Friday, July 06, 2012

Manuel Alegre, Nada está Escrito

Terá sido este título?
A primeira vez que escrevi um post sobre este novo livro do Manuel foi engolido pelo espaço ( levado por algum maldoso bosão?)
E agora foram precisas várias tentativas até conseguir escolher a imagem da capa. Deve ser do título: nada está escrito, então que nada se escreva a propósito.
Mas sou teimosa.
Manuel Alegre, mesmo quando triste ("de alegre se fez triste"....) é um poeta feliz: encontra as memórias e as palavras certas para o que pretende dizer. 
O livro está dividido em 7 partes, como as 7 partidas do mundo, por aí podemos adivinhar que há sonho nos poemas, há desejo, utopia, - ainda que num momento de especial fragilidade identitária: afinal somos europeus, mas sem o ser plenamente?Somos europeus, se pensarmos na nossa tradição cultural.
O primeiro poema do livro, belíssimo, BALADA DOS AFLITOS é desde logo a prova de que uma cultura entranhada na tradição e na memória literária se actualiza em qualquer momento e se faz portadora de voz outra, nacional, que não nacionalista - e deste modo podemos falar de uma cultura europeia universal, vivida e absorvida pelos seus grandes. Eis a Balada:
Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.


Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.


Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.


Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.


Balada de ritmo pungente, logo no primeiro verso declara a sua filiação: retoma o lamento do ÉPITAPHE VILLON de François Villon, o grande poeta francês do século XV (1431-?) de vida aventurosa, várias vezes condenado e preso, em 1463 condenado à forca ( é quando escreve a célebre Ballade des Pendus, Balada dos Enforcados) e depois libertado. A seguir a esta data nada mais se sabe da sua vida. 
Ora vem isto a propósito da cultura, da tradição e da memória: todos os bons leitores de poesia conhecem e reconhecem este poeta e a sua poesia sem igual:
Frères humains qui après nous vivez,
N'ayez les coeurs contre nous endurcis,
Car, si pitié de nous pauvres  avez,
Dieu en aura plutôt de vous mercis.
Vous nous voyez ci attachés cinq, six:
Quant de la chair, que trop avons nourrie,
Elle est pièça dévorée et pourrie,
Et nous, les os, devenons cendre et poudre.
De notre mal personne ne s'en rie;
Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre!
.....
E segue, a Balada, com a plena consciência do pecado, mancha da humanidade e não apenas dos condenados, pedindo a Deus que todos sejam perdoados. Este é o refrão com que termina cada uma das estrofes: 
"Mais priez Dieu que tous nous veuille absoudre !". Rogai a Deus que a todos nos absolva!
O poema de Manuel actualiza e politiza o lamento, mas ainda assim mantém um apelo ao divino, como que reconhecendo que entre os homens não tem havido ou não haverá solução. É o lamento de alguém que reconhece que estão perdidos laços e caminhos; que talvez só mesmo a palavra poética ajude à salvação: do poeta de certeza, que se liberta nela e por ela; mas dos outros? Só mesmo de quem lê.... 
E nem de propósito, eis o poema com que encerra a primeira parte do livro:
DEPOIS DO BRANCO
Quem sabe o que na página se esconde
e se dentro do branco está um muro
e se depois do muro não há onde
e se depois do branco é tudo escuro?


Quem sabe o que pode acontecer 
quando ao verso já escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta?


Quem sabe o que se vê e não se vê
se por dentro do branco apenas cabe
esse nome que nunca ninguém lê
e o verso que se sabe e não se sabe?


Sobre este poema escrevi algumas notas noutro blog, Cultura Visual, ao evocar Malevitch e os seus célebres Quadrados, Brancos e Negros...remeto para lá, pois não caberia aqui outro texto mais longo.
Como é costume, o que se aconselha agora é que se leia o livro, pois se Nunca Nada está Escrito, ainda menos está lido....(ed. D.Quixote, 2012).



