Tuesday, October 30, 2012

RUI ZINK, A instalação do medo



Rui Zink, A Instalação do Medo (2012)

De vez en quando sofro da saudade de ler um bom livro. Bom neste sentido: que me surpreenda, pelo imaginário e pela estrutura narrativa, original, inovadora, irrepetível. Repeti-la seria plagiato (ainda que pelo mesmo autor).
Já li tanto, já li sempre, e às vezes vou antes ler um livro antigo do que algum destes novos que surgem em catadupa e de que não se dá conta, nem mesmo só a folhear.
Penso: estou velha, perdi sensibilidade, capacidade de alguma nova emoção. A culpa é minha.
E de repente, como aconteceu ontem, quando fui ao correio, dá-se o milagre!
Pela mão de um amigo, antigo e que muito admiro, desde os tempos da sua juvenil irreverência (e já nela a criatividade se deixava adivinhar) e do enorme brilho da sua inteligência e da sua cultura, bem maior do que o usual nas antigas décadas da Universidade.
Sempre gostei da inteligência irreverente, porque segura de si: do que sabe e do que ainda vai desejar saber, no decurso da vida. É a boa atitude de livre independência, nada tem a ver com a autocomplacência imbecil dos ignorantes.
Mas dizia eu, ontem tive a graça desse milagre que a leitura, pela mão do amigo Rui Zink, me concedeu. Abri o seu romance e não mais parei.Há muito tempo que não me acontecia. Tive, ao ler A Instalação do Medo, a mesma emoção feita de espanto causada pela leitura de O Processo, de Kafka.
A situação, inesperada; 
os diálogos, ao mesmo tempo roçando o hermético ou o absurdo de um Ionesco, reconhecíveis nas nossas perigosas situações actuais, como a forçada instalação dos célebres tdt...( ou será que já eram ddt? );
a violação da privacidade, a dois, como nos tempo da PIDE, que parece ter regressado de forma ínvia, não declarada mas dolorosamente genuína.. ;
e esse medo que vem para se instalar, e já está mesmo muito espalhado por grandes manchas da nossa sociedade (eu diria que até mesmo entre nós, criadores, sob a capa da autocensura...); 
e para lá dos diálogos ( que só por si já poderiam ser o suporte de uma bela peça de teatro, ou de uma ópera ao gosto post-moderno)
as subjacentes alusões, ou descrições do que se torna insustentável, a ponto de levar à loucura, à violência e à morte. 
Mais do que este medo que se anuncia porta a porta e se instala, de modo viral, incontornável, a descrição de situações com que deparamos dia a dia em destaque na net, nos jornais, na rua, -por todo o lado: a da indiferença perante o outro, despido da sua humanidade, como os judeus o foram outrora, de modo sistemático como nunca se vira até ao tremendo momento da "solução final".
Este medo descrito, de diversas maneiras, é próximo parente dessa ideia de alguma solução final, agora modernizada e mais adequada ao que se julga ser de imediato mais útil: empobrecer, em vez de matar logo. Pois a promoção da pobreza, física, mental, moral - matará tanto ou mais do que as câmaras que consumiram os corpos mas acabaram por elevar as almas: hoje a consciência do Holocausto é mais viva e o apelo a que nunca mais se repita fala alto.
O medo fala baixinho, por isso se tornou em arma melhor escolhida, mais fácil de espalhar e mais actuante: medo e silêncio coabitam nas almas enfraquecidas.
E de novo Rui, cuja obra é a meu ver a mais radical e significativa que nos foi dada este ano coloca na mão da mulher ( que é mãe, ou sonhou apenas ser mãe tentando esconder/salvar o filho? ) um pé -de - cabra com que rebenta a cabeça de um dos instaladores do medo.
Não por acaso é de Alberto Pimenta a epígrafe do cap. IV intitulado Corolário:
Dizes: é necessário construir o futuro.
Agora percebo por que afundas o presente.
Para instalar os alicerces.

Pimenta, o pai dos nossos radicalismos, o da desconstrução da palavra balofa, o criador da performance em que a grande erudição está sempre presente e nos ofusca com o seu brilho. Ele confronta-nos com a nossa ignorância e com muito da nossa preguiça  ( a tão louvada paciência lusitana, tão feita de desistência e cobardia...e que um dia rebenta, como a cabeça do outro cai no chão, rebentada).
 Ah, mas o que são os alicerces: os do medo, é evidente; e sobre eles se ergueria então o edifício sonhado, o da esfera dos puros, bem no alto, de onde nada do que se passe cá em baixo de arrastamento e miséria possa alguma vez ser visto, ou discutido.
Outros leitores dirão: eu prendi-me mais ao jogo subtil de trocadilhos, bem ao gosto surrealista, evocador talvez de um Boris Vian, por vezes mais do que de um Kafka. Pois sim. O humor (negro) atravessa muitas das páginas de Rui. Mas são páginas que do sorriso (de quem as entenda) logo conduzem ao pensamento profundo que não escondem, revelam, acentuam.
Nesta obra, Rui Zink deixa um grande fresco da nossa sociedade portuguesa e não só, pelo nosso exemplo passa a nova realidade que no mundo se enfrenta : e escusado será dizer, é uma realidade que ele, pela ironia crua nos convoca a combater.


