Sunday, July 20, 2008

Arpad Szenes



Num artigo que escrevi há algum tempo para a revista MEALIBRA, ocupei-me desta obra emblemática de Arpad, Le Couple.
A exposição agora oferecida  pela fundação EDP escolhe como imagem fundadora exactamente este quadro, tão carregado de tradição e simbolismo.
O subtítulo, Vieira da Silva Arpad Szenes e o castelo surrealista, é muito interessante pois sabemos como os surrealistas valorizavam o exercício da libertação (automática ou não) das imagens e arquétipos do inconsciente, para eles o verdadeiro repositório do possível ambicionando a passagem a acto.
Verdadeiro fio condutor serão os esquissos que conduzem ao produto final do óleo.Já no desenho do convite da exposição está presente a mancha circular, laranja, que envolve os corpos, aludindo à esfera andrógina primordial.
O título do meu artigo, que citarei, era ANDROGINIAS: DE KLIMT A ARPAD SZENES.
Aí escrevo que o par está inserido numa representação mandálica, definida pelo arco superior, quase disco solar, que os limites do cavalete (à esquerda do observador) e da perna e tampo da mesa (à sua direita) ajudam a definir.
As cartas na mesa permitem que também nós, de modo surrealista, façamos uma interpretação bem subjectiva: são as cartas do destino que os uniu, está feito o jogo, as cartas estão lançadas, face a elas o par unido abraça-se. O negro da figura feminina evoca o negro da alma, a pulsão que será convertida na unidade da vida e obra.
A figura masculina tem, pelo contrário, os pés bem assentes no chão, suporte da realidade objectiva; a mão direita ( a razão) apoia-se na mesa, a esquerda ( o sentimento) abraça já a mulher  ( o Eterno Feminino que será sempre o seu); marido e mulher figuram aqui o par andrógino primordial, vendo-se bem como a mulher repousa no marido, na sua energia luminosa, com a cabeça encostada à dele e o braço passado à volta do seu pescoço.
O elemento masculino revela-se como suporte delicado de um feminino sombrio ( o negro do vestido é poderoso), como a razão actuante se revelará, na criação, como suporte do caos negro do inconsciente libertado. 
A obra de arte exige ordem,  e a estrutura que ordena o conjunto é tão ou mais importante do que o próprio impulso de criação. E também na memória artística influi a tradição: cultural ou outra.
Teríamos Platão, para a memória do andrógino, e a perfeição primordial que o mito simboliza.
Teremos Klimt, com O Beijo, para a memória artística mais próxima de Arpad.
O Par evoca O Beijo:
Um mesmo enquadramento mandálico, no caso de Klimt com o brilho excessivo das pedrarias  de que ele tanto usou e abusou nas sua produção. O simbolismo andrógino de Klimt é mais directo, o de Arpad mais discreto. Em Klimt os corpos ocupam todo o espaço, em Arpad há espaço (como o teve na vida) para o atelier e a obra ali mesmo apontados.
À representação sensual e orientalizante de Klimt podemos opôr a leitura moderna que Arpad nos deixa do mito (colectivo, platónico, tanto como pessoal, da vida íntima de marido e mulher, ambos artistas). 
O Par é um quadro que ilustra a união de dois artistas que se amam mas não deixam de ser pintores, vivendo essa união  no atelier onde uma outra parte da sua vida irá decorrer para sempre.
Se Klimt funde os amantes num beijo Arpad une os artistas na obra. A sua marca será ao mesmo tempo pessoal e colectiva, mais moderna e mais universal: pois na união tanto ele como Helena, sua mulher, conservam a sua identidade própria; entregam-se, e encontram-se, não se perdem. A própria composição aponta estes detalhes : o par está atrás da mesa, que de algum modo interrompe o que se poderia julgar fusão total; e as ramagens altas do vaso ultrapassam as cabeças encostadas, desviando um pouco mais o nosso olhar, obrigando a que se saia do exclusivo ângulo do par .
Recordo uma frase de Paula Rego: " um quadro não é uma narrativa, é uma composição, temos de considerar os planos, os ângulos, os elementos verticais, horizontais, circulares,etc. inscritos na composição e ainda o jogo das cores e da matéria ou matérias utilizadas...".
Para além do círculo solar que envolve Arpad e Helena daremos ainda atenção ao negro e ao branco, pares de opostos que ( como no jogo da consciência e do inconsciente tão valorizado pelos surrealistas ) nos permitem uma leitura mais vasta, própria dos grandes arquétipos fundadores.


Wednesday, July 09, 2008

Sete Partidas



Doze Naus, Sete Partidas...
Manuel Alegre continua em viagem: pela História, pela Memória, aprofunda um canto Camoniano, Pessoano e que, à semelhança dos seus antecessores, não desvia o olhar do mundo ( o país) que o rodeia.
Percorre cidades, mas detém-se na sua, que é uma cidade da alma.
De D. Pedro, o guia, retém o desejo de mudança. Desse desejo nasce o poema, permanente  interrogação e enigma:

" Como Santo Agostinho vou pelos campos
da memória. Pronuncio o nome de D.Pedro
e o que fica é o nome não a imagem

porque tudo na memória se contém
e tudo é palavra que nomeia.
Digo D.Pedro e ao certo eu digo quem

é nome e mais que nome tempo e História
e mais que tempo e História é a própria ideia.
Vou com D.Pedro pelos campos da memória."
(poema 5 )

Poesia descritiva, intencional na meditação que propõe, sobre as mudanças e as esperanças dos tempos.
O nosso tempo é de insónia, e "um poema escreve-se entre a noite e a manhã/quando as águas irrompem na memória" (poema 12)... que rasto deixam, neste país, nesta cidade, nesta Europa que melancólica perdeu o rumo, que era destino fundador e inicial? Pessoa diria iniciático, mas Manuel é mais simples, mais directo:

" Em Lisboa assina-se um tratado mas agora
Europa já não é o umbigo do mundo
o vasto mundo global e em toda a parte o mesmo
à mesma hora nos telejornais
...
É então que D.Pedro já regente
concede a D.Henrique a exploração do mar.
E o poema escreve-se quando se aprende
em português o verbo navegar." 
(poema 9)

A navegação hoje é feita em águas profundas, da memória em revolta.
Penso, ao ler este poema: em que salas de aulas poderíamos, a propósito da História de Portugal, explicar o sentido que aqui se esconde e se revela? 
E explicar pelo meio as referencias a Platão, a Aristóteles, Santo Agostinho, Cícero e às cidades de cultura, Bruges, Roma, Veneza, e o que na arte maior aí acontecia?
Fico a pensar se esta Hora ( nada Pessoana) será mais de retirar-se do que de enfrentar um mundo que não deseja escapar à sua condição de alienado e alienante de uma realidade que parece cada vez mais escapar-lhe.
Manuel Alegre foi sempre um lutador e não cala, não esconde, o seu protesto:

" A roda trituradora põe-se a girar
microfones perguntas entrevistas.
O poema escreve-se enquanto leio
com D.Pedro o elogio do Benefício
quem o pode fazer e quem não pode

e de como Aristóteles recomenda
o necessário entendimento de quem faz
e do estranho capítulo em que os servos
podem dar benefícios aos senhores
ou das obras morais que são exemplos.

Coisas que não preocupam quem rasteja
nos corredores da corte e da intriga
...
Com D.Pedro escreve-se no conflito
entre o apelo público e a voz de dentro
no desejo de paz e solidão
em Veneza ou Coimbra onde o poema
pode escever-se traduzindo Cícero".
(poema 10) 

O poema continua, na sua busca do que chamará " a frase certa a escrita nova".
A D.Pedro como a Manuel Alegre, nesta identificação poética, se coloca o dilema : intervir ou aguardar que algum momento, alguma palavra mais íntima, mais secreta e mais certa indique outro caminho.
Na poesia há só um e o mesmo caminho: a escrita, que se expõe, como no dizer paradigmático de Celan: " A poesia já não se impõe, expõe-se".

Aqui se expõem os dilemas de quem pode ser voz que cala ( a escrita, no recolhimento e na intimidade ) e voz que fala ( a da interrogação e exigência face ao mundo em mudança):

"Chega um tempo em que um homem se interroga
sobre o último sentido ou o sem sentido
o como o quê o para quê e o para onde
um tempo de balanço em que se mede
o vivido e o não vivido.
E o poema escreve-se"
.... (poema 11)

Não resisto a trazer aqui a dupla imagem dos hemisférios do tempo a que alude o Padre António Vieira, outro dos gigantes da nossa cultura que celebramos este ano:
" O tempo (como o mundo) tem dous hemisférios:um superior e visível, que é o passado; outro inferior e invisível, que é o futuro.No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo, que são estes instantes do presente que imos vivendo, onde o passado se termina e o  futuro começa (...)Oh, que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descubrimento! "
Neste Livro anteprimeiro da História do Futuro (ed. crítica de J.van den Besselaar) os hemisférios do tempo abrem-se à utopia que, fundada na História, pretende redesenhar um destino glorioso. Fernando Pessoa, bebendo também ele no mesmo mito antigo saúda a memória, mas antevê o nevoeiro caindo sobre a Pátria. Manuel Alegre, nesta sua viagem de exaltação de um D.Pedro filósofo, letrado, utopista a seu modo, recupera um tempo cujo horizonte (o presente que imos vivendo) apela à reflexão, para que do poema nasça uma palavra certa, no limiar da esperança. 