Tuesday, June 19, 2012

Schubert Canto do Cisne

Franz Schubert ( 1797- 1828)
III
Schwanengesang / Canto do Cisne

Neste último ciclo é maior a variedade de estilos e de poemas, talvez porque, sendo póstumo, a organização ficou a dever-se aos seu editor, e não ao compositor.
Os poemas de Ludwig Rellstab (1799 – 1860) teriam sido inicialmente dados a Beethoven, que anotou alguns mas não chegou a compôr; são esses anotados que Schubert terá igualmente escolhido. De um lirismo musical, fluído, rimado e cantado, não formam propriamente um ciclo, pois não há um fio condutor que se adivinhe.
O que há, e era ao gosto do tempo, é uma sucessão de motivos, indicados nos títulos de cada canção: Herbst /Outono, n.1, Liebesbotschaft / Mensageiro de Amor, n. 2, em que nos surge o regato, com a sua água que corre, ligeira e cristalina, como menageiro do amor do poeta.
E assim por diante, com Fruehlingssehnsucht /Saudade da Primavera, n4, até ao poema final, intitulado precisamente Abschied / Despedida, n.8. 
Por muito que se estranhem, num compositor devoto de Goethe e de Heine, estas escolhas mais humildes,  os poemas musicados foram também esses e não outros, e a razão pode prender-se com uma simplicidade que permitia, de tão nua, elaborar melodia e harmonia de forma muito mais livre e mais consentânea com a sensibilidade do compositor.  No Canto do Cisne podemos mesmo assim detectar uma evolução no sentido e no gosto das escolhas. É nesta altura e nesta fase que se desenvolve, com Novalis e Friedrich Schlegel, o conceito de “Fragmento como forma literária de arte” assumindo assim o pleno desafio do Fragmento, da Obra Aberta. 
Na arte do fragmento podia-se fundir filosofia e poesia, um pouco como se verificava nos Ditos, Aforismos, Máximas e  Reflexões ( de um Goethe, por exemplo).
Forma contida, de inspiração oriental (no West-Oestliche Divan de Goethe,a relação é directa ) desafiava o espírito por não ser conclusiva mas antes deixando em aberto, ou em suspenso, a conclusão a tirar. Podia ter carácter moralizador (como em de la Rochefoucauld). Mas o que tinha, acima de tudo, era uma preocupação poética, estética, bebida na ideia de Belo de Platão, mas sobretudo deixando ao leitor ou ao ouvinte um espaço mais largo para a sua própria imaginação criadora, fundindo-a num Todo com a obra apresentada.
 Neste dvd assistimos a uma reflexão do cantor sobre a sua arte, sublinhando a importância de ser fiel a um sentido íntimo que a sua interpretação deverá acompanhar.
Lições de Mestres...



Wednesday, June 13, 2012

Orfeu nos Infernos: a desconstrução de um mito

Orphée aux enfers é uma ópera-bufa composta por Jaques Offenbach, com libreto de Ludovic Halévy posteriormente revisto por Hector-Jonathan Crémieux.
A primeira apresentação data de 1858 e foi considerada a primeira opereta clássica com tal nome.
O libreto recupera a mitologia grega como divertimento por vezes delirante e sempre em busca de uma gargalhada divertida.
É um bom contraponto à melancolia do mito tradicional, sombrio, como nos surge na bela peça de Gluck.
O enredo envolve os dois deuses, Júpiter no seu Olimpo, Plutão no seu Hades, para onde Eurídice, cobiçada por ambos, deveria ter ido.
Neste fragmento Júpiter, sob a forma de mosca, seduz a bela, levando a melhor sobre as trevas ( e sobre o triste Orfeu! )
Coisas dos deuses....

Thursday, June 07, 2012

A Princesa Pele de Burro

Um Conto de Charles Perrault actualizado pelo olhar de Jacques Demy, com música de Michel Legrand e um magnífico cast de actores, de que se destacam Catherine Deneuve, a Princesa, e Delphine Seyrig, a Fada que a protege no seu momento de aflição, quando o Rei, viúvo (Jean Marais) se apaixona pela própria filha.
Todo o Conto tradicional encerra uma lição: neste caso a do impulso do incesto, pulsão ancestral, primitiva (basta recordar os episódios das filhas de Moisés no Antigo Testamento) que a Fada explica e contraria, numa Área subtil e cheia de humor, que desdramatiza o facto enquanto lhe encontra solução: a fuga e a pele de burro que cobrirá a Princesa.
Sendo que o burro é o animal que melhor simboliza as pulsões primitivas que na evolução dos costumes, na moral social, terão de ser sublimadas.
Deve-se ler, a este propósito, o Burro de Ouro, de Apuleio, filósofo do século II da nossa Era, obra a que Marie-Louise von Franz (ilustre discípula de Jung) dedicou um estudo muito elucidativo.
Com mais ou menos erudição, o mundo de encanto e maravilhamento que Deneuve nos traz, neste filme, merece a revisita que aqui deixo.

Saturday, June 02, 2012

Bob Wilson, a Rainha e o Poeta...

