Sunday, June 28, 2009

Manuel Aurora, O Menino o Homem e o Rio


Perto das férias de Verão, com mais tempo para ler, a minha proposta é que se escolham livros de História, Biografias ou Autobiografias, Memórias - algo que tenha a ver com uma transmissão que ajude a recordar o que foram determinados tempos, as pessoas e as suas circunstâncias, na aventura sempre apaixonante da vida.
Escolhi desta vez uma autobiografia, a de Manuel Aurora, por várias razões: fala de si com muita simplicidade, descrevendo como nasceu e onde, como cresceu, que educação recebeu, e de que modo a sua vida primeiro se integrou e depois, por assim dizer se desintegrou nos tumultos variados do PREC (Processo Revolucionário Em Curso, como foi designada a tentativa de conquista do poder pelos comunistas a seguir à Revolução de Abril).
Manuel escreveu como quem fala, à noite, à roda de uma mesa de família ou de amigos, contando como faziam os antigos contadores de estórias. 
Diz dessa autobiografia que foi "romanceada": mas o artifício serviu apenas para encobrir os nomes verdadeiros das pessoas com que se cruza, ao longo dos anos de outrora e de agora; de resto podemos considerar o seu relato o relato fiel de um homem que precisou de fazer um balanço de vida, o seu, para nessa espécie de espelho ver reflectido um país e os seus naturais, a evolução-revolução-degradação ( ele assim entende o estado do país neste momento) as boas e más decisões tomadas por uns e por outros, as questões de lealdade, amizade e carácter - tudo o que ainda hoje se discute com paixão justificada, porque algumas desilusões, para quem teve esperança, foram demais.
Este é um livro cuja oralidade de estilo logo atrai.
O Menino, o Homem e o Rio.
Um livro escrito para os seus filhos, família, amigos e para aqueles leitores que tenham a curiosidade de saber como viveu quem de repente, nos piores momentos da Revolução de Abril, viu cerceados e perseguidos os seus direitos a um pensamento livre, ao exercício honesto da sua profissão, tendo de fugir para o Brasil com a família. Do Brasil, que ficou a conhecer como ninguém, temporária pátria  de que nos fala ora com algum sentimentalismo ora com distanciado humor, são muitos os momentos que poderíamos escolher para dar a ideia do que ali o autor viveu: desde a marmita que leva para o almoço, num primeiro trabalho, até à quase orgíaca degustação de vinhos com um outro patrão que gostava de partilhar com ele as aparentes subtis apreciações que ia fazendo pela noite fora. E Manuel sem se coibir: se sabia o que dizer dizia, se não sabia inventava, e tudo para mais uma noitada de boa disposição (ou saudade adiada):
" A minha defesa era dissertar sobre o pouco que sabia de vinhos, misturando a conversa com a criação de cavalos lusitanos, passando pelo porco preto alentejano, e ao de leve sobre os rojões e as diversas formas de fazer bacalhau. Mais uma taça, e eu agora dissertava sobre a indústria têxtil do Norte ou sobre os vidros da Marinha Grande, e entretanto já havíamos pasado pelos uísques, depois eram os champanhes e eu, quanto mais falasse menos conseguia beber. Pela meia-noite já estávamos nas despedidas à porta de casa, cada um com o seu copo na mão, a discutir , filosoficamnete, se a Alice no País das Maravilhas era virgem ou atrasada mental..." (p.255).
Entre momentos dolorosos e momentos jocosos se vai estruturando uma narrativa que nunca deixa o leitor aborrecer-se, nem perder-se no caminho: o caminho de uma vida.
De regresso a Portugal, ainda que sem fazer acusações nem guardar ressentimentos, decidiu falar desses como de outros assuntos, sendo  muito especialmente interessantes as descrições da cidade do Porto dos seus anos de menino, a cidade de Lisboa já dos anos 60, e a sua eterna pátria do coração, Ponte de Lima, com o seu rio e as muitas aventuras que as suas águas foram presenciando.
Rio que ele mantém vivo, a embalar-lhe o destino.
 

Friday, June 19, 2009

O Milionário de Lisboa



Com este título editou agora José Norton a biografia ficcionada do Conde de Farrobo, figura ilustre do nosso século XIX, injustamente votada ao esquecimento: a capital, como escreve o autor, não tem sequer uma rua com o seu nome. 
Há já alguns anos que entre nós as ficções de inspiração histórica se tornaram frequentes: mas nem todas possuem a alta qualidade de um trabalho prévio de investigação, feita em arquivos, nem sempre de fácil acesso, como é agora o caso.
A extensa e útil bibliografia revela que a documentação estudada ajudou a dar corpo e substância a esta obra, em que José Norton não cedeu à facilidade de, a coberto do género ficção, ignorar a realidade histórica e social que a suporta. Fez assim uma verdadeira biografia, ainda que ficcionada, desta personagem singular cujo nome conhecemos talvez por causa dos jardins do Conde Farrobo, do Jardim Zoológico, mas pouco mais.
Cito a nota da capa:
" A vida luxuosa do homem mais rico de Portugal.Uma existência repleta de histórias de amor, beleza, ostentação, pequenos luxos, prazeres e traição. Um final inesperadamente dramático, ao estilo das melhores óperas do século XIX".
Deixo de imediato uma sugestão: que o José Norton escreva o guião para uma série televisiva, ou o libretto para uma ópera...neste momento em que à cultura e à arte tudo parece faltar .
Referi o cuidado da investigação, mas sublinho agora a qualidade da escrita: fluente, elegante, misteriosa quanto baste no desenho e desenrolar da intriga, e acima de tudo amiga do seu leitor. 
(ed. Dom Quixote/Leya, Lisboa, 2009)

Friday, June 05, 2009

Hein Semke (1899-1995) por Teresa Balté


Em terceira reedição ampliada, Teresa Balté apresenta agora a vida e obra do pintor Hein Semke  que, desde a chegada a Portugal vindo da Alemanha, fez do nosso país a sua pátria, o seu permanente espaço de criação. Uma criação que abrange pintura, escultura, desenho,  cerâmica, gravura - já para não falar da sua escrita filosófica e poética, num natural complemento do seu longo e multifacetado percurso artístico. 
Como escreveu José Augusto França impunha-se conhecer esta documentação, "para a história": mas impõe-se mais, conhecer a sua obra, para a verdadeira história da criação artística europeia e portuguesa.
Semke chega a Portugal com a herança e a marca de um expressionismo feito da revolta e do idealismo místico que encontrávamos, nas primeiras décadas do século XX, na poesia e na produção dramática mais marcantes da Alemanha do tempo. Penso em Kokoschka, por exemplo: e vejo ecos da sua intensidade na côr e no dramatismo de alguma pintura de Semke. Mas há outros, como Barlach, muito de sua preferência, e esta linhagem tem de ser apreendida pelos críticos para fazerem jus à sua obra, no que tem de herança e de ampliação original.
A sua cultura era imensa e abarcava a filosofia, a literatura, o pensamento religioso de muitas e diversas tradições, que o levarão a fazer grandes livros de arte de que destaco o da Índia, entre outros.
A sua curiosidade pela tradição popular leva-o também a estudar as formas da criação dita primitiva - interessou-se aqui pela obra de Rosa Ramalho, a criadora de Barcelos que se tornou célebre com os seus Cristos, os seus animais, os seus Presépios e Ceias, hoje peças de colecção. Picasso fazia o mesmo em Paris, estudando as formas da estatuária africana.
Interessante é ver como a um artista todas as manifestações interessam - não há arrogância no olhar de um criador, há curiosidade e interrogação: ele interroga o mundo, que lhe responde, e das muitas respostas será feita a sua obra.
Como escreve Teresa Balté no prefácio, esta reedição foi pensada para 2005, por ocasião dos dez anos passados sobre a morte de Hein. Mas o tempo não conta, para a divulgação da arte e de um artista.Encontramos aqui muita matéria para ler e meditar: " trata-se de uma cronologia - de factos, textos e imagens " como diz a autora, contibuindo para o essencial do levantamento da obra.
Trata-se, na minha opinião, de um valioso documento histórico  e sociológico, pois o Portugal do meio artístico é aqui dado a conhecer, através dos artigos e críticas do tempo, no que têm de melhor e de pior.
Pois não nos iludamos: se nunca é fácil o caminho do artista, mais difícil se torna ao enfrentar, num país pequeno, à época fechado ainda sobre si mesmo, a mesquinhez de uma sociedade inculta, pouco viajada (não podendo por isso "comparar"  e conhecer é comparar), não podendo e por vezes não tendo mesmo querido, reconhecer a importância da originalidade da criação e das múltiplas formas e técnicas de abordagem que Hein Semke, o Wanderer tranquilo, à época foi expondo e propondo ao nosso meio cultural e artístico.
 Agora temos o livro, num gesto de evocação merecida.
Termino com um fragmento de um seu poema de 1949:
...
Não sou artista
Nem sou poeta:
Sou sonhador
E tudo o mais também.

