Saturday, December 17, 2011

Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa 2011

Veio mesmo a tempo, este prémio, mais do que merecido, para fechar um 2011 no geral desolador.
Alguém disse de Eduardo Lourenço: ele ama Portugal.
Não duvido; mas duvido que ame os portugueses...os portugueses de hoje desencantam, não podem ser amados no sentido amplo e generoso da palavra. Só algumas excepções: as crianças doentes e de olhar perdido, os velhos, os desamparados, humilhados e recolhidos a si e a um silêncio que pesa, agora e sempre. Esses merecem ser amados, merecem mais, que se lhes peça perdão pelo mal que se tem feito e continua a fazer.
O olhar de E.Lourenço sobre Portugal é de interrogação: e quem sabe se de perplexidade? Um Portugal que se diz ou se quer europeu sem saber o que isso significa?
Pois há muitas Europas, tantas quantas as diversas línguas e culturas nacionais...no meio delas Portugal parece uma barco à deriva (não, não uma caravela, um botezito!).
Quando Eduardo Lourenço chega a Portugal em 1975 para um Seminário sobre Fernando Pessoa e o Modernismo a esperança era outra, era grande.
Contudo, logo nas primeiras aulas (sim, havia aulas, e nós, na altura já a caminho de doutoramentos, cada qual o seu, íamos com imenso prazer assistir a essas aulas, ávidos de outros conhecimentos, outras ideias e outros pensamentos) - logo nessas primeiras aulas o exemplo que Lourenço nos deu, lendo um poema de Pessoa, foi o da consciência que se interroga a si mesma interrogando o mundo
do ciclo Além-Deus, começou a ler:
I/Abismo
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me me bate
De encontro ao devaneando-
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Ficámos com esta reflexão, que haveria de ser a marca de todas as sessões desses seminários, tão diferentes do ensino tradicional a que se estava habituado.
Eduardo Lourenço não definia sentidos, sublinhava as interrogações.
Deslocou desse modo o nosso olhar: não era o ímpeto moderno-futurista de Álvaro de Campos, não era o filosofar aristocrático e distante de Ricardo Reis, nem sequer era, ao fim e ao cabo, o místico panteísmo de Alberto Caeiro (o Mestre) a grande lição pessoana.
Era sim, como na Aurora dos tempos, como no despertar do Homem primitivo, a surpresa de dar consigo a ver - isto é, a tomar consciência de si enquanto tomava consciência do mundo à sua volta, neste caso do poema o rio, um Tejo de águas mansas correndo como corre o pensamento.
Os restantes poemas do ciclo não foram ali abordados.
Mas eu continuei a ler, pois a minha curiosidade fora despertada e não sendo eu "pessoana", como outros, queria ir um pouco mais longe, se possível.
Assim eram dadas as lições dos Mestres: despertando em nós o desejo de ir um pouco mais longe!
O Além-Deus do título do ciclo iria levar-me a cogitações de ordem iniciática e alquímica, neste como noutros textos de que mais tarde me viria a ocupar.
Eu já estudava nessa altura (para a minha tese sobre o Fausto I e II de Goethe) a simbólica alquímica e esse imaginário era-me familiar.
Pouco a pouco fui encontrando as similitudes que na obra de Pessoa - poética e de prosa ensaística - tinham deixado marca, ora mais ora menos visível.
O estudo da ciência (ou da arte?) dos símbolos e do imaginário criador não estavam ainda na moda, como hoje em dia (hoje é quase doença, nem ciência nem arte!).
Era difícil citar Gaston Bachelard ou Gilbert Durand (pior ainda Jung) sem que algum esgar desdenhoso aflorasse ao rosto de bons colegas !
Mas as reflexões sempre de inspiração aberta de Eduardo Lourenço foram um incentivo.
Primeiro lendo Heterodoxia, depois lendo Pessoa Revisitado, o Labirinto da Saudade e por aí fora, acompanhando a sua actividade e a sua bibliografia.
Agora Eduardo Lourenço recebe um justo prémio, que tem o nome que melhor lhe convém: Pessoa.
E na Fundação Gulbenkian procede-se à edição da sua Obra Completa.
Só posso saudar estas iniciativas, recordando como, pela sua mão, fui entrando no labirinto de uma eterna saudade: de Pessoa? deste país? de nós mesmos perdidos nele?



Thursday, December 15, 2011

Rui Zink


De Rui Zink, mesmo a tempo do Natal:
O Amante é sempre o último a saber,ed.Planeta,2011, já em segunda edição.
Abri o livro e logo comecei a ler: encontro na prosa do Rui aquela energia que nos agarra pelo estilo, pela imaginação, sempre fértil na criação de enredos, atravessados por um humor subtil, não o da gargalhada mas o do sorriso que devolve curiosidade à leitura, e tudo isto, como se não bastasse, atravessado por diálogos simples,directos, que empurram a acção, abrem as peripécias de capítulo em capítulo, sem que se deixem adivinhar os desfechos (im)possíveis.
Espera-se de tudo nesta inconcebível viagem a um Japão também ele difícil de (re)conhecer....
Admiro a criatividade de Rui Zink que abarca o imaginário infantil (filhos e netos pedem sempre os seus livros, mal chegam aqui a casa, o preferido agora é o do Menino que não gostava de televisão, é o meu neto de um ano e meio que agora mais gosta dele) tanto quanto brilha na prosa de ficção, ou no ensaio erudito.
Consegue algo raro entre nós: ser escritor de talento e investigador inspirado.
Deixo esta rápida chamada de atenção ao seu recente romance, enquanto acabo de ler, para que aproveitem a época e ofereçam bons livros e boa leitura em vez de prendas banais, que logo ficam esquecidas.

Friday, November 25, 2011

Outonais

Está no blurb, pela mão adorável da minha nora Sara, o meu novo livro de poemas, que de brincadeira digo que será o último! Espero que leiam e vos faça passar um tempo agradável, como é próprio da poesia!Tem alguns poemas dedicados a pessoas muito especiais...

Tuesday, September 27, 2011

Helder Macedo, A Poesia é de Sempre

Foi lançado o novo livro de Helder Macedo, com poemas novos e velhos, segundo o título e a indicação das datas: mas não há tempo certo na palavra poética, só infinita e universal duração..
O livro abre com um poema recente, do ciclo intitulado
COLAGENS:

O rio corre
da fonte seca
como se rio
de fonte morta
chegasse ao mar
quebrada a ponte
das águas turvas
na torva treva
que o ramo quebra
onde pousassem
aves que houvesse
se ali cantassem
vindas do monte
que o rio leva
de engano em dano
por terra seca
ao mar sem praias
que corre e morre
sem vale ou serra
do mar à fonte

Apercebi-me numa primeira leitura de que havia aqui um eco pessoano, do seu melhor Ricardo Reis, na consciência plena e dolorosa de que no correr do rio seco da alma o próprio tempo se esvai e a vida perde o sentido.
Veja-se como os versos insistem no tempo condicional, o que adia para um talvez improvável ou um nunca mais o que poderia acontecer se alguma vez o rio, pleno, chegasse ao mar, ou mesmo o contrário, se o ímpeto do mar (aquele em que Freud via a pulsar do inconsciente) levasse a sua onda à fonte.
Estamos, nesta poesia de alma, de balanço de vida (sua e alheia) reflexão e distanciamento, perante a terre gaste dos cavaleiros do Graal, ou de uma Waste Land de um T.S.Eliot que Helder Macedo, como todos os da sua geração, conheceram bem.
Neste poema de abertura de um ciclo emblemático as imagens da água (fonte, mar) da terra (também ela seca) e das aves que não cantam (ar) não permitem a ampliação para algo de mais completo e feliz, pois água, terra, ar são neste caso elementos que "regridem", são o reverso de um imaginário alquímico de possível sublimação. Helder Macedo, contudo, não omite a referência a um outro elemento, o poderoso fogo - neste caso a chama que já ardia em Camões, do invisível amor.
O poema 3 deixa a pergunta: como dizer, como exprimir, o que mal se conhece:

Na verdade não sei

O ar é o mesmo
as águas iguais
na terra sem solo
quando o sol é grande
e as aves caídas
voaram do chão

Mas o que eu sei tão mal
como o direi?