 A apresentação dos Sonetos de Shakespeare, pela mão genial de Bob Wilson.
A História de Inglaterra está presente - revela-se na figura orgulhosa da Rainha Isabel I, Mecena das Artes.
O Poeta é o que são todos os poetas....inspirados, mas sempre dependentes!
A recriação do Soneto: um momento do génio criador de Bob Wilson; sabe como evocar um mundo de sonho e fantasia e ao mesmo tempo desconstruir a obra no nosso imaginário.
A leitura surge no fim, em alemão, pois foi uma produção do Teatro de Hamburgo, com os actores com que Wilson, desde o Black Rider, se habituou a trabalhar.
Fica o repto: quem fará algo de semelhante com os Sonetos de Camões?

Tuesday, May 29, 2012

Le Coq d'Or

De Nikolai Rimsky-Korsakov, Le Coq d'Or, a obra-prima inspirada numa lenda popular.
A produção recente de um grande encenador como é Kent Nagano, devolve-nos a atmosfera de magia e maravilhamento de um imaginário orientalizante, com uma abundância e riqueza de detalhes de tal modo sensual que contagia todos: intérpretes e público assistente.
Esta é a Ária de uma jovem Princesa, na realidade emanada de uma força maléfica, no acto de seduzir um Rei que depois será levado a um triste fim.
O libretto desta ópera, da autoria de Vladimir Belsky, é inspirado no poema de Alexander Pushkin, Conto do Galo de Ouro, por sua vez lido nos Tales of the Alhambra de Washington Irving.
A ópera data de 1907, e teve a estreia em Moscovo, em 1909, depois da morte do compositor.
Fora da Rússia foi representada em França e em francês, com o título Le Coq d'Or.
Nesta época de 1907, quando o compositor julgara já ter chegado ao fim e ao melhor dos seus trabalhos, surge-lhe a ideia de caricaturar o Império e o Imperador, que se envolvera numa guerra fútil contra o Japão. Já outro texto de Pushkin, Tsar Saltan, o tinha inspirado, com uma mesma magia feita das trevas da alma, que iremos descobrir em O Galo de Ouro.
A atmosfera é concebida a partir de elementos da tradição popular que adensam o orientalismo patente nas mais belas Árias.
É preciso recordar que já em 1905 a Rússia tinha tido os seus primeiros levantamentos populares, e que a guerra contra o Japão, de que a Rússia saiu derrotada, permitia a ironia severa do olhar dos seus artistas e não apenas do povo martirizado.
Assim, o Rei Dodon, ao avançar para guerras preventivas, como as reais, de Nicolau II, a que se assistira, acabará mal, num fim mais grotesco do que trágico.
Começada em 1906, terminada em 1907, a ópera evoca os massacres de 1905, que não terão perdão. Foi logo proibida na altura.
A Metropolitan Opera de Nova Yorque, conhecida como The Met, apresentou o Le Coq d'Or regularmente em francês, durante a segunda guerra mundial. Existem ainda gravações em inglês e em russo, todas acessíveis hoje em dia, em dvd.
O interessante é como se pode recriar um Conto maravilhoso, actualizando o seu sentido profundo, universal: quando um homem (um Rei) esquece o seu dever de respeito para com os outros, as forças do mal tomam conta da sua alma, que merecerá castigo e talvez pior: anulação.

Saturday, May 19, 2012

Ganymed


Brilhas à minha volta
na radiosa manhã, 
Primavera, minha amada!
Ardem no meu peito
as mil bençãos de amor
do teu calor eterno 
sentimento sagrado,
 beleza infinita!

Pudesse eu prender-te
nos meus braços!

Ah, no teu peito
repouso, com langor,
e as tuas flores, e as relvas,
penetram-me o coração.
Refrescas a sede que arde
no meu peito, 
amada brisa  matinal!
Oiço o canto de amor  
do rouxinol 
no vale envoado.

Já vou, já vou! 
Mas para onde? para onde?

Para o Alto! Subir é a palavra!
As nuvens debruçam-se,
as nuvens inclinam-se 
para o amor que as chama.
A mim! A mim!
subo
para o vosso colo!
Abraçando abraçado!
Subindo para o teu peito,
Pai de Eterno amor !


( J.W.Goethe, trad. Yvette Centeno)


Ganymedes, no coração do mito:
filho do Rei Tros, que deu o nome a Troia, era o jovem mais belo que se conhecia e por isso foi escolhido pelos deuses para servir Zeus.
Consta que Zeus desejava algo mais, desejava-o para seu amante. Assim, disfarçando-se de águia, arrebatou o jovem das planícies troianas.
Hermes, para consolar Tros do seu desgosto e da sua perda, oferece ao desditoso pai uma taça de ouro, fundida por Hephaestus ( o esposo de Vénus), mais dois belos cavalos,assegurando-lhe que Ganymedes era agora um ser imortal, poupado às misérias da velhice, e que sorridente, de taça de ouro na mão, serviria para sempre o néctar divino ao pai dos céus (Zeus).
Todo o mito contém uma lição: neste, o que inspira Goethe, poeta de grandeza universal, é a lição de que a paixão dos excessos do Belo, para ser eterna, não pode durar muito, uma  contradição apenas aparente, o poeta com este poema liberta-se da sua ânsia juvenil, abrindo espaço para outras fases da sua criação.
E ainda outra: que o poeta (o criador) que faz unicamente do Belo a sua paixão corre perigo, pois o muito amor dos deuses que amam o Belo através dele (a sua obra) mata em vez de redimir.