É isto que nos faz falta, no século agora XXI: a coragem do sonho.

(colecção arte e artistas, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 2009)

Saturday, May 23, 2009

Ana Hatherly

Nesta obra de Ana Hatherly, agora publicada, achei especialmente interessante o último dos sonhos que descreve, não só por ser o último, mas especialmente pela sua forte carga simbólica, fazendo como que um contraponto ao primeiro, datado de 1959; entre esse e o último descrito passaram quase cinquenta anos. Uma vida.
Vamos ao primeiro:
" 5/3/59
É a aparição duma estranha criatura, de dimensões ciclópicas, mas de que só vejo a cabeça. É a cabeça dum velho, de grande cabeleira e barbas, uma espécie de Adamastor, que no meio de nuvens me fala dizendo: a vida que vives agora é apenas uma das tuas muitas encarnações; numa outra vida foste outra coisa e na tua primeira encarnação o teu nome foi Tahelda Nimbo.(Ele pronunciou o H aspirado)".
E agora o último, de Julho de 2008:
"Sonhei com Platão. Sonhei que tinha estado em casa dele.Eu andava à procura de casa, uma casa grande com grandes vistas. Visitei algumas mas nenhuma me servia, até que me levaram à casa de Platão. Ele então aparece, com suas grandes barbas brancas. Mas a casa não tinha grandes vistas, tinha só um quintal grande onde, em vez de plantas, havia grandes lápides de mármore. Mas não eram lápides funerárias, eram só enormes lascas de pedra, todas rabiscadas. Então eu exclamei: Ah! Que sítio mais desolado!" 

Numa primeira leitura, quer do primeiro quer do último sonho, o que sobressai é a imagem de um sábio, um Animus forte (o Adamastor) que de início transmite uma doutrina, da encarnação, mas acompanhada de um epíteto ininteligível, o do seu primeiro nome. Podemos locubrar sobe Nimbo, mas não é esse o essencial da mensagem. O essencial é que é dito à sonhadora que a sua vida é complexa, mais do que ela julga, e que o seu caminho se encontra em aberto. Se fossemos recorrer a uma leitura alquímica este velho, de cabeça enorme, de barbas brancas, poderia ser considerado o Pai da Obra; uma obra incipiente ainda, em curso, mas já de forte marca espiritual: o velho, além das barbas da sabedoria, fala do meio das nuvens.
Um longo ciclo parece fechar-se (mas nada se fecha nunca, tudo evolui e se transforma) com o último sonho: Adamastor é Platão, o filósofo das Ideias, um dos pais que os alquimistas consideram, a seguir a Hermes, havendo como se sabe ligação estreita entre o imaginário neo-platónico e alquímico, desde os primeiros séculos da nossa era.
A sonhadora procura uma casa grande e de grandes vistas: a que o caminho da platónica erudição lhe oferece não lhe serve: tem um quintal onde não há plantas mas "grandes lápides de mármore".
Contudo é afastada a ideia de que possam ser lápides funerárias: são enormes lascas de pedra, rabiscadas.
Torna-se claro que no percurso de vida, de procura, tendo adquirido conhecimentos, experiência, erudição, a sonhadora busca algo mais (o uso repetido do adjectivo grande ): as plantas, que deviam ter crescido no quintal; em vez delas há pedras, grandes lascas rabiscadas com sinais que não são decifrados, como no primeiro sonho não tinha sido decifrado o sentido do nome da primeira encarnação.
A Pedra, descrita como lascada (por polir) e a exclamação desolada da sonhadora, revelam que  não está concluído o caminho, que a Pedra tem de ser trabalhada, e que só depois disso a Casa, o Centro, se revelará como seu perfeito local de acolhimento.
O Animus condutor continua presente e forte: primeiro de energia, depois de sabedoria. Alguma coisa me diz que o devíamos relacionar com o Abraxas dos gnósticos, o daimon de que Jung se ocupou nos Sete Sermões aos Mortos.
Mas falta, e ainda bem! continuar o caminho. Que só pode ser o da criatividade: a tal planta que ornamentará o quintal, transformando-o em jardim.

Friday, April 10, 2009

Pessoa Hermético


É hoje mais fácil do que outrora, no meu tempo, quando no início da década de setenta me interessei pela influência hermética na produção poética de Fernando Pessoa, aprofundar tais estudos. 
A marca era visível, explícita, em certos poemas, mas até ser possível estudar os livros da sua biblioteca particular, na casa da meia-irmã Dona Henriqueta Rosa Dias e passar a pente fino os milhares de documentos preservados na célebre arca, eram mal aceites as argumentações a que, dizia-se, "faltava suporte". 
Com estudo e paciência, e devido à amável disponibilidade de Dona Henriqueta, que sempre recebeu com grande gentileza quem a procurava, chegou finalmente o momento de provar que Fernando Pessoa fora um bom conhecedor da chamada filosofia hermética, tanto quanto do Rosicrucismo e da Maçonaria, mais do Rito Escossez Rectificado (de estrutura simbólica alquímica) até do que do Grande Oriente propriamente dito.
Os livros da sua biblioteca eram prova disso, sobretudo os dos Mestres Arthur Edward Waite, Hargrave Jennings e Oswald Wirth.
E acima de tudo os célebres papéis da Arca, dispersos, que era preciso ir lendo um a um e reunir para que fizessem um todo, ainda que parcial, fragmentário, mas com sentido próprio e inteligível. 
Comecei por publicar um pequeno ensaio sobre o poema CHUVA OBLÍQUA: nele, para além do experimentalismo modernista, que é marca pessoana, se pode descobrir uma estrutura de cariz alquímico e simbólico, que lhe confere uma singularidade especial. Aí se encontram, em pares de opostos, os elementos terra-água, sombra-luz, consciência-inconsciente (presente-passado) a par de um exercício mental de recuperação de uma infância perdida e de imagens de sublimação como o círculo da bola redonda que escorrega pela costas abaixo da criança que brinca.
Haverá que ler o poema todo, é óbvio, e integrá-lo no contexto adequado.
Eu deixo apenas a citação de uma carta que o poeta escreve a Adolfo Casais Monteiro, em 14 de Janeiro de 1935:
"Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm".
Sobre o caminho alquímico muito haveria a dizer, havendo em Portugal, como nos outros países da Europa, desde a Idade Média, conhecimento dos principais tratados, árabes e latinos, que circulavam de mão em mão.
No caso de Pessoa as leituras certas foram as que indiquei acima e  sobretudo a seguinte obra, de extrema importância: 
G.R.S.Mead, THRICE-GREATEST HERMES, Studies in Hellenistic Theosophy and Gnosis, London and Benares, The Theosophical Publishing Society, 1906.
Aqui fica a indicação, para quem deseje iniciar-se. Não haverá outra forma, além do estudo, em biblioteca onde se escondem as fontes...

