

Cláudia Guerreiro retomará esta mesma exposição em 2010.
O título poderia sugerir a obra de Cesário Verde, Nós, onde os poemas são espelho da alma e da circunstância nacional, ao seu tempo, de uma cidade ainda rural, onde o olhar do poeta se cruzava com vendedeiras de formas abundantes e sugestivas, como descrevi no post anterior, ou com atitudes de inspiração decadentista, baudelairiana ou semelhante.
Não é contudo para o nosso Portugal que esta exposição remete mas antes para uma outra consciência de ser: a dos nós que nos atam ou desatam, a dos novelos que é preciso desenrolar descobrindo algum fio, talvez o mais secreto, que leva da nossa consciência e identidade própria à de uma geração, como a da jovem artista.
Esta é uma geração que sofre: na sua liberdade de escolha (os nós sociais, não os políticos, essa liberdade foi garantida); as vias de realização parecem estar libertas, mas estão presas: nas modas, principalmente, como sabem os artistas a quem cruamente se diz, não estás "no meio", ou "não estás in", ou "não chegas ao grande público", "não circulas"..Aí se fecha então o novelo, os fios contraem-se, endurecem e a alma fica presa.
Mas o criador sabe, ou sente, que em tudo há limite e em tudo há limiar: esse é o espaço que tem de ser transposto.
Quando se pinta, como quando se escreve, não é o mundo que conta, o olhar de apreciação ou desapreço de quem contempla ou quem lê: é o acto mesmo em que o criador se envolve, se projecta, se esconde ou se revela, num diálogo (uma procura, uma discussão, uma luta, um esforço carregado de determinação) que só ele pode ter consigo mesmo.
Só posteriormente esse esforço, que levou a alguma completude interior, algum acabamento, poderá ser entendido, ou mesmo recusado, pelo próprio ou pelos outros.
No acto de criação os outros, esse colectivo bem abstracto, não existem.Porque há um outro mais forte, mais íntimo, que se manifestou como alter-ego: o eu profundo do artista, o que fala às vezes nos sonhos, e sempre no imaginário que a sua produção revela e por um tempo se manteve oculto, como que inexistente.
Mas existe, e a mão que desenha, como a que escreve, acabará por trazê-lo ao de cima, expondo-o completamente.
Nestes desenhos de Cláudia é a mão que está presente: agarra, aperta, faz sangrar o novelo da vida; espeta agulhas que perderam a "domesticidade" do tricot, num coração já sem côr; e quando desfia o novelo eis que os fios a prendem, em vez de a libertar.
Penso em Ariadne, no fio que libertará Teseu e a fará morrer a ela, abandonada, de desgosto.
Aqui Ariadne fica presa, de mãos atadas, que é como diz impotente perante a adversidade do abandono, enquanto Teseu, ainda que embrulhado nos seus fios, foge, erguido no ar por um conjunto de balões.
Ela, que reinava no labirinto terrestre do rei Minos, dominando o terrível Minotauro, é apresentada, no desenho de Cláudia, como a mulher erguida, ainda que presa, imagem de um Feminino forte ( e que resistirá no mito que Ovídio nos descreve).
Ele, ainda que erguido aos céus, um Teseu todo preso nos fios, como se fossem já as tiras com que as antigas múmias eram preparadas para as suas últimas viagens: um herói que o não é, afinal, pois não cumpre a palavra dada, peca por desleal, não merece ser salvo e provavelmente (aqui acrescento eu) cairá por terra quando os balões um a um forem rebentando no excesso de altitude.
A uma figuração de um Feminino forte, resistindo de pé como uma árvore, contrapõe a artista um Masculino fraco, que já podia estar no seu caixão. Os balões mal chegam a elevá-lo.
Na verdade, a mão de Claúdia é um elemento importante, nesta composição: símbolo de autoridade, mão que desenha e que conduz, mão que decide e que condiciona, a seu modo, o significado simbólico deste novelo.
No mito, segundo Ovídio, Ariadne, sofrida, é elevada até ao céu por Liber ( o nome diz tudo) e quando se espalham no ar as pedras preciosas da sua coroa ela transforma-se e permanece na abóbada celeste brilhando com a mesma forma da coroa que o amante primeiro desprezara.
Mas o mito acrescenta algo mais: o astro (Ariadne, a coroa de pedras preciosas) fica entre um homem de joelhos e um homem que segura na mão uma serpente.
Temos assim a simbologia profunda desvendada:
Ariadne - Feminino mediador entre a culpa e a redenção que a serpente, com a sua simbólica própria de regeneração igualmente representa.