Bibliografia:
Robert Graves,(The Greek Myths, vol. I, II)








Monday, May 07, 2012

Mais Poetas da Catalunha...


JOAN PERUCHO ( 1920- 2003): OS LUGARES DA POESIA

Nascido em Barcelona, em 1920, Joan Perucho é outro distinto criador pertencente à  geração que deu à Catalunha o nome de Pátria das Artes, com um escol de poetas, pintores, ficcionistas, críticos de arte de renome mundial.
Perucho era Juiz, de profissão, mas foi sempre cultor da Arte e distinguido com vários prémios ao longo da sua vida: em 1995 obteve o Prémio Nacional de Literatura da Generalitat da Catalunha, e em 2002 o prestigiado Prémio Nacional das Letras Espanholas.
Dele observa L.Alberto de Cuenca que “escrevia com uma vertigem expressiva” apoiada em sólida erudição, conferindo à sua escrita uma originalidade marcante no conjunto das literaturas da Península.
É extensa a sua bibliografia, com obras de poesia publicadas desde 1947 e de ficção  desde 1953, até 2001.
Aqui deixarei apenas, como já fiz com os outros autores escolhidos, a versão livre do conjunto que foi apresentado em 1996 na Fundação Gulbenkian.
Iremos encontrar tanto a emoção da memória e da cultura (nos poemas dedicados a Vicente Aleixandre e Dámaso Alonso) como a solidariedade com os que sofreram as atrocidades da Guerra Civil de Espanha (como por exemplo no poema Os Soldados ou em Elegia À Terra E Aos Mortos de Gandesa, pequena localidade que foi palco da Batalha do Ebro). 
Reencontro em Perucho, como nos outros da sua geração, um amor à cultura que em Paris, sobretudo, nos seus grandes poetas, ( Baudelaire, mas poderia citar tantos) no rio Sena de águas transformadoras vai nos anos da Guerra e das grandes Ilusões (penso em René Clair, penso em Prévert, o amigo de Picasso) manter viva e ardente a chama da criação. 
Poderá ser mais livre e radical ou mais factual e descritiva, mas será sempre testemunho do Homem que respeitou o sofrimento e procurou a mudança.

AS FIGURAS DE CERA

Reinvindicam um  amor eterno e imarcescível.
Paradas no tempo descem às paragens
que causam horror aos humanos. Mas ficam sempre
com os seus sorrisos extáticos, com desvelo seguro
e não com esta vida impura que envelhece e deforma.
“ O mort, vieux capitaine, il est temps, levons l’ancre”.

Mas estes lábios femininos que suspiram imóveis
não podem dizer todo o horror de Carlota Corday
nem o da Belle Heaulmière que amou o poeta.
Um grito, o pestanejar, o suave gesto daquela mão
tudo agora permanence imutável na sua aparência mais profunda
 O crime é na verdade sangrento; o amor esta cera amarelecida.



OS SOLDADOS

Avançam lentamente pelo caminho enlameado
mas agora já não pensam na mulher nem nos filhos
nem na casa que deixaram para trás, abandonada.
Macilentos
avançam e cantam hinos de violência sob o sol
duma terra áspera e enegrecida. A morte, contudo, 
empurra-os para a frente 
nas suas longas fileiras de tristes destinos, sombras
do que foram outrora. Jamais voltarão a encontrar
a paz daquelas horas que viveram, longínquas
como o écran branco do cinema, como na sede
daquele domingo em que ofereceram o seu tímido amor.


O PAÍS DAS MARAVILHAS

A uma hora de caminho da montanha sagrada
quando os dentes riem sozinhos de forma glacial
e as palmas das mãos voam pelo ar
desafia-se o que é imprevisível
o lamento dos violinos
a íntima tragédia.

Não há escola como a da vida.
Mas há o restaurante económico,
aquele das palavras cozinhadas, recozinhadas,
e os beijos na face com pública virtude.
Amanhã, Senhora minha, partiremos em viagem.
Não sei se jamais nos voltaremos a encontrar.