Tuesday, April 07, 2009

Thursday, February 26, 2009

Literatura Brasileira


Havendo agora uma especial atenção à literatura brasileira, sobretudo depois da obra de João Ubaldo Ribeiro ter ganho o Prémio Camões, evoco uma grande universitária especialista das nossas literaturas: Luciana Stegagno Picchio.
Com ela estudei melhor do que nunca a lírica medieval portuguesa, a história do nosso teatro,  a poesia brasileira com destaque especial para Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinicius, entre tantos outros. 
Com ela, depois da publicação deste pequeno grande livro, voltei a ler Clarice Lispector, que Luciana classifica de "escritora lunar". 
Em oito capítulos, abrangendo o tempo que decorre "Das Origens a 1945", temos um guia que nada perdeu da sua actualidade.
A prosa é clara, directa e prazenteira como é raro serem os livros de estudo.
Merecia o olhar atento dos editores e uma reedição.
 

Monday, February 09, 2009

Antonio Brasileiro


Henrique Chaudon, poeta amigo, deu-me a conhecer este poeta: Antonio Brasileiro. 
Da sua Antologia Poética escolhi alguns textos que podem ajudar a ver/ler o seu percurso e a sua evolução  no caminhar da escrita.
Esta antologia cobre os anos 1968-1996, talvez esteja na hora de ver outra, igualmente interessante e completa.
Acompanhamos mal, entre nós e por culpa nossa, o percurso dos poetas brasileiros. Já foi Henrique Chaudon quem antes me "apresentou" à poesia de Jayro, poeta tão camoniano e ao mesmo tempo tão moderno que a sua leitura me comoveu profundamente. Tem a nossa melancolia, e penso como é possível, a não ser porque a linguagem poética não tem fronteiras e a dimensão universal de um poeta se afirma em todo o lado, por uma cultura interiorizada pelo estudo, pela leitura, pelo saber, enfim, pelo gosto de ler e de escrever. 
Em Jayro, sem perda da originalidade própria, do seu cunho pessoalíssimo, reencontro Camões, e algo como que da melancolia do fado, que a voz de Amália espalhou por todo o mundo. 
E o mesmo me acontece agora, com a poesia não menos expressiva e bela, de Antonio Brasileiro.
Da selecção mais recente, 1988-1996, escolhi Cantar da Amiga, que nos traz tanto da nossa lírica medieval à memória:

Um pouco de mim está em teu olhar, amiga.
Bem sabes que é assim.
Gosto de pensar que sabes que é assim:
em teu olhar reflecte-se o que sou,
o que em mim te quer perdidamente.

Um pouco de mim é teu olhar, amiga.
É mesmo tudo assim, pouco sabemos
desses imensos rios em nosso peito.
Pouco sabemos, quase nada mesmo,
dos rios que escuros correm em nosso peito.

O discurso poético aborda discretamente o escuro da alma, "os escuros rios que correm em nosso peito". Não é preciso dizer mais, sobre a saudade, a inquietação que unirá sempre amigo e amiga, e que já Dom Dinis, na lírica da amigo nos fizera antever. 

Cálice
A vida não tem roteiros,
só velas que nos acenam
 do mar.

Escuta, amiga,
o desfiar das horas:
elas te dirão é tua
é tua a vida.

Toma-a (como se toma
 um cálice de rosas)
na mão.

Ah, esta elegância, as rosas na mão, como as rosas na fronte coroada de um Ricardo Reis, ou as rosas da Rilke, cuja picada, reza a história, o haveriam de matar. 
Em Soneto do Amor Profano encontramos então de verdade o eco de Camões, mas não é por isso que o poema é tão belo. A sua beleza provém de um eco mais profundo, da lucidez que se quer distanciada, do poeta:" eis que, perdidamente já pressinto/ e quanto e quanto- que em amor, perdidos / todos os lances, não há como obtê-lo / de outro modo que não por sacrifícios / e eis que este, pois, gratuita dádiva, / me chega às mãos de um modo tão profano,/ que quase certo estou de que, se o tenho, / já não o tenho por justo e dadivoso, / mas por amor que é fruto só de engano.../E não me engana um amor quando enganoso".
 
Continuando nesta viagem, Tudo o que Somos é a manifestação, ou o lamento, do pouco que somos, do "apenas":
....
Viver é um sonho,
não esqueçamos.

Viver é a sombra,
o assombro, o apenas.

/ tão frágeis somos !
Frágeis e imensos.

Sinto-me tocada tocada pelos ecos de Camões e Pessoa, considerando ser uma honra estas memórias que outros conservem da nossa tradição poética. Fazendo jus ao que o poeta nos diz, noutro poema: " Debruço-me sobre poemas/ para os engravidar de eus" (Sobre as Pedras do Caminho).
Caminhando ao contrário, como esta antologia foi organizada, vemos na década de sessenta a produção de uma poética surrealista, de que saliento o Estudo 91 :

Os deuses estão sentados e cochicham.
O olho verde da cadela dorme.
E vela.

(E chove; e um cogumelo
cresce sobre mim.)

Minha mãe, cadê minha égua?

(E meu cavalo era a égua
e o general se molhou na chuva imensa.)

Os deuses riem
e suas bundas fofas estremecem.
E o olho da cadela é verde como um sapo.

Eu penso logo nas minhas próprias leituras e paixões desse tempo, os felizes anos sessenta, carregados de esperança e ilusões:Boris Vian, Jacques Prévert, Chagall, Michaux, e tantos outros, para quem o livre imaginário da arte poderia ser a marca de uma liberdade maior, que chegaria.

Estudo 204
Vejo o vento que sopra nas árvores
e estou aqui.
Há uma sensação de paz antiga
no vento que sopra nas árvores.

(Vou plantar esperanças no quintal
e decidir o que farei com a vida -
com esta e com a outra.)

Estou aqui e o mundo está aqui.
Olho as folhas movendo-se nas árvores
e alguma coisa silenciando no coração.

Com António Brasileiro vamos aos clássicos, vamos aos modernos e aos modernistas...viajamos pelas palavras dentro, recuperando as nossas próprias memórias. Goethe, Caeiro, em poemas sobejamente conhecidos, e agora Antonio Brasileiro, conversando com eles enquanto conversa consigo mesmo, comnosco, e decide de sua vida: esta, magnífica, de poeta. Quanto à outra... os deuses de bundas fofas lhe perdoarão qualquer impertinência ! 






 

Wednesday, February 04, 2009

Lavar, a obra da Mulher



Do calendário da Moleiro editores, que reproduz um magnífico códice alquímico, eis o que no mês de Fevereiro nos é aconselhado: trabalhar, lavando a matéria da obra, limpeza que conduzirá do negro ao branco e ao vermelho. 
A lavagem, além da utilização do elemento água, um dos quatro das operações alquímicas, permitindo a solutio, a dissolução (sendo que solve et coagula é o lema dos alquimistas), liga ainda a mulher, o elemento feminino, ao processo que acabará por unir feminino e masculino, água e fogo, ou mercúrio e enxofre, no caminho da sublimação.

Friday, January 16, 2009

Meditações III


Sobre o simbolismo alquímico do abutre.
Dom Pernety, no Dictionnaire Mytho-Hermetique, obra do século XVIII (Bibliotheca Hermetica,1972),que contém "a explicação das alegorias fabulosas dos poetas, as metáforas, os enigmas e os termos bárbaros dos filósofos, explicados" refere-se deste modo ao abutre:
"Ave de rapina muito voraz,aparentada à águia. Os Antigos tinham consagrado o abutre a Marte e Juno. Apolo foi apelidado de Vulturius, ou Apolo dos abutres. A Fábula representa Prometeu agrilhoado a um rochedo do monte Cáucaso, a ser devorado por um abutre, por ter roubado o fogo do céu. ...Hermes disse ' eu sou o abutre pousado no alto da montanha, gritando sem cessar, ajuda-me que eu te ajudarei. E ainda: eu sou o branco do negro, o citrino do branco, e o vermelho do citrino, para indicar as sucesssivas cores da Obra" (p. 366).
Na Atalanta Fugiens, de Michael Maier, obra do século XVII, encontramos esta gravura de um abutre alquímico, segurando uma fita que diz: ego sum niger albus citrinus et rubeus: eu sou negro, branco, amarelo e vermelho, definindo as cores da Obra alquímica de transformação.
O negro ( a nigredo da alma de que nos fala Jung, o espectro da depressão a meio da vida) marca o início da obra de transformação; o vermelho, rubedo, a conjunção final, muitas vezes representada pelo abraço do sol e da lua, ou de outro par de opostos, que podem ser o rei e a rainha, o dia e a noite, o céu e a terra, o fogo e a água, etc.
O Epigrama que acompanha a gravura reza assim:
No cume duma alta montanha
Um abutre grita sem cessar: dizem-me negro e branco;
Sou ainda amarelo e vermelho e não minto.
Sou também o corvo que sabe voar sem asas
Na noite tenebrosa ou em pleno dia.
Um ou outro será a cabeça da tua obra.