Tuesday, October 23, 2012

RÓMULO DE CARVALHO-ANTÓNIO GEDEÃO

Esta Biografia do pai, Rómulo de Carvalho, cientista, e de António Gedeão, poeta, é-nos oferecida pela mão de sua filha Cristina Carvalho, ela mesma escritora conhecida, reconhecida, admirada.
Poderia não ter tido este gesto de grata memória: eu, que li no Porto, pela mão do meu pai, o Rómulo divulgador de conhecimento científico, e mais tarde em Coimbra, já com dezasseis-dezassete anos descobri o poeta (sem adivinhar que era o mesmo até me dizerem) agradeço à Cristina esta possibilidade que me dá de fazer com os netos o que o meu pai fez comigo.
Assim os grandes se perpetuam, pela nossa leitura e pela transmissão continuada. 
O livro foi concebido como eu gosto: agradável dimensão, pode ir connosco para todo o lado, ser lido em casa ou num café, bom papel que ajuda a que se ame e se guarde para outros, letra que permite leitura até de olhos cansados como os de pessoas de idade que ainda conservem espírito alerta e curiosidade intelectual.
Ah, e last, but not least: a qualidade da escrita, simples, directa, de mão corrida que não tropeça, conduz!
Por outras palavras: um livro bom, bem escrito, para todas as idades.
Carregado de boa informação, permitirá aos estudiosos da obra- seja do cientista, humanista, seja do poeta, aprofundar os seus conhecimentos.
Como Cristina escreve na Nota Prévia, Rómulo de Carvalho foi um Homem do Renascimento, o do século XX.
Na biografia é revelada a sua "vontade da ciência, da divulgação e do ensino" algo de que, pessoalmente, me lembro de ter beneficiado, ao ler os livros que o meu pai trazia, para eu ler.
Mas o encantamento da sua poesia já foi por mim descoberto: em Coimbra li Sophia de Mello Breyner, li Ricardo Reis, (sempre gostei deste heterónimo de Pessoa), António Gedeão, Miguel Torga, a par de Prévert e outros do meu convívio francês. 
Como se pode dizer tanto em tão poucas palavras?:
...
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos 
À confusão da harmonia.
(in Movimento Perpétuo)

A Poesia - espaço dado ao humano, no seu tempo, entre o caos e a harmonia - conceitos ao mesmo tempo abstractos, científicos, filosóficos (filosofia é conhecimento) e que podemos ler a par de outra obra-prima, desta vez de Sophia:
Ia e vinha 
e a cada coisa
perguntava
que nome tinha
( in Coral)

Rómulo / Gedeão alquimista da ciência, alquimista da alma.
Não me admirei, ao encontrar na vastíssima bibliografia que Cristina recolheu, um volume de 1947 sobre A Ciência Hermética, na Biblioteca Cosmos, n.55.
Já era um primeira aproximação.
Eu vejo agora, lendo este volume, editado mesmo a tempo do Ano Escolar e que desejo seja bem recebido, até como exemplo de vida de um homem que prezou acima de tudo o Ensino e a Educação como formas de progresso social, vejo agora, repito, como em pleno século XX houve em Portugal sábios da dimensão de um Leonardo da Vinci, e outros que já só se descobrem nos alfarrábios dos séculos XVI !
Perto do fim, há um episódio especialmente comovente, o do ovo, (já só casca guardada com cuidado) que um amigo oferecera à sua mãe quando do seu nascimento. Rómulo guardava esse ovo, que mostrava aos filhos, com ternura e um respeito também envolto em mistério. Cai-lhe das mãos, quebra-se em pedaços, como se da vida frágil se tratasse.
O que era? Figuração da Vida, da tal Pedra Filosofal, de que ele sabia o sentido, os outros não?
Há na biografia muito de evocação poética, como seria de esperar: é uma filha que recorda, é uma filha-escritora que dialoga com o passado e através dele nos fala..
Na biografia procura-se um sentido ao mesmo tempo de paixão e dignidade. A dignidade do Ser Humano nas suas múltiplas facetas.
Aprenderemos com este exemplo assim descrito?
Espero que sim.



Friday, October 05, 2012

UBI SUNT


Com a saudade de David Mourão-Ferreira, grande poeta, que publicou os meus primeiros poemas, aqui deixo um texto dele, que muito prezo, pois foi dedicado com amizade generosa!

Abraço: uma palavra a habitar!

Neste ano, em que não sei porquê se organiza, como se nunca tivesse existido um encontro Brasil-Portugal, quero lembrar que nunca foi preciso oficializar um conhecimento de longa duração e de muitas amizades estabelecidas, pelo menos, no meu caso, desde os anos 60!
Vinicius trazia o seu canto e encanto a Portugal, com ele vinham Chico Buarque e tantos outros, Nara Leão, Touquinho, dos últimos que vi, Ellis Regina, o sucesso era imenso, a música alegrava um país que precisava dessa emoção e alegria brasileiras.
Vinha o teatro de vanguarda: proibido, é certo, mas entretanto vinha...E para não falar depois da Revolução, das célebres telenovelas, que faziam parar os Conselhos de Ministros (talvez hoje precisassem de parar outra vez?)
Conhecíamos de cór os livros de Jorge Amado, a geração dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, a indescritível Macunaíma, a bela e intensa Clarice Lispector...e toda a outra poesia, que não cabe aqui, por ser tanta e tão de excelência. A modernidade vinha toda de lá, aqui recuperava-se um neo-realismo envelhecido!
Ocorre-me agora evocar Henrique Chaudon, que se define como poeta-marceneiro. Na Alemanha está a ser traduzido. Por aqui aguardo que alguém o descubra, como merece.
Artista também da técnica dos blogs, tem um blog: a terceira gaveta. Recomendo que se visite!henrique chaudon, busca no google.


Tríptico com melopeia

Sob a pele 
lento e surdo 
um lume. 
Pelas ruas 
somente a palha 
o velho cascalho 
das palavras.