Na verdade já está dizendo: não é do exterior que se trata, é da consciência desse Ungrund onde se formam as ideias-força, as imagens arquetípicas, as poeiras do universo da alma, que se trata. O sol (finalmente o fogo) é grande.
Relembrando Valère Novarina, é precisamente "o que não se pode dizer que se deve dizer". Mas um poeta lúcido, como neste caso de Helder, será que se deixa seduzir por este desafio?
A resposta é positiva, e vem no último poema do ciclo, que anuncia um recomeço:
...
sendo assim
recomecemos

havia aqui uma fonte
e árvores
e sombras
as aves todas cantavam de amor

porque tudo é só como parece
e é sem cura

O canto de amor das aves é finalmente redentor, só porque existe. O olhar e o dizer, como em Alberto Caeiro, bastam-se na simplicidade do existir: ser e não o saber...
E assim se descobre e se aceita neste ciclo um devir-eu, um devir-outro, um devir-só que Pessoa tão profundamente (re)conheceu.

Friday, September 23, 2011

Um Adeus para José Niza

José Niza faleceu, aos 73 anos. Vivia em Santarém mas vinha frequentemente a Lisboa onde tinha muitos dos seus amigos.
Deixará muitas saudades a todos os que o conheceram de perto.
Eu recordo o seu trato amável, o seu sorriso discreto, o seu humor.
Outrora, como nos contou um dia, fazendo a tropa no mato, sendo psiquiatra e tendo de lidar com os traumas dos seus soldados, teve a ideia, que todos saudaram, de encenar uma pequena peça de teatro, que ele já tinha acompanhado em Coimbra quando estudante e para a qual compusera um tema: era a minha tradução de Brecht, de A Excepção e a Regra!
Assim foi: com o texto de um Brecht que a Censura da época não pudera proibir e a música, à viola, de José Niza, o sofrimento da guerra ficou por momentos em suspenso e a lição ficou gravada na memória de quem partilhou o texto: a excepção ivia em Santarém mas tinha em Lisboa muitos dos seus amigos de sempre.(que naquele caso era a guerra) não poderia nunca ser a regra.
Devemos a José Niza, entre outras coisas, o poema E Depois do Adeus que a voz de Paulo de Carvalho num Festival da Canção tornou conhecido do grande público e que a Revolução de Abril adoptou como uma das suas Senhas.
Mas o que fica é acima de tudo a dimensão humana deste músico amigo dos seus amigos, numa tranquilidade generosa que nada parecia abalar.
Guardo a sua memória.

Lá no alto
no seu Olimpo
de treva
os deuses procuram
com inveja
algum brilho maior
entre os humanos

Cai Orfeu
pela mão da Bacante
cujo nome é cruel

Mas a sua memória
permanece:
o som da sua voz
ecoa docemente
por entre as sombras
do vale mais distante

Sunday, July 10, 2011

Alexandre Delgado,A Rainha Louca

Primeiro foram as Luzes de Leonor, a Marquesa de Alorna, sua vida romanceada de um modo próximo (para não dizer mesmo vivido) por Teresa Horta.
E agora, integrada no Festival de Almada, encenada por Joaquim Benite, a ópera que nos é oferecida por Alexandre Delgado, libretista e compositor.
Parte da peça de um jovem dramaturgo que nos deixou um legado de rememoração crítica da nossa História, Miguel Rovisco: O Tempo Feminino.
E como que lembrando que somos antigos, cultos e quem sabe loucos, neste momento de crise política e identitária (com uma Europa que afinal...) - surge então esta Rainha Louca pela mão de Alexandre Delgado.
Saúdo a iniciativa, saúdo a encenação, tanto mais sóbria quanto mais na loucura da Rainha se avança, a cenografia de apontamento até à cena final, de rodopio semi-expressionista ampliando os gritos e a dança frenética com que desce o pano.
E saúdo o libretista: não é fácil adaptar um texto à composição musical, ainda que se faça como Wagner, que diz que só quando tem tudo bem incorporado na imaginação se lança para a escrita da música e do poema.
Partir de uma peça que já tem linguagem e construção dramática própria é certamente mais difícil. Onde houver excesso, que a peça permite, terá de haver contenção e equilíbrio que depure o texto sem o deformar, antes condensando as imagens mais fortes que a música por sua vez poderá ampliar.
Deste ponto de vista a escrita de Alexandre Delgado é magnífica: reduz ao essencial o que no palco é dito (cantado) deixando que a nossa imaginação preencha também alguns dos espaços em aberto.
Assim vivemos com a Rainha, votada ao grande isolamento da sua loucura (segundo alguns não era loucura, era uma enorme depressão que lhe tomou conta da vida), os momentos cruciais de um fim de vida. Podemos fixar-nos num conjunto de imagens, que texto e música oferecem, e ajudam a estruturar melhor o sentido.
Esta escolha é a marca de um bom libreto, de uma escrita que conduz, sem perder nunca o fio.
Quando a Rainha, de quem as damas já gritam que está louca, chama pela sua Rosa, a sua Anima negra, sabemos que o fim não tardará.

Friday, June 24, 2011

AS LUZES DE TERESA HORTA

Está nas livrarias este novo romance de Maria Teresa Horta, inspirado desta vez na vida e obra da 4. Marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida Portugal.
É a obra de uma vida, que se deve à paixão que uniu através dos séculos duas mulheres que partilham o mesmo gosto pelas Ideias (as Luzes, o Racionalismo nascente), pela Cultura e pela Literatura, faltando só acrescentar uma mesma exigência de Liberdade e Respeito pela condição e dignidade da mulher.
Neste romance que é bem mais do que isso, e não aludo ao número de páginas, mas à substância do que é oferecido, a autora "interroga o lugar social, político, intelectual e sexualmente marcado do feminino na cultura portuguesa" - citação que roubo a Vanda Anastácio, no seu prefácio à obra.
Obra que demorou anos de estudo, e dias e noites de grande inspiração, não cede a facilidades: tudo o que inclui é para ser lido e meditado: as cartas, os poemas, a vida intensa de uma mulher que no século XVIII se tornou ilustre por muitas e variadas razões, de que a coragem da afirmação cultural e política não foi a menor.
Agora apenas dou conta de que o romance está aí, para ser lido.
Eu própria é o que vou fazer, no tempo do Verão.