Entenda-se :
corvo negro ou abutre serão a imagem da obra que o adepto persegue.
Um, porque negro, marcará o início ; o outro, porque de múltipla coloração, o seu progresso até ao momento da conjunção final, que a rubedo confirma. 
O interessante, neste jogo das gravuras alquímicas, é que se abrem, ampliando o sentido, como acontece nos haiku,  poemas também eles condensados, e em evolução a partir de um dado momento fundador. 



Meditações II



Continuando com os haiku de David Rodrigues: é interessante verificar como o seu trabalho poético se faz do particular para o universal, exigindo do leitor uma capacidade de meditação própria, que o faça ampliar os múltiplos sentidos, como um alquimista (neste caso da metáfora viva) no trabalho da Pedra, que tem de passar pela fase da amplificatio para que se torne de verdade completa e actuante. 
O poema, sobretudo nestes casos, possui uma carga simbólica tanto mais  forte quanto mais arquetípica se revelar; no poema se faz a ponte, no poema se unem os extremos por vezes conflituosos como nos ensinam o Yi King, ou o Tao Te King, nascendo desse jogo de oposições subtis uma nova espiritualidade, um novo horizonte de perfeição (nunca alcançado). Assim as esferas naturais, do homem no seu mundo e do universo na sua essência e nas suas manifestações, se abrem à nossa sensibilidade e ao nosso entendimento.
Dizia eu do particular ao universal: é esse o segredo do poema sobretudo quando, como nos haiku, se vive basicamente de uma ideia, de um sentimento, de uma imagem-força, a tal metáfora viva de que fala Ricoeur. No caso dos poemas de David Rodrigues, isso torna-se particularmente evidente: da romãzeira contempla a romã, ou o seu bago; da oliveira descobre as azeitonas, olhos escuros contemplando aves, etc. Curiosa é a metáfora do barco / abutre (n.69,in Estações Sentidas): 

Na madrugada
o barco escuro emboscado
como um abutre.

A metáfora da vida humana, ou do corpo humano, que é frequentemente o barco,veja-se a Narrenschiff, de Sebastian Brant, ou o Bateau Ivre de Rimbaud, conduz, na sua união à imagem do abutre ameaçador, não à vida, mas à morte, à sua ameaça latente. 
A meditação oferecida é de cariz filosófico, como a que se vê na doutrina taoista, milenar, e que ainda hoje faz sentido, como busca constante e humilde do único bem precioso que se pode tentar adquirir: a sabedoria, consistindo no conhecimento de si mesmo, limite e limiar. 
Na gravura de cima, a barca dos imortais afrontando o mar revolto da vida, podemos ver a garça, no seu vôo branco de sublimação anunciada.
 Mas no caso de David, as garras do abutre evocam, indirectamente, outros perigos, outros receios, como o canto e  as garras das míticas sereias de que Ulisses se libertou.
Há muitos tipos de ameaça à fragilidade da vida: a calmaria do poema de Goethe não é menos assustadora. Se no mar do haiku de David quase se ouve o barulho ameaçador da onda, ou do vôo cruel do abutre, no mar de Goethe é o silêncio que traz o pressentimento de uma não menos temida morte próxima:

Calmaria
Reina profunda paz na água,
Imóvel o mar repousa,
E o barqueiro vê, com ânsia,
A calma superfície à sua volta.
Nenhum ar de nenhum lado.
Terrível quietude mortal!
Na imensidão da distância
Nem uma onde se move.

Goethe, o velho sábio, conhecia bem o pensamento oriental e a filosofia hermética: disso dão testemunho as suas obras de grande vulto, como o Fausto , e outras, menos conhecidas, mas igualmente importantes, como é o caso do ciclo do Divã Ocidental-Oriental:
Se estou só
Não posso estar melhor.
O meu vinho
Bebo-o sozinho,
Ninguém me proíbe de o fazer,
E tenho assim os meus próprios pensamentos.

Deste vinho, da solidão criadora,  bebe David Rodrigues, mostrando as afinidades, que Goethe chamaria de electivas (como na sua novela)entre os tempos, as vozes, as harmonias  do canto melodioso das esferas.

Termino com uma evocação de John Blofeld, autor marcante, na década de sessenta, que viajou pela China pre-comunista, visitando mosteiros budistas e taoistas, e que de um sacerdote taoista recebeu a seguinte explicação:
"A nossa doutrina não é uma religião, mas um caminho para o Caminho (Tao)...os nossos yogas e meditações começam por gerar um estado de tranquilidade, de modo a que, no silêncio dos nossos corações, possamos apreender o Tao dentro,à volta, acima e abaixo de nós.Procuramos alimentar a nossa vitalidade e prolongar a nossa vida para ganharmos tempo e podermos, com a sublimação necessária, atingir os nossos mais altos propósitos...Assim se chega à preparação da Pílula Dourada,que alguns, mal informados, julgam que se obtém por processos alquímicos, quando na verdade só se obtém no interior do próprio corpo..."
Pensamento idêntico é expresso por um filósofo hermético ocidental, Robert Fludd, no século XVI:
" Transmutai-vos de seres mortais em pedras filosofais vivas...cada homem piedoso e justo é um alquimista espiritual".  
O mesmo se pode dizer, sem ofensa, dos poetas cujo imaginário busca, na contenção do poema um caminho outro, que não o do falar disperso, avulso, sem sentido.

Mais leituras: 
J.C.Cooper, Chinese Alchemy, The Taoist Quest for Immortality, 1984



Thursday, January 15, 2009

Meditações I



A leitura de dois livros de David Rodrigues - ambos de Haiku ordenados ao sabor das horas, dos meses, das estações do ano, do tempo enfim, pois é do tempo que as formas surgem e a ele regressam, no seu eterno ciclo - trouxe-me à memória o poema de Borges sobre uma versão do Yi King, a Bíblia do oriente que Richard Wilhelm e Carl Gustav Jung deram a conhecer ao ocidente:
Para una versión del I King
El porvenir es tan irrevocable
Como el rígido ayer. No hay una cosa
Que no sea una letra silenciosa
De la eterna escritura indescifrable
Cujo libro es el tiempo. Quien se aleja
De su casa ya ha vuelto. Nuestra vida
Es la senda futura y recorrida.
El rigor ha tejido la madeja.
No te arredres. La ergástula es oscura,
La firme trama es de incesante hierro,
Pero en algún recodo de tu encierro
Puede haber una luz, una hendidura.
El camino es fatal como la flecha.
Pero en las grietas está Dios, que acecha.