Onde os claros, longos dias do Verão? 
Onde uns olhos amorosos, a chamar?

Tortos mortos rios
 as planícies devastadas. 
Pedra e cal 
e a mó moendo infatigavelmente.

Distante, muito além 
um obstinato fagote
recorrente e rouco.

Impossível não evocar aqui a Ballade des Dames du Temps Jadis, " de François Villon, com o célebre refrão: "Mais où sont les neiges d'antan?" que sempre acorre à memória quando a saudade do tempo que passou de repente nos ataca.
O nosso David Mourão-Ferreira também dialogou com este tema e este poema, em UBI SUNT.
Mas falo De Chaudon, o abraço é para ele e tantos poetas brasileiros que só esperam ser lidos!

Sunday, September 30, 2012

Pó dos Livros ao Domingo

Neste primeiro dia de domingo, com a Livraria Pó dos Livros aberta ao público, tive um reencontro feliz: com Italo Svevo, nas ed. &ETC., as Fábulas (capa e desenhos de André Ruivo).
Li outrora A Consciência de Zeno, obra-prima romanesca em que se nota, filtrada por uma ironia subtil, a influência de Freud, de quem o autor tinha traduzido a Ciência dos Sonhos.
Nascido em (1861-1928) em Trieste, cresce numa cultura atravessada por outras, como a alemã, a francesa e a italiana, de todas retirando o que de mais interessante e actual havia. Considerado precursor de Proust, e de Joyce, pela subtileza e pela criatividade da linguagem, é primeiro muito lido e traduzido e depois esquecido, como tantos outros.
Vale a pena ler este livro, pequeno de tamanho, elegante como todos os que a &Etc publica..
As suas fábulas são de grande actualidade....deixo-vos apenas com um exemplo:
3
O Senhor Deus fez-se socialista.
Aboliu o inferno e o purgatório e pôs toda a gente no paraíso, em pé de igualdade.Aí gozava-se o bem-estar de uma beatitude eterna.
Num dado momento morreu um Creso: ficou estupefacto por ser acolhido no paraíso. Mas logo se habituou à sua nova existência e bem rapidamente começou até a queixar-se.
-O que te aflige? perguntou o Senhor, colérico.
- Ah, Senhor! Manda-me para a terra! Aqui não é o verdadeiro paraíso; aqui não se vê ninguém sofrer.

Thursday, September 27, 2012

Amigos leitores,
Está on-line - agora é assim que os editores preferem vender- o meu livro, com o Pedro Gama e suas belas ilustrações,
O OUTRO LADO DA LUA, na página de Editora ESTAMPA.
Nestes momentos em que o cosmos maravilhoso se vai descobrindo, dia a dia, um conto para crianças e adultos, com alguma informação e muita imaginação bebida em lendas antigas é a porta para que todos se apaixonem pela noite. pela lua, pela astronomia.
A experiência de uma leitura em grupo, de uma avó, no Alentejo de céu límpido, rodeada de netos e amigos, despertou no fim muita discussão e curiosidade: afinal o menino, que se revela em sonhos, quando parte, regressa a um mundo imaginário ou à poeira cósmica de que todos somos feitos? (Leia-se morreu? )
Mas não: nada morre no mundo imaginário, tudo vive de muitas e variadas maneiras...
No dia seguinte as crianças fizeram os seus próprio desenhos, ao acordar, enquanto não saíam, para fugir ao calor...
Assim pode uma professora que goste de crianças inventar muito também , a partir deste livro (que nas informações objectivas foi relido por um astrofísico brilhante...)....e quanto à ilustrações tudo foi entregue à sensibilidade criadora de um artista como o Pedro Gama. a quem agradeço, do coração!

Thursday, August 30, 2012

William Blake, Songs of Innocence and of Experience


O pedido de um amigo Editor, José da Cruz Santos, fez-me voltar a Blake e à sua poesia, misteriosa e actual pelo desafio que lança à nossa imaginação.
Nesta obra Blake pretende mostrar, como diz, " the two contrary states of the human soul" - os dois estados contrários da alma humana, através das líricas da pureza inocente, canções de grande beleza rítmica, e no seu oposto as líricas misteriosas, intensas, quase perversas na inesperada inversão, do que apelida de canções de Experiência.
A Experiência é a percepção do Mal, no Universo criado, como se a mão de Deus fosse de repente desviada do seu verdadeiro primordial caminho.
A mais célebre das canções de Experiência é a do Tigre - e foi esta que o meu amigo me pediu para traduzir.
O Tigre como figuração do Mal: um mal absoluto, inexplicável, ardendo nos olhos de um animal de grande porte e nobreza. Saído da mão de um Deus não menos perigoso, cuja "outra face" é essa mesmo que o Tigre representa. Deus é um deus dividido, pois se dividiu na criação. E dele fazem parte o Bem e o Mal.
Blake, teósofo, visionário, pertencendo ao grupo de leitores de Boehme, sabe, sente, que a treva se esconde no coração da luz, e que na alma humana, como já Goethe dissera no Fausto, coexistem duas almas: a luminosa e a obscura.
Das traduções que conheço em língua portuguesa, a mais inspirada é sem dúvida a de Augusto de Campos, notável poeta e tradutor brasileiro. Pode ser encontrada pelo google.
Mas fiz a minha, para a edição do conjunto que Cruz Santos publicará na colecção "Oiro do Dia".

William Blake (1757-1827)
O Tigre

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta,
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria desenhou?

Em que céus ou profundezas
arde o fogo dos teus olhos?
E ele, que asas deseja ter?
Que mão ao fogo se atreve?

