Wednesday, August 04, 2010

Inquietações Juvenis

Na realidade o título devia indicar que vou falar de Alexander Search, o heterónimo juvenil de Fernando Pessoa, cuja edição crítica também já se encontra publicada.
Da poesia de Search existe, para os leitores de língua portuguesa, uma excelente tradução de Luísa Freire, (ed. Assírio e Alvim, 1995) que obteve em 1996 o Grande Prémio de Tradução da Associação Portuguesa de Tradutores -Pen Club.
A organização dos materiais, feita por ordem cronológica, apresentando primeiro os poemas datados, a seguir os não datados e depois os que podem interessar devido à sua temática, serve os meus objectivos.
Pois aqui mais facilmente encontrará o leitor a semente da ideia, a imagem primeira e fundadora de motivos e temas que reaparecerão depois na obra do heterónimo ele mesmo.
Aqui, como no imaginado Jean Seul (este francês) veremos como em inglês, língua apesar de tudo mais familiar, devido à estadia do poeta na África do Sul, onde fez o liceu, surgem o que poderemos chamar as grandes obsessões: com a vida, Deus e o universo e a relação íntima com todas estas questões.
Há também um sentimento sempre presente - que não o deixará - de algum sentido único para o seu próprio destino. Sentido que buscará de todas as maneiras, e de que o imaginário ocultista fará parte. A dado momento transferirá para a pátria a ideia de uma vocação messiânica, oriunda das profecias de Bandarra e sobretudo dos escritos de António Vieira e da sua História do Futuro. Pessoa identifica-se com o génio de Camões, acrescentando essa visão mítica que transparece no ciclo da Mensagem.Dos poemas datados de 1904 logo o primeiro é sobre a morte: On Death / Sobre a Morte.
E como disse usarei, para facilitar a leitura, a tradução de L.Freire.
Trata-se de um soneto de qualidade banal, o poeta é ainda inexperiente, nesta altura, e o facto de usar não a sua mas uma segunda língua não o ajuda; o tom é solene e pomposo, e só o facto de fazer uma reflexão sobre a morte o torna interessante, pois tem 16 anos quando o escreve.
Mas recordemos Rimbaud e logo veremos a diferença da qualidade poética.
Pessoa começava, influenciado pelas leituras da escola, - já teria lido os clássicos, Shakespeare, certamente, o pensamento estava lá mas a genialidade só seria encontrada ao reencontrar a sua própria língua. Dirá um dia a minha pátria é a língua portuguesa, afirmação que pode ser entendida de diversas maneiras, mas também desta: na língua que é a nossa o ser mais íntimo, mais visceral, manifesta-se mais completamente.
Percorrendo os poemas de 1904 aí estão, como digo, os grandes temas, ainda que tratados de forma ingénua, ou incipiente. Também já surgem as Cíntias que merecem um Epigrama, ou umas quadras que aprecem resultar da leitura do Prometeu de Goethe, elogiando o mérito do trabalho:
Work/Trabalho
Não vieste à terra para perguntar
Se Deus, vida ou morte existem ou não.
Pega a ferramenta para trablahar
Pondo na tarefa cada pulsação.

Ferramente tens, não procures em vão -
Saúde, fé em ti, arte eficiente,
Capacidade, poder de expressão,
Coração sensível e força de mente.

Falei de Goethe, mas poderia também falar de Blake, ou antes dele John Donne, o grande metafísico inglês do século XVII. Há uma investigação por fazer, nos livros da biblioteca de Pessoa: verificar em que casos a contaminação até do estilo é mais directa, e se por vezes estaremos mesmo diante de versões livres daqueles poetas ou textos que mais amou. Não é crime esse ensaio de mão, é ele que prepara os futuros grandes momento de expressão total: quem não leu não escreverá nunca e nunca será grande escritor. Além do mais recordemos que tudo o que se publica agora é material do espólio, não foi escolhido, não foi preparado pelo poeta para divulgação. Estamos, ao ler agora os materiais da arca, a invadir a sua privacidade!.
Nos poemas de 1905 encontramos a Canção de Próspero /Song of Prospero que não deixa dúvidas quanto à leitura da peça The Tempest, de Shakespeare, a obra prima do fim da sua vida, sobre a qual escrevi no meu livro Teatro e Sociedade (ed. da Universidade Lusófona).Eis a tradução de L.Freire:
Minha vara partida no fundo enterrada
Para sempre vai ficar;
Mais fundo que nunca o prumo soou,
Afundarei meu livro no mar.
O encanto de Próspero desapareceu,
Arte e magia tudo morreu,
Mortos e jazendo no fundo do mar.

Nunca mais ligados a mim
Os alegres espíritos do ar,
O que os chamava vinha daí,
E está afundado no cavo mar.
Embora não veja da luta um renovo,
Desejo contudo esta vida de novo,
Jazendo pr'a sempre no fundo do mar.