Não concluo, deixo ao leitor  o verdadeiro prazer de ler e descobrir.
(Manuel Alegre, Sete Partidas, poema, edições Nelson de Matos, 2008 )




Tuesday, June 17, 2008

Brecht / Kurt Schwaen

De mais um dos muitos colaboradore que compuseram para Brecht, esta Cantiguinha.
 Irónica e popular, mostrando a diversidade de estilos e fontes de inspiração da obra de um grande autor, para quem não havia géneros "menores":

Kleines Lied/ Cantiguinha

E uma vez um homem
aos seus dezoito anos
à pinga se entregou:
a morte lhe causou
morreu logo aos oitenta.
É claro como a água...

E um bébé um dia
de súbito morreu
e tinha só um ano,
por isso é que morreu.
Beber ele não bebeu,
morreu só com um ano.

É claro como a água...
teremos de dizer
o álcool não faz mal...
  

Brecht/ Dessau

De beleza pungente e grande contenção, este Deutsche Miserere que bem diz, ao modo quase de um Hai Kai, como foi grande o sofrimento e a desilusão do post-guerra, na Alemanha.
Canção de Brecht, musicada por Paul Dessau, um dos grandes que o acompanhou.

Miserere Alemão

Sou ainda uma cidade,
por pouco tempo.
Cinquenta gerações 
já me habitaram...
Recebo agora
o pássaro da morte

 em mil anos erguida 
numa lua abatida.


(Recordo apenas que a letra foi adaptada à música, para ser cantada em português).

Sunday, June 15, 2008

BRECHT: Balada da "puta de judeus" Marie Sanders

Esta é  mais uma das aventuras que a obra de Brecht nos proporciona, e a que poderemos assistir no Recital do Festival de Almada.
O desenho que reproduzo é de Bert Tombrock, datado de 1940 - ainda a guerra não terminara- inspirado na balada de Brecht/ Eisler.
Nesta balada se conta a história de uma jovem que se apaixonou por um judeu  e ia ter com ele quando podia, até que foi denunciada por isso, e castigada, de acordo com a nova legislação anti-semita, produzida em Nuremberga: cabeça rapada como criminosa, placa ao pescoço com a inscrição "puta de Judeus" e travessia das ruas para ser publicamente ainda mais humilhada, como lição a outras e outros que se atrevessem ao mesmo ( a mistura das raças...).
Podíamos discutir a actualidade deste texto.
Na minha opinião não podia ser mais actual. O Julius Streicher que é citado no poema existiu e foi,  um poderoso anti-semita, director do  Stuermer e íntimo colaborador de Hitler, que  defendeu no célebre Putsch da Cervejaria de Munique.
Mais tarde foi feito Gauleiter (comissário político) da região da Francónia onde promoveu as perseguições dos nazis  aos judeus, tendo conhecimento dos planos da "Solução Final" e tendo sido, por isso, nos Julgamentos de Nuremberga, condenado à morte e enforcado. Entretanto, quanta gente inocente era levada, como esta pobre Marie Sanders, cujo destino final Brecht deixa em aberto. Mas claro, o Holocausto iniciara, com estes e com tantos outros episódios, fruto de novas leis contra os civis judeus,  a sua marca negra na História. 
A História tem de ser recordada: não nos enganemos, com os movimentos actuais dos skinheads, um pouco por todo o lado, os mega-concertos de histeria colectiva ( que no poema o rufar dos tambores na rua bem evoca), os símbolos recuperados, como se de brincadeira se tratasse, e ah, não esquecer aquela eterna e perversa capacidade de denúncia que o ser humano tem e logo põe em prática, se daí adivinha algum proveito.
Há muita lição escondida que podemos retirar deste poema.
O mundo fecha os olhos aos novos genocídios, às novas humilhações, e haverá sempre algum chefe, ou talvez só algum "modesto" vizinho, disponível para o afiar da faca, o apontar do dedo, o pendurar da placa, o aplaudir da rua... 
Não foi fácil o trabalho de tradução da letra de Brecht, de modo a respeitar ao máximo a partitura belíssima de Eisler. O resultado aqui fica, depois do prazeiroso exercício (como diriam os nossos amigos brasileiros) feito com Luís Madureira, Teresa Gafeira e last but never least, Jeff Cohen, o grande companheiro de aventura.

Balada da "Puta de Judeus" Marie Sanders

Em Nuremberga passaram uma lei
fazendo chorar muitas mulheres  
que dormiam com o homem errado.
"Mais e mais gente nas ruas,
com força toca o tambor,
Deus do Ceú, se houvesse alguma coisa
seria hoje à noite"...

Marie Sanders, teu amado 
tem o cabelo muito preto,
 melhor é não o  veres hoje, 
como ontem o foste ver.
" Mais e mais gente nas ruas,
com força toca o tambor,
Deus do Céu, se houvesse alguma coisa
seria hoje à noite"...

Minha mãe, dá-me a chave
nem tudo corre mal,
A lua está igual.
"Mais e mais gente nas ruas,
com força toca o tambor,
Deus do Céu, se houvesse alguma coisa
seria hoje à noite"...

Certa manhã, às nove, atravessou a cidade,
de camisa e de placa ao pescoço,
o cabelo rapado, a rua aos berros,
ela de olhar gelado...
" A gente fica nas ruas,
o Streicher vai falar esta noite...
Grande Deus, se soubessem ouvir,
saberiam o que fazem comnosco ".

Já agora e para que não se estranhe, há diferença, neste último verso, entre a edição alemã e a partitura de Eisler: onde acima eu traduzi,olhando só o texto, "saberiam o que fazem comnosco", tem Eisler: "saberiam o que fazem com elas". Esta versão será a respeitada, no recital.
 A alteração pouca importância tem, face ao sentido profundo do que Brecht pretendeu dizer.






Wednesday, June 11, 2008

Canções de Brecht


O Festival de Almada apresenta este ano Canções de Brecht que serão interpretadas por Teresa Gafeira e Luís Madureira, ambos bem conhecidos no nosso meio artístico.
Teresa deu a sua voz ao Marinheiro de Fernando Pessoa, ainda recentemente, trazendo ao público uma das obras do nosso notável poeta, cujos segredos ainda continuarão a ser desvendados por mais algum tempo.
Quanto ao Luís, quem assistiu ao recital de Façade, no Teatro São Carlos, também recentemente, não mais deixará de acompanhar qualquer espectáculo seu. 
Ao prazer que nos é sempre dado, se gostamos de teatro e de canto, acrescenta-se, com estes artistas, o prazer da inteligência subtil das suas interpretações. Com eles estará Jeff Cohen, cujo curriculum inclui o ter acompanhado as grandes divas brechtianas, e isso mais uma vez recentemente em Paris. 
Sublinho o recentemente, para que se note que a escolha de Brecht por estes intérpretes não é regresso ao passado, mas antes o elogio e o cântico de um eterno presente que texto e música ajudarão a entender melhor. 
Num ensaio de 1935 Brecht afirmava que era a música "que permitia a existência de um teatro poético". A música o ajudaria à refundação de um novo modelo, que chamou  de teatro épico , conseguindo, através dos "cortes" musicais que interpunha no texto, os seus melhores efeitos, de distanciação e de surpresa, por um lado, mas também, ( e disso talvez ele não estivesse à espera) de uma enorme adesão e sucesso. As canções adquiriram vida própria e eram cantadas por todo o lado...
O renome de Brecht ficou a dever-se, em primeiro lugar aos libretos de ópera, aos bailados, às cantatas drmáticas, filmes, e até, escreve um dos seus estudiosos, "jingles comerciais". O que não entrava pelos olhos no palco teatral, com Brecht entraria pelos ouvidos: a sua carreira artística estava traçada. 
Um célebre crítico musical do seu tempo escrevia: " A Nova Música da Alemanha encontrou o seu poeta. O poeta é Bertolt Brecht".
 Basta dizer que, das suas quase 50 produções dramáticas, só uma não é musicada. E continuando, com os números dados por Kim Kowalke ("Brecht and music: theory and practice", in The Cambridge Companion to Brecht) mais de 600 dos seus mais de 1500 poemas indicam nos títulos e mostram na estrutura o género musical (balada, canção...etc.). 
Recital a não perder.