Qual o ombro, qual a arte,
que o teu coração torceu?
Ao começar a bater,
mão terrível, pés de horror,

que martelo e que corrente?
O teu cérebro, em que forno?
Que bigorna e que tormento
te prenderam ao temor?

Quando as estrelas suas lanças depuseram,
e o céu com as suas lágrimas molharam,
sorriu Ele perante a obra?
Ele, que fez o Cordeiro, também a ti concebeu?

Tigre, tigre, fogo ardendo
na escuridão da floresta
que olhar eterno ou que mão
tão temível simetria em ti ousou?

(versão livre, 2012)

Wednesday, August 22, 2012

Chagall

Chagall, O Pintor e a Lua, aguarela de 1917.
O seu imaginário solto, antecipando o dos futuros surrealistas, com quem conviveu em Paris, permite que se entendam símbolos e arquétipos fundadores: veja-se como neste quadro é de um sólido corpo de terra-mãe que emana a forma do pintor flutuante no espaço azul da noite; e é a terra-mãe ou é a lua, que afinal o ampara, seios grandes redondos como de lua cheia ou seu reflexo?
Outro nome é Cybele: lua, sim, mas deusa primordial ao mesmo tempo, com seus rituais assassinos, que no quadro de Chagall não transparecem..
Ele na lua bebe a inspiração que o liberta dos pormenores das casas da cidade, bem longe, lá em baixo, reduzidas a casinhas de brinquedo da sua infância, nem sequer falta o camponês com a sua cabra (animal bem terrestre): da terra à lua, do sono (que a cortina de algodão, no lado direito do quadro, protege) ao sonho, e no sonho a recuperação de símbolos primordiais. A lua é um deles,  figuração da Sombra da alma, mas em Chagall extremamente suavizada.
Desta noite da alma nasce a inspiração.
Também aqui, em Shubert...

Saturday, August 18, 2012

A RUA

Na rua larga passeiam as mulheres
que arrastam pelo chão
o último vison e a última visão

casas fantasmas de tectos ideais
emergem da noite em nevoeiro
vermelhas azuis verdes amarelas
recém pintadas fugidas dum tinteiro

duas crianças brincam no passeio
duas crianças sós e sem asseio
mas com passeio largo
reservado para elas

ratos e gatos
jogam ao polícia e ao ladrão
e um cão de guarda fuma
o cachimbo da paz
que segura na mão

há sinfonias demasiado completas
a dançar no ar
(nuar: verbo irregular;
eu nuo, tu nuas, ele nua, nudismo geral)
e por toda a parte cavalgam
os cavalos de Chagall
transpondo o arco-íris de todo o pensamento
que é realmente mento
porque só pensa é fácil
o difícil é o verdadeiro e completo
pensa-mento
(mente? pergunta alguém
não mente, mento)

no restaurante há omelettes em chamas
servidas por bombeiros voluntários
e as banheiras estão cheias
de afogados mentais

a lápide de inscrição no cemitério
 diz apenas
a vida não deu pra mais!

(in Opus 1, ed. Ática, 1961)




Thursday, August 16, 2012

O ELÉCTRICO

Para a Rita Roquette de Vasconcelos ( que vê por trás das Máscaras...)

O Eléctrico

Era o eléctrico amarelo
cheio de homens e mulheres
recortados à faca dum papel
com caras de madeira
máscaras de olhos frios
pintados a gouache sem pincel

Era o eléctrico amarelo da noite
por fora tinha côr
por dentro estava cheio de rostos
macilentos
olhos de sono
revistas de amor

Era o eléctrico feio das viagens
a noite às costas
e o vento nas janelas
e pessoas que entravam e saíam por elas
ou ficavam sentadas
e de pé
a olhar estupidamente o espaço em frente
o espaço mais além que já não tinha gente

Wednesday, August 15, 2012

Robert Bréchon

A morte recente de Robert Bréchon (1920-2012) despertou na memória dos especialistas de Fernando Pessoa a biografia que Bréchon publicou e se tornou marcante pelo novo olhar que trazia sobre a vida e obra do nosso poeta. 
Mas poucos recordaram a sua biografia de Henri Michaux: 
HENRI MICHAUX, La Poésie comme destin (éditions aden, 2005) talvez ainda mais marcante para os estudiosos de Michaux, pintor e poeta cuja obra nos desafia ainda hoje, pela sua complexidade, e que Bréchon, que foi seu amigo, acompanha numa viagem de alma páginas adentro nesse seu livro. 
Começa por contar como o conheceu, e como diante dele se sentiu primeiro intimidado. E como pouco a pouco uma relação de iguais se foi estabelecendo.
Também eu conheci Henri Michaux : um privilégio que me emocionou profundamente.
Ele dirigia ao tempo (há muito tempo) a revista HERMES e eu já me interessava por matérias ligadas à simbólica hermética e tinha lido, em Paris, alguns dos livros de Michaux.
Escrevi-lhe, pedindo alguma orientação para o meu estudo e para as minhas leituras futuras (estava já a pensar numa futura tese de doutoramento).
Respondeu logo - ah diferença para os portugueses que não respondem nunca! - e recomendou-me um autor que eu não conhecia, tradutor de Jung, fundador da Revista Junguiana de Paris, Etienne Perrot, que ele conhecera e cuja orientação (alquimia junguiana) considerava ser muito mais útil para mim. 
Assim fiz, escrevi e depois travei conhecimento com E.Perrot, com quem mantive laços de orientação e trabalho durante muitos anos.
O que desejo salientar é o modo acessível e amável de Henri Michaux: tempos mais tarde, numa das galerias de Paris que expunha obras suas (as célebres Encres) haveríamos os dois de comentar a minha paixão pela alquimia e a ajuda inicial que ele me tinha dado.
Encontro na Biografia de Bréchon, para voltar a ele, muitos detalhes destes, que nos fazem gostar do artista, mas tanto ou mais do homem que foi, e do destino que assumiu como poeta.
Eu acrescentaria também pintor: pintou a alma dos seus poemas, como os poemas pintavam a sua própria alma, a sua energia por vezes descontrolada, mas sempre tão iniciadora (iniciática mesmo) nos segredos da alma: luminosos ou negros, como em certos momentos de abismo que viveu e descreve em obras como Misérable Miracle (1956)
Bréchon fala do destino de Michaux como poeta que ele mesmo foi: era poeta, discreto e falava pouco de si.
Deixo a minha homenagem, eu que o conheci antes que ele conhecesse Pessoa, mas já amando Lisboa, onde vivia.
E sugiro que se traduza para português esta sua obra: não haverá melhor guia para o destino poético de alguém como Michaux.