Quem conheça a obra ulterior de Pessoa encontrará no poema Abdicação o desenvolvimento deste mesmo tema, de um poder oculto que se desejou, que se possuiu e do qual se abdica, reconhecendo para além do temporário benefício obtido os malefícios que igualmente acarretava.Abdicação é de 1921 e podemos ver como é profundo o tratamento dado ao impossível sonho de reinar, sobre os outros como sobre si mesmo.
Termina deste modo:
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Os primeiros versos não são menos belos nem menos significativos:
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços,
E chama-me teu filho.
...

A noite é um tema recorrente, como negro abissal onde toda a existência se dissolve e se recria, onde tudo se origina, como no Ungrund de um Boehme, ou já no século XX de um Paul Celan, como escrevi em Literatura e Alquimia (ed. Presença. 1987) O fragmento à noite, que Pessoa também escreverá em 1914, dois excertos de Odes, pela voz de Álvaro de Campos, é como um apelo à Grande Mãe, ao grande corpo materno, universal, envolvente, de que nada sabemos e tanto desejamos:
.................
Vem, Noite, antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo
.....
E assim continua, de fôlego longo, inspirado, inexcedível como poucos poemas o serão jamais.
Devemos a Maria Aliete Galhoz a primeira e pioneira cuidadosa organização, leitura e transcrição dos primeiros textos poéticos do espólio, preparados para a ed. Aguilar em 1972.
Neste volume pudemos nós outrora estudar o Pessoa ortónimo, os heterónimos, os poemas em inglês ou em francês, os fragmentos do Fausto, verificar as datas - e a cronologia é sempre importante para o estudo de uma obra - e a somar a todo este imenso esforço, as notas, abundantes (e carregadas de informação até hoje indispensável).
Faz falta uma homenagem adequada ao pioneirismo, feito de amor à obra de Pessoa, de Maria Aliete Galhoz. Não havia, naquele tempo, apoios financeiros, meios técnicos adequados, disponibilidade de equipas constituídas para esse efeito de divulgação do nosso grande poeta.
É ainda hoje o meu livro de cabeceira, quando quero reler Pessoa.
Mas voltando de novo a Alexander Search, e aos temas que de origem não mais o abandonarão, recordo um último, The Circle/ O Círculo, de 1907.
Há aqui de novo uma evocação que nos remete para leituras feitas, neste caso de Goethe e do seu Fausto I, quando o herói, imbuído ainda de paixão pelo poder da magia, procura, num círculo, descobrir os segredos da natureza, do Espírito da Terra, como diz.
Transcrevo parte da tradução de L. Freire:
Tracei um círculo por sobre a terra.
Era uma estranha, mística forma
Onde eu pensei que, muitos, houvera
Símbolos mudos que a mudança enforma
E da Lei, fórmulas complicadas
Que, do ventre da Mudança, são entradas.

Segue o poema com a afirmação de que o pensamento está condenado ao símbolo e à analogia:
Julguei que um círculo encerrasse inteiro/ em calma, a violência do mistério.
E adiante, para concluir:
E assim, em cabalístico jeito,
Ali tracei um círculo, curioso;
O círculo traçado era imperfeito,
Embora em sua forma cuidadoso.
Profundamente, da magia ao falhar,
Lição tirei que me fez suspirar.

Deixarei ao leitor, ao estudioso, que se oriente agora para estas primeiras produções de um Fernando Pessoa juvenil mas muito lido, empenhado num percurso que Fernando Gil chamou num seu recente livro de devir-eu, e que é isso mesmo: de todas as procuras a mais importante, a de quem se é, a do que se é. Ser quem, ser o quê, e de que modo. Pessoa procurou de todas as maneiras.
A evocação num círculo do Espírito do Mundo, que ao manifestar-se humilha Fausto e o coloca também a ele numa busca da Alma Superior, tem aqui, em Pessoa, um eco não menos importante.
Não será a magia a força condutora, embora possa ter sido, a dada altura, a força que despoletou todo um processo: o de um Eu que a experiência da vida torna humilde, e por isso mais sábio e exemplar.