Tuesday, June 03, 2008

Arte e História Militar


Da Série História Militar, é publicada na ed. Prefácio esta obra dedicada ao Exército Português na Guerra Peninsular 8vol.1, do Rossilhão ao fim da Segunda Invasão Francesa,1807-1810). O autor é João Torres Centeno, advogado de profissão, que se tem dedicado a estes estudos, continuando com este volume uma série que tem surgido com o alto Patrocínio da Comissão Portuguesa de História Militar.

Apresenta-se nela o que o autor define como um breve desenvolvimento, desde 1640 até às reformas do fim do séc.XVIII e mais detalhadamente a organização desde a campanha do Rossilhão até ao fim da 2a. Invasão, quando se funde com o Exército
Britânico no exército de operações. Este viria a ser o embrião do Exército Anglo-Português, superiormente comandado pelo futuro Duque de Wellington, vencedor de Napoleão em Waterloo.
Duas chamadas de atenção: com abundante matéria de investigação, muito e interessante material iconográfico, lembra que a História de Portugal se fez de muita inteligência e arte militar, e desde longe.
Para quem se dedique a estes assuntos, recomenda-se que acorra à feira do Livro, enquanto é tempo. E que se leia, sempre, e cada vez mais, não deixando que se apague a nossa memória política, social, cultural. Pois vendo bem, onde há leitura e cultura a memória estará sempre presente.
Cito o director da Fundação Murnau (para o cinema ), o que ele diz serve para toda a memória cultural:
" O que seria a vida sem memórias ?
O que seriam as memórias sem imagens?
O que seriam as imagens dos nossos tempos sem o cinema ?"

O livro ainda  é o nosso cinema, no tocante à memória histórica.

Monday, June 02, 2008

Fashion Now 2


Af Vandevorst:
" Fashion is a language".
" Beauty lies in the unexpected".
E quanto às lições de vida: " A rolling stone gathers no moss".




Wednesday, May 28, 2008

Memórias do Holocausto


Com o título de DIE ZEICHNUNG UEBERLEBT , O Desenho Sobrevive, publicou Maike Bruhns uma obra com os testemunhos de presos do campo de concentração de Neuengamme ( Ed. Temmen, 2007 ).
São presos oriundos de vários paises: Dinamarca, Alemanha, França, Holanda, Noruega, União Soviética, Hungria, todos têm em comum o serem ou judeus, ou ciganos, ou comunistas ou simplesmente resistentes activos contra o nazismo e sua ideologia perniciosa, que não desejaríamos ver reproduzida sob nenhuma outra forma, manifesta ou  oculta.
Aquele que, por se sentir todo poderoso ( ilusão que os tempos, a prazo, se encarregam de destruir ) se permite ofender, perseguir até à violação dos mais íntimos direitos e preceitos da dignidade humana, da relação com o outro, merece que o denunciem.
Estes presos, que tinham o dom de saber desenhar cumpriram esse dever da denúncia, no desejo de que a memória perpetuada não voltasse a permitir tal horror. 
Encontram-se nesta obra exemplos comovedores, pela capacidade de resistência (marca do homem profundo). 
Mas chegou a hora de apontar para as imagens que agora e repetidamente as televisões de várias partes do mundo nos dão a conhecer: as crianças morrendo à fome no Sudão são uma parte do que o Ocidente está a permitir, em muitos pontos da África sofredora. Como permitiu, durante um tempo, que se morresse nos campos de concentração. 
Nós, entre nós, discutimos neste momento a fome em Portugal: está nas cinturas de Lisboa, ou mesmo no seu coração. Está fora dela, no chamado Portugal interior. 
Que mão irá desenhar esses rostos, esses corpos, esses olhos que já não olham de frente?
Não tanto para compaixão como para alerta? E só agora se deu por isso? 
Os novos campos terão outro nome, mas serão à mesma campos de abandono e sofrimento inenarráveis.
Na imagem vemos um preso doente a ser obrigado a mostrar aos guardas se ainda tinha diarreia. Se tivesse voltava mais um dia à barraca hospitalar; de qualquer modo, passado esse dia, estivesse melhor ou pior voltava ao trabalho ou era gazeado, se demasiado fraco.
Nós que fazemos com os fracos ? Que país é este?
 E que Europa é esta, já que dizemos que é tudo culpa da Europa?




Saturday, May 17, 2008

Os poemas de Jayro


Chega-me às mãos, enviado por Henrique Chaudon, poeta amigo, o livro de poemas de Jayro José Xavier:
POEMAS, 2007.
Abre com duas Epístolas, cuja elegância clássica nos conduz, pelo embalar do verso, até aos nossos mitos culturais de raiz mais profunda. Evoca Ovídio, um dos  grandes Mestres, mas é de Orfeu que recolhemos o lamento:
" Este é um tempo sem mitos
onde Orfeu sufoca.
Inútil pretender
a primavera, o brando 
rumor dos remos nas 
águas. E aqueles deuses
claros, aqueles deuses
de uma era sem orvalho".

No Brasil como em Portugal, sem nenhuma necessidade de acordo ortográfico (que parece imposto por razões que nada têm a ver com nossa mútua cultura) a poesia cresce nos seus lugares naturais, onde é amada e lida, cá e lá. Sempre li os autores brasileiros de que me ia informando e cuja leitura me apaixonava. Recordo Clarisse Lispector, era eu muito jovem ainda. E tantos outros. Penso: o que fará o acordo a um autor como Guimarães Rosa ? E se agora, por um acaso feliz, de mão de amigo, leio Jayro, direi com ele, no seu poema :
Eu Me Defendo com Sintaxe e Rosas

"Eu me defendo com sintaxe rosas
de teorias e teocracias,
quais, por aéreas brisas, fugidias
e quais, por duros ventos, desditosas.
Com soprarem as duas, enganosas,
de trevas são as trilhas destes dias,
daí a minha espada- de- utopias
ferindo o mundo (e mote) em novas glosas.
Fará meu verso a fábula fecundo
e, um dia, um trovador de Sagitário
o reino que habitemos mais jucundo.
Terçar armas com reis é temerário;
pior, porém, é repensar o mundo
sem alma de poeta visionário".

Como não sentir o eco camoniano, doloroso, neste soneto que os tempos e o tempo tornam tão actual ? 
O livro de Jayro lê-se de um fôlego, e depois torna-se a ele para recuperar o gosto das nossas próprias emoções perdidas. 
Ele diz, como Pessoa diria: "Sou um bicho que pensa.E a quem oprime/ a solidão de ser, sem nenhum crime" (in Dois Sonetos do Último Verão).

Deseja-se um Acordo? Publiquem-se em Portugal estes poetas das novas gerações.O seu sopro é moderno, nem podia ser de outro modo, e a sua cultura é universal.
 