Monday, August 06, 2012


Escrito para quem gosta de contos, da noite, dos segredos da lua que fascinam as crianças. Com as inspiradas ilustrações igualmente "nocturnas" do Pedro Gama. Para ler em férias....e durante o ano!

Wednesday, July 18, 2012

Manuel Alegre II


José Gil, numa obra que gosto de recordar, A Imagem-Nua e as pequenas percepções (1996), abre com “A visão do invisível”  e dedica um capítulo em especial ao “Caos  e Quadrado Negro” (p. 135).

Interroga-se José Gil: “ Porque é que a percepção estética precisa de ao mesmo tempo conhecer e ignorar a forma como objecto? Se a percepção neutraliza o conhecimento, este último, ainda que neutralizado, permanence: o quadro mais abstracto conserva sempre alguma coisa de ‘figurativo’. Até mesmo no Quadrado Branco sobre Fundo Branco de Malevitch o olhar  reconhece alguma coisa, um ‘quadrado’ pintado sobre um ‘fundo’ falso: adivinham-se aqui formas e fantasmas de formas. O quadro mais informal mostra ainda pontos, manchas, contornos, ou materiais rugosos, pregueados, lisos” (p.136).

De modo que a perturbadora criação do Quadrado Branco e a do Quadrado Negro levam o pintor a considerar a ruptura “total e definitiva com o mundo do objecto” (p.138).

Nasce a arte abstracta, como Suprematismo.

Neste movimento, de descoberta e de anulação, o que acontece à imagem como representação?

Permite o anular da imagem dar lugar a novas formas ainda que não o desejem ser? Ou é imperioso que, para existir negação, haja primeiro alguma forma de real que se negue?

E como podemos, pintando, anular a pintura? Ou falando anular a palavra? Esvaziando o sentido? Procurando um sentido no Vazio criado, adivinhado?

Encontro numa poema recente de Manuel Alegre uma interrogação semelhante:
Depois do Branco
Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro

e se depois do muro não há onde

e se depois do branco é tudo escuro?


Quem sabe o que pode acontecer

quando ao verso já escrito outro se junta

e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?

Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?
(in NADA ESTÁ ESCRITO, 2012 )




Este poema sublinha uma contradição de fundo : 

a do branco com o escuro ( podia chamar-se negro, como na alquimia e teríamos claramente o jogo de opostos da albedo com a nigredo); a da afirmação (do verso escrito) com a pergunta (a dúvida).

Servem estas reflexões para o aprofundamento da definição de Imagem? Imagem como representação ou anulação de um real que na Arte perdeu o sentido?

Haverá sempre um momento em que a energia profunda de uma ideia poderá apropriar-se da mão que pinta, ou que escreve – e então nascerá uma Imagem: mais realista do que outrora ( com os surrealistas, por exemplo) ou mais abstracta, mas representando sempre a pulsão que impele o criador nesse seu gesto, que será sempre vivido como primeiro, primordial e fundador.

Sendo que este branco de Manuel Alegre, como o do Quadrado de Malevitch, pressupõe uma revelação que o pintor, no seu tempo, também teve. Não a da fusão intemporal de Rimbaud no seu poema, mas a da anulação objectiva, temporal,  que o branco sobre o branco permitiu, abrindo a imaginação dos artistas a novos e revolucionários conceitos de produção artística.
O Suprematismo de uns, abolindo o Simbolismo ou o Realismo de outros, está na base da produção dos Modernistas em geral; e aqui se poderia aludir ao exemplo de Fernando Pessoa e a um dos seus mais antigos e interessantes poemas, ALÉM-DEUS, datado de 1913. Lança uma mesma interrogação, com a mesma carga metafísica, ao olhar o rio Tejo:“O que é ser-rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?”
A descrição do que sente conduz à imagem de “Vácuo”, o vazio que toma o lugar do momento ( o tempo) e do lugar ( o espaço). 
Desta anulação da consciência nascerá a experiência de Deus.Veja-se através de que passos:
“ Tudo de repente é ôco-

Mesmo o meu estar a pensar.

Tudo – eu e o mundo em redor-

Fica mais que exterior.



Perde tudo o ser, ficar,

E do pensar se me some.

Fico sem poder ligar

Ser, idéia, alma de nome

A mim, à terra e aos céus.