MÁRIO QUINTANA

Dos Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, este poema que nos faz respirar:

EMERGÊNCIA
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Sunday, March 13, 2011

Cristina Branco


A discografia de Cristina Branco, geralmente associada ao fado canção e à canção popular portuguesa, tem marcas muito próprias que a distinguem:
uma excepcional cultura literária e um bom gosto na escolha dos poemas que fazem da sua esfera de criação musical um caso raro que merece o destaque que lhe vou dar, neste espaço de literatura e arte.
Frequentemente traduzo Lied e Canção lírica francesa, para amigos, como o pianista Nuno Vieira de Almeida e, através da maravilhosa experiência que tal colaboração me permite, sei como é importante a base literária de que se parte para a composição musical e para voz do intérprete.
Ao contrário dos sucessos que em Portugal, ainda que com algum humor, se têm promovido, em que nada faz falta, nem texto, nem música, nem muito menos voz (!) todos estes elementos - texto, música, voz - são na verdade indispensáveis e com o tempo se verifica que são também a verdadeira base do sucesso continuado e merecido.
Frank Sinatra lembrava aos incautos do momento que fama imediata é algo que pode acontecer a todos , mas só acontece a alguns manterem-se no pico da sua fama durante anos seguidos. A razão era, como é hoje e será sempre, a qualidade musical, poética e de sensibilidade e inteligência (não apenas vocal) do intérprete.
Frank Sinatra outrora, Amália, no nosso caso, e agora, para mim, sem dúvida alguma Cristina Branco.
Já em Kronos, onde precisamente a reflexão musical que se propõe é sobre o tempo ( e recordo aos amantes de filosofia que o Ser e o Tempo estão intimamente ligados...) a marca da escolha poética definia o seu estilo, um estilo de grande qualidade literária como se pode ver pela lista dos escolhidos:
Manuel Alegre
Hélia Correia
Sérgio Godinho
Álvaro de Campos
Amélia Muge
José Mário Branco
Vasco Graça Moura, para só citar alguns.

De Portugal para o mundo, eis este novo disco, recentemente lançado em cd e dvd Não há só Tangos em Paris.
Da belíssima qualidade dos temas musicais e dos arranjos, da produção artística, executiva, da qualidade do som na captação de voz e instrumentos tão rara entre nós, mesmo com os melhores autores, não falarei, para deixar esse comentário aos entendidos.
Mas da qualidade dos poemas, e novamente do bom gosto das escolhas, terei mesmo de falar. E da sensibilidade da interpretação, para além do à vontade no domínio das línguas estrangeiras, neste caso o francês e o castelhano ( não digo espanhol, é o castelhano da Argentina).
Reencontro na voz de Cristina a mesma sensualidade envolvente de um Gardel no seu Tango, ou de Amália no seu Fado, por uma razão bem simples: um e outro têm a clara noção de cada palavra do que estão a dizer.
Não há atropelos na dicção perfeita de Cristina, em nenhuma das línguas. Até alguns dos nosso actores poderiam beneficiar com a audição deste disco.
A verdade e a experiência ensinam que articulamos melhor o que bem controlamos, a saber: o sentido e o peso de cada palavra no conjunto do poema (aprofundando a intenção do poeta), e a busca da melhor colocação na voz para um dizer mais perfeito.
Tudo isto é realizado com perfeição, repito mais uma vez, rara entre nós, no caso de Cristina Branco.
E como não me regozijar com a escolha dos poetas?
Eis a lista:Manuela de Freitas (ela mesma, que recordo como notável actriz, perfeita na dicção como perfeita neste belo poema)
Pedro da Silva Martins ( o seu poema dá o título ao disco)
Baudelaire ( o pai dos pais da Modernidade literária, para dizer só isto...)
Carlos Tê
Jacques Brel
Miguel Farias
Isolina Carrillo (para o célebre Dos Gardenias para ti...)
António Lobo Antunes
António Gedeão ( para mim sempre grande, desde a Pedra Filosofal), entre outros.

O pianista João Paulo Esteves da Silva não levará a mal o meu comentário de melómana e admiradora fiel da sua arte, ao confessar que, ouvindo a sua Invitation au Voyage, descobri uma nova interpretação (leitura) do poema de Baudelaire através do modo como ele musicalmente o leu e Cristina Branco o interpretou.
O tema tornou-se para mim mais do que moderno, post-moderno, na sua súbita alegria e quase desprendimento, (da melancolia e saudade de um Além desejado mas tão longínquo na sua promessa como o país de Mignon, no sul da Alma, onde limões floresciam). O Longe aqui evocado é o da Holanda (segundo é dito pelo próprio poeta) com os seus canais, e não a Itália de Goethe. Mas isso em nada altera a emoção que o poema nos causa.
L'Invitation au Voyage (1857)/O Convite à Viagem (versão livre)

Minha filha, minha irmã,
Pensa na doçura
De viver juntos bem longe!
Amar à vontade,
Amar e morrer
No país à tua imagem!
Os sóis molhados
Daqueles céus enevoados
São para mim o encanto
Misterioso
Da traição dos teus olhos
Brilhando através das lágrimas.

Lá longe, tudo é ordem e beleza,
Luxo, volúpia e calma .

Móveis brilhantes,
Polidos pelos anos,
A decorar o nosso quarto;
As mais raras flores
Misturando odores
Com um vago perfume de âmbar,
Os tectos ornados,
Os espelhos fundos,
O esplendôr oriental,
Tudo nos falaria
À nossa alma em segredo
Na suave língua natal.

Lá longe, tudo é ordem e beleza,
Luxo, volúpia e calma.

Repara naqueles canais
Como dormem as barcaças
Cujo humor é vagabundo;
É para satisfazer
O menor dos teus desejos
Que venha do fim do mundo.
- Poentes
Cobrem os campos,
Os canais, toda a cidade,
de ouro e flôr de jacinto;
O mundo adormece embalado
No calor daquela luz.

Lá longe tudo é ordem e beleza,
Luxo, volúpia e calma.

Claro, neste meu caso de traduzir um clássico tive de ser literal, sobretudo no refrão.
Perde-se a rima, mas não se perde a intenção do poeta.
Em condições normais, para dizer em voz alta, eu traduziria assim o refrão:
Lá longe tudo é harmonia de alma
Luxo, volúpia e calma.

Não deixem de ouvir o disco!













Wednesday, March 02, 2011

A Noite Abre Meus Olhos


De José Tolentino Mendonça a obra poética reunida, num livro que é ele mesmo um objecto poético precioso: pela dimensão, pelo design e ilustração da capa, a partir de um quadro de Lourdes Castro, um livro como um missal, exclamou Teresa Horta ao pegar nele. Cabe na mão, apetece levá-lo connosco e foi o que fizemos.
Comecei pelo princípio e lá encontro a influência maior que todos nós sofremos: Herberto Helder.
E fui continuando.
Acompanho a palavra discreta que fala das ruas da infância, das janelas por onde o mundo entra, enquanto as senhoras ( ainda foi assim no meu tempo, em casa da minha avó ) continuam bordando.
O que se bordava, naquele tempo? O próprio tempo: a espera, se as jovens ao redor ainda não tinham namorado; a melancolia ou o aborrecimento se a vida já as estivesse a consumir, a elas, a essas mulheres das casas com janelas, mas de cortinas quase sempre corridas (o sol estragava os móveis, mas havia pior: a vida estragava as vidas).
Nalguma poesia de Tolentino é manhã, sim, como ele diz,mas já é tarde.
Terá Deus faltado ao compromisso, ao desejado encontro?