ELEGIA À TERRA E AOS MORTOS DE GANDESA

Triste flôr de Dezembro
no vento enraizada
nutrida pelo sangue de tantos mortos que nesta terra
foram crescer
em mato e em arbustos;
que na casa paterna
e nss chuvas de Inverno
foram hóspedes alegres
ares cinzentos, miúdas flores do bosque
que, com o aroma do tempo,
perderam os júbilos agrestes da Primavera
tristes alegrias que foram outrora graciosamente concedidas.

Seca e miserável terra. Avaramente apostada em
sobreviver ao pó
daquelas torrentes desoladas
e à infinita melancolia do camponês que chora
sob o grito do abutre.
Dura terra que amo na sua agonia
dura agonia minha
dentro do peito guardada.

Não, não há semente que possa fertilizar a rocha.
Alimentada pelo sangue destes mortos que floriram
em ásperos tomilhos
nada te acompanha a não ser o silêncio,
a espera abandonada,
a imensidade augusta e muda do firmamento.

A BALADA DO SENA

Um rosto difuso passeia sob as pontes
espreita quilhas, o cinzento da madrugada,
vidas entrelaçadas, chuvosas raízes,
mil desejos que se perdem como luzes na água espessa.

São Luís reclinado na Sainte Chapelle.
Os anos passam a voar.
Uma senhora estrangeira penteia-se na parede
e uma rosa floresce no olho esquerdo do grácil unicórnio.

Voam os estandartes. Em Saint-Julien-le-Pauvre
dizem Missa perpétua pelos afogados nocturnos.
Sinto como sobe, agora, a maré.
Como sobe a maré.
E os lábios de Paris.

Algo de fosforecente passa sob a água.
E há um restaurante chinês na rua Grégoire de Tours.
Gertrud Stein morreu faz agora sete anos
com uma doce melancolia perfumada.
Au revoir, mes amours.

Quando o movimento devora este silêncio
uma voz declama, boulevard Saint-Germain,
os versos de uma balada misteriosa e obscura.
Mas sobe-me pelos pés a relva, o mato, 
e também o sangue do meu país.

Debruço-me a olhar o Sena.
Os pássaros de Abril fugiram tristemente.
Penso na minha vida,
alguns dias alegres e distantes.
Outros olhos contemplarão o Sena, penso.
A terra, nos meus olhos, florirá alegremente.




















Monday, March 26, 2012

A Valquiria


 Continuando com esta ópera grandiosa de Wagner, vemos que no segundo Acto se dá então a ver o brilho esplendoroso da Valquíria, Bruennhilde, também ela filha de Wotan e sua preferida, talvez por ter sido gerada com ERDA, a Grande-Mãe, a Natureza cuja voz mística e profunda Wotan não respeitou, fazendo com que a maldição do anel destrua os deuses e com eles toda a esperança de um mundo melhor. Algo que se verá no CREPÚSCULO DOS DEUSES.
De início tudo parece bem no melhor dos mundos, mas a ilusão depressa se desfaz. Surge a severa e impiedosa Fricka, a quem o dever diz mais do que o amor, ainda menos a paixão, pois Wotan, infiel e sempre apaixonado, mas por outrém, não lhe inspira respeito. Assim, enquanto antes pedira a Brunilda ( aportuguesando o nome ) que protegesse Siegmund, depois de ceder cobardemente à exigência de Fricka ( as razões dessa moral parecem pouco credíveis, mais próximas do ciúme do que de outra coisa ), agora exige e com brutalidade que deixe morrer o herói na sua luta com Hunding,o marido de Sieglinde.
As belíssimas Arias de Brunilda exprimem uma consciência moral que falta ao pai dos deuses. A sua voz é a verdadeira voz do Amor e do respeito pela palavra dada.Wotan dissera ao filho que uma espada especial lhe estava reservada bem como uma glória merecida.Deixou-o aceder à espada, tão facilmente como depois lhe retirou todo o apoio. É Brunilda quem se escandaliza com o comportamento do pai, é ela que tenta fazer com que Siegmund não enfrente o inimigo, e será ela quem salvará Sieglinde de um triste destino, não a deixando cair nas mãos do cruel marido.
Wagner põe à discussão, neste segundo Acto, a Consciência e a Honra. Por outras palavras dá-nos de novo a pensar o que significam o Bem e o Mal, numa época (como a sua, de resto) em que o progresso que a Revolução Industrial parecia trazer abafaria as razões mais nobres da Liberdade, do Amor, da Igualdade, da Fraternidade e outros sonhos que pouco a pouco cairiam, como se verificou nas óperas seguintes (e na própria História da Alemanha).
A cobardia moral de Wotan traça o destino do herói.A esfera pendular cessa o seu movimento (ideia fantástica do grande encenador-leitor que foi Chéreau ).
Na última cena, a preocupação de Brunilda com o primeiro pedido do pai (e a palavra dada por ele a seu filho) faz com que tente proteger Siegmund da lança traiçoeira.
Wotan irrompe furioso e quebra a espada: In Stuecke das Schwert ! Que se quebre a espada !
Brunilde foge com Sieglinde e Wotan ameaça castigar a filha que não respeitou a sua ordem.
Retira-lhe a condição divina, fá-la cair em sono profundo no alto de um rochedo rodeado de fogo que só um grande herói poderá atravessar.
Anselm Kiefer pinta em 1980 um acrílico que faz de Brunhilde uma espécie de bela adormecida : a que vemos na imagem colocada ao alto.