Thursday, May 15, 2008







Está de saída O MARINHEIRO de Fernando Pessoa, na belíssima encenação de Alain Ollivier. O bom gosto da encenação define-se pela simplicidade elegante, contida, do design de luz, dos tons de cena, cortina inicial e final como que tecida na própria névoa do texto, máscaras que unem a diversidade, ainda que só aparente, das três irmãs veladoras, mas acima de tudo e isso tem de ser sublinhado e aplaudido, a indicação do modo de dizer o texto pessoano (difícil quanto baste): as vozes correm leves e fluidas, como um sopro, adquirindo só a dado momento a intensidade que permite delimitar o sonho, o medo, a comoção, ela própria como que retirada de si mesma e contida, como tudo o mais.
Uma encenação centrada na essência e na respiração do que o texto diz e desdiz, ou simplesmente deixa adivinhar, e apoiada na capacidade exemplar das intérpretes, que nunca sobrepõem ao dizer o exercício do seu virtuosismo, que é notável. 
Está de parabéns, o Teatro de Almada. Assim estivessem de parabéns os nossos leitores-espectadores,os nossos professores, os nossos estudantes.
Como lemos e estudamos hoje a obra de um grande autor? Por pequenos resumos, simplificados ?
Nada é simples na obra de uma grande autor, mas cabe ao seus intérpretes, neste caso o encenador e os seus actores, tornar mais acessível, mais inteligível, mais legível, a obra que apresentam.  
Assim, logo nas máscaras, de penteado quase aterrador, de tão carregado de noite, somos levados a compreender que estamos ali diante de algo mais do que meras veladoras de um cadáver.
Houve mão de Mestre, nos penteados que ornamentam as cabeças e que numa primeira impressão poderiam evocar as antigas Erínias. Estamos de facto perante formas antigas, mas não as vingadoras.Ali não houve crime, não houve abuso nem excesso: houve apenas ausência, regresso, sem que se saiba logo a que outra esfera.  Estamos perante as Mães, na imobilidade só aparente do seu Reino, o que fez tremer Fauso e Mefisto, só à menção do nome. Já o nome é sagrado, é divino, é princípio e fim de um outro mundo: ali onde a própria Urform,  origem primordial, terá lugar, se forma, se tece, e por fim se desvanece regresssando à poeira de que veio.
Poeira cósmica, abissal, nuvem galáctica que o sonho de alguma vela inexistente  atravessou, sem chegar ao possível espaço desejado. 
A obra é feita de espera, mais do que de desejo: algo definidor das marcas de Pessoa, no que escreve. Vive-se (espera-se) no intervalo de ser. A grande marca (o grande marco ) é o tempo, em suspenso. O Ser e o Tempo podiam ser balizas nesta peça, antecipando a magna obra de um Heidegger. O Tempo eterno flui: contém o passado, o presente e o futuro, ainda que ignorado. Mas o Ser, ou melhor, a consciência de Ser, petrificou: é o cadáver velado, é o quarto elemento que faltaria para completar o Todo da existência. 
Esse cadáver que nos interpela, como interpela as veladoras, é o que, por associação de imagens e ideias (no fundo o verdadeiro modelo estruturante da peça, a associação deslizante de imagens e ideias) confere às figuras hieráticas que vão quebrando o silêncio dessa noite espectral em que tudo podia acontecer e nada acontece a não ser o já acontecido- é o que confere, dizia eu, uma forte carga simbólica a um texto que ficará para sempre como texto emblemático da criação pessoana. 
Definido como drama estático, podíamos defini-lo, como faz Teresa Rita Lopes, como extático. Só que a experiência aqui não é a do divino a que a alma em êxtase se une, fundida numa mesma luz primordial. Deus é o nome da ausência, nunca se presentifica, ou se  actualiza, em movimento que leve da potência ao acto. O acto não existe, nem sequer o sonho dele. E se a palavra se constitui, nesta peça, em desejo algo impossível de dizer é porque sem palavra, sem Verbo, não há vida. 
E apesar de tudo é feita da Palavra, do permanente desejo e busca da Palavra, a vida de Pessoa. Goethe falou na Ur-Form, Pessoa responderia com a Ur-Wort.
Ele teve só uma pátria: a da língua portuguesa. 
   
 

Monday, May 12, 2008

Brecht, As Canções de Teatro


Aceitei o comvite de um bom amigo para fazer versões livres das canções que B.Brecht escreveu para teatro e foram musicadas por compositores como Weill,Bruinier, Hindemith, Eisler, Dessau, Britten, Adorno,entre vários outros, e cantadas por Brecht ele mesmo, Lotte Lenya, Helene Weigel, Gisela May, Milva, David Bowie, etc.
Tratou-se de uma proposta irrecusável, que me deu o maior prazer.
Em breve, e isto é só o anúncio, começarei a blogar, poema a poema, ou canção a canção, as versões que serão cantadas por Luís Madureira e Teresa Gafeira, acompanhados por um Mestre: Jeff Cohen.
A promessa está feita, o trabalho quase acabado.
Para quem possa ler alemão, deixo uma indicação bibliográfica preciosa, cuja tradução ao menos para inglês deveria existir e ainda não existe: 
de ALBRECHT DUMLING, LASST EUCH NICHT VERFUEHREN.Brecht und die Musik, ed. Kindler, 1985.
Magnífico guia para a aventura musical de Brecht através da sua vida e da sua obra, num verdadeiro percurso de gigante, comparável ao de um Shakespeare ou de um Goethe.
Ah, e como são actuais as suas propostas de revolução numa sociedade dolorosamente adormecida como está a nossa!

Monday, May 05, 2008

Pina Bausch


CCB e SÃO LUIZ oferecem ao público português um Festival Pina Bausch.José Sasportes diz tudo sobre a sua obra, ao defini-la como " acções para bailarinos".
São de facto acções, pois todo o movimento implica uma intenção que é acção. 
Mas não são acções ao acaso, arbitrárias; são acções com sentido, um sentido que se apura na extrema exigência e no extremo rigor do desenho no espaço de trabalho.
Por trás de cada gesto, excessivo ou contido, a reflexão cuidada, a justificação, ainda que sub-liminal, da escolha feita.
Quanto menos se revela, mais se diz.
Há algo da mística oriental (até mesmo na ironia que irrompe e rompe algum acontecimento) na meditação e na prática bauschiana.
Corre-se muito ? mas o importante é mesmo estar parado.
Fala-se? Mas o importante é mesmo estar calado.
É-se feliz, por momentos?
Mas a dôr não deixa de estar presente, com o seu rasgão, com o seu grito.
A natureza é fértil, resistente, é a Mãe abundante?
Mas o choro das crianças faz-se ouvir para sempre.
Numa realidade fragmentada, de múltipla leitura, fica a imagem que se guarda melhor,  e o Todo poderá ser lido nela : o do cego correr da vida, do quotidiano onde por vezes uma louca ânsia de Perfeição e Beleza deixará a sua marca. 
Pequeno Poema das Crianças de Lodz

Em Lodz
o guarda chamou as mães:
peguem nas crianças 
levem-nas para o jardim
sentem-nas viradas 
de costas para mim.
Ensinem-lhes o jogo 
do 1, 2, 3 !
À contagem do três
não olhem para trás:
ficarão a dormir 
numa cama de folhas
quem sabe sem sofrer.

Wednesday, April 23, 2008

Henrique Chaudon


Há fantásticas coincidências: no dia em que vou ao Teatro São Luiz ouvir as Valsas Brasileiras de Francisco Mignone, recebo o livro de poemas de Henrique Chaudon, meu amigo transatlântico.
Nas valsas encontro o som dos chorinhos, atravessado por Chopin, entre outros mais modernos europeus. Mas o que fica na alma é essa mistura da tradição e do lamento brasileiro com o exercício ora romântico ora modernista das composições de Mignone.
Da pianista Alexandra Mascolo-David escreveu o crítico do Washington Post:
" a splendid pianist, refined, searching and expressive, and her playing is loaded with insight and interpretative detail".
Não poderei dizer melhor.
Quanto ao Henrique, seus poemas são para reler devagar, depois de os ter lido.Também nele encontro o fundo cruzar de linguagens: da paisagem e dos dias brasileiros de sua morada, suas pessoas, seus lugares preferidos, com o trabalho de sublimação que opera na palavra poética. Seu dizer é directo, despido, ainda que emocionado.

Poema do mais Profundo

" Meu coração é campo extenso
onde dormem flores, trigo, ervas.
Meu coração é lago tranquilo
onde passam nuvens, o sol, a lua.
Meu coração é fonte
regato
rio.

Meu coração é poço.

Lá 
do profundo silêncio
posso mirar as estrelas ".

A terra, a água, o ar (céu ) - os elementos da vida natural caminham para uma simbiose na meditação que propõe o último verso: o poço do profundo silêncio onde pode mirar as estrelas.
Walt Whitman está na epígrafe, apontando essa sensualidade terreal, mas os poetas são transformadores, alteram tudo o que tocam, e poderemos encontrar também aqui  a marca de uma  sabedoria oriental, que a imagem do poço condensa, como no Yi King:
n. 48 Tsing, o Poço:
O poço significa união.
O poço não aumenta nem diminui, pode mudar-se a cidade, mas não pode mudar-se o poço... a acção de beber a água fresca do poço repousa na sua posição central e correcta. 
Aqui a noção de centro imóvel é o mais importante, e é esse sentimento que os versos finais do poema de Henrique nos transmitem. 
Noutro poema escreve:
"...
É hora de ficar parado
sentado imovelmente na cadeira.
Vejo a noite em me redor:
desgasta a pedra, os campos,
meus cabelos, tudo quanto toco.
Não me esforçarei agora.
Sentado aqui nesta cadeira
ouvirei seu falar mudo e convincente:
ensina mais que os longes todos, mais que os alfarrábios.

Mais,
muito mais".

Do panteísmo latente à observação realista de um Erich Fried ou ainda, no fecho que é súmula, o mais e o menos de um Celan quando escreve :
"tudo é menos do que/ é/ tudo é mais" ( in Cello-Einsatz)
Celan do fundo da sua noite da alma, Chaudon do fundo da sua melancolia e abandono ao real ( o real é o destino). Um pouco como nas valsas brasileiras. 


