Esta Biografia do pai, Rómulo de Carvalho, cientista, e de António Gedeão, poeta, é-nos oferecida pela mão de sua filha Cristina Carvalho, ela mesma escritora conhecida, reconhecida, admirada.
Poderia não ter tido este gesto de grata memória: eu, que li no Porto, pela mão do meu pai, o Rómulo divulgador de conhecimento científico, e mais tarde em Coimbra, já com dezasseis-dezassete anos descobri o poeta (sem adivinhar que era o mesmo até me dizerem) agradeço à Cristina esta possibilidade que me dá de fazer com os netos o que o meu pai fez comigo.
Assim os grandes se perpetuam, pela nossa leitura e pela transmissão continuada.
O livro foi concebido como eu gosto: agradável dimensão, pode ir connosco para todo o lado, ser lido em casa ou num café, bom papel que ajuda a que se ame e se guarde para outros, letra que permite leitura até de olhos cansados como os de pessoas de idade que ainda conservem espírito alerta e curiosidade intelectual.
Ah, e last, but not least: a qualidade da escrita, simples, directa, de mão corrida que não tropeça, conduz!
Por outras palavras: um livro bom, bem escrito, para todas as idades.
Carregado de boa informação, permitirá aos estudiosos da obra- seja do cientista, humanista, seja do poeta, aprofundar os seus conhecimentos.
Como Cristina escreve na Nota Prévia, Rómulo de Carvalho foi um Homem do Renascimento, o do século XX.
Na biografia é revelada a sua "vontade da ciência, da divulgação e do ensino" algo de que, pessoalmente, me lembro de ter beneficiado, ao ler os livros que o meu pai trazia, para eu ler.
Mas o encantamento da sua poesia já foi por mim descoberto: em Coimbra li Sophia de Mello Breyner, li Ricardo Reis, (sempre gostei deste heterónimo de Pessoa), António Gedeão, Miguel Torga, a par de Prévert e outros do meu convívio francês.
Como se pode dizer tanto em tão poucas palavras?:
...
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
À confusão da harmonia.
(in Movimento Perpétuo)
A Poesia - espaço dado ao humano, no seu tempo, entre o caos e a harmonia - conceitos ao mesmo tempo abstractos, científicos, filosóficos (filosofia é conhecimento) e que podemos ler a par de outra obra-prima, desta vez de Sophia:
Ia e vinha
e a cada coisa
perguntava
que nome tinha
( in Coral)
Rómulo / Gedeão alquimista da ciência, alquimista da alma.
Não me admirei, ao encontrar na vastíssima bibliografia que Cristina recolheu, um volume de 1947 sobre A Ciência Hermética, na Biblioteca Cosmos, n.55.
Já era um primeira aproximação.
Eu vejo agora, lendo este volume, editado mesmo a tempo do Ano Escolar e que desejo seja bem recebido, até como exemplo de vida de um homem que prezou acima de tudo o Ensino e a Educação como formas de progresso social, vejo agora, repito, como em pleno século XX houve em Portugal sábios da dimensão de um Leonardo da Vinci, e outros que já só se descobrem nos alfarrábios dos séculos XVI !
Perto do fim, há um episódio especialmente comovente, o do ovo, (já só casca guardada com cuidado) que um amigo oferecera à sua mãe quando do seu nascimento. Rómulo guardava esse ovo, que mostrava aos filhos, com ternura e um respeito também envolto em mistério. Cai-lhe das mãos, quebra-se em pedaços, como se da vida frágil se tratasse.
O que era? Figuração da Vida, da tal Pedra Filosofal, de que ele sabia o sentido, os outros não?
Há na biografia muito de evocação poética, como seria de esperar: é uma filha que recorda, é uma filha-escritora que dialoga com o passado e através dele nos fala..
Perto do fim, há um episódio especialmente comovente, o do ovo, (já só casca guardada com cuidado) que um amigo oferecera à sua mãe quando do seu nascimento. Rómulo guardava esse ovo, que mostrava aos filhos, com ternura e um respeito também envolto em mistério. Cai-lhe das mãos, quebra-se em pedaços, como se da vida frágil se tratasse.
O que era? Figuração da Vida, da tal Pedra Filosofal, de que ele sabia o sentido, os outros não?
Há na biografia muito de evocação poética, como seria de esperar: é uma filha que recorda, é uma filha-escritora que dialoga com o passado e através dele nos fala..
Na biografia procura-se um sentido ao mesmo tempo de paixão e dignidade. A dignidade do Ser Humano nas suas múltiplas facetas.
Aprenderemos com este exemplo assim descrito?
Espero que sim.
Aprenderemos com este exemplo assim descrito?
Espero que sim.