António Tabucchi

Agora o seu rosto será visto, um pouco por todo o lado.
Por uns dias, por uns meses.
O que farão dos seus livros?
Haverá Bibliotecas, ou Escolas, a comprá-los?
E os amigos a quem dedicou alguns, irão às suas estantes procurá-los, para reler ou dar a outros para que leiam também?
Deixarão na mesa de cabeceira este ou aquele preferido? Reparando na caligrafia delicada das  generosas dedicatórias?
E antes de adormecer recordarão a suave melancolia do olhar?
Um olhar que desvendava o mundo: na sua beleza, na sua mesquinhez.
O rigor da palavra não era nele um artifício da arte, era o prolongamento natural do seu rigor de carácter, limpo, sem hipocrisias.
Descreveu em Afirma Pereira um país, Portugal, nas décadas de 30-40, onde uma burguesia de pequenos funcionários olhava à sua volta com suspeição, e muita reserva feita de temor.
Temor que a constante presença da polícia política quase justificava.
Digo quase.
Porque há momentos em que a dignidade obrigaria ao protesto, e ao exemplo.
Há na vida e na obra de Tabucchi esse  apelo ao exemplo, e sinto que tanto mais haveria a aprender com ele, se não nos tivesse deixado, em plena Primavera.
Passaram mais de dez anos sobre um belo Colóquio de Homenagem, na Fundação Gulbenkian: e António, amigo de filósofos, pintores, poetas, eruditos, tradutores, ali conviveu com eles, reunidos em breves quatro dias. Agora penso que deveriam ter sido  anos, e não dias. 
O Tempo foi afinal muito severo com ele, a Parca estava atenta, e ciumenta. Aguardava o momento, que chegou num dia de Primavera enevoada. 
António cedeu e foi com ela, nós ficámos mais sós e ainda mais pobres.

Sunday, March 11, 2012


JORDI DOMÈNECH  ( Sabadell 1941 – 2003): PORTAS E LIMIARES 


Nasceu em Sabadell, arredores de Barcelona e berço, pelo que fui descobrindo, de um grupo de artistas, poetas, pintores, que ali já tinham ou vieram depois a adquirir as suas casas, e nas montanhas circundantes os seus profundos lugares de inspiração.
Já falei de Perejaume, a quem dediquei um poema, publicado em 1997, no meu livro
ENTRE SILÊNCIOS :

Visitarei um dia
essa floresta
perdida no alto
da montanha
com a famosa caverna
das palavras
por onde fugiam 
ratos
e morcegos
arrepanhando os sonhos
do poeta
Poeta que já não escreve:
ergue palavras-pedra
escolhendo cada palavra
com cuidado
obedecendo às ordens
do Senhor da floresta
o Rei dos Álamos
que o obrigava a construir
cavernas
com as palavras escuras
das pedras
que encontrava

palavras que eram castelos
caves túmulos muralhas

palavras que aprisionavam
e que ele agora
esquecia
e recordava...
(y.k.c.,1997)