Monday, July 19, 2010

Princesas




Falando-se tanto hoje em dia em modelos de educação, achando uns que a jovens adolescentes de doze-treze anos, por exemplo, é mais útil dar a ler um manual de instruções de uma qualquer máquina do que um poema, quero eu, defendendo os que são de opinião contrária, trazer um exemplo de experiência pessoal.
Tendo lido em voz alta o poema de Pessoa Eros e Psique ( sei bem que tem múltiplas interpretações e das iniciáticas me ocupei noutros lugares, Universidade e não Escola Secundária) junto a ilustração feita por uma jovem na aula seguinte, que foi de desenho, depois de ouvir o poema
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante que viria
De além do muro da estrada.
...
A jovem fixou o que mais lhe interessava: a imagem dessa Princesa.
O resto do poema, que na realidade se ocupa da transformação e re-conhecimento do poeta enquanto cavaleiro que descobre a sua Anima arquetípica, como é óbvio não podia despertar o imaginário de uma criança (pois se até nos adultos esse entendimento muitas vezes é difícil...) cujos conhecimentos se prendem ainda aos desenhos de Walt Disney ou outros que pode ver no cinema.
Mas o importante é que, ao ouvir ler, uma imagem lhe surgiu, e depois a inspirou para o desenho da aula.
Falta o Cavaleiro, que ela pensa desenhar também. Um dia o fará.
Agora: dirão que também das instruções da máquina poderiam ter surgido imagens. Sim, mas num adulto, com humor, num criador que "desfizesse" as instruções, avariasse a máquina, a colocasse em estado de representação mais de banda desenhada moderna, ou post-moderna.
Há um tempo para tudo, e nesta idade em que se está ainda perto da infância, é crime não permitir que se goste e se sonhe com princesas: Pessoa deu o exemplo e já era um adulto.
Ele que teve em parte a sua infância perdida, quebrada pela vida, como dirá pela boca de Álvaro de Campos, soube sempre de como ser feliz na infância era importante.
E nós o que temos feito?
Temos apressado crescimentos empobrecedores que têm feito da Escola - lugar de privilégio por excelência - um espaço menos criador, menos feliz.

Thursday, July 15, 2010

Fernando Pessoa - José Gil


Aos estudiosos ( e também, por que não, aos simples curiosos) da obra de Fernando Pessoa, este pequeno volume de José Gil que nos tem habituado a leituras sóbrias, aparentemente simples mas sempre incisivas da criação em Fernando Pessoa.
Este devir-eu, esta forma de nos dizer de que modo, entre outros, Pessoa se foi encontrando a si mesmo - pelos caminhos múltiplos da sua própria obra - recolhe um conjunto de reflexões feitas a partir do Livro do Desassossego, da Correspondência de Ofélia-Pessoa, e da função do inconsciente da Sensação no poema Passagem das Horas.
Três ensaios, três leituras obrigatórias.
No meu caso, que sempre me apercebi da estruturação, da função e do peso do inconsciente na obra de Pessoa, é-me especialmente agradável, dezenas de anos depois, encontrar uma leitura que não é igual (nunca o poderia ser ) mas devolve a essa função da nossa psique o seu lugar na obra de um dos nossos maiores poetas.
Faltaria, mas não foi intenção do autor e a sua liberdade tem de ser respeitada, a referência ao papel que a paixão pelos conhecimentos esotéricos, iniciáticos, desempenhou, tanto na produção poética como na relação, que se viria a quebrar, com a sua namorada. Ofélia queria um casamento tradicional, filhos, família; Pessoa queria atingir, na Iniciação, o ponto mais elevado. Se o atingiu é segredo bem guardado - mas sabe-se que sonhou, sabe-se que estudou, aguardando um sinal..
Relembro, pois tem sido um trabalho de cuidadosa investigação, recolha e transcrição de inéditos do espólio, o volume X da edição crítica de Fernando Pessoa, sobre o Sensacionismo e outros ismos. (Mantenho, na citação, a escrita do original)
Num apontamento de 1914 declara o poeta que tomou a decisão de ser ele mesmo:
"Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver á altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a idéa do reclame, e plebêa sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Genio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caracter nato quer que eu seja, e meu Genio, com elle nascido, me impõe que eu não deixe de ser.
Attitude por attitude, escolher a mais nobre, a mais alta e a mais calma.Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios á plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palahaço; é de renuncia e de silencio que se veste
(...) Recobrei - ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de 'lançar o interseccionismo' - a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.
(...)
D'oravante vêr se estudo, trabalho, elaboro. As minhas angustias espirituais continuarão em muitos pontos; mas n'um cessaram, na busca de mim que, no amago de tudo, me trazia irrequieto porque não me encontrára.
Marinetti, tudo isso - o grau superior de clown, mais nada.
Associar-me menos com os outros.
Deus esteja comigo".

Mas não esqueçamos que se trata aqui de recolha de fragmentos soltos, ordenados, quando possível, por datas, e que logo noutros momentos a decisão que parecia definitiva é contrariada por outras propostas e reflexões filosóficas e estéticas que recuperam, com minúcia, o caminho aparentemente antes recusado.
Na sua ânsia de extrema liberdade tudo afinal deseja experimentar.
O poeta é de pensamento irrequieto, como ele próprio reconhece, e o seu desejo de tudo abarcar, tudo pensar, sentir e sistematizar, mais para si do que para os outros, cai em contradições que, embora despoletem momentos de genial criação, não lhe permitem levar até ao fim um modelo que se pudesse dizer coerente, completo e disponível na sua universalidade.
Os modelos teóricos de Pessoa são, no fundo, para uso próprio, exclusivo, - não terá nem poderia ter seguidores, e é isso que faz dele, entre outras coisas, o ser múltiplo e único que ele é.