 
 

Monday, April 21, 2008

Corpus Jan Fabre



Obra magnífica, sobre o percurso artístico de um grande artista, Jan Fabre.
Como nos diz  Luk van den Dries, no prefácio,a obra de Fabre incarna uma das formas exemplares do teatro do nosso tempo.
Teatro radical, implantado em profundidade: guarda o eco da grande tradição, os primeiros rituais, o teatro grego, os dramas da Idade-Média, Renascimento e Barroco.
Um teatro feito de memória, actualizada.
O livro é uma compilação de ideias, antes de mais. Mas ainda de palavras e imagens. Contempla os segredos do trabalho do palco, à medida que  vai sendo preenchido com os seus corpos próprios: dos actores, e do guia que é Fabre, mesmo no improviso, ou sobretudo no improviso. O melhor improviso é o que foi mais profundamente reflectido, preparado. Não há arbitrariedade na grande arte, quem não perceber esta lógica da criação original, está longe de poder vir a ser um criador. 
Diz Luk que o seu livro tenta penetrar " na alquimia da criação". Fabre é o grande alquimista, o grande transformador que sublima a imperfeição da existência no corpo. Mas esse é o desafio: a imperfeição do corpo, que o seu trabalho alquímico em todos os sentidos ajudará a ultrapassar. 
Ao abordar a imagem do corpo na obra de Fabre, Luk aborda de igual modo uma concepção moderna da estética do teatro.Passo a citar, lembrando que muito do que é dito se pode igualmente aplicar à dança, como arte suprema do corpo no espaço.
" O teatro é uma arte contaminada.Uma arte contaminada pela vida.E trazida por actores que não podem subtrair-se à sua forma humana, seu peso, a envergadura dos seus membros, seu sexo.Aparece um corpo, aparece   sempre um corpo, e nós olhamos para ele.Este corpo fala, sua, liberta uma aura, atrai ou repele. O teatro é um media carnívoro. Alimenta-se de corporalidade, de corpos que não se podem controlar, que são ignorantes das leis e excerbam ingenuamente as suas próprias paixões. Corpos que querem tudo e cada vez mais. Namorando perigosamente as fronteiras do impossível, desafiando as interdições da moral....O teatro é um cadafalso a partir do qual os corpos se lançam no abismo". 

Monday, April 14, 2008

Armando Silva Carvalho



O seu último livro O Amante Japonês, na editora Assírio e Alvim.
Lido o poeta, ler os livros que ele lê:
Camilo Pessanha
Pessoa-Campos (mas quem lê este, lê todos...)
Herberto Helder
Novalis
William Blake
Luiz Pacheco
Carlos de Oliveira (sim Finisterra, sempre...)
Manuel de Freitas
Sá de Miranda
...

De um roteiro mais íntimo e selvagem, a um roteiro não menos íntimo e selvagem (Wagner também lá está, com a sua vertigem musical, ambição desmedida que só em Veneza terá fim) Armando oferece neste seu livro os poemas que só ele sabe erguer, como

"Altos ciprestes, esses poemas
Que se perfilam ao longe na planície escrita dos meus dias.
Negras presenças do mundo, dos homens, da rosa
Incendiada nas palavras. 
...
Versos do começo e do fim
Fábulas de nervos ao redor do cérebro
Quem vos traz aqui ao sabor do vento imoderado
De encontro ao vidro sujo do meu rosto e do carro ?"

Viaja-se, neste livro.
Num carro que tem asas e que voa, por vezes desamparado, de lugar em lugar. Mas o poeta sabe qual é o seu ofício, qual é o seu lugar.
Uma palavra acesa na fímbria do tecido, na pétala da rosa ou na espuma do mar. Nem sempre se dirá a luz, mas sempre sempre esse bater convulso do sangue no coração do mundo.



Friday, April 04, 2008

Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo



Em edição cuidada, como todas aquelas de que Piedade Ferreira e Rogério Petinga se ocupam, saiu na colecção Oceanos mais um livro de Ana Marques Gastão, 
LÁPIS MÍNIMO.
Já a côr escolhida para a capa indica a suave melancolia que encontraremos nos seus versos, muito próximos de uma sensibilidade oriental, mística por vezes e igualmente  discreta, ainda que directa.
Há uma grande contenção e elegância de alma na escrita de Ana, que me faz lembrar a Princesa Shikishi , filha do Imperador Goshirakawa, que serviu como vestal do templo e deixou um legado de escritos melancólicos de grande luminosidade e beleza. Foi no seu tempo considerada  uma das glórias da criação poética, e ainda hoje quem a  lê não pode deixar de se encantar :é a alma que fala, na sua simplicidade e nudez. 
Deste século XII japonês passamos, com o mesmo encantamento fluido, para os aforismos de Ana Marques Gastão.
São feitos de prosa poética, e um Michaux, por exemplo, se fosse vivo nunca lhes negaria o título de poemas. 
Poemas escritos, como ela diz, com lápis mínimo: sentimentos-sugestões-imagens-reflexões em tom menor, usando agora uma linguagem musical.
Há música nos seus textos, no ritmo da sua escrita.
Não é formal, é balançada, mesmo quando alguma suspeição ou amargura a atravessa. 
O olhar sapiente (consciente) distancia-se, de si e dos outros, no acto de (se) escrever.Basta evocar Pessoa, Michaux, Celan (que muito admirava Michaux, considerava-se seu discípulo) para percebermos que não há ingenuidade no acto de criação, por muito que a busca da palavra no tempo nos absorva e não cesse. Os poetas perdem, muito cedo, o olhar da infância, a relação entregue e disponível com o mundo. E é no esforço da Ponte que vai surgindo a Obra. As palavras são o seu caminhar.
Quando Ana escreve:
"Roubo-te à linguagem, só assim serás real" (P.43) diz menos e diz mais (Celan) do que aquilo que diz e ficou dito. 
Nunca nada fica dito, as palavras levantam vôo, seguem o seu caminho oculto, irão perder-se ou encontrar-se mais longe, noutro espaço, do "Interior Longínquo" de que falava Michaux.
Com Lápis Mínimo desenha-se um espaço-tempo ideal, de apelo e rejeição, de meditação-aceitação do que em si mesmo, pela vida e pela Obra, o autor vai descobrindo: " Que na memória fiquem não só os lugares, mas também as horas"(p.42).
Escrever é descobrir, mais do que inventar: o segredo está lá, no interior dos mandalas. 
Ana pode dizer "Sou uma caçadora de emoções"(p.84). Mas sabe que é transformadora, é esse o seu segredo. Esse o fio que nos leva, de página em página, à procura de mais: sabemos  de onde partiu ? Pois queremos saber onde irá chegar: rasgada a pele, onde o Outono, o osso do Inverno, a Primavera do coração que bate.
Bem pode dizer, como nos diz no fim:
"A palavra é o meu nome. A palavra quer ser outra de mim, está além".

Tuesday, April 01, 2008

Henri Michaux


De 2005, mas que nunca perderá actualidade, o estudo de Robert Bréchon sobre Henri Michaux:
HENRI MICHAUX, La poésie comme destin, ed. aden.
Proposto como Biografia, é mais do que isso.
Bréchon, já no seu tratamento da obra de Fernando Pessoa nos habituara a uma linguagem erudita, de bom conhecedor (porque amando a obra daquele que nos apresentava) sem contudo perder a elegância, a fluidez do discurso.
O que fazia, no caso de Pessoa, como agora no caso de Michaux, o exercício do estudo e da leitura algo de muito sedutor. 
Os franceses são sedutores e Bréchon, neste seu livro, é sedutor em extremo. Abre-se, lê-se sem mais interrupções, capítulo a capítulo, até chegar ao fim.
Conta, como que em conversa de mesa de café, como descobriu Michaux, como o leu pela primeira vez, como veio depois a conhecê-lo pessoalmente, sem que por isso se tenham tornado de facto amigos íntimos.
Com que facilidade, morto Michaux, celebrado no mundo, editado, reeditado, traduzido, exposto em galerias e museus (era pintor e a sua obra neste campo não era de menor importância) poderia Bréchon fazer desses encontros algo de superiormente marcado e marcante, para ambos:
 Mas não; de honestidade intelectual exemplar, parte dessa elegância de ser de que falei, Bréchon diz simplesmente que Michaux a ele o impressionou e arrebatou pela obra, como pela personalidade, só aparentemente frágil (tinha um sopro cardíaco), mas que nunca chegaram a ser amigos íntimos, no pleno sentido da palavra. E conta o episódio dos convites para tomar chá, que aceitava, acompanhado às vezes pela sua mulher:
"Il la recevait avec une exquise courtoisie, devant une tasse de thé presque incolore.
Elle était fascinée par l'extrême distinction de cet homme, proche de la soixantaine...
d'une présence légère et diaphane, avec pourtant des éclats de voix, des chuchotements, des rires étouffés".
A alegria dos encontros perdia-se à medida que se aproximava a publicação da obra prevista de Michaux. Era, no relacionamento com os editores, um autor difícil:
 "J' étais pris entre les exigences de Mallet (o editor) qui avait conçu pour les volumes de la collection un plan type auquel chaque auteur devait se conformer, et celles de Michaux, dont le mot préféré était non".
E segue a saborosa narrativa, entremeada com referências à obra, marcando de forma sensível os grandes temas que seriam para sempre centrais e vitais no decurso da vida de um criador que, ao contrário do que sempre julgara, viveria até bastante tarde. 
Um dos poemas citados logo de início põe a nú essa preocupação, de hipocondríaco-poeta, com o corpo:

Je suis né troué

Il souffle un vent terrible.
Ce n'est qu'un petit trou dans ma poitrine
Mais il souffle un vent terrible.
(...)
Ah! Comme on est mal dans ma peau!
(...)
Et c'est ma vie, ma vie par le vide.
S'il disparaît, ce vide, je me cherche, je m'affole et c'est encore pis.
....
Nasci furado

Sopra um vento terrível.
É só um buraquinho no meu peito
mas sopra lá dentro um vento terrível.
(...)
Ah, como se está mal na minha pele!
(...)
E é a minha vida, a minha vida pelo vazio.
Se desaparece, este vazio, procuro-me, assusto-me e é ainda pior.