E súbito encontro Deus.”
Este Deus, secreto, escondido no escuro e no silêncio da alma, Essência que não se revela mas arrebata e absorve, como um buraco negro, levando à dissolução da consciência de si, na dissolução de todo o mundo exterior – não é um Deus que Malevitch ou outros dos seguidores tenham de verdade procurado. O que procuravam, no exercício da sua Arte, era antes como destruir a norma, que lhes pesava, de um Figurativo realista que se tornara obsoleto. E pelo apagamento da Forma recuperar o Sentido: um sentido, qualquer um, desde que aberto a todas as sensações (o que em Portugal seria o projecto do Sensacionismo). E por oposição, seguindo o mesmo modelo, recusando todas as sensações, pois a recusa de tudo é uma forma de inclusão.
No Poema O Silêncio, que antecede o que citei acima, Depois Do Branco, Manuel parecia adivinhar o que eu iria dizer. Que à interrogação corresponde o silêncio, e que a este, e só a este, como sabem os místicos, pode corresponder Deus.:

O Silêncio
Subiu ao cume da montanha e não viu Deus

desceu ao fundo do mar e não o viu.

Andou caminhos e caminhos
procurou no céu procurou na terra

na confusão e no barulho da cidade
no grande espaço aberto e limpo do deserto.
Procurou na palavra e perguntou aos livros
pediu à música pediu ao vento
mas nada achou mas nada ouviu.
Procurou no silêncio
e no silêncio viu a pedra branca.
Mas a pedra que fala não falava
e o silêncio era a única palavra.
(p.26)


Ao longo das outras 7 partes do livro, muita outra coisa acontece: o olhar que se demora na rua da cidade, na beleza do campo ou no vôo da gaivota, no desgosto de um falecimento ou de um extermínio cruel (o de Auschwitz), sem esquecer alguma evocação de amor antigo, ou memórias graves da História, antiga (Tróia) ou mais recente (a morte de Trotsky).Percebe-se que há neste poeta uma cultura literária, política, artística (Malevitch, com os seus quadrados) e religiosa até no que encerra de mais fundo: a meditação da noite do silêncio e dentro do silêncio uma Palavra, única, a do Poema.
Não é por acaso que se escolhe como epígrafe um dizer de San Juan de la Cruz: “ aunque es de noche”….(p.41).
Não se estranhe pois que eu escolha, de SETE, o poema Sombra e Forma (p.84):
O poema há-de emergir da sombra
florir no zero e no silêncio
o poema que está dentro
da forma por nascer
o poema que já é
antes de ser.

Retomo aqui a reflexão sobre a Imagem/Representação, tal como nos pode surgir a partir do Quadrado Negro; o negro, bem sabiam os alquimistas, absorve e afunda; mas dele emerge o branco (da Pedra, ou do Poema) que liberta e explode.







Friday, July 06, 2012

Manuel Alegre, Nada está Escrito

Terá sido este título?
A primeira vez que escrevi um post sobre este novo livro do Manuel foi engolido pelo espaço ( levado por algum maldoso bosão?)
E agora foram precisas várias tentativas até conseguir escolher a imagem da capa. Deve ser do título: nada está escrito, então que nada se escreva a propósito.
Mas sou teimosa.
Manuel Alegre, mesmo quando triste ("de alegre se fez triste"....) é um poeta feliz: encontra as memórias e as palavras certas para o que pretende dizer. 
O livro está dividido em 7 partes, como as 7 partidas do mundo, por aí podemos adivinhar que há sonho nos poemas, há desejo, utopia, - ainda que num momento de especial fragilidade identitária: afinal somos europeus, mas sem o ser plenamente?Somos europeus, se pensarmos na nossa tradição cultural.
O primeiro poema do livro, belíssimo, BALADA DOS AFLITOS é desde logo a prova de que uma cultura entranhada na tradição e na memória literária se actualiza em qualquer momento e se faz portadora de voz outra, nacional, que não nacionalista - e deste modo podemos falar de uma cultura europeia universal, vivida e absorvida pelos seus grandes. Eis a Balada:
Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.


Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.


Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.


Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.


Balada de ritmo pungente, logo no primeiro verso declara a sua filiação: retoma o lamento do ÉPITAPHE VILLON de François Villon, o grande poeta francês do século XV (1431-?) de vida aventurosa, várias vezes condenado e preso, em 1463 condenado à forca ( é quando escreve a célebre Ballade des Pendus, Balada dos Enforcados) e depois libertado. A seguir a esta data nada mais se sabe da sua vida. 
Ora vem isto a propósito da cultura, da tradição e da memória: todos os bons leitores de poesia conhecem e reconhecem este poeta e a sua poesia sem igual:
Frères humains qui après nous vivez,
N'ayez les coeurs contre nous endurcis,
Car, si pitié de nous pauvres  avez,
Dieu en aura plutôt de vous mercis.
Vous nous voyez ci attachés cinq, six:
Quant de la chair, que trop avons nourrie,
Elle est pièça dévorée et pourrie,
Et nous, les os, devenons cendre et poudre.
De notre mal personne ne s'en rie;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!
.....
E segue, a Balada, com a plena consciência do pecado, mancha da humanidade e não apenas dos condenados, pedindo a Deus que todos sejam perdoados. Este é o refrão com que termina cada uma das estrofes: 
"Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre !". Rogai a Deus que a todos nos absolva!
O poema de Manuel actualiza e politiza o lamento, mas ainda assim mantém um apelo ao divino, como que reconhecendo que entre os homens não tem havido ou não haverá solução. É o lamento de alguém que reconhece que estão perdidos laços e caminhos; que talvez só mesmo a palavra poética ajude à salvação: do poeta de certeza, que se liberta nela e por ela; mas dos outros? Só mesmo de quem lê.... 
E nem de propósito, eis o poema com que encerra a primeira parte do livro:
DEPOIS DO BRANCO
Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?