Monday, June 21, 2010

José Saramago, Evocação


No ano da morte de José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Foi há bastante tempo, tinha acabado de ser lançado, com enorme sucesso, o Memorial do Convento.
Sentia-se que em Portugal um fôlego novo, algo messiânico, mas ao mesmo tempo lúcido na sua distância crítica, estava a animar as Letras. E o país precisava de uma tal animação, tal como as Letras de língua castelhana se tinham reanimado com Gabriel Garcia Marquez e os Cem Anos de Solidão.
A propósito de Saramago falava-se de um novo realismo fantástico na nossa prosa romanesca.
Ainda saboreando o prazer de discutir, no Pen Club, o Memorial, já José Saramago, à mesa connosco, o pequeno grupo que se reunia para jantar e falar de literatura, anunciava a sua nova obra, de que já tinha ideia formada e que nos resumiu, com a sua especial arte de contador. Porque ele era um magnífico contador de histórias e era um prazer ouvi-lo.
Era então Pessoa, e Ricardo Reis, e a narrativa do que seria o ano da sua morte, ele Reis que tinha apenas vivido num imaginário poético de alter-ego, de rebuscada heteronimia com laivos de filosofia esotérica.
Comprei o livro mal surgiu nas livrarias e tive pouco tempo depois a surpresa de um exemplar enviado pelo correio com gentil dedicatória .
Li nesta obra o prazer da invenção do detalhe, a minúcia que faltava na criação pessoana onde Reis era grego e vago, tão impalpável quanto os seus não menos vagos sentimentos, expressos de forma quase displicente, evitando o contacto, evitando a matéria e a materialização fosse do que fosse. Até as suas rosas o não eram: não picavam, como as de Rilke.
Saramago fez dele um homem, uma vida e não apenas uma obra.
Deu-lhe convívio com o próprio Fernando Pessoa, afinal eterno e verdadeiro criador, deu-lhe substância, sem lhe diminuir o mistério.
Para a contracapa o editor e o autor tinham escolhido, de Pessoa, a seguinte afirmação:
Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e do mês, mas tenho-os algures) no Porto, é médico, e está presentemente no Brasil., afirmação retirada de carta datada de 1935, que será o ano da sua morte.
A carta era mais uma das "enganadoras", regra geral destinadas a brincar com João Gaspar Simões, seu amigo, e outros possíveis admiradores da sua obra. Pessoa, na verdade, já tinha decidido, se vivesse, publicar na íntegra sob o seu próprio nome toda a obra atribuída aos vários heterónimos. Esta indicação de falsa data de nascimento - antes dele mesmo, que nasceu em 1888 - pedia o que Saramago fez de seguida:
para a mesma contracapa, escreveu então com idêntica ironia:
Ricardo Reis regressou a Portugal depois da morte de Fernando Pessoa.
E assim se lançará na aventura de um monumental romance, que termina com Fernando Pessoa a bater à porta de casa de Ricardo Reis:
Então bateram à porta. Ricardo Reis correu, foi abrir, já prontos os braços para recolher a lacrimosa mulher, afinal era Fernando Pessoa, Ah, é você, Esperava outra pessoa, Se sabe o que aconteceu, deve calcular que sim, creio ter-lhe dito um dia que Lídia tinha um irmão na Marinha, Morreu, Morreu. Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo (...) Fernando Pessoa tinha as mãos sobre o joelho, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse,Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se.
Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa - de -cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui à espera da Lídia, Eu sei que devia (...) E esse livro para que é, Apesar do tempo que tive não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa (...) Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.

Assim termina, de forma genial, a narrativa em que criador e criatura partem, ambos conhecedores de seu destino comum, vão lado a lado, Pessoa deixando o chapéu usual pois lá para onde iam não se usaria chapéu, mas Reis sabendo que o livro esse sim, ainda que de páginas ilegíveis, seria o companheiro perfeito: o livro de um Sem Tempo, para ser decifrado num próximo futuro que ali se construía, para Reis como para Saramago.
Nunca mais me esqueci de que foi pelo fim que Saramago contou que a ideia lhe tinha ocorrido. Já estava a trabalhar nela, começando pelo princípio, pela chegada de barco, com uma frase inicial muito semelhante e que fecharia o círculo, o ciclo de uma vida:
Aqui o mar acaba e a terra principia.