Olhar sobre a cidade
...
anda atravessar os velhos pórticos
e depois fica
sem saber em que tempo
estamos
ou se teremos ainda
que morrer

anda, é manhã sim
mas já é tarde
e tu sabes

A interrogação, em Tolentino, bate no centro do poema, no fundo escuro onde a palavra tem origem.
Como Paul Celan, o poeta pede que lhe digam, para que ele possa dizer a si mesmo o que está mais oculto e lhe é mais inacessível na razão das coisas, do simples existir:

O olhar descoberto
Diz-me
....
se há um sentido oculto
no rodar das estações

Diz-me se
toda a imagem é engano
ou filha enjeitada
do fogo

Diz-me se é certo
que o tempo é um único olhar
prolongado nos dias

se a vida é o avesso da vida
e se há morte

A caminho do fim do livro, não me admiro de encontrar Lourdes Castro, a rainha da Sombra, tal como (no fulgôr oposto) encontrei Herberto Helder ao começar a leitura.Não por serem ambos ilhéus, ambos rochedos da Ilha da Madeira, cada qual com a sua história de fuga e reencontro; mas por ambos terem projectado, nos anos sessenta e setenta de um Portugal obscuro, a luz das suas obras, o ranger das portas que empurravam, ou o clamor dos gritos que abafavam.
Numa entrevista recente Lourdes dizia à realizadora do filme: tudo nasce da sombra, não é assim? Mostrava a raiz da planta que já estava a crescer.
E Era assim.
O mesmo com Tolentino, a noite abre os seus olhos, escolheu ele para título da sua poesia reunida.

Lourdes Castro, Rua da Olaria
....
A minha arte é uma espécie de pacto:
não distingo as áreas selvagens das cultivadas
e elas não distinguem a minha sombra
da minha luz


Se não fosse que ao tornar-se moda se tornou para mim cada vez mais difícil falar de alquimia, esta seria a conclusão melhor para o meu comentário, como parece ter sido a melhor conclusão para a obra de Tolentino: o pacto (eu diria o caminhar pelo obscuro) levou à imagem suprema da conjunção alquímica de opostos: luz e sombra, depois de percorrido o que há em nós de selvagem e de cultivado.
Poética de palavra discreta, de passos só aparentemente pequenos, de silêncios que se (nos) aprofundam, este não é um livro para qualquer um.
Só para quem ame a poesia no seu estado mais depurado e sublime. Sabemos, com Celan, que
tudo é menos, do
que é
tudo é mais.


Wednesday, February 02, 2011

O Sol das Palavras

A Primavera da poesia chega pela mão amiga de José da Cruz Santos e as ed. Modo de Ler.
Resistentes, alguns (poucos) editores e poetas insistem em escrever e dar a publicar, dar a ler prazenteiramente, livro na mão, como nós, os da geração de sessenta, nos habituámos desde sempre.
É bom que a geração do livro não desista - quando esses desisitirem o país ficará mais pobre, alem de mais inculto.
Ora a incultura já é tão desmedida...falta que chegue a pobreza: pobreza de alma, pobreza de entrega ao pulsar de vida que se mantém nas palavras.
Onde houver poesia viverá a palavra, a alegria solar de saber e dizer : que o dito não se esconda, não se apague, demonstre a sua força.
Neste seu livro José Carlos de Vasconcelos recorda, no Prefácio, que publicou o seu primeiro livro em 1960, aos dezanove anos. E passados estes cinquenta anos a poesia continua com ele.
No Princípio
No princípio era o sol
No princípio era a água
No princípio era o vento
No princípio era o tempo
o tempo ainda sem tempo
sem sentido e sem sinais

Depois chegou o verbo o verso
O caos se transformou em cosmos
E o sol a água o vento o tempo
passaram a ser reais.

Entre a reflexão e algum discreto experimentalismo, nos poemas seguintes, José Carlos pratica o seu Ofício de Fogo:
....
Meu colorido é a branco e preto.
Mas no rigor de muitas, desvairadas
navegações, também mudo de rumo
no interior do mapa secreto.
Trabalho por dentro das madrugadas
e meu ofício é de fogo, sem fumo.

Todo o bom leitor de poesia se reconhecerá, ao longo destes versos, com alguma alegria melancólica escondida na luz do existir. Como o poeta que gritou: estou vivo e escrevo sol!
Adiante no livro, em Guardo o Poema ( como Alberto Caeiro guardava os pensamentos, em rebanho de feliz improviso) está toda uma teoria poética, ou melhor, toda uma arte de bem viver a poesia pela escolha das imagens mais actuantes:
"emblema de ouro, rosa vermelha, quadro abstracto, silêncio absoluto, música de festa no meio do luto, peixe que nada em aquário partido, olhar da infância no livro aberto, valsa de Strauss fora de moda" até à chave final, a que abre o segredo de uma vida:
guardo o poema
para adiar a morte

Guardemos o livro, com os seus poemas; adiemos também nós a morte.
Cultivemos, seja a ler, seja a escrever, com José Carlos,
"Um ofício de palavras como laranjas no vento".



Tuesday, February 01, 2011

Roberta Ferraz


Um gesto amigo de Roberta Ferraz, que me envia os seus poemas, adivinhando que poesia é o que eu mais gosto de ler:
LACRIMATÓRIOS, ENÓCOAS (título que precisa de explicação para o comum dos mortais, e ela explica: lacrimatório diz-se de pequeno vaso funerário romano, de barro ou de vidro, para supostamente recolher as lágrimas de pessoas enlutadas, mas que continha os óleos odoríferos e bálsamos necessários aos ritos fúnebres; Enócoa: "jarro grego, com a curva da asa mais alta que a boca, usado para retirar vinho de recipientes maiores e servi-lo à mesa"), ao que julgo saber um primeiro bonito livro de 2009, capa de Mariana Mazzetto. Um livro de tom experimental, algo surrealista no contraponto das imagens, em busca de um novo equilíbrio interior, como quem, logo no primeiro poema o estrangeiro, "espera alguém para jantar". O poeta é sempre aquele que espera, é sempre aquele que chega - sendo ele mesmo ou o outro, como ensina Pessoa.
E de 2010 outros dois livros:
FIO, FENDA, FALÉSIA, escrito a três, como uma espécie de cadavre-exquis, ou de Renga, de sabor oriental na condensação da palavra, nalguns poemas, ou de explosão incontida nalguns outros, - todos ligados por um mesmo fio de inconsciente desejo de dizer;
e DIONISO E ARIADNE, com ilustrações de Isabella Lotufo.
Se Dioniso é tentação, Ariadne é referida como Anima - e aí mesmo começa o mistério, o labirinto e a busca.
Como escreve Maiara Gouveia no elegante posfácio que chamou de Saudação:
" Esta é a jornada de um desejo: Anima, o feminino sobre o mundo. Ariadne: começo do percurso (...) Com a destreza de Hermes, ponte entre dois mundos, Roberta reconta histórias subterrâneas, as mesmas de antes, as mesmas de sempre, inteiramente novas. E põe a mulher no centro da dança".
A recuperação de arquétipos do nosso imaginário permite o que neste livro acontece: um renovado prazer no contar, no encontrar dos ritmos que são próprios do desejo, do fazer e desfazer, nas pregas recônditas da memória.
O mito renovado esconde e ao mesmo tempo revela as nossas novas pulsões, o medo ultrapassado.