A lição, continuada no conjunto de ensaios dedicados ao Yi King, nesta edição de que me sirvo (Erfahrungen mit dem I Ging, ed. Diedrichs Gelbe Reihe) é a de que da mais recôndita prega do tempo, do destino, surge a luz: luz que se condensa numa ideia, num sentimento, numa imagem poderosa, ora suave ora fulminante. Assim é o caminho, com as suas variações. Deus nem sempre espreitará do escuro de uma fenda, ao contrário do que escreve Borges, mas a condição humana sempre se revela.
A marca do Tao Te King também está presente no filosofar tranquilo que encontramos nos Haiku de David Rodrigues, embora eu tenha pressentido primeiro a ânsia a que o Yi King dá ( ou não dá) resposta.
Passemos aos seus livros, de edição cuidada, bom papel, letra agradável de ler - o objecto livro é importante- apela aos sentidos, da visão, do tacto, influenciando a relação que teremos com ele, antes e depois de o ter lido.
Publicado em 2007, ESTAÇÕES SENTIDAS, 111 HAIKU;
Publicado em 2008, RESPIRAR, 101 KAIKU 
Os títulos já indicam a fidelidade ao género literário, que se mantém nos poemas, na delicada concentração dos ritmos e das imagens.
As Estações Sentidas abrem com o Outono, a estação por excelência de toda a melancolia, fecham com o Verão que parece, numa apetecida sensualidade, permitir que o poeta se abra às emoções da paixão, no capítulo final, Sentidas, onde se faz do corpo a imagem condensada de um cosmos estelar:
103
O corpo
haiku feito de universo
e sentimento
Adiante noutro poema, e tal  como em Pessoa, ou em Caeiro (sua variante de desejada inocência), é na ignorância que o mundo se revela, a iluminação se dá. A ignorância, que se perde com a noção da consciência de que se é (e de que ser é uma realidade implacável), é glosada neste haiku 109:
O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.
Meditando, lendo e relendo, como os haiku nos pedem, somos levados a concluir que todo o destino, ( o tempo) é impenetrável e que talvez seja melhor que assim permaneça, para que não se destrua a ilusão de alguma felicidade. Essa é a ilusão com o autor fecha o livro, no haiku 111:
Hoje ainda não há
toda a felicidade.
Só amanhã
Fecha-se a obra, abrindo-se a uma esperança que o futuro dirá se não foi vã.
Em 2007, a revista japonesa Ginyu escolheu como um dos sessenta  melhores haiku desse ano este poema, belíssimo pelo que tem de nosso (além do caminhar...):
Pedras das calçadas
como estilhaços de sonhos
deixados para trás.
 David Rodrigues tem uma paleta variada, que inclui todos os elementos da natureza que lhe prenderam, a dado momento, o olhar: como na alquimia, encontramos a terra, a água (lago, mar) o fogo ( que o sol ou a luz figuram ) o ar ( o céu, o vento ); e encontramos ainda,  na abundância da terra, as árvores, os arbustos, a flôr, o fruto, oferendas da mãe antiga, do corpo universal. Mais interessante ainda, o bestiário simbólico, de que ambos os livros dão testemunho e por onde passa quase toda a escala animal, do paciente caracol à pequena joaninha, da inocente borboleta ao canário ou ao melro,  às gaivotas ou ao falcão, sem esquecer o elefante, não menos significativo, na sua grandeza, do que o minúsculo pirilampo, cuja luz é afinal um marco do caminho:
Ver os pirilampos
como sabendo o caminho
 a seguir na noite. 
 (n.77,Estações Sentidas)
Se estivessemos a fazer uma Renga ( outro género, em que vários poetas dialogam por via dos poemas)  diria, tentando acrescentar sentido:
Relâmpagos de noite:
múltiplos são os caminhos. 
Mas, continuando com David: os seus haiku são pontos de emanação de um sentido que já contêm, imanente, como no ponto inicial o universo já se continha no todo que veio a ser. A fracção que é o poema, ou melhor, a fractura, situa-se precisamente entre a potência e o acto, movimento que a leitura repetida, mais até do que a escrita, permitem adivinhar. Há um momento de iluminação, que não tem de ser como a de Angelus Silesius, mística e comovente de ingénua entrega; a fulguração quase ou mesmo só panteísta, da contemplação da natureza e da centralidade do olhar do homem nela, faz igualmente parte da iluminação que pela obra nos é dada.
Coloco estes poemas de David entre dois poemas dos meus poetas favoritos: Sophia de Mello Breyner, que me acompanha desde a juventude, e Paul Celan, já na maturidade a que fui chegando:
Coral
Ia e vinha.
E a cada coisa perguntava
que nome tinha.
( Sophia )

Entrada de Violoncelos
...
tudo é menos do que
é,
tudo é mais.
  ( Celan )



 


Wednesday, December 24, 2008

Uma relíquia


 A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner, musicada por Fernando Lopes Graça, com as vozes de Eunice Munõz, Francisca Maria, António David e Luís Horta, e direcção de Artur Ramos.
Poderá haver melhor?  
Para todos os que gostam de literatura e arte.

Tuesday, November 25, 2008

Marquesa de Alorna(1750-1839)



Vanda Anastácio apresenta os SONETOS da Marquesa de Alorna numa bela e cuidada edição onde se ocupou da fixação e organização do texto, com uma  Introdução, notas e bibliografia que ajudam a bem entender e situar a obra e a vida de uma mulher notável no seu e em todos os tempos.
Alcipe, a quarta Marquesa de Alorna, ousava lidar com temas de todo o género, como escreve Fernando Mascarenhas, seu descendente: " desde a educação dos jovens, não só criticando a mesquinhez do que lhes era ensinado no seu tempo, como avançando as suas próprias ideias sobre pedagogia, até ao próprio sanctus santorum do mundo masculino- a política!"
Podemos ler, na Introdução, o que foi a vida da Marquesa, de seu nome Leonor de Almeida Portugal, como prisioneira de Chelas; o que foi, de seguida, a sua vida como mulher "das Luzes", numa Europa culta, mas onde ainda era raro brilharem as mulheres; o papel que desempenhou na Política, de 1793 a 1815;o regresso a Lisboa, onde vem a morrer, em 1839.
De Chelas se conhecem 44 sonetos, sendo o último dedicado às Musas, e daí o interesse de o comparar com outro, de Goethe, seu contemporâneo, que se autobiografou como Filho das Musas. 
As Musas ainda conservavam o seu estatuto de condutoras de almas, de paixões, de suspiros, por muito que nos Salões se discutisse pedagogia, filosofia ou política.

ÀS MUSAS

Co'a frauta agreste os beiços compremindo,
Desde que alva a manhã se despertava,
Ante Febo submissa me prostrava,
O sublime furor ao Deus pedindo.

Iam-se os Céus co'a clara luz abrindo,
Morfeu ao mundo alegre costas dava,
E Délio, sem mostrar que m'escutava
A rápida carreira prosseguindo.

Sobre a tripode em vão triste me sento,
Corro os três tetracordes sobre a lira,
Nenhum iguala a voz do meu tormento.

Musas cruéis, se aquele que delira
Mil vezes em vós acha acolhimento,
Porque não confortais a quem suspira?

A autora alude ao mito de Apolo, aqui chamado Febo, segundo o qual o deus concedia aos poetas, por meio de um furor sublime, uma súbita e incontrolada inspiração. 
Mal acordava, e o sono (Morfeu) perdia, tentava a jovem compôr a música que lhe pudesse alegrar o coração. Délio, outra figura mítica, conduzia o carro do sol, que surgia na manhã clara.
Mas nem flauta nem lira conseguem animar a poetisa. Sente-se abandonada pelas Musas, que parecem não lhe reconhecer a existência.

Diferente é o tom do poema de Goethe, igualmente dedicado às Musas:

O Filho das Musas (1822)

Percorro bosques e campos
levando a minha canção,
e assim vou pr'a todo o lado!
Com medida
 e a compasso
tudo gira à minha volta.

Ansioso aguardo as flores
 que vão brotar no jardim
ou nos raminhos das árvores.
Saúdam a minha canção,
e quando o Inverno regressa
ainda eu estou a sonhar.

Lanço a minha voz bem longe
sobre o gelo mais distante,
onde floresce o Inverno!
Também essas flores se vão,
e novos amigos farão
nas aldeias lá do alto.

Quando encontro sob as tílias
jovens a repousar,
encanto-os com o meu canto:
os jovens enchem o peito,
e as moças dançam contentes,
respeitando a melodia.

Vós dais asas aos meus pés,
 levando-me, vosso eleito, 
a correr montes e vales,
 pr'a longe da minha casa.
Ó belas Musas graciosas, 
quando repousarei nos braços da minha amada?
(versão Y.C.)


Goethe apresenta-se aqui como o favorito das Musas, que não lhe dão sossego, fazendo-o correr montes e vales com a sua melodia, encantatória, que alegra corações e desperta neles os amores e nostalgias que o próprio poeta sente. 
Um outro poema seu, o Canto Nocturno do Viandante,  completaria bem o seu desejo de uma paz que não chega: 

Tu que és do céu,
e todo o sofrimento e dôr acalmas,
que ao duplamente infeliz
duplamente conslas,
-Ah, estou cansado de tanta agitação,
de que servem a dôr e o prazer?-
doce paz,
vem, ah vem aquietar-me o coração!
(versão Y.C.)