Que melhor exemplo poderia eu escolher para dedicar aos meus alunos de Escrita Criativa, neste fim de Semestre?
E como não repetir o que lhes disse na primeira aula?:
ler, ler muito, ler tudo e de todas as maneiras.




Thursday, June 03, 2010

Os fios de Ariadne


Cláudia Guerreiro retomará esta mesma exposição em 2010.
O título poderia sugerir a obra de Cesário Verde, Nós, onde os poemas são espelho da alma e da circunstância nacional, ao seu tempo, de uma cidade ainda rural, onde o olhar do poeta se cruzava com vendedeiras de formas abundantes e sugestivas, como descrevi no post anterior, ou com atitudes de inspiração decadentista, baudelairiana ou semelhante.
Não é contudo para o nosso Portugal que esta exposição remete mas antes para uma outra consciência de ser: a dos nós que nos atam ou desatam, a dos novelos que é preciso desenrolar descobrindo algum fio, talvez o mais secreto, que leva da nossa consciência e identidade própria à de uma geração, como a da jovem artista.
Esta é uma geração que sofre: na sua liberdade de escolha (os nós sociais, não os políticos, essa liberdade foi garantida); as vias de realização parecem estar libertas, mas estão presas: nas modas, principalmente, como sabem os artistas a quem cruamente se diz, não estás "no meio", ou "não estás in", ou "não chegas ao grande público", "não circulas"..Aí se fecha então o novelo, os fios contraem-se, endurecem e a alma fica presa.
Mas o criador sabe, ou sente, que em tudo há limite e em tudo há limiar: esse é o espaço que tem de ser transposto.
Quando se pinta, como quando se escreve, não é o mundo que conta, o olhar de apreciação ou desapreço de quem contempla ou quem lê: é o acto mesmo em que o criador se envolve, se projecta, se esconde ou se revela, num diálogo (uma procura, uma discussão, uma luta, um esforço carregado de determinação) que só ele pode ter consigo mesmo.
posteriormente esse esforço, que levou a alguma completude interior, algum acabamento, poderá ser entendido, ou mesmo recusado, pelo próprio ou pelos outros.
No acto de criação os outros, esse colectivo bem abstracto, não existem.Porque há um outro mais forte, mais íntimo, que se manifestou como alter-ego: o eu profundo do artista, o que fala às vezes nos sonhos, e sempre no imaginário que a sua produção revela e por um tempo se manteve oculto, como que inexistente.
Mas existe, e a mão que desenha, como a que escreve, acabará por trazê-lo ao de cima, expondo-o completamente.
Nestes desenhos de Cláudia é a mão que está presente: agarra, aperta, faz sangrar o novelo da vida; espeta agulhas que perderam a "domesticidade" do tricot, num coração já sem côr; e quando desfia o novelo eis que os fios a prendem, em vez de a libertar.
Penso em Ariadne, no fio que libertará Teseu e a fará morrer a ela, abandonada, de desgosto.
Aqui Ariadne fica presa, de mãos atadas, que é como diz impotente perante a adversidade do abandono, enquanto Teseu, ainda que embrulhado nos seus fios, foge, erguido no ar por um conjunto de balões.
Ela, que reinava no labirinto terrestre do rei Minos, dominando o terrível Minotauro, é apresentada, no desenho de Cláudia, como a mulher erguida, ainda que presa, imagem de um Feminino forte ( e que resistirá no mito que Ovídio nos descreve).
Ele, ainda que erguido aos céus, um Teseu todo preso nos fios, como se fossem já as tiras com que as antigas múmias eram preparadas para as suas últimas viagens: um herói que o não é, afinal, pois não cumpre a palavra dada, peca por desleal, não merece ser salvo e provavelmente (aqui acrescento eu) cairá por terra quando os balões um a um forem rebentando no excesso de altitude.
A uma figuração de um Feminino forte, resistindo de pé como uma árvore, contrapõe a artista um Masculino fraco, que já podia estar no seu caixão. Os balões mal chegam a elevá-lo.
Na verdade, a mão de Claúdia é um elemento importante, nesta composição: símbolo de autoridade, mão que desenha e que conduz, mão que decide e que condiciona, a seu modo, o significado simbólico deste novelo.
No mito, segundo Ovídio, Ariadne, sofrida, é elevada até ao céu por Liber ( o nome diz tudo) e quando se espalham no ar as pedras preciosas da sua coroa ela transforma-se e permanece na abóbada celeste brilhando com a mesma forma da coroa que o amante primeiro desprezara.
Mas o mito acrescenta algo mais: o astro (Ariadne, a coroa de pedras preciosas) fica entre um homem de joelhos e um homem que segura na mão uma serpente.
Temos assim a simbologia profunda desvendada:
Ariadne - Feminino mediador entre a culpa e a redenção que a serpente, com a sua simbólica própria de regeneração igualmente representa.