Tuesday, December 21, 2010

José Gil,O Devir-Eu de Fernando Pessoa

Já falei deste livro noutro post anterior, mas volto a insistir.
Deixo a ideia de uma prenda de Natal, ou de Ano Novo, ou de Dia de Reis, para os amantes de Fernando Pessoa. Como se poderia dizer de brincadeira, Pessoa primeiro estranha-se e depois entranha-se....para sempre.
No caso de José Gil, como de tantos outros pessoanos, é o que se verifica: o retorno aos grandes temas, com as suas perplexidades, que pedem mais reflexão sempre que os abordamos.
Da cidade e do quarto de Bernardo Soares, no Livro do Desassossego, ao sensacionismo programado da Passagem das Horas, em Álvaro de Campos, discutindo pelo meio a relação com Ophélia, José Gil traz de novo aos seus leitores e aos leitores de Pessoa uma abordagem própria, lúcida, com a distância que o tempo cada vez mais permite.

Monday, November 29, 2010

Provérbios, Fernando Pessoa

Numa bela edição, a Ática regressa ao eterno amor que é Fernando Pessoa, em Portugal e no mundo.
Lembro-me de ler, quando jovem estudante em Coimbra, o heterónimo Ricardo Reis, na edição da Ática. Eu lia nessa altura sobretudo Pessoa e Sophia de Mello Breyner, além de Jacques Prévert, mas este não constava ainda da esfera da gente culta do tempo.
Pela mão deste investigador, Jerónimo Pizarro, que fez da obra de Pessoa o centro da sua actividade, e ainda bem, pois houve uma altura em que o espólio quase parecia esquecido entre o sono e o sonho, caros ao poeta vão saindo novidades, como esta.
O primeiro mérito, que saúdo, é ter recuperado para uma editora como a Ática, nesta chamada Nova Série um espaço que espero seja alargado a outros, poetas e prosadores.
Recordo Helena Cidade Moura e David Mourão-Ferreira como ilustres consultores no início dos anos sessenta, quando eu mesma, pela mão deles, ali publiquei poesia e romance.
Era um tempo em que os editores nos liam, falavam connosco e não apenas com o mercado. Nenhum deles, apesar de eu ser ainda tão nova e estreante me perguntou que tiragem média acha que pode vender?
Foi também nesses anos, e pela mão de Helena e de David, que li pela primeira vez Herberto Helder, e desde aí sempre, e festejo agora em pensamento os seus 80 anos, e um disco, lançado hoje, contendo poesia sua. O disco, para quem tenha curiosidade, é de Joana Machado e chama-se Travessia dos Poetas- Rosapeixe.
Mas basta de saudade e vamos ao Pessoa:
O grande interesse desta edição é mais uma vez verificar como era incessante o trabalho do poeta, tentando, pela escrita, pela tradução, pelos inúmeros projectos dos quais muitos nunca chegariam a bom termo, fazer pela vida ( para usar um termo já usado por António Mega Ferreira ).
Mas fazer pela vida sempre num espaço seu e muito próprio, o das letras, nacionais ou estrangeiras como seria aqui o caso.
Útil para o estudioso ou o simples leitor é a recolha paciente: são os provérbios portugueses que Pessoa foi encontrando em variadas fontes, de que J.Pizarro nos vai dando conta.
Em ano de celebração da República vale a pena distinguir o fac-simile da Bibliotheca do Povo, n.45, de Novembro, que Pizarro reproduz.
Sim, houve um tempo em que se dava especial atenção ao povo e às escolas, e se ofereciam, em pequeno formato, algumas boas bases de tradição e memória.
Na sua introdução, muito informada e cuidada, o autor faz o percurso comentado das fontes, tanto das que Pessoa citou explicitamente como daquelas que utilizou.
E seguem-se as transcrições do espólio, nas duas línguas.
Que a letra de Pessoa é difícil de ler e logo aí quem o transcreva merece prémio (se existe) e elogio - não há dúvida.
Mas quanto à capacidade de tradutor do nosso poeta, já ponho algumas reservas.
Nem sempre dar a conhecer ao mundo tudo o que ficou num espólio, mesmo de um grande, como é o caso, favorece a sua imagem. Pessoa traduz muito bem do inglês para português, como se vê pelas traduções de Poe, ou do mago Crowley; seria magnífico se nos tivesse dado algum Shakespeare, ou um Whitman, tanto do seu agrado (veja-se a biblioteca).
Mas já não consigo dizer o mesmo da "retroversão".
Provérbios, bem como frases idiomáticas, sabemos que não se podem traduzir à letra de uma língua para outra. Há que encontrar as formas equivalentes, próprias da tradição, memória e uso corrente de cada língua, de cada país para o qual se tente fazer esse trabalho.
E ao contrário do que muitos ainda e sempre defendem, Pessoa não era um bilingue-nato e não era perfeito, nem no inglês (nem no francês). Não me admira que o editor inglês, delicadamente, não tenha dado andamento ao projecto.
Falta que Jerónimo Pizarro, a quem de novo felicito pelo seu trabalho, nos diga se encontrou na biblioteca de Pessoa algum dicionário de provérbios ingleses que pudesse ter dado ao poeta a indicação correcta de como melhor traduzir, neste caso adaptar, os nossos exemplos aos outros, mantendo um pouco do ritmo, para já não dizer do sentido e da ideia.
Peço ao poeta que lá na sua esfera luminosa e distante me perdoe, nos perdoe.
Alguém devia fechar a arca, respeitosamente, como quem fecha um caixão...
Damos a lume o que ele talvez, se fosse vivo, pensando melhor, queimasse.
Dirão: mas o estudioso....é verdade, para o estudioso tudo é útil, daí o mérito do editor.
Mas haverá assim tantos estudiosos?
Se há, na era da digitalização, essa devia ser a forma ideal escolhida.
Escolho só um dos muitos maus exemplos possíveis:
"quem anda na guerra dá e leva", " who is in the war gives and takes".
Um nonsense total, para o hipotético leitor inglês.
Porque se no coloquial português sabemos que dar e levar é "dar e levar pancada" (porrada seria o termo mais popular) os termos "give and take" em inglês não têm este significado, e imagine-se a cara de espanto do nativo: gives what? takes what?
Enfim, acho que me fiz entender, em português corrente.





Friday, November 19, 2010

De Frente para o Mar

Este livro, concebido e coordenado pelo poeta e orientalista David Rodrigues, com o belo título que nos faz olhar de frente para o mar, seja na vaga inquieta da emoção ou num embalar mais suave de alma, é a minha escolha de momento.
Precisamos da meditação que a arte do Haiku japonês nos ensina : olhar atento, distância, aprofundamento, na era de vertigem que é a nossa.
Encontro, junto de David, amigos de outrora e de sempre.
Também o reencontro é algo de benéfico: fala da vida continuada.
Abrir o livro e ler, em páginas de acaso, permite descobrir como a escolha foi cuidadosa, como a unidade é íntima, é perfeita, em todos os elementos.
Uma tal sensibilidade e elegância merece, da nossa parte, o destaque e a gratidão.