Confesso que fui surpreendida, com grande desgosto, pela morte de Jordi, com quem tinha estabelecido uma relação de amizade fraternal, e a quem devemos, nós poetas portugueses, o seu gesto de elegância, de tradução numa plaquette de 1997, feita em Sabadell, a terra mágica de um conjunto de poemas que intitulou
 DINANT A BARCELONA,
SOPANT A LISBOA
(PER A LA NÚRIA, QUE HI ERA) : Núria, sua mulher, então falecida deixando-o a ele profundamente abalado.
Na plaquette que nos ofereceu encontramos os nomes de Casimiro de Brito, Egito Gonçalves, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, José Viale Moutinho, Nuno Júdice, Rosa Alice Branco, Yvette Centeno. 
Vê-se pela escolha dos poemas que conhecia bem a nossa literature, e sinto que lhe é devida a homenagem que agora sou eu que lhe desejo prestar.
Estará o poeta junto da sua amada Núria, quem sabe a acompanhar o meu trabalho de renda: pois a tradução de um poeta é sempre um trabalho de minúcia, de renda, de carinhosa empatia.
Jordi nasceu num meio operário, o pai foi perseguido pelo regime de Franco devido à sua fidelidade à República. Ele, já maior, estudou desenho industrial na Escola Massana de Barcelona.
Autodidacta na formação literária, com obra publicada desde 1970, é sobretudo no livro que escreve depois da morte da mulher, em 1997, AMB SENSE, COM SENTIDO (ed. 2002) que atinge o ponto mais alto e impressionante da sua carreira. Poeta transgressor, de rupturas e olhar inovador é considerado um dos maiores da Catalunha do século XX. 
Foi igualmente tradutor de inúmeros autores, ao longo da sua vida, e por essa razão foi criado em 2005 o Prémio Jordi Domènech DE TRADUÇÃO DE POESIA.

Os poemas escolhidos pertencem ao livro História da Arquitectura ( ed. 1995). à excepção dos dois últimos e por aqui se poderá ver como o seu olhar se comprazia em descobrir, revisitar, cidades, espaços de museu que para ele não são apenas cemitérios mas antes refúgio e memória de dôr como de arte e de artistas.


SALAS DO MUSEU DE LAMEGO

Estas salas brancas por onde o homem
deambula por detrás dos seus óculos
de armação pesada e lentes grossas
( a sua miopia magistral ) 
(nas paredes seis tapeçarias flamengas)
perscruta, entre os fios, misteriosos
rituais: lã, seda, labirinto
dando a ver aos meus olhos personagens
que já não vejo.
Na mão direita levam 
cachos de touriga onde bate o sol.


POMBAL NO PÁTIO DA CASA DE BONASTRUC ÇA PORTA,
NA JUDIARIA DE GERONA

Triangulação dos azulejos
repetidos sobre descoloridos
ocres de chuva. Descida até ao fundo
de um jardim sem fundo(as flores vermelhas
sobressaem do verde) (os sefiroth
que caem das mãos) (alusões 
ao pensamento moderno? ). Banhos rituais.
O cego, vidente. As palavras formando
um vazio de sabedoria. Os gerânios.


NA ESCURIDÃO, O LOUREIRAL 

Na escuridão o perfume do loureiral
é de piedosos e apagados aromas: mais próprios
do húmus: o estropiado, belo, espia
o rumor que sobe ( o cérebro mais
alto dos inomináveis estados).
Sábado, Dezembro, à noite. Desfazem 
a memória armários cheios de livros
no palácio paterno que alberga o gelado
fascismo. O insuportável rumor
de asas de anjo que tansportam e deixam
suavemente em terra a casa santa
com revestimento de mármore 
de quinhentos, fumo e fartura de pombos.
A farsa começa a expansão.

(do livro “contas da revolução” ) 


POR ESTAS PRAÇAS, RUAS E ESCADAS

Por estas praças, ruas e escadas
correu o sangue (Não é uma frase
feita: parece que foi literalmente 
assim). Inocência. A aura move
as caras dos espectadores, sobe
uma dôr pelo seu flanco esquerdo,
imperial, alguém que circula com
algma coisa descabeçada e um
velho estranho que come um galo
da Índia com chanfana. Tudo entre
dois enormes espelhos um pouco
inclinados reflectindo muitíssimas vezes
os meios corpos, as caras, os poentes,
durante aquele longo fim de semana.

( do livro “contas da revolução” )





   