Sunday, May 09, 2010

Cesário Verde


Cesário realista é também idealista.E tal como os outros também leu Baudelaire.
As suas mulheres,tanto as as vendedeiras que atravessam as ruas, como as outras que ele idealiza, frágeis ou fortes, humildes "enfezaditas" ou burguesas "frígidas" fatais são, mais do que figuras que despertem sentimentos, suportes para falar da vida e do quotidiano da cidade. O seu Livro é o livro da Lisboa e da sociedade do seu tempo.Poderíamos dizer que há em Cesário um sociólogo, um político apurado, disfarçado de poeta. Remeto para uma obra que não perdeu actualidade:
de Helder Macedo, Nós.Uma leitura de CESÁRIO VERDE, Plátano ed., s.d.
Em epígrafe, Helder Macedo coloca um poema de Fernando Pessoa /Alberto Caeiro que elegeu Cesário como Mestre:

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para as árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Não se poderia escolher melhor texto para enquadrar o que foi a obra de Cesário: poeta também ele "do campo na cidade" como Pessoa desejou, algo artificialmente, que fosse o seu Alberto Caeiro, o poeta que pastoreava os pensamentos como se fossem sensações...
Cesário é um poeta de sensações, mas que não perde o sentido crítico nem o gosto de uma ironia que se sobrepõe à intenção poética, prejudicando-a por vezes. Quero dizer que essa intenção se banaliza, ao ser simplificada num exercício de humor por vezes demasiado caricatural.
O seu tratamento da mulher - entre elas a de uma Passante - varia conforme o contexto em que a coloca e descreve.
Como que inspirado em Arcimboldo acontece-lhe ver no corpo de uma pobre e magra vendedeira de hortaliça a própria terra-mãe, gigantesca, de grandes seios "injectados" e opulentas "carnes tentadoras". É o seu modo de trazer a abundância imaginada do campo para dentro da paisagem cinzenta da cidade:
...
E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.
...
Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.
E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros nas cenouras.

Como observa Helder Macedo, " O ser humano vegetal que emerge da cornucópia trazida para a cidade pela frágil mensageira do campo é uma Deusa-Mãe arquetipal, uma personificação da Natureza (...) é a antítese do corpo da vendedeira que o transporta, caracterizada inicialmente como 'rota, pequenina, azafamada, esguedelhada, feia' (estrofe5), 'magra, enfezadita' (estrofe 19)'descolorida nas maçãs do rosto'/E sem quadris na saia de ramagens( estrofe 16).
Trata-se do poema Num Bairro Moderno e como diz Helder Macedo, que o comenta, nele "se dramatiza uma invasão simbólica da cidade pelo campo", evocando imagens e valores que na cidade de há muito se perderam (p. 147 e seguintes).
Noutro poema célebre, Na Cidade, que Stephen Reckert também estuda, na companhia de Helder Macedo, a cidade é descrita como velha Babel, corruptora:
...Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora
.....
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.
....
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava - talvez o não suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
....
Atravessavas, branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.
.....
E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi então que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu que sou hábil, prático, viril.

O poema termina com a crítica que era, afinal, o fio do poema: não a jovem passante, mas os outros, os padres, "bando ameaçador de corvos pretos", os funcionários, os burgueses, em suma, sendo o seu olhar de poeta "viril" um artifício mais da pérfida cidade.Mas é esta o centro da atenção: a cidade e a sociedade revolta, degradada, não a pálida passante, que no torvelinho da ironia se esfuma e se apaga.



AS PASSANTES



Um dos poemas franceses de Rilke (1875-1927) trouxe-me outros à memória, entre eles o célebre de Baudelaire, que fez do motivo da "Passante" um verdadeiro topos literário, como escreve Stephen Reckert a propósito dessa Passante e de várias outras, de Cesário, Pessoa, Sá-Carneiro no seu ensaio "A Passante e o Futuro do Passado" (em Fernando Pessoa, tempo. solidão. hermetismo, Moraes ed.,Lisboa, 1978).
Mas começo com Rilke:
La Passante d'Été
Vois-tu venir sur le chemin la lente, l'heureuse,
celle que l'on envie, la promeneuse?
Au tournant de la route il faudrait qu'elle soit
saluée par des beaux messieurs d'autrefois.

Sous son ombrelle, avec une grâce passive,
elle exploite la tendre alternative:
s'effaçant un instant à la trop brusque lumière,
elle ramène l'ombre dont elle s'éclaire.

Por comodidade usarei a bela tradução de Gabriela LLansol, ainda que discorde da tradução de Passante por Passeante.
Aquela que passa e que vemos passar não representa, como arquétipo, o mesmo que aquela que passeia. Mas respeito a liberdade poética da tradutora:
A Passeante de Verão
Já vês a lenta e feliz,
aquela que se inveja, a passeante?
Na dobra da estrada, importa que seja
saudada pelos belos senhores de antigamente.

