-se insuportável, conduzindo à separação consequente).
Assim, de foto em foto, se percorre um tempo irrecuperável, num espaço que também ele foi mudando, ao longo da Marginal.
A própria vida se tornou em parte marginal, vivida em recato à margem, mas que uma súbita pulsão poderá, a qualquer momento, fazer de novo explodir.
Talvez só em melancólica saudade?
A estrutura da narrativa é aleatória, mas sem que se perca um dos fios da meada, para mim talvez o mais interessante, e que gosto de ver na obra de Cristina: a capacidade de olhar e descrever com objectividade surpreendente o mundo à sua volta, desde o jardim mais pequeno, à planta mais solitária, ao recanto da casa mais cuidado. Sempre a palavra certa, quando estamos em época de tanta vaguidão e de tanto vazio...
Herança de um pai cientista e poeta? 
A qualidade da escrita, neste romance, tem a ver com a minúcia do detalhe, mais do que com a pressa de alguns momentos em que a hesitação, ou a reflexão, poderiam ter tornado o "menos" mais intenso do que o "mais" do seu dizer.
No menos fica guardado o mistério, no mais o explícito apaga  a sombra que o teria coberto.

Tuesday, July 30, 2013

Carta a Sónia Cravo

Querida Sónia


Já li o seu romance, deste lado do mar vermelho, e como sempre me acontece, é-me difícil falar  sobre obra alheia. Por isso nunca, ou muito raramente, fiz crítica literária, para jornais ou revistas.
Por uma razão: também sou escritora e entendo que todo o autor – é ele que assina o livro – tem direito ao mais e ao menos, em cada momento da sua escrita.
Escrevi o meu primeiro romance aos dezoito anos, em francês (estava em Paris, onde tinha a família da minha mãe). De regresso a Portugal reescrevi, em português, e saiu na Ática: 1961.
O meu último, publicado em 2011 na Sextante, representa a chegada aos 71 anos com romances, teatro, poesia e ensaios académicos de investigação.
A escrita mudou, como a sua mudará – mas para si, felizmente ainda há muito tempo!....
 Este é o seu segundo livro, adivinho uma grande e intensa paixão e necessidade de escrever. Ainda bem, é a marca de um escritor, essa necessidade. Desde Rilke que os grandes autores dizem que, se a escrita e a sua emoção não forem sentidas como um acto de sobrevivência, o melhor seria não escrever.

 Descubro no seu romance, com espanto, porque não é usual, um perfeito e raro domínio da língua e da sua expressividade, nas descrições que faz. Com marcas da grande prosa neo-realista, que me recordo de ler num Alves Redol ou num Aquilino Ribeiro, ou mais do meu tempo, um Cardoso Pires (que conheci e sempre admirei muito). Talvez eu esteja enganada, mas julgo que são estes os seus antepassados literários? Claro ainda há o Saramago.
Essa marca estilística é uma grande qualidade, que se purificará ou adensará com os anos, com os temas, com o que vier a ser escolhido, na necessidade de cada novo momento.
Quem pensa bem e escreve ainda melhor o que pensa tem o caminho aberto à sua frente.

Se o estilo é realista, falta agora aludir ao imaginário – herança de outros, já do realismo dito fantástico, como nos célebres e fundadores Cem Anos de Solidão, que Saramago também leu bem, e a seguir a ele, tantos outros das novas gerações.
O seu imaginário é no entanto mais obscuro e mais onírico – o que o torna mais apelativo para quem a lê.
Deseja-se ler mais, saber um pouco mais.

Aqui entra a chamada estrutura da narrativa: recortada, post-moderna no uso do flash-back e no aleatório de algumas situações que não se fundem, antes se vão somando umas às outras.
A Sónia escolhe o mais, em vez do que na minha idade eu teria escolhido: o menos.
Era Celan que dizia, num poema Cello-Einsatz: tudo é menos / do que é/ tudo é mais.

Por outras palavras, filosofando sobre a depuração do estilo numa narrativa, o “menos” é na realidade “mais" : porque deixa o sentido profundo em aberto, o leitor pode completar, reflectindo sobre o que não está dito…o mesmo podendo suceder connosco,  ao escrever deixando uma interrogação só nossa e que nos levará depois a outro livro…

Resumindo: há uma soma de situações que tornam a narrativa talvez demasiado densa – sem que deixe de ser interessante - isto não é uma crítica negativa. É uma constatação, apenas.
Mas noutros livros se calhar pensará que o denso, mais depurado, não ficará menos intenso…escolha que será sempre sua, claro, o autor é dono e senhor da sua criação!

Saturday, July 13, 2013

Thursday, June 20, 2013

O Poeta envelhece.

Já morre devagar
sem dar por isso.

Está caído no chão,
coberto de palavras.

São metáforas, diz,
mas não sabe o que diz.

Não saberá escolher
a que mais chama por ele
e há mais tempo:
uma palavra-chave
uma palavra-grito
aquele segredo
que dói
de sangue tão antigo...

As palavras agitam-se:
chegou a hora.

Enchem-lhe a boca
de espuma.

Na espuma se afogará
escolhendo a palavra
errada,

a que não deixa voar.