Saturday, February 11, 2012

Perejaume:Os Lugares da Pintura

Nasceu em 1957 na Catalunha, cresceu numa quinta, e talvez por isso o amor à terra, terra-mãe, generosa e dura, nunca o tenha deixado por completo. 
A sua obra distingue-se, na poesia, prosa poética ou reflexiva, tanto como na pintura e na escultura, por uma atenção peculiar à natureza, ao mundo que o rodeia, à intervenção que a própria arte exige.
É marcante a influência que sofre de Joan Brossa, o grande modernista, também no seu duplo interesse por pintura e poesia, como se o impulso existisse quase que em simultâneo e logo desse modo se manifestasse.
Ganhou em 2005 o Prémio Nacional de Artes Visuais da Catalunha, em 2006 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Plásticas e em 2007 o Prémio Nacional de Espanha para as Artes Gráficas.
Revela-se um artista de múltiplos interesses e criatividade, algo que já nos encontros de 1996, em Lisboa, se podia descobrir nos textos que deixou e aqui apresento em versão livre.
No título de um dos seus livros de 1989, já se vê que entendimento tem da produção artística; o título reza: “O que é a collage senão reunir solidões?” E na realidade ultrapassa solidões ao interessar-se por pintura mas também por fotografia, video, e não desdenhar o fazer instalações, por precários que se entendam esses momentos.
Perejaume entende a precariedade da arte, como da vida.
Relativiza, com ironia ácida por vezes, mas severa na exigência do fazer que oferece ao olhar e ao pensamento dos outros.
O mundo natural nunca está longe, e sobre o natural e o artificial no conceito de criação reside a sua diferença e como por vezes diz, a sua” dissenção”.
 Ele difere, não segue, não imita, não concede.
Criou um ciclo interessante, deste ponto de vista: Formas da Dissenção (Formes de la dissenció) em 1990-91, e neste mesmo espírito expôs variadas obras na galeria mais célebre de Barcelona, a Galeria Joan Prats ( de que Brossa era também um dos artistas).
É talvez mais conhecido pelas performances, workshops, instalações feitas ao longo dos anos, mas os textos que aqui ficam explicam muito do sentido, da originalidade e actualidade do seu pensamento criador.
Veremos nestes poemas a espessura (a matéria na imagem), a reflexão e a ironia de  um permanente desafio, lançado a si próprio e a nós todos.
Em muitos dos poemas que ele mesmo escolheu podemos ler uma teorização da pintura moderna, sua e alheia, à qual de vez em quando recorda que não há imagem que suplante a emoção da própria natureza: ele contempla-a no alto das suas montanhas pirenaicas!
Tal como fiz com Arnau Pons, apresentarei aqui algumas versões dos seus poemas, esperando a benévola reacção dos meus leitores. 
Traduzir é como se sabe, parcialmente trair, mas a quem ama a poesia tudo deve ser perdoado! 
A GRANDE COLHEITA
Na casa, o fogo faz arder portas falsas.

É deus Polar, vertical como os merididanos,

e com os cimos em cruz na flor da azinheira, ergue-se

diante do Cruzeiro com o Hissope nas maõs.



Brota na torrente a cauda de um cometa,
pela encosta abaixo, saltando sem barulho, 
enquanto os palheiros, em branco ou em maquette
enchem a Carroça grande ou a mais Pequena


Fundem-se pouco a pouco na dôr,
a água é um bosque ainda não consumido,
com flocos de casa no ar puro.


Sobre a folhagem luz a serrania,
arde nas rochas a água prateada,
suspenso no céu o fundo obscuro.




MOLDURA
A serrania e a tarde são uma
única moldura de ouro velho e sombras:

não há barrancos pirenaicos nem círculos de lua

descritos no cinzelado fantasioso



da talha, o acanto luminoso que faz ondular

as águas, a concha de turvo nevoeiro fundida

no alto com a espessura de algum antigo

arvoredo no lugar mais distante



onde se cruzam as brisas do museu
e a pintura, com a marca indivisa
que fecha a tarde sobre um Pirinéu
dourado, completamente vago, impreciso…

O PESO
O peso dos quadros é bom de sentir quando é real, porque os levamos às costas, subindo sempre, e ainda mais se é para algum lugar onde raramente se deslocam os pintores. O peso dos quadros é, pelo contrário, aborrecido, se de termos já visto tantos o quadro se torna como que um peso morto, tão igual que nos cansa e nos afasta, desejando fugir para mais longe, mas sem que haja maneira de o fazer, tudo o que vemos se parte em quadros, e cada quadro em dúzias de quadros iguais.

POSTNATURALISMO  1
Alongar um Giacometti, endireitar um
Soutine, encher os Fauves de cinzentos,
encurvar um Mondrian.


POSTNATURALISMO 2
Obter com tranformações 
genéticas, realmente, numa
rosa, o vermelho com que 
pintava Emil Nolde uma rosa.

O MONTE
Num extremo da língua, num extremo
inclemente da língua, distante e sem empatia,
dar um concerto. Levar os instrumentos e as
cadeiras, mas depois não interpretar nada…
Que os instrumentos também ouçam, lá cima,
o volume extremo da língua. 


DESDESENHEM TUDO



Desdesenhem tudo e ponham na tela os desdesenhos! Procurem

com afã novas dilações! Nunca saberemos se os quadros nos

estorvam ou nos ajudam. Levamos na cabeça um lugar vingador,

e é com esse irreprimível desejo de pintar que exortamos os 

brancos luteranos, a erosão dos narizes, os formatos abertos…

e com fixadores por cima do apagar de borrachas quase  

descobrimos uma vontade forte no deixar de fazer.