Debaixo da sombrinha, com uma graça passiva,
vai fazendo render a suave alternativa:
por um instante apagando-se a luz demasiado viva,
volta a chamar a si a sombra que a ilumina.

No ciclo de poemas franceses transparece por um lado a experiência do tempo que Rilke viveu em Paris, secretariando o temível e ingrato Rodin, enquanto se absorvia na escrita da sua obra maior, ainda que pouco lida em comparação com as Elegias de Duíno ou os Sonetos a Orfeu: Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. Aqui se funda uma experiência literária, uma técnica de narração inspirada e inovadora, que fornece em parte as bases do chamado movimento Modernista. A um espaço do presente, descrito com olhar minucioso, a contraposição de um tempo que é passado e só no dizer da escrita se actualiza.
Os Cadernos...cuja edição data de 1910, começaram a ser a ser escritos em 1907- 1908, a partir de notas de memórias e viagens e sobretudo da estadia em Paris.
Os amigos de que se rodeava eram grandes vultos da época: Rodin, Emile Verhaeren, André Gide, Romain Rolland. No salão de 1907 descobriu a obra de Cézanne, e como leitura de sempre encontrou em Paul Valéry, que traduziu para alemão, o seu guia e influência.
A Paris de Rilke era o museu do Louvre, o Jardin des Plantes e du Luxembourg, as ruas que percorria a pé ou contemplava de longe, a gente anónima, sofredora e pobre, em contraste com a élite da cultura. Em simultâneo o grande isolamento do trabalho. Foi para ele não a cidade das luzes da ópera, dos musicais ou do teatro, mas a cidade do trabalho e mais trabalho: nos primeiros volumes de poesia, e nas notas dos Cadernos.
Vejamos agora o belo poema de Baudelaire (1821-1867) como que fundador do motivo e do mito que por trás dele se esconde (do Belo passageiro, da Beleza efémera, da Poesia, em suma, no que tem de inatingível).
A Une Passante
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair...puis la nuit!- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu na sias où je vais,
O toi que j'eusse aimée, o toi qui le savais!
(Les Fleurs du Mal, 1861)

Diferentes épocas, diferentes sensibilidades, diferentes reacções a uma passante: em Baudelaire, cultor de uma libertinagem assumida, a do excesso da vida e seus prazeres - neste caso a bebida - cortada no entanto pelo imperativo do poema e da absoluta necessidade de o dizer, de proclamar esse último reduto da alma que se encontra e se perde na busca do Absoluto indicível.
Daqui podíamos, sem esforço, passar para os poemas em que se descreve a temível, a avassaladora Beleza, o tal Belo do mundo platónico das Ideias, da Essência fundadora do Ser, ( o Belo, o Bom, o Verdadeiro ).
La Beauté (XVII)
Je suis belle, ô mortels! comme un rêve de pierre,
Et mon sein, où chacun s'est meurtri tour à tour,
Est fait pour inspirer au poète un amour
Eternel et muet ainsi que la matière.
...
etc. ou ainda:
Hymne à la Beauté (XXI)
Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l'abîme,
O Beauté? ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l'on peut pour cela te comparer au vin

Tu contiens dans ton oeil le couchant et l'aurore;
Tu répands des parfums comme un soir orageux;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l'enfant courageux.

Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.

Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l'Horreur n'est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.
....
De Satan ou de Dieu, qu'importe? Ange ou Sirène,
Qu'importe, si tu rends, - fée aux yeux de velours,
...
L'univers moins hideux et les instants moins lourds?

Este sentido trágico do Belo, só é comparável, em Rilke, ao sentido trágico do Anjo nas Elegias de Duíno. Há contudo mais diferenças a notar entre estes dois poetas: a sensualidade de Baudelaire, explícita em relação ao corpo da mulher, ou a qualquer metáfora do feminino, não se encontra em Rilke, que envolve o feminino no véu de uma espiritualidade que o sublima- como no caso da Portuguesa, ou das referências aos amantes perfeitos.
Baudelaire vive o corpo, ama o corpo, descreve-o, como noutro poema, La Chevelure, e não perde a noção dos sentidos nem quando o corpo é velho, feio, deformado, repulsivo, como em Une Charogne. Disso não faltam exemplos, bastará ler ainda dos Tableaux Parisiens, além do poema da Passante a Danse Macabre, para ficar por aqui.
Cultiva-se um decadentismo que esconde uma ferida profunda, a do amor do Belo representado num Eterno Feminino irrecuperável.
Stephen Reckert encontra em Manuel Bandeira, poeta dos nossos dias (penso no século XX) a expressão de um mesmo motivo em idêntica situação - de passar- que desperta " a curiosidade erótica como meio de cognição, por assim dizer, metafísica, transmutando a 'passante' média ou alta burguesa em princesa de conto de fadas, com o fim evidente de acentuar até ao extremo a sua inacessibilidade" (p. 51 da obra citada):
Aquela cor de cabelos
Que eu vi na filha do rei
-mas vi tão subitamente-
Será a mesma cor da axila,
Do maravilhoso pente?
Como agora o saberei?
Vi-a tão subitamente!
Ela passou como um raio:
Só vi a cor dos cabelos.
Mas o corpo, a luz do corpo? ...
Como seria o seu corpo?...
Jamais o conhecerei!
( A Filha do Rei )