Goethe teve a sorte de um compositor como Schubert transformar em obra de arte o seu poema dedicado às Musas.
Para a Marquesa de Alorna aguarda-se ainda uma inspiração igual. A música eleva a um outro patamar de Beleza e Emoção o suporte do canto do poema. Mas Portugal não tem ainda a suficiente preparação, o suficiente desejo de fazer do Ensino da Música uma verdadeira necessidade, para além das vocações que felizmente ainda vão surgindo (com que dificuldade...).
 
O poema da Marquesa contrasta com o de Goethe por várias razões: foi escrito, bem como os outros deste ciclo de Chelas, para consolar e entreter o seu pai, preso às ordens do Marquês de Pombal, com a acusação de ter participado, ainda que indirectamente , no suposto atentado contra o Rei Dom José; tem marca de estilo algo juvenil, muito próxima das leituras que o pai lhe aconselhava, a começar pelos clássicos e a continuar com Camões, o expoente máximo da criação poética na arte do soneto; e é de tom  bem feminino, de melancolia suave, paciente, o que se explica não apenas pela influência camoniana, mas sobretudo pela situação de prisioneira no Convento de Chelas, vítima também ela da perseguição movida à sua família. Como lemos no estudo de Vanda Anastácio, foram dezanove anos de cativeiro que, embora no seu caso permitisse visitas e bastante convívio, nunca tinha longe o verdadeiro horizonte de um castigo injusto e  impiedoso:
"Note-se que o encerramento das três senhoras (a mãe e as duas filhas do Marquês de Alorna) numa casa religiosa foi determinado pelas autoridades políticas como um equivalente da prisão, e que este era um meio correntemente usado na época pela sociedade civil para castigar, pressionar, ou simplesmente controlar os comportamentos da população feminina".
Outro pormenor interessante, que mostra bem como as "Letras" numa mulher não eram apreciadas, é o facto, que Vanda também narra, do pai da jovem poetisa não apreciar muito o que ela fazia...

Esta obra, delicada, merece mais atenção.
Talvez sob a forma de prenda de Natal.


Wednesday, October 15, 2008

Herberto Helder


Ao Herberto Helder, sempre

(depois de ler A FACA NÃO CORTA O FOGO, capa de Ilda David, ed.Assírio e Alvim, Lisboa, 2008; um conselho amigo: comprem, roubem, peçam emprestado e não devolvam nunca)

Ah, essa faca
não corta o fogo
mas corta
o coração da pedra
florescendo
em palavras-pétalas 
de ouro

 e corta a veia
no fio
do horizonte

deixa escorrer 
um delicado
 sangue

voz abafada

grito nascendo

dessa faca
no corpo
desse fogo


Wednesday, October 08, 2008

Erdnah /Perto da Terra



Lançado agora em Leipzig pela Erata, bilingue, de bolso, para ir mais depressa de mão em mão, podendo ser lido em qualquer lado, no metro, em casa, no jardim, com as fotos do editor, que é também escritor e fotógrafo de arte.
Um livro à margem, com paisagens do corpo, paisagens da terra, paisagens da alma.
Em tradução e edição de amigos: assim, carinhosamente, circula melhor a poesia.

Tuesday, September 09, 2008

Reflexão sobre Yoga

Com este volume inicia João Tinoco na sua editora, a hamsa, a divulgação entre nós da filosofia do Yoga.
Antes de mais felicito o editor pela qualidade da apresentação da obra: elegância do grafismo, do logo, do papel e da letra escolhida para conforto dos leitores. 
Quanto à  matéria muito há a dizer: a Reflexão sobre o Yoga é-nos trazida por Georges Stobbaerts, na tradução dos Yoga-Sutra de Patanjali, um clássico que os cultores de Yoga bem conhecem.
Tara Michael, investigadora do C.N.R.S. , especialista de estudos indianos e de hinduísmo, escreve a introdução.
Os Yoga-Sutra representam a primeira sistematização da via primordial de conhecimento que é o Yoga,e o documento mais antigo que desta literatura se possui.O autor, Patanjali, escreveu estes aforismos como tópicos de reflexão para mestres e discípulos, sendo a época em que podemos datar a sua vida e obra objecto de hesitação: algures entre o séc.II  A.C. e o séc.-III da nossa era. Mas como é próprio das antigas sabedorias, a transmissão, por via oral, é de muito anterior. Quando se chega ao momento da  autoria já toda uma cultura foi impregnada desse pensamento primordial. 
O objectivo do pensamento como da prática do Yoga é atingir uma libertação da espessura da matéria em que se foi caindo ao longo das sucessivas existências.Trata-se de ajudar a discernir o princípio espiritual aprisionado e que "o fogo do Yoga queima", libertando a sua pura energia.
Por esse fogo, como na alquimia antiga, se queimam:
O ego, e o sentido da sua autonomia em relação ao mundo, ao universo.
O apego às formas grosseiras da existência, materiais, sensoriais.
A aversão, forma de ignorância do outro, pessoas ou situações que nos fazem sofrer e nos causam desejo de fazer mal.
O medo da morte, natural em todas as pessoas e o mais difícil de sublimar.

Resumindo a introdução de Tara Michael, "o Yoga é o controlo das actividades do espírito, que vai desde o simples domínio das operações mentais até à completa suspensão de todas as modalidades da função psíquica".
São muitas as etapas do Yoga, e muitas os exercícios a praticar. 
Patanjali, nos 196 aforismos, deixa claro no entanto que a meditação é o centro e fundamento dessa via, que deverá desembocar no Samâdhi, a ruptura da consciência, com a subsequente Iluminação, experiência comparável à que os místicos, do oriente como do ocidente, nos descrevem.
Parabéns por este tomo I, e ficamos a aguardar os próximos!

Wednesday, September 03, 2008

Terra de Lebab



Fernando Sales Lopes publica a Terra de Lebab, a sua Babel oriental, dando continuidade a uma escrita subtil, imbuída da tradição dos contos morais com que antigos mestres do Japão e da China  cultivaram as sociedades do seu tempo. 
Mas hoje essas histórias exemplares continuam a fazer falta e é de apreciar que um ecritor que muito conviveu com elas nos transmita agora as suas próprias vivências trazendo-as aos novos leitores da era da tecnologia deshumanizada, deshumanizável e que fará do mundo uma nova Babel a caminho da própria destruição.
A proposta é de inverter o gosto, a situação, daí o termo Lebab, que acrescenta mistério e humor ao que vai ser lido.
Prosa escorreita, límpida, de quem sabe que o fundamental é dizer, para além de entreter . E o que diz é memória viva, é marca de cultura e de convívio - pois no convívio se  mantém e se transmite a  tradição, na variedade de línguas, gastronomia, festejos e tudo o mais que a vida consente.
A elegância da obra é sublinhada pelas ilustrações, que apontam, mas não carregam, as páginas em que o requinte não descura os mais pequenos pormenores.
Bela proposta de leitura que nos é oferecida pelo Instituto Português do Oriente e pelo Politécnico de Macau. 
Só posso saudar a iniciativa e felicitar o autor, que já conhecia como poeta.