Quem sabe o que pode acontecer 
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?


Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?


Sobre este poema escrevi algumas notas noutro blog, Cultura Visual, ao evocar Malevitch e os seus célebres Quadrados, Brancos e Negros...remeto para lá, pois não caberia aqui outro texto mais longo.
Como é costume, o que se aconselha agora é que se leia o livro, pois se Nunca Nada está Escrito, ainda menos está lido....(ed. D.Quixote, 2012).



Tuesday, June 19, 2012

Schubert Canto do Cisne

Franz Schubert ( 1797- 1828)
III
Schwanengesang / Canto do Cisne

Neste último ciclo é maior a variedade de estilos e de poemas, talvez porque, sendo póstumo, a organização ficou a dever-se aos seu editor, e não ao compositor.
Os poemas de Ludwig Rellstab (1799 – 1860) teriam sido inicialmente dados a Beethoven, que anotou alguns mas não chegou a compôr; são esses anotados que Schubert terá igualmente escolhido. De um lirismo musical, fluído, rimado e cantado, não formam propriamente um ciclo, pois não há um fio condutor que se adivinhe.
O que há, e era ao gosto do tempo, é uma sucessão de motivos, indicados nos títulos de cada canção: Herbst /Outono, n.1, Liebesbotschaft / Mensageiro de Amor, n. 2, em que nos surge o regato, com a sua água que corre, ligeira e cristalina, como menageiro do amor do poeta.
E assim por diante, com Fruehlingssehnsucht /Saudade da Primavera, n4, até ao poema final, intitulado precisamente Abschied / Despedida, n.8. 
Por muito que se estranhem, num compositor devoto de Goethe e de Heine, estas escolhas mais humildes,  os poemas musicados foram também esses e não outros, e a razão pode prender-se com uma simplicidade que permitia, de tão nua, elaborar melodia e harmonia de forma muito mais livre e mais consentânea com a sensibilidade do compositor.  No Canto do Cisne podemos mesmo assim detectar uma evolução no sentido e no gosto das escolhas. É nesta altura e nesta fase que se desenvolve, com Novalis e Friedrich Schlegel, o conceito de “Fragmento como forma literária de arte” assumindo assim o pleno desafio do Fragmento, da Obra Aberta. 
Na arte do fragmento podia-se fundir filosofia e poesia, um pouco como se verificava nos Ditos, Aforismos, Máximas e  Reflexões ( de um Goethe, por exemplo).
Forma contida, de inspiração oriental (no West-Oestliche Divan de Goethe,a relação é directa ) desafiava o espírito por não ser conclusiva mas antes deixando em aberto, ou em suspenso, a conclusão a tirar. Podia ter carácter moralizador (como em de la Rochefoucauld). Mas o que tinha, acima de tudo, era uma preocupação poética, estética, bebida na ideia de Belo de Platão, mas sobretudo deixando ao leitor ou ao ouvinte um espaço mais largo para a sua própria imaginação criadora, fundindo-a num Todo com a obra apresentada.
 Neste dvd assistimos a uma reflexão do cantor sobre a sua arte, sublinhando a importância de ser fiel a um sentido íntimo que a sua interpretação deverá acompanhar.
Lições de Mestres...



Wednesday, June 13, 2012

Orfeu nos Infernos: a desconstrução de um mito

Orphée aux enfers é uma ópera-bufa composta por Jaques Offenbach, com libreto de Ludovic Halévy posteriormente revisto por Hector-Jonathan Crémieux.
A primeira apresentação data de 1858 e foi considerada a primeira opereta clássica com tal nome.
O libreto recupera a mitologia grega como divertimento por vezes delirante e sempre em busca de uma gargalhada divertida.
É um bom contraponto à melancolia do mito tradicional, sombrio, como nos surge na bela peça de Gluck.
O enredo envolve os dois deuses, Júpiter no seu Olimpo, Plutão no seu Hades, para onde Eurídice, cobiçada por ambos, deveria ter ido.
Neste fragmento Júpiter, sob a forma de mosca, seduz a bela, levando a melhor sobre as trevas ( e sobre o triste Orfeu! )
Coisas dos deuses....

Thursday, June 07, 2012

A Princesa Pele de Burro

Um Conto de Charles Perrault actualizado pelo olhar de Jacques Demy, com música de Michel Legrand e um magnífico cast de actores, de que se destacam Catherine Deneuve, a Princesa, e Delphine Seyrig, a Fada que a protege no seu momento de aflição, quando o Rei, viúvo (Jean Marais) se apaixona pela própria filha.
Todo o Conto tradicional encerra uma lição: neste caso a do impulso do incesto, pulsão ancestral, primitiva (basta recordar os episódios das filhas de Moisés no Antigo Testamento) que a Fada explica e contraria, numa Área subtil e cheia de humor, que desdramatiza o facto enquanto lhe encontra solução: a fuga e a pele de burro que cobrirá a Princesa.
Sendo que o burro é o animal que melhor simboliza as pulsões primitivas que na evolução dos costumes, na moral social, terão de ser sublimadas.
Deve-se ler, a este propósito, o Burro de Ouro, de Apuleio, filósofo do século II da nossa Era, obra a que Marie-Louise von Franz (ilustre discípula de Jung) dedicou um estudo muito elucidativo.
Com mais ou menos erudição, o mundo de encanto e maravilhamento que Deneuve nos traz, neste filme, merece a revisita que aqui deixo.

Saturday, June 02, 2012

Bob Wilson, a Rainha e o Poeta...