Bréchon refere-se a este poema e a um outro (Nausée, ou C'est la Mort qui Vient), como expressões do "sofrimento ontológico de Michaux", ao fim e ao cabo "o único tema da sua poesia"; e acrescenta: 
"il souffre du manque d'être, qui est l'envers d'un excès d'être" (ele  sofre da falta de ser, que é o reverso de um excesso de ser). 
E não dizia já Paul Celan, que "tudo é menos do que é/ tudo é mais " ?
Em Michaux tudo é mais.
E Bréchon, poeta, além de ensaísta notável, é o guia perfeito para esta leitura-aventura de alma.




Primavera no São Luiz

Monday, March 31, 2008

Ilustrações



Desenho de uma menina de 10 anos para um poema, O MONTE

Anoitecer suave
no topo das colinas

calam-se os pássaros,
as lebres e os coelhos
aninham-se nas tocas

sai um morcego
a debicar romãs

os gatos sorrateiros
saltam entre os telhados
em busca de algum ninho
ou de algum rato

luar de Agosto

lá em baixo
na estrada
conversam os namorados
...

( do livro a publicar, Outonais e outros poemas)

Wednesday, March 26, 2008

A Arte do Actor


Em regra são os encenadores, os dramaturgos, os críticos e teóricos que se dirigem aos actores.
Mas há outros que o fazem e cuja reflexão, neste caso poético-filosófica, não é menos interessante, antes pelo contrário. Refiro-me a HERBERTO HELDER, poeta de eleição, cujo poema merecia ser objecto de monólogo integrado nalgum espectáculo que o desse a conhecer.
O POEMACTO tem na parte III uma evocação do actor como alguém que "subtrai Deus de Deus", dizendo "uma palavra inaudível". Merecia ser lido na íntegra, eu deixo aqui  umas estrofes, celebrando assim o dia mundial do teatro.

III

O actor acende a boca. Depois, os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.


Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue
Assim o actor levanta o corpo, 
enche o corpo com melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
........
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a amanhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

(in Poemacto, 1961, dedicado a Luis Pacheco.) 


Monday, March 24, 2008

Poetas na Primavera


( ao Herberto Helder )

É Primavera
frase banal
bastava ter lido 
na agenda

os poetas acordam
nesse dia
são chamados a ler
os seus poemas

contentamento
vão...

melancolia
de quem não é
o que é
(a voz mais pura)
mas apenas  bandeira
propaganda
daquele único dia
em que se finge
que tudo é mais
quando é menos
(eu recordo Celan:
"tudo é menos do que
é,
tudo é mais")
mas de nada me serve 
recordar
ele também diz 
"vai nascendo a verdade"
e não a vejo nascer

os satisfeitos
a dedo
são perfeitos
(re)eleitos
não cantam as outras 
vozes
antes dizem e redizem
as suas palavras (re)ditas
ou benditas ou
malditas
que nada mais acrescentam
às suas vidas 
vividas
(di)vididas

eu busco
na minha estante
aquela voz
mais sumida
que sempre deu
poesia
poema servido em sangue
como o cordeiro
inocente

corro à janela e
grito
para quem possa
entender
aqui está o seu poema,
o poema
que ele escreveu e
já ninguém sabe ler

é o poema-gemido
poema-ofício-do tempo
não cabe nestas agendas
que não lembram o momento

as colunas do seu nome
o travessão
que as suporta

não obrigo ao re-Camões
que também já está
batido
embora ele nos inspire,
mas obrigo a quem o leu
e tudo com ele aprendeu
das duras lições da vida
que a vida deu
e não deu:

Apagaram-se as luzes. É a triste primavera cercada
pelo germe das guitarras.
E enquanto dorme o leite, minha casa
pousa no silêncio, e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes, cai a cabeça -
e as palavras nascem.
- Puras, desgraçadas.

Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures se aniquilam para um sublevado
campo de seivas.
Para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta, melancolia
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera, e nela um sexo
entre ávidos arbustos, luas excepcionais, pedras
atravessadas pela primeira música.
Contudo, apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Eis então o poeta
o seu Ofício Cantante

está deitado no chão
da casa mais antiga 
ao pé do mar
 na ilha
onde não há sereias
nem vozes
que decomponham
o som da sua voz
a música
da primeira 
e última 
Primavera

(ler Herberto Helder, Ofício Cantante )




Friday, March 21, 2008

Nos 60 anos do Hot Club de Portugal


Outras Vias, Outras Vidas


Na cave...

de olhos fechados
pisar
outros caminhos

florestas
lagos
planícies

desertos
precipícios

a música retém
o pensamento
dilata o coração

alarga
afunda
o peito

acelera
trava
suspende

a frágil
emoção

que não sabemos
quando
como
muito menos
ainda
de onde
vem

pairam no ar
nas espirais
do fumo
que não há
as vozes soltas
loucas
de
intensos
instrumentos

um sax branco
lidera
mas não por muito
tempo

o piano intervém
tem coisas a dizer
o baixo
a bateria
algo vão contrapôr
e a guitarra
lírica
também se faz ouvir

já ondulam os corpos
balouçam
as cabeças

alguém pede cerveja
para que não se veja
a lágrima que espreita
o choro
que se contém

o silêncio
é total

uma criança aguarda
no alto
das escadas

sonha
viaja
flutua
naquela bolha
de sons

fez-se a iniciação

mais uma noite longa
outras mais hão-de vir

alguém disse
olhe que não
o blues não é azul
e não tem de ser
melancolia

é saudade perdida
lembrada

de outras vidas

....

Tuesday, March 11, 2008

Erata

O Príncipe no Reino dos Lagartos



Às meninas e meninos de todas as idades...
ler com prazer também é aprender.

Ou, como no lema que as Edições Erata escolheram para a Feira do Livro de Leipzig, neste Março :
besser lesen, besser lieben
Por outras palavras:
quem melhor lê, melhor ama

Friday, March 07, 2008

Teatro Praga


Turbo-Folk, pelo Teatro Praga no São Luiz:
O São Luiz dando sempre o exemplo ( a que já nos habituou ) de generosamente abrir as portas a tudo o que inova e renova, mexe e remexe, com uma alegria e um humor que ultrapassa os limites da cena e atinge, como a seta incerta mas certeira dos jovens turbo-lentos lá de cima, nós todos, os de cá de baixo.
Eu gosto de palcos assim, onde tudo acontece ao mesmo tempo, paciência para quem se distrai e perde um ou outro detalhe. A solução é voltar e voltar a ver...algo que neste caso se fará com gosto.
Num palco onde tudo acontece, tudo pode acontecer: canto, surpreendente, na bela voz de Larissa, intervenções de stand-up (um pouco longas na segunda parte do espectáculo) e cartazes (piadinha brechtiana de distanciamento) e diálogos de delicioso delírio por onde passa tudo o que pode passar:conversa de café, filosofia, metafísica, teologia, psicanálise, numa onda "pseudo"- que desmistifica o intelectualismo que felizmente para nós já foi pior do que é, embora ainda subsista.
A proposta é de diversão em versão colectiva que podemos e devemos aplaudir, não tanto pela coragem, como era costume alguns dizerem (era tão in ser corajoso, quando já não havia perigo nenhum) mas pela inventiva, post-post (outro cliché, mas o que se há de fazer...) pela fluência do ritmo, sem nunca chegar a ser alucinante. Poderia ter sido, o aquecimento fora excelente, estávamos bem preparados !
Sem esquecer que no actual ciclo se inclui o que neste momento há de melhor em Portugal: a presença de emigrantes, de África, Brasil ou como, neste caso, do Leste, trazendo experiências e imaginários que nos abrem espaços de criação a que não estávamos habituados.
Não sabíamos rir ( e será que já sabemos? )
Mas é assim que se começa: infiltrando a melancolia atlântica até que essa espessa substância da alma se transmute em pedras de alegria.
A minha geração cresceu com o Prazer do Texto (Barthes, sim, também sou culta..) as novas gerações podem crescer com O PRAZER DO PALCO.