Friday, July 25, 2008

Shylock e Nathan o Sábio, duas faces da mesma moeda

( Para o Ricardo Pais )
A imagem do Judeu constituiu-se como protótipo do usurário num século XVI bem diferente do século XIII em que podíamos ver na corte de Afonso X, o Sábio, judeus e árabes como escol de cientistas e filósofos na vanguarda do conhecimento mais respeitado. Na época dos Descobrimentos é ainda a árabes e judeus que se deve muito das ciências da navegação e só o instituir da Inquisição em Espanha e Portugal marcará com selo de infâmia a raça e a religião judaicas. 
Em Shakespeare encontraremos, no desenho da figura de Shylock, o judeu de O Mercador de Veneza, os traços dessa caricatura, muito corrente ao tempo. É avarento, é usurário, é mesquinho em mais do que um aspecto, não escondendo a sua raiva e inveja de outros melhores do que ele, pela riqueza e pela nobreza de alma. É por este último defeito de carácter que se tornará em símbolo universal da imperfeição do género humano. A sua maldade é gratuita, como a de Iago, em Othello, fundadora, primitiva e primordial, como a semente nefasta no coração de Caim; por outras palavras, algo que nasce com o homem e nele se forma deformando-o ( e aqui já de muito se ultrapassa a visão que Shakespeare possa ter tido ou não de um judeu do seu tempo).
O seu Shylock é mais do que tudo uma perversão da natureza; o bestiário poético de que Shakespeare se serve para o descrever, buscando no reino animal os exemplos aviltantes, permite que apesar de tudo se esqueça que ali está um judeu, pois nem os da sua raça seriam tão perversos, tão mesquinhos.
Shakespeare compraz-se na descrição do "monstro de olhos verdes "que é o ciúme, aqui como em Othello:" ...é um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta".
Algo mais se revela, em Shylock como em Iago: uma pulsão negra e profunda o faz desejar a carne, o corpo, a mutilação e a morte daquele que diante dele se ergue como alter-ego impossível, seu mais nobre reverso, de quem mesmo só a ideia (nem sequer a presença) se transforma em ferida insuportável que só outra ferida talvez pudesse sarar. O que não acontece, Shylock será punido, perderá os seus bens e a sua filha, e aquele que desejava destruir recuperará fortuna e bem estar no fim da peça. 
O Mercador de Veneza não atinge, como Othello, a dimensão da tragédia. Mas a figura central em que o judeu se transforma faz dele na realidade o motor do pensamento e da acção, a trágica figura universal que encontra no Caim bíblico o mito fundador.
A imagem de vilão elaborada à época tem antecedentes:
A execução do português Roderigo Lopez, por alta traição, pode ter ajudado a construir tal imagem.
Lopez era um judeu "convertido", médico do Conde de Leicester e da Rainha Isabel I.Quando Dom Antonio, pretendente ao trono de Portugal, chegou a Inglaterra em 1592, Lopez participou na intriga política desenvolvida a seu favor, ao que parece tendo em conta muito proveito próprio; denunciado pelo Conde de Essex, que o acusa de tentar envenenar a Rainha e Dom Antonio, foi julgado em 1594 e executado em Junho desse ano. O caso teve muita notoriedade, com muitas alusões na literatura do tempo.
  Marlowe, com The Jew of Malta, foi um dos que beneficiou de tal notoriedade: a sua peça foi representada 15 vezes entre Fevereiro e o fim do ano de 1594.
Supõe-se que o Mercador de Veneza seja devedor de alguma inspiração a Marlowe, tendo a ideia de fazer uma peça que rapidamente aproveitasse  o momento propício.
( para este detalhe e outros relativos à datação provável da peça, ver notas introdutórias à edição Arden, por J.R. Brown ).

Bem diferente, com propósito de redenção de imagem, é o drama de Lessing, o grande maçon iluminista do século XVIII, cuja obra se reveste hoje de especial actualidade.
Busca-se a paz, o entendimento,algo que Lessing nos propõe neste drama em verso, inspirado num conto de Boccaccio onde é relatada a célebre parábola dos três anéis.
Quem sabe se alguma próxima produção, teatral ou operática nos trará um dia, espero que breve, esta outra visão do Judeu: homem sábio, fraterno, generoso, que Lessing bebe nos ideais de respeito por religião, raça, costumes, como exemplo que deixa em legado à sociedade do seu tempo.
O drama é longo ( para não dizer pesado ) precisará de uma agilização dramatúrgica incontestável.
Mas transporta um olhar que faz falta, ainda hoje. A sabedoria alimenta-se de algo mais do que o traje, a crença, a prática - elementos que separam em vez de unir a humanidade.
Lessing foi um dos que apelou à renovação do teatro na Alemanha, dando Shakespeare como exemplo, cujas peças atingem a dimensão unversal que, a seu ver, não existia ainda nas produções alemãs, populares, caricaturais, explorando a risada grossa e não a elevação definida já por Aristóteles.
Em Nathan o Sábio é levado ao palco o discurso (e a discussão) das três religiões do Livro:
 o Judaísmo (Nathan), o Cristianismo (o Templário), o Islão (Saladino).
A lição dos três anéis, com a interrogação de qual será o verdadeiro, leva à proposta de uma vida moral exemplar que, essa sim, poderá conferir veracidade, autenticidade, a qualquer um dos anéis (as religiões). Temos Kant, com a Razão Prática, a validar a tese de Lessing,cuja Educação do Género Humano influenciará ainda um  filósofo como Fichte.
A sua teoria moral da História, fundada na ideia do progresso moral da humanidade é a base do optimismo, religioso também, característico da Aufklaerung na Alemanha.
Infelizmente os tempos contrariaram ( e contrariam ainda) o seu ideal, revelando como são frágeis as forças de mudança, e variáveis os ventos que sopram dos longes da História. 
Ricardo Pais está de parabéns, vai trazer com o seu Mercador de Veneza, a estrear em Novembro, um colóquio que permitirá todas estas discussões. 
Nota: na capa desta bonita edição bilingue que escolhi para o post reproduz-se uma imagem do Livro dos Jogos (1282) de Afonso o Sábio, com um Judeu e um Árabe a jogar xadrez. Dá muito que pensar.



Sunday, July 20, 2008

Arpad Szenes



Num artigo que escrevi há algum tempo para a revista MEALIBRA, ocupei-me desta obra emblemática de Arpad, Le Couple.
A exposição agora oferecida  pela fundação EDP escolhe como imagem fundadora exactamente este quadro, tão carregado de tradição e simbolismo.
O subtítulo, Vieira da Silva Arpad Szenes e o castelo surrealista, é muito interessante pois sabemos como os surrealistas valorizavam o exercício da libertação (automática ou não) das imagens e arquétipos do inconsciente, para eles o verdadeiro repositório do possível ambicionando a passagem a acto.
Verdadeiro fio condutor serão os esquissos que conduzem ao produto final do óleo.Já no desenho do convite da exposição está presente a mancha circular, laranja, que envolve os corpos, aludindo à esfera andrógina primordial.
O título do meu artigo, que citarei, era ANDROGINIAS: DE KLIMT A ARPAD SZENES.
Aí escrevo que o par está inserido numa representação mandálica, definida pelo arco superior, quase disco solar, que os limites do cavalete (à esquerda do observador) e da perna e tampo da mesa (à sua direita) ajudam a definir.
As cartas na mesa permitem que também nós, de modo surrealista, façamos uma interpretação bem subjectiva: são as cartas do destino que os uniu, está feito o jogo, as cartas estão lançadas, face a elas o par unido abraça-se. O negro da figura feminina evoca o negro da alma, a pulsão que será convertida na unidade da vida e obra.
A figura masculina tem, pelo contrário, os pés bem assentes no chão, suporte da realidade objectiva; a mão direita ( a razão) apoia-se na mesa, a esquerda ( o sentimento) abraça já a mulher  ( o Eterno Feminino que será sempre o seu); marido e mulher figuram aqui o par andrógino primordial, vendo-se bem como a mulher repousa no marido, na sua energia luminosa, com a cabeça encostada à dele e o braço passado à volta do seu pescoço.
O elemento masculino revela-se como suporte delicado de um feminino sombrio ( o negro do vestido é poderoso), como a razão actuante se revelará, na criação, como suporte do caos negro do inconsciente libertado. 
A obra de arte exige ordem,  e a estrutura que ordena o conjunto é tão ou mais importante do que o próprio impulso de criação. E também na memória artística influi a tradição: cultural ou outra.
Teríamos Platão, para a memória do andrógino, e a perfeição primordial que o mito simboliza.
Teremos Klimt, com O Beijo, para a memória artística mais próxima de Arpad.
O Par evoca O Beijo:
Um mesmo enquadramento mandálico, no caso de Klimt com o brilho excessivo das pedrarias  de que ele tanto usou e abusou nas sua produção. O simbolismo andrógino de Klimt é mais directo, o de Arpad mais discreto. Em Klimt os corpos ocupam todo o espaço, em Arpad há espaço (como o teve na vida) para o atelier e a obra ali mesmo apontados.
À representação sensual e orientalizante de Klimt podemos opôr a leitura moderna que Arpad nos deixa do mito (colectivo, platónico, tanto como pessoal, da vida íntima de marido e mulher, ambos artistas). 
O Par é um quadro que ilustra a união de dois artistas que se amam mas não deixam de ser pintores, vivendo essa união  no atelier onde uma outra parte da sua vida irá decorrer para sempre.
Se Klimt funde os amantes num beijo Arpad une os artistas na obra. A sua marca será ao mesmo tempo pessoal e colectiva, mais moderna e mais universal: pois na união tanto ele como Helena, sua mulher, conservam a sua identidade própria; entregam-se, e encontram-se, não se perdem. A própria composição aponta estes detalhes : o par está atrás da mesa, que de algum modo interrompe o que se poderia julgar fusão total; e as ramagens altas do vaso ultrapassam as cabeças encostadas, desviando um pouco mais o nosso olhar, obrigando a que se saia do exclusivo ângulo do par .
Recordo uma frase de Paula Rego: " um quadro não é uma narrativa, é uma composição, temos de considerar os planos, os ângulos, os elementos verticais, horizontais, circulares,etc. inscritos na composição e ainda o jogo das cores e da matéria ou matérias utilizadas...".
Para além do círculo solar que envolve Arpad e Helena daremos ainda atenção ao negro e ao branco, pares de opostos que ( como no jogo da consciência e do inconsciente tão valorizado pelos surrealistas ) nos permitem uma leitura mais vasta, própria dos grandes arquétipos fundadores.