Tuesday, November 02, 2010

Mais Ismos, evocando Hein Semke





Uma recente exposição de Gauguin, o Fauvista por excelência que vemos com os seus nús de jovens tahitianas quebrar alguns tabús epocais, fez-me pensar noutros artistas, com iguais "marcas" de estilo, sobretudo pela força do colorido e da expressão - no sentido do Expressionismo tal como foi definido pelos seus cultores, no início do século XX.
Afinal os "ismos" são de todos os tempos e de todos os espaços: a violência da côr, a velocidade da forma, a intensidade e espessura do traço podem ser encontrados num pintor como Hein Semke, por exemplo, no seu "exílio" português.
Como poderemos defini-lo, a ele que não gostava de definições?
A liberdade a que aspirava, no exercício da sua arte, transparece em todas as áreas que escolhe como campo de trabalho: as cerâmicas, as pinturas, as esculturas, os livros.
Só uma limitação, aquela que o material a usar lhe impõe : o barro ou o bronze não são o mesmo que o papel ou a tela.
Contudo e volto aos ismos, a modernidade da obra de Semke está patente em toda a obra produzida: formas livres, até mesmo libertárias (num Portugal que à época, anos 50-60, desviava com falso pudor o olhar pequeno-burguês que fingia não deitar sobre a arte); livre na obra, livre nas amizades, a maior parte do círculo dos surrealistas que a seu modo foram sacudindo arte e costumes enquanto viajavam entre Lisboa e Paris, e Paris e Lisboa; e com tudo isso, a permanente alegria da côr: nos corpos, nas paisagens de horizonte mais largo ou mais estreito, nas flores, nas árvores, fazendo da côr um verdadeiro elemento de suporte expressivo e simbólico, um meio de nos transmitir a energia de alma que era a sua.
Falarei de misticismo?
Talvez, pois houve sempre e manifesta-se sobretudo nas Esculturas e nos Livros uma dimensão filosófica no seu pensar de vida e obra.
Veja-se a terceira imagem que escolhi, de S.Francisco de Assis, um gesso policromado, de c. 1937. Mas se falarmos de misticismo teremos também de remontar a Lutero, à sua livre discussão do lugar do Homem no Mundo e de Deus no Homem.
Teríamos de falar da Consciência de Si na Arte, e da consciência do Outro em Si - a relação que dá universalidade à obra que se produz.
A recente exposição, na Galeria PERVE de um Cadavre-Trop-Exquis que reuniu Cruzeiro Seixas (que foi um dos amigos de Semke e de sua mulher, a poeta Teresa Balté) com Isabel Meyrelles e Benjamin Marques, fez-me pensar em como estes exercícios de rara elegância e beleza do mais puro surrealismo teriam ao tempo, com Cesariny ainda, fascinado o pintor que da pátria alemã trazia, como trouxe, a energia das raízes plurais.
E voltando aos ismos do nosso Modernismo, aqui e ali e acolá - o que mais importava era o que cada um por si próprio era capaz de oferecer aos outros: fosse nas tertúlias de casa (e relembro Natália Correia) dos bares ou dos cafés, fosse nos bairros antigos ou nas ruas por onde se passeavam os plurais de Fernando Pessoa, os inimigos de estimação de Almada Negreiros, ou outros do mesmo modo.
E Semke, até 1995, no meio deles.Podemos dizer que trouxe à melancolia nacional o seu animismo expressionista, a sua alegria solar.
A nota biográfica do Museu do Azulejo, muito completa, revela um artista de largo e universal convívio, onde não falta um Picasso, por exemplo, uma Vieira da Silva ou um Arpad, entre tantos outros.
Se tivesse de escolher agora um quadro em que se espelhasse a memória da totalidade de alguém como Hein Semke escolheria A TERRA E O CÉU, tinta da china sobre papel, de Cruzeiro Seixas.
Neste quadro, da cabeça coberta de penas de um guerreiro sai um cavalo que será voador, como o pensamento que voa, atravessando os céus. Esta cabeça, de rosto parcialmente coberto por fina mão, feminina no gesto, será a terra, ou o seu emblema; mas o cavalo é o céu, o espaço das Ideias do Belo, do Bom, do Verdadeiro, as energias da alma que Platão descreve no seu Fédon.
Evocar Hein Semke, a propósito dos fauvistas, dos expressionistas, e aproximando-o aqui dos ismos surrealistas, é evocar as energias da alma.
Deixo aos leitores a sugestão do catálogo da sua escultura, organizado pelo Museu de José Malhôa.


Tuesday, October 26, 2010

Infâncias


Mão amiga ofereceu-me este livro, obra-prima de invenção e bom gosto, de todos os pontos de vista: o objecto-livro, com o papel, o design da paginação e da letra, tudo agradável ao leitor que pega nele e o abre, ao acaso.
E a seguir o imenso prazer da descoberta de um autor que primeiro dissera que queria publicar três livros, um da infância, outro da mocidade e um último da velhice.
E que afinal, depois de ter escrito os primeiros textos, simplesmente conclui: "eu só tive infância".
Ah, poeta feliz, de escrita tão inteligente e tão subtil!
Com a sorte de ter na filha a ilustradora que nos oferece para cada texto poético belas iluminuras, também elas inspiradas, oníricas por vezes, e sempre coloridas com os tons mais íntimos e discretos da imaginação: também ela, por certo, dirá com o pai que sempre teve infância.
Manoel de Barros, que agora descubro, faz-me lembrar por vezes o imaginário de Guimarães Rosa.
Ambos nos dão a conhecer outras linguagens, outros seres de paisagens que nos são ao mesmo tempo longínquas e muito próximas: gente de sabedoria herdada, sem contaminação.
Como não invejar alguém que se dá ao luxo de poder afirmar:
" Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos.Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação (...)Então eu trago das minhas raizes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina (...) Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. Era o menino e o rio. Era o menino e as árvores"(p.187).
Penso na mística comunhão de um São Francisco de alma pura.
E tabém penso num Alberto Caeiro - o tal que Fernando Pessoa desejava ser, mas não era: o místico que pastoreava pensamentos, em vez de se estender simplesmente na terra, a olhar as copas das árvores, sendo de verdade a terra, o sol, o rio com a sua água.
Lição que Manoel nos dá, de sermos, em vez de querermos ou de fingirmos ser.
Leio, e agradeço esta prenda que vem do Longe.