 A apresentação dos Sonetos de Shakespeare, pela mão genial de Bob Wilson.
A História de Inglaterra está presente - revela-se na figura orgulhosa da Rainha Isabel I, Mecena das Artes.
O Poeta é o que são todos os poetas....inspirados, mas sempre dependentes!
A recriação do Soneto: um momento do génio criador de Bob Wilson; sabe como evocar um mundo de sonho e fantasia e ao mesmo tempo desconstruir a obra no nosso imaginário.
A leitura surge no fim, em alemão, pois foi uma produção do Teatro de Hamburgo, com os actores com que Wilson, desde o Black Rider, se habituou a trabalhar.
Fica o repto: quem fará algo de semelhante com os Sonetos de Camões?

Tuesday, May 29, 2012

Le Coq d'Or

De Nikolai Rimsky-Korsakov, Le Coq d'Or, a obra-prima inspirada numa lenda popular.
A produção recente de um grande encenador como é Kent Nagano, devolve-nos a atmosfera de magia e maravilhamento de um imaginário orientalizante, com uma abundância e riqueza de detalhes de tal modo sensual que contagia todos: intérpretes e público assistente.
Esta é a Ária de uma jovem Princesa, na realidade emanada de uma força maléfica, no acto de seduzir um Rei que depois será levado a um triste fim.
O libretto desta ópera, da autoria de Vladimir Belsky, é inspirado no poema de Alexander Pushkin, Conto do Galo de Ouro, por sua vez lido nos Tales of the Alhambra de Washington Irving.
A ópera data de 1907, e teve a estreia em Moscovo, em 1909, depois da morte do compositor.
Fora da Rússia foi representada em França e em francês, com o título Le Coq d'Or.
Nesta época de 1907, quando o compositor julgara já ter chegado ao fim e ao melhor dos seus trabalhos, surge-lhe a ideia de caricaturar o Império e o Imperador, que se envolvera numa guerra fútil contra o Japão. Já outro texto de Pushkin, Tsar Saltan, o tinha inspirado, com uma mesma magia feita das trevas da alma, que iremos descobrir em O Galo de Ouro.
A atmosfera é concebida a partir de elementos da tradição popular que adensam o orientalismo patente nas mais belas Árias.
É preciso recordar que já em 1905 a Rússia tinha tido os seus primeiros levantamentos populares, e que a guerra contra o Japão, de que a Rússia saiu derrotada, permitia a ironia severa do olhar dos seus artistas e não apenas do povo martirizado.
Assim, o Rei Dodon, ao avançar para guerras preventivas, como as reais, de Nicolau II, a que se assistira, acabará mal, num fim mais grotesco do que trágico.
Começada em 1906, terminada em 1907, a ópera evoca os massacres de 1905, que não terão perdão. Foi logo proibida na altura.
A Metropolitan Opera de Nova Yorque, conhecida como The Met, apresentou o Le Coq d'Or regularmente em francês, durante a segunda guerra mundial. Existem ainda gravações em inglês e em russo, todas acessíveis hoje em dia, em dvd.
O interessante é como se pode recriar um Conto maravilhoso, actualizando o seu sentido profundo, universal: quando um homem (um Rei) esquece o seu dever de respeito para com os outros, as forças do mal tomam conta da sua alma, que merecerá castigo e talvez pior: anulação.

Saturday, May 19, 2012

Ganymed


Brilhas à minha volta
na radiosa manhã, 
Primavera, minha amada!
Ardem no meu peito
as mil bençãos de amor
do teu calor eterno 
sentimento sagrado,
 beleza infinita!

Pudesse eu prender-te
nos meus braços!

Ah, no teu peito
repouso, com langor,
e as tuas flores, e as relvas,
penetram-me o coração.
Refrescas a sede que arde
no meu peito, 
amada brisa  matinal!
Oiço o canto de amor  
do rouxinol 
no vale envoado.

Já vou, já vou! 
Mas para onde? para onde?

Para o Alto! Subir é a palavra!
As nuvens debruçam-se,
as nuvens inclinam-se 
para o amor que as chama.
A mim! A mim!
subo
para o vosso colo!
Abraçando abraçado!
Subindo para o teu peito,
Pai de Eterno amor !


( J.W.Goethe, trad. Yvette Centeno)


Ganymedes, no coração do mito:
filho do Rei Tros, que deu o nome a Troia, era o jovem mais belo que se conhecia e por isso foi escolhido pelos deuses para servir Zeus.
Consta que Zeus desejava algo mais, desejava-o para seu amante. Assim, disfarçando-se de águia, arrebatou o jovem das planícies troianas.
Hermes, para consolar Tros do seu desgosto e da sua perda, oferece ao desditoso pai uma taça de ouro, fundida por Hephaestus ( o esposo de Vénus), mais dois belos cavalos,assegurando-lhe que Ganymedes era agora um ser imortal, poupado às misérias da velhice, e que sorridente, de taça de ouro na mão, serviria para sempre o néctar divino ao pai dos céus (Zeus).
Todo o mito contém uma lição: neste, o que inspira Goethe, poeta de grandeza universal, é a lição de que a paixão dos excessos do Belo, para ser eterna, não pode durar muito, uma  contradição apenas aparente, o poeta com este poema liberta-se da sua ânsia juvenil, abrindo espaço para outras fases da sua criação.
E ainda outra: que o poeta (o criador) que faz unicamente do Belo a sua paixão corre perigo, pois o muito amor dos deuses que amam o Belo através dele (a sua obra) mata em vez de redimir.


Bibliografia:
Robert Graves,(The Greek Myths, vol. I, II)