Monday, January 28, 2008

O Conto de Goethe/ E.Nunes: produção e post-produção



Quem conta um conto...acrescenta-lhe um ponto.
Emmanuel Nunes quis ser fidelíssimo ao espírito e à letra do Conto de Goethe, mas essa fidelidade prejudicou a ópera como espectáculo "total" que deve ser.
Uma ópera é um todo que inclui o libreto e a música, o canto, a encenação, figurinos e acima de tudo um fio dramatúrgico que estruture e sustente a acção, por muito subtil que a desejemos.
Vários destes elementos não estiveram presentes, por excessiva preocupação de ter tudo todo o tempo e em simultâneo, num palco que se tornou confuso e, para a leitura ( entendimento ) do espectador, inoperante. A dada altura esse excesso tornou-se mesmo insuportável, com os actores/cantores e sobretudo com os bailarinos (absolutamente dispensáveis) abandonados no palco, esbracejando (não, não é assim que se improvisa) em vez de obedecer a alguma coreografia que acrescentasse algo mais ao rigor da composição que nos era oferecida. Não sendo possível, ou desejável, acrescentar algo mais o melhor teria sido eliminar os bailados. Ganhava-se em coerencia.
Emmanuel Nunes "leu" o Conto com fidelidade, mas sem prescindir em nada do que entendeu ser a sua liberdade de criador-compositor.Assim, ampliou de tal modo a composição para lá dos sentidos do Conto que estes, sendo vários, se perderam por completo no tal excesso que acima referi.
Emmanuel não se cingiu a uma das linhas centrais dessa obra esotérica quanto baste. Optou por "apresentar" em vez de escolher, mas escolher faz parte do acto de criação, tanto quanto a liberdade de criar.
Na escolha reside a ordenação, sem escolha o que fica é uma soma e nem tudo o que se soma num palco resulta a bem do espectáculo.
O grande defeito de E. Nunes foi não ter ficado apenas com um dos temas mais caros a Goethe (imaginário alquímico, iniciação maçónica, ideal de serviço a uma utopia social transformadora) mas uma tentativa de livremente (arbitrariamente? ) ir compondo o que as imagens literárias lhe sugerissem, deixando aos outros colaboradores a dificuldade de lidar com um palco que poderia ser muito post-moderno mas se tornou de uma monotonia que prejudicou O Conto, Goethe e o desejo de conhecer melhor a obra deste gigante da cultura universal. Faltou aqui um dramaturgista que ajudasse o compositor nesta sua primeira ópera.
A ópera, como teatro que é, não pode viver só de imagens, precisa de uma dinâmica própria que as articule.

O Conto da Serpente Verde desdobra em duas figuras condutoras - o Barqueiro, que virá a ser o sacerdote do templo que surge das águas do rio, e o Velho da lanterna, que será o guia, conduzido pela luz da razão - a verdadeira natureza de Goethe, que em si reúne duas tendencias aparentemente contraditórias:
Sentimento, ou sensibilidade (Empfindsamkeit) e razão iluminista ( Aufklaerung ). A primeira vinha de longe, das correntes místicas e pietistas e, a dado momento da vida de Goethe, revela-se importante, na amizade de Suzanne von Klettenberg e através dela pelo conhecimento de uma série de doutrinas de carácter alquímico e hermético. A segunda é oriunda de França, com o cartesianismo florescente, a corrente dos Enciclopedistas, a doutrina da liberdade, igualdade e freternidade, marcas de uma Revolução que se desejou, a dado momento, importar para a Alemanha. Mas foi em Kant que melhor se definiu o Iluminismo, com o tratado da Razão Pura. E contudo, mesmo ele impôs limites à Razão, fechando o acesso possível ao conhecimento em "categorias", para além das quais nada se poderia conhecer. Entrava-se então noutro domínio, o da "Razão Prática", cuja entendimento recuperava a intuição, a transcendencia, a Moral, outras esferas, outros valores e experiências, para os quais a Razão só por si não podia contribuir.
Voltando ao Conto:
Entre as múltiplas personagens e as múltiplas escolhas de linhas de evolução o compositor podia ter preferido uma ou outra, mais profunda ou menos substancial, mas impunha-se, a meu ver, uma escolha.
Goethe é um gigante do pensamento universal, lança uma grande sombra à qual nos podemos acolher. Mas se assim é, tem de haver respeito por quem lança a sombra e a sua protecção intemporal. Podemos ironizar com os comportamentos, não o devemos fazer com o sentido profundo das suas obras e do seu pensamento, neste caso simbólico e mítico, como se sabe.
Emmanuel Nunes talvez devesse ter ouvido a exclamação do barqueiro aos fogos-fátuos: ouro não, não posso aceitar moedas de ouro como pagamento, só frutos da terra. Leia-se a piadinha alquímica: há os verdadeiros filósofos e os falsários, os "falsos" alquimistas, como se diz nos antigos tratados; só quem reconhece o ouro espiritual, a estrela no homem (segundo Paracelso ) pode seguir bom caminho; e esse caminho é o dos valores mais antigos, primordiais, da Sabedoria Perene. Só ela encontra e distribui os verdadeiros frutos da terra.
Ah! Mas podemos querer ser artistas sem necessariamente querer ser sábios.O exercício post-modernista passa, muitas vezes, precisamente pela negação do estudo mais aprofundado...
Então foi má ideia ter escolhido um Goethe como rampa de lançamento.Esta questão leva-nos, naturalmente, à encenação e sua problemática, dado que não houve uma prévia dramaturgia que desse movimento a um texto todo ele feito de movimentos e transformações condutoras.
O encenador é o segundo autor da obra que encena. Também aqui a questão se coloca: faz o que quer do libreto de Emmanuel Nunes, do Conto de Goethe, de nenhum, de ambos ? O que escolhe fazer como obra própria ( a grelha ) que o público colocará sobre as outras que serviram de base ? Ou faz indistintamente o que lhe apetecer, considerando o palco o seu espaço próprio, ainda que neste caso da ópera sujeito ao rigor de uma partitura, uma prosódia, ou uma simples dicção?
Os encenadores post-modernos terão uma resposta - parecida com a ideia radical da arte pela arte que, desde a década de 50-60, entretanto evoluiu no sentido do "mais" ser melhor do que o "menos". E do muito mais ainda muito melhor: como se o público só entendesse o que lhe fosse repetida e exuberantemente mostrado : amontoa-se, não se ordena, deixando que seja o espectador, também ele livremente, a fazer a sua ordenação.
Há um exibicionismo nas leituras modernas dos textos que em nada contribui para que se ame esses textos. O excesso mata, tanto quanto a penúria. Mas a fome deixa espaço para mais, e a indigestão não deixa espaço para nada.
Há modelos exemplares de tratamento moderno de grandes autores: Boulez/Chéreau para a Tetralogia de Wagner; Peter Stein (encenação) para o Fausto I-II de Goethe; ou, se quisermos, a plena post-modernidade de um Bob Wilson.
Bob Wilson é o melhor exemplo do que se pode fazer numa leitura (interpretação) de grandes clássicos: as óperas de Gluck que já podem ser apreciadas em DVD, ou ainda o emocionante e deslumbrante Black Rider (adaptação do Freischutz de Weber) apresentado em Paris, com uma aplauso de pé que durou mais de meia-hora.
Mas em todas estas produções se poderá encontrar o sentido profundo da obra que esteve na base da sua criação, ainda que "relida" a seu modo, através de um olhar que dá mais substância ao espaço num rigoroso, geométrico, puríssimo desenho de luz.
Enquanto no caso do criador-compositor podemos hesitar entre dois modelos: o de Wittgenstein "Wovon man nicht sprechen kann darueber muss man schweigen" ou o de Valere Novarina " ce dont on ne peut parler c'est cela même qu'il faut dire ", no caso do encenador talvez a questão se ponha de modo diferente e se possa então discutir, com Nicolas BOURRIAUD em Esthétique relationelle ( 1992 )a questão que ele levanta:
"Pourrais-je exister dans l'espace défini par une oeuvre et comment ? ".
Como historiador e crítico de arte a discussão poderia cingir-se apenas à criação actual de pintura, instalação, outra; mas julgo que a sua proposta vai mais longe e se aplica, na dúvida ou na certeza eventual, a todas as formas de criação em geral, na época da velocidade, da simultaneidade que faz do artista um coleccionador "de dados a manipular, reutilizar, reencenar" (Postproduction, 2001).
O encenador deste Conto ofereceu citações retiradas de uma cultura cinematográfica e não só: por exemplo, a Princesa tem as mãos de Eduardo mãos-de tesoura, filme em que Johny Depp brilhou há alguns anos.Mas chegará para salvar uma peça?
Oferecer tudo, todo o tempo, a todos, é uma proposta que se esgota a si mesma, pela usura que daí advém, para o criador e talvez mais ainda para o espectador. E à la longue é o espectador, sempre renovado com o passar do tempo, que mantém viva a obra de arte.
Chegámos onde chegámos - como espécie inteligente- pela selecção.
O criador que não seleccione, na "post-produção" do seu processo criador, ficará talvez visível por um tempo, mas só por um tempo, e quando se afundar tudo se afundará também com ele. Não digo que tenhamos de nos prosternar diante do passado das obras e seus autores.Devemos servir-nos delas e deles, mas com inteligência e sensibilidade.
Concluindo com Bourriaud:
" Cabe-nos a nós, espectadores, julgar as obras de arte em função das relações que produzem dentro do contexto específico em que se movem.Pois a arte, e não vejo outra definição que a todas englobe, é uma actividade que consiste em estabelecer laços com o mundo, materializando de uma forma ou de outra as suas relações com o espaço e o tempo".
Não por acaso Bourriaud anuncia que no seu próximo livro falará do fim do pensamento post-moderno.