Alfredo Margarido

Leio hoje num jornal de referência uma longo artigo de Diogo Ramada Curto evocando a memória de Alfredo Margarido, um universitário que se quis sempre à margem da rotina académica mais medíocre, por feitio, como se diz no artigo, mas não apenas por isso.
O sistema académico - sim, também no meio académico há sistema, não é só no futebol - não promovia no nosso tempo os melhores, mas os mais cordatos, os mais pacíficos, os mais seguidores de modas e mestres que nem sempre o eram.
Alfredo, insubmisso, com uma insubmissão que me faz lembrar, na poesia, Herberto Helder, não se podia dar bem com a tradicional Academia portuguesa.
Possuidor de cultura política vasta, bem como de cultura literária e filosófica, dificilmente se deixaria enquadrar nesta ou naquela imposição doutrinária. Havia ordem? Ele desobedecia!
Nas suas aulas obrigava a pensar, a estabelecer "pontes" que à primeira vista podiam não se ver (como no Conto de Goethe) : era necessário estudar para as construir, num discurso mais subtil e mais elaborado. Era preciso ter capacidade de entendimento e de conhecimento.
Faltou, nesse justo texto de evocação, uma referência não menos importante ao seu contributo, nas letras portuguesas, para o que se chamava de nouveau roman, com um romance pioneiro e de há muito esgotado ( e ignorado?): guardo-o, na estante que chamo "dos amigos" junto com outros que foram e são igualmente marcantes, embora não os reeditem: os editores são, como o resto do país, uma gente ora inculta ora ingrata.
Refiro-me a A Centopeia, de 1961, hoje em dia impossível de encontrar a não ser por sorte em livreiros antiquários.
Mas fica a sugestão: reedite-se uma obra pioneira pelo tema, a experiência africana, e sobretudo pela inovação da escrita.

Saturday, September 04, 2010

Anthero Areia e Água


De Armando Silva Carvalho um livro inspirado, de poesia ao mesmo tempo de reflexão severa e grave melancolia.
Com uma capa de Mário Cesariny, bela de tão sóbria, mais uma vez obriga a que se felicite a editora Assírio e Alvim pelo seu requinte e bom gosto.
Quanto ao titulo, que logo "agarra" e comove, resulta dessa capacidade que alguns poetas têm - como é o caso de Armando - de encontrar, com facilidade aparente, um título que seduz e ao mesmo tempo dá uma indicação subtil de orientação de leitura.
Sabemos que se trata de Anthero de Quental, poeta tão esquecido dos nossos manuais escolares e que foi um dos mestres de Pessoa. E a escolha das imagens da areia e da água são a síntese subtil de um percurso, o de Anthero, mas também o deste poeta que o está a ler e enquanto lê entra em diálogo com ele, com o seu pensamento filosófico e sua inspiração poética: um pensamento sólido e severo na relação com o mundo, uma inspiração frágil e que foge entre os dedos, como a areia e a água. Obra que se desfaz, enquanto a vida também ela de areia e água acompanha essa obra e tristemente se desfaz.
Armando Silva Carvalho é um poeta de grande cultura e grande, para não dizer notável, domínio dos géneros poéticos. Do verso livre ao soneto é exímio no realismo dialogante, na reflexão metafísica, na pura expressão dos sentimentos.
Armando, ao ler Anthero, tornou-o seu e é de ambos a melancolia grave, o distanciamento de uma vida (ou sociedade) em que já não se reconhecem e mesmo assim procuram entender.
Do poema quase epígrafe, ou melhor dedicatória evocativa de Anthero, cito apenas o fim (p.9):
Repito:
Entre a beleza funérea
E a pouca areia e água em que vejo afundar-se
A minha vida
Corre a extinta luz dum mundo
Já sem mundos.
E nessa cinza, como um desafio,
Consigo decifrar as pègadas de Anthero
A caminho do supremo
Nada.

Os poetas que amamos contaminam o nosso pensamento, as nossas emoções, a nossa escrita poética.
Armando Silva Carvalho, ao reler a obra de Anthero (As Cartas) caminhou com ele pelos espaços que a sua obra -toda feita de vida- ia deixando em aberto.
É o que fazem os grandes poetas: abrem espaços a outros poetas, como por vezes também a um leitor comum. Por isso devem ser lidos, estudados, dados a conhecer.
No poema, um dos últimos do livro, Destas Ilhas No Alto (p.99-100) exprime o poeta o que Robert Musil definiu como as duas experiências de maior provação da alma, o mar e a montanha:
É dos picos que olhamos.
Consciência do cimo destas ilhas e no alto
Dos altos nos trocamos.
Andamos por razões que as mãos
de deus, os pés dos condenados, as zonas mais
Absortas do mistério
Nos sabem entrever entre montanha e montanha
Sob um céu mental e derradeiro.
....
É do mais fundo dos fundos
Que abarcamos
Os arcanos da alma ocultos na belíssima cabeça
Do nosso monge em secreta ascese.
Patriota, fiel e socialista,
Doando o seu conselho, o seu pedaço de alma
A uma corte selecta
De homens do país, agrários, literatos.

Só nos faltou o meio,
Meio termo, meio mundo, mediana fala
No meio da natureza,
Planície do desejo nos lugares do corpo,
Uma voz mais usada, ousada,
Que se sabe perdida e segue a ciência do seu mal
Entre os terríveis fogos, entre abismos sonoros
Entre a carne que vive.

Deus permanece oculto, não se rompe o mistério que envolve a sua carne, a carne que vibra na manifestação da existência, nossa e dele. Pois se é em nós e só em nós que existe e toma consciência, ainda que dolorosa...nós somos, no universo imenso, a prova máxima, a voz que fala, ("entre abismos sonoros") mesmo quando se assusta e se cala.
Neste livro de Armando, o que acontece é a meditação em diálogo ora directa, ora mais íntima, metafísica e mística, do pensamento e da condição de Anthero, face a um universo que existe mas não responde.
Anthero desistiu, face ao mar, entre areia e água.
Ao Armando pedimos que não desista nunca.

(Retomo agora este post, em sua memória, no dia 1 de Junho de 2017, da sua despedida).

Wednesday, August 04, 2010

Inquietações Juvenis

Na realidade o título devia indicar que vou falar de Alexander Search, o heterónimo juvenil de Fernando Pessoa, cuja edição crítica também já se encontra publicada.
Da poesia de Search existe, para os leitores de língua portuguesa, uma excelente tradução de Luísa Freire, (ed. Assírio e Alvim, 1995) que obteve em 1996 o Grande Prémio de Tradução da Associação Portuguesa de Tradutores -Pen Club.
A organização dos materiais, feita por ordem cronológica, apresentando primeiro os poemas datados, a seguir os não datados e depois os que podem interessar devido à sua temática, serve os meus objectivos.
Pois aqui mais facilmente encontrará o leitor a semente da ideia, a imagem primeira e fundadora de motivos e temas que reaparecerão depois na obra do heterónimo ele mesmo.
Aqui, como no imaginado Jean Seul (este francês) veremos como em inglês, língua apesar de tudo mais familiar, devido à estadia do poeta na África do Sul, onde fez o liceu, surgem o que poderemos chamar as grandes obsessões: com a vida, Deus e o universo e a relação íntima com todas estas questões.
Há também um sentimento sempre presente - que não o deixará - de algum sentido único para o seu próprio destino. Sentido que buscará de todas as maneiras, e de que o imaginário ocultista fará parte. A dado momento transferirá para a pátria a ideia de uma vocação messiânica, oriunda das profecias de Bandarra e sobretudo dos escritos de António Vieira e da sua História do Futuro. Pessoa identifica-se com o génio de Camões, acrescentando essa visão mítica que transparece no ciclo da Mensagem.Dos poemas datados de 1904 logo o primeiro é sobre a morte: On Death / Sobre a Morte.
E como disse usarei, para facilitar a leitura, a tradução de L.Freire.
Trata-se de um soneto de qualidade banal, o poeta é ainda inexperiente, nesta altura, e o facto de usar não a sua mas uma segunda língua não o ajuda; o tom é solene e pomposo, e só o facto de fazer uma reflexão sobre a morte o torna interessante, pois tem 16 anos quando o escreve.
Mas recordemos Rimbaud e logo veremos a diferença da qualidade poética.
Pessoa começava, influenciado pelas leituras da escola, - já teria lido os clássicos, Shakespeare, certamente, o pensamento estava lá mas a genialidade só seria encontrada ao reencontrar a sua própria língua. Dirá um dia a minha pátria é a língua portuguesa, afirmação que pode ser entendida de diversas maneiras, mas também desta: na língua que é a nossa o ser mais íntimo, mais visceral, manifesta-se mais completamente.
Percorrendo os poemas de 1904 aí estão, como digo, os grandes temas, ainda que tratados de forma ingénua, ou incipiente. Também já surgem as Cíntias que merecem um Epigrama, ou umas quadras que aprecem resultar da leitura do Prometeu de Goethe, elogiando o mérito do trabalho:
Work/Trabalho
Não vieste à terra para perguntar
Se Deus, vida ou morte existem ou não.
Pega a ferramenta para trablahar
Pondo na tarefa cada pulsação.