Wednesday, July 09, 2008

Sete Partidas



Doze Naus, Sete Partidas...
Manuel Alegre continua em viagem: pela História, pela Memória, aprofunda um canto Camoniano, Pessoano e que, à semelhança dos seus antecessores, não desvia o olhar do mundo ( o país) que o rodeia.
Percorre cidades, mas detém-se na sua, que é uma cidade da alma.
De D. Pedro, o guia, retém o desejo de mudança. Desse desejo nasce o poema, permanente  interrogação e enigma:

" Como Santo Agostinho vou pelos campos
da memória. Pronuncio o nome de D.Pedro
e o que fica é o nome não a imagem

porque tudo na memória se contém
e tudo é palavra que nomeia.
Digo D.Pedro e ao certo eu digo quem

é nome e mais que nome tempo e História
e mais que tempo e História é a própria ideia.
Vou com D.Pedro pelos campos da memória."
(poema 5 )

Poesia descritiva, intencional na meditação que propõe, sobre as mudanças e as esperanças dos tempos.
O nosso tempo é de insónia, e "um poema escreve-se entre a noite e a manhã/quando as águas irrompem na memória" (poema 12)... que rasto deixam, neste país, nesta cidade, nesta Europa que melancólica perdeu o rumo, que era destino fundador e inicial? Pessoa diria iniciático, mas Manuel é mais simples, mais directo:

" Em Lisboa assina-se um tratado mas agora
Europa já não é o umbigo do mundo
o vasto mundo global e em toda a parte o mesmo
à mesma hora nos telejornais
...
É então que D.Pedro já regente
concede a D.Henrique a exploração do mar.
E o poema escreve-se quando se aprende
em português o verbo navegar." 
(poema 9)

A navegação hoje é feita em águas profundas, da memória em revolta.
Penso, ao ler este poema: em que salas de aulas poderíamos, a propósito da História de Portugal, explicar o sentido que aqui se esconde e se revela? 
E explicar pelo meio as referencias a Platão, a Aristóteles, Santo Agostinho, Cícero e às cidades de cultura, Bruges, Roma, Veneza, e o que na arte maior aí acontecia?
Fico a pensar se esta Hora ( nada Pessoana) será mais de retirar-se do que de enfrentar um mundo que não deseja escapar à sua condição de alienado e alienante de uma realidade que parece cada vez mais escapar-lhe.
Manuel Alegre foi sempre um lutador e não cala, não esconde, o seu protesto:

" A roda trituradora põe-se a girar
microfones perguntas entrevistas.
O poema escreve-se enquanto leio
com D.Pedro o elogio do Benefício
quem o pode fazer e quem não pode

e de como Aristóteles recomenda
o necessário entendimento de quem faz
e do estranho capítulo em que os servos
podem dar benefícios aos senhores
ou das obras morais que são exemplos.

Coisas que não preocupam quem rasteja
nos corredores da corte e da intriga
...
Com D.Pedro escreve-se no conflito
entre o apelo público e a voz de dentro
no desejo de paz e solidão
em Veneza ou Coimbra onde o poema
pode escever-se traduzindo Cícero".
(poema 10) 

O poema continua, na sua busca do que chamará " a frase certa a escrita nova".
A D.Pedro como a Manuel Alegre, nesta identificação poética, se coloca o dilema : intervir ou aguardar que algum momento, alguma palavra mais íntima, mais secreta e mais certa indique outro caminho.
Na poesia há só um e o mesmo caminho: a escrita, que se expõe, como no dizer paradigmático de Celan: " A poesia já não se impõe, expõe-se".

Aqui se expõem os dilemas de quem pode ser voz que cala ( a escrita, no recolhimento e na intimidade ) e voz que fala ( a da interrogação e exigência face ao mundo em mudança):

"Chega um tempo em que um homem se interroga
sobre o último sentido ou o sem sentido
o como o quê o para quê e o para onde
um tempo de balanço em que se mede
o vivido e o não vivido.
E o poema escreve-se"
.... (poema 11)

Não resisto a trazer aqui a dupla imagem dos hemisférios do tempo a que alude o Padre António Vieira, outro dos gigantes da nossa cultura que celebramos este ano:
" O tempo (como o mundo) tem dous hemisférios:um superior e visível, que é o passado; outro inferior e invisível, que é o futuro.No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo, que são estes instantes do presente que imos vivendo, onde o passado se termina e o  futuro começa (...)Oh, que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descubrimento! "
Neste Livro anteprimeiro da História do Futuro (ed. crítica de J.van den Besselaar) os hemisférios do tempo abrem-se à utopia que, fundada na História, pretende redesenhar um destino glorioso. Fernando Pessoa, bebendo também ele no mesmo mito antigo saúda a memória, mas antevê o nevoeiro caindo sobre a Pátria. Manuel Alegre, nesta sua viagem de exaltação de um D.Pedro filósofo, letrado, utopista a seu modo, recupera um tempo cujo horizonte (o presente que imos vivendo) apela à reflexão, para que do poema nasça uma palavra certa, no limiar da esperança. 

Não concluo, deixo ao leitor  o verdadeiro prazer de ler e descobrir.
(Manuel Alegre, Sete Partidas, poema, edições Nelson de Matos, 2008 )




Tuesday, June 17, 2008

Brecht / Kurt Schwaen

De mais um dos muitos colaboradore que compuseram para Brecht, esta Cantiguinha.
 Irónica e popular, mostrando a diversidade de estilos e fontes de inspiração da obra de um grande autor, para quem não havia géneros "menores":

Kleines Lied/ Cantiguinha

E uma vez um homem
aos seus dezoito anos
à pinga se entregou:
a morte lhe causou
morreu logo aos oitenta.
É claro como a água...

E um bébé um dia
de súbito morreu
e tinha só um ano,
por isso é que morreu.
Beber ele não bebeu,
morreu só com um ano.

É claro como a água...
teremos de dizer
o álcool não faz mal...
  

Brecht/ Dessau

De beleza pungente e grande contenção, este Deutsche Miserere que bem diz, ao modo quase de um Hai Kai, como foi grande o sofrimento e a desilusão do post-guerra, na Alemanha.
Canção de Brecht, musicada por Paul Dessau, um dos grandes que o acompanhou.

Miserere Alemão

Sou ainda uma cidade,
por pouco tempo.
Cinquenta gerações 
já me habitaram...
Recebo agora
o pássaro da morte

 em mil anos erguida 
numa lua abatida.


(Recordo apenas que a letra foi adaptada à música, para ser cantada em português).