Monday, January 14, 2008

PESSOA, PAIS E OUTROS MAIS


Ricardo Pais trouxe a Lisboa a sua nova encenação de Fernando Pessoa, em "Turismo Infinito", não apenas o do poeta, mas igualmente o seu, com a capacidade notável que tem de viajar por inúmeros autores, obras, sensibilidades: de um primeiro, fortemente irónico, expressionista como Sternheim, até à composição de um FAUSTO fragmentado como o próprio Pessoa era e nunca deixou de ser. Nesta sua abordagem de outrora (um clássico que devia ser estudado, dele fazendo-se um dvd, como se fez do Fausto goetheano de Peter Stein ) a fragmentação era acentuada pelo modular do espaço cénico em caixas e recortes que permitiam sentir a tensão dramática sem que, no seu impulso (pois no Fausto de Pessoa não há decurso, ao modo tradicional, há impulso, repetição obssessiva) ela se perdesse, desviando o espectador  da verdadeira linguagem, altamente elaborada, de Pessoa.
É raro, e só um encenador de grande brilho saberia como respeitar, em perfeito enquadramento e sintonia, uma obra literária tão complexa como a do nosso poeta : aconteceu outrora em FAUSTO,FRAGMENTOS, com a colaboração de António Lagarto para a cenografia.

O TURISMO INFINITO agora apresentado torna-se extremamente interessante, por vários motivos, mas destacarei este: Ricardo Pais percorreu um caminho que vai da FRAGMENTAÇÃO À TOTALIDADE, como acontece num dos poemas escolhidos para o espectáculo: CHUVA OBLÍQUA (pertencendo ao exercício interseccionista, mas a meu ver imbuído de alquimia pelo modo como as imagens e os símbolos aí se manifestam ).
Perante a escolha de poemas e a articulação dramatúrgica de António Feijó, Ricardo Pais sentiu a necessidade de ultrapassar a fragmentação de personalidades de um outro infinito turismo, o do fingimento das vozes poéticas em infinito contraponto, e alcançar a esfera mais profunda e mais obscura de um Eu em permanente fuga e dissolução.
Entra aqui a colaboração de Manuel Aires Mateus que trouxe, com a sua concepção de um espaço cénico negro e aberto, a possibilidade de cada texto adquirir, com a sua linguagem-luz própria, o seu mais incantatório e mágico significado.
O palco é um lugar de magia: ali se transmutam emoções, ali o mundo se abre ao espectador que pode, mais consciente ou inconscientemente, ampliar, também ele, o seu espaço de reflexão, a sua visão da Obra como todo.
A escolha de Manuel Mateus tem ampla influência no efeito que os textos escolhidos adquirem no âmbito da encenação, contida, sóbria e por vezes sombria quanto baste, de Ricardo Pais. Houve entre ambos uma sintonia perfeita e é desse modo que podemos dizer que nesta viagem pessoana, empreendida há anos por Ricardo, este chegou à totalidade que uma primeira fragmentação permitiu e aqui e agora se conclui.
A geometrização do universo pessoano é integrada na geometria com que Manuel Mateus redesenhou o palco, na sua escura pureza: o eu estilhaçado do poeta é recolhido, nos seus pedaços, até à visão do círculo, a bola de brincar que pertence a todas as infâncias:


"Todo o teatro é o meu quintal, a minha infancia
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal"


A batuta do maestro ( a música, linguagem do inconsciente por excelência, prescinde da palavra, é anterior a ela ) e a bola desencadeiam a chuva de imagens da infância que fundindo-se e confundindo-se na alma do poeta o fazem regressar à esfera do "indiferenciamento" do inconsciente, onde todo o processo criador se origina, tomando forma depois, quando a confusão cessa "como um muro que desaba".
No poema, aquilo a que Jung chamaria a Conjunção das imagens fundadoras não chega a levar o poeta  a uma consciência que ultrapassasse a dôr da fragmentação e da perda.
Mas no espectáculo concebido por Ricardo Pais, naquele espaço de sombra de onde as vozes se erguem, ora uma, ora outra, consegue-se a Totalidade ambicionada: o teatro também é isso, um espaço onde a sombra, nossa e dos outros,se ilumina.
Sem entrar em considerações mais vastas, de que me ocupei, faz anos, num artigo intitulado FRAGMENTAÇÃO E TOTALIDADE EM "CHUVA OBLÍQUA", termino, prestando a minha homenagem a Ricardo Pais, Manuel Mateus e todos os da equipa, participantes nesta verdadeira obra-prima de entendimento de um grande autor.
Não esqueço os actores, por vezes tão mal amados no nosso meio artístico, fazendo com que a muitos só ocorra fugir do país ingrato.
Mas eu tenho visto "crescer" as gerações: 
Assim, desde  os Monólogos de Graça Lobo, nas Cartas da Freira Portuguesa, culminando no inesquecível Monólogo de Molly Bloom ( de um Joyce que Pessoa foi dos primeiros a ler ) passando, na última Saison, pelo Monólogo de Beatriz Batarda em Quando o Inverno Chegar, sublinho o Monólogo da Corcundinha nesta peça de Ricardo, entregue ao virtuosismo de Emília Sylvestre.
Tanto no caso de Beatriz como no de Emília detectamos uma genial capacidade de alterar o jogo a que se assistia, dando elas voz a um torvelinho de emoções que desarticulam o excesso de racionalidade que podia estar em causa; o peito rasga-se, a voz sobe e a respiração fica em suspenso até ao limite do possível - tudo prova de soberbo domínio e subtil mas marcado profissionalismo. 
Last but not least, "Eles" : compõem a música do mito pessoano, sendo o mito a constelação das vozes que tentam responder, de forma estruturada, à interrogação do poeta sobre si mesmo, o seu lugar no mundo,  no universo inteiro. 
Não há resposta: e os actores, numa articulação medida e quase neutra ( que muito teria agradado a Sophia de Mello Breyner ) é isso mesmo que nos deixam perceber.
Pode haver diferente, mas  melhor é impossível .

Permito-me, como velha pessoana, sugerir um elemento bibliográfico: 
Ettore Finazzi-Agrò, O Alibi Infinito, o projecto e a prática na poesia de Fernando Pessoa, ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987

 
 
    


Wednesday, January 09, 2008

Thursday, January 03, 2008

Luis tinoco


Ei-lo que volta a atacar, com Terry Jones...
Não haverá melhor maneira de viver o Novo Ano.
Parabéns Luís!

Wednesday, January 02, 2008



Sombras


É a Sombra
das sombras

vagueia
pelos jardins

perde-se
nos labirintos

afoga-se
nos lagos

esconde-se
nos corredores
de bambú

escapa-se
pela ponte
que não une

antes separa

as pedras
do templo
e do palácio


2 de Janeiro de 2008
(agradeço a Gawain a lindíssima fotografia)

Saturday, December 15, 2007

Natal 2007

Natal
Ao sol
de olhos fechados

oriento-me
como as plantas

um canário invisível
gorgeia
a despedir-se,
não tarda a noite
vem aí

fecho as janelas
mas não corro as cortinas
que não tenho

a lua vem a seguir
com o seu brilho