Ferramente tens, não procures em vão -
Saúde, fé em ti, arte eficiente,
Capacidade, poder de expressão,
Coração sensível e força de mente.

Falei de Goethe, mas poderia também falar de Blake, ou antes dele John Donne, o grande metafísico inglês do século XVII. Há uma investigação por fazer, nos livros da biblioteca de Pessoa: verificar em que casos a contaminação até do estilo é mais directa, e se por vezes estaremos mesmo diante de versões livres daqueles poetas ou textos que mais amou. Não é crime esse ensaio de mão, é ele que prepara os futuros grandes momento de expressão total: quem não leu não escreverá nunca e nunca será grande escritor. Além do mais recordemos que tudo o que se publica agora é material do espólio, não foi escolhido, não foi preparado pelo poeta para divulgação. Estamos, ao ler agora os materiais da arca, a invadir a sua privacidade!.
Nos poemas de 1905 encontramos a Canção de Próspero /Song of Prospero que não deixa dúvidas quanto à leitura da peça The Tempest, de Shakespeare, a obra prima do fim da sua vida, sobre a qual escrevi no meu livro Teatro e Sociedade (ed. da Universidade Lusófona).Eis a tradução de L.Freire:
Minha vara partida no fundo enterrada
Para sempre vai ficar;
Mais fundo que nunca o prumo soou,
Afundarei meu livro no mar.
O encanto de Próspero desapareceu,
Arte e magia tudo morreu,
Mortos e jazendo no fundo do mar.

Nunca mais ligados a mim
Os alegres espíritos do ar,
O que os chamava vinha daí,
E está afundado no cavo mar.
Embora não veja da luta um renovo,
Desejo contudo esta vida de novo,
Jazendo pr'a sempre no fundo do mar.

Quem conheça a obra ulterior de Pessoa encontrará no poema Abdicação o desenvolvimento deste mesmo tema, de um poder oculto que se desejou, que se possuiu e do qual se abdica, reconhecendo para além do temporário benefício obtido os malefícios que igualmente acarretava.Abdicação é de 1921 e podemos ver como é profundo o tratamento dado ao impossível sonho de reinar, sobre os outros como sobre si mesmo.
Termina deste modo:
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Os primeiros versos não são menos belos nem menos significativos:
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços,
E chama-me teu filho.
...

A noite é um tema recorrente, como negro abissal onde toda a existência se dissolve e se recria, onde tudo se origina, como no Ungrund de um Boehme, ou já no século XX de um Paul Celan, como escrevi em Literatura e Alquimia (ed. Presença. 1987) O fragmento à noite, que Pessoa também escreverá em 1914, dois excertos de Odes, pela voz de Álvaro de Campos, é como um apelo à Grande Mãe, ao grande corpo materno, universal, envolvente, de que nada sabemos e tanto desejamos:
.................
Vem, Noite, antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo
.....
E assim continua, de fôlego longo, inspirado, inexcedível como poucos poemas o serão jamais.
Devemos a Maria Aliete Galhoz a primeira e pioneira cuidadosa organização, leitura e transcrição dos primeiros textos poéticos do espólio, preparados para a ed. Aguilar em 1972.
Neste volume pudemos nós outrora estudar o Pessoa ortónimo, os heterónimos, os poemas em inglês ou em francês, os fragmentos do Fausto, verificar as datas - e a cronologia é sempre importante para o estudo de uma obra - e a somar a todo este imenso esforço, as notas, abundantes (e carregadas de informação até hoje indispensável).
Faz falta uma homenagem adequada ao pioneirismo, feito de amor à obra de Pessoa, de Maria Aliete Galhoz. Não havia, naquele tempo, apoios financeiros, meios técnicos adequados, disponibilidade de equipas constituídas para esse efeito de divulgação do nosso grande poeta.
É ainda hoje o meu livro de cabeceira, quando quero reler Pessoa.
Mas voltando de novo a Alexander Search, e aos temas que de origem não mais o abandonarão, recordo um último, The Circle/ O Círculo, de 1907.
Há aqui de novo uma evocação que nos remete para leituras feitas, neste caso de Goethe e do seu Fausto I, quando o herói, imbuído ainda de paixão pelo poder da magia, procura, num círculo, descobrir os segredos da natureza, do Espírito da Terra, como diz.
Transcrevo parte da tradução de L. Freire:
Tracei um círculo por sobre a terra.
Era uma estranha, mística forma
Onde eu pensei que, muitos, houvera
Símbolos mudos que a mudança enforma
E da Lei, fórmulas complicadas
Que, do ventre da Mudança, são entradas.

Segue o poema com a afirmação de que o pensamento está condenado ao símbolo e à analogia:
Julguei que um círculo encerrasse inteiro/ em calma, a violência do mistério.
E adiante, para concluir:
E assim, em cabalístico jeito,
Ali tracei um círculo, curioso;
O círculo traçado era imperfeito,
Embora em sua forma cuidadoso.
Profundamente, da magia ao falhar,
Lição tirei que me fez suspirar.

Deixarei ao leitor, ao estudioso, que se oriente agora para estas primeiras produções de um Fernando Pessoa juvenil mas muito lido, empenhado num percurso que Fernando Gil chamou num seu recente livro de devir-eu, e que é isso mesmo: de todas as procuras a mais importante, a de quem se é, a do que se é. Ser quem, ser o quê, e de que modo. Pessoa procurou de todas as maneiras.
A evocação num círculo do Espírito do Mundo, que ao manifestar-se humilha Fausto e o coloca também a ele numa busca da Alma Superior, tem aqui, em Pessoa, um eco não menos importante.
Não será a magia a força condutora, embora possa ter sido, a dada altura, a força que despoletou todo um processo: o de um Eu que a experiência da vida torna humilde, e por isso mais sábio e exemplar.