Poderíamos, quanto aos baudelairianos nacionais, ir então espreitar Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, na companhia de Reckert. Mas ficará para outra vez.
São de Klimt as imagens escolhidas.




Thursday, May 06, 2010

Árvores do mundo

Magdalena Tulli é uma escritora polaca cuja obra não é por enquanto conhecida em Portugal.
A versão inglesa deste seu primeiro romance, Sonhos e Pedras, datado de 1995, permite desde logo adivinhar uma grande sensibilidade poética e um forte poder descritivo. Magdalena é psicóloga e tradutora, tendo traduzido Marcel Proust e Italo Calvino, escolhas que nos confirmam a impressão com que ficamos ao ler a sua prosa: a um poderoso imaginário da cidade, Varsóvia, neste caso, une-se a meditação de um Tempo que se reconstrói nela e a partir dela, como a Árvore do mundo descrita na primeira página.
É deste modo, simbólico mas muito directo, que a autora nos coloca no Centro - da cidade e do mundo- sem mais perda de tempo ( o Tempo, o precioso transformador de pedras e de sonhos).
Cito do primeiro parágrafo:
" A ÁRVORE DO MUNDO, como qualquer outra árvore, no começo da estação da vegetação (esta é a frase que o tradutor inglês escolheu, eu talvez dissesse antes floração), abre pequenas e delicadas folhas douradas que com o tempo adquirem um tom verde escuro e um brilho prateado. Depois tornam-se amarelas e vermelhas como se estivessem a arder em chama viva e depois de terem ardido...tornam-se castanhas e caem no chão...como papéis transformados em cinza..." (p.7).
Esta árvore é uma metáfora da Árvore da Vida, como se vê adiante:
" Quando a estação da vegetação chega ao fim a árvore do mundo está carregada de frutos. Os frutos amadurecem, caem, apodrecem. Em cada fruto há uma semente e nessa semente o germe de uma árvore e dos seus opostos, a copa e a raiz...O fruto pertence à árvore mas contém em si mesmo uma futura árvore completa, em simultâneo com o fruto que nela vai nascer "(p.7-8).
Não será necessário recorrer à primeiríssima imagem da árvore Ygdrasil, a árvore cósmica que une céu e terra, fortalecendo o poder da imagem do círculo como símbolo de totalidade contida e perfeita em si mesma.
Outras imagens ocorrem, como a árvore da Kabala, de raízes plantadas no céu e copa enterrada na terra, como se a perfeição do redondo da copa (o Todo) só nas profundezas mais recônditas do ser e da existência fosse possível de encontrar.
Mas a autora não pretende, desde logo, apontar uma via mística e sim conduzir o leitor ao coração da cidade:
" As cidades que amadurecem na árvore do mundo estão contidas na sua forma, como maçãs. Cada uma é igual à outra . Cada uma é diferente" (p.8).
Seguem-se descrições :um rio, ruas, um jardim zoológico, habitantes que sabem a côr das nuvens e que sabem ainda que a cada coisa que lhes é dada corresponde outra que lhes é tirada. Cada olhar é acompanhado de uma consciência de perda" (p.8).
Deste modo, reflectindo sobre o que se perdeu ou perde ainda e o que se poderia ter ou ter tido, a autora inscreve o tema central do que vai ser esta obra: a partir da imagem da árvore do mundo, seus frutos e sementes, a maçã da cidade, suas pedras, seus espaços e tempos, sendo o Tempo o grande escultor que tudo transforma e recupera.
Proust anda próximo, principalmente das últimas páginas, em que já se fala do tempo abertamente.
Mas por enquanto a proximidade que se sente é mais a de um Blake ou sobretudo de um Rilke, de cujas árvores, frutos, copas redondas, sombras, não se pode escapar ao ler este princípio.
Falemos pois de Rilke e da sua nogueira, na cidade de Paris:
Árvore, sempre no meio
de tudo o que a rodeia
Árvore que saboreia
a cúpula inteira dos céus.
O imaginário do ser redondo, para usar as palavras de Gaston Bachelard, impõe-se aqui:
" O mundo é redondo em volta do ser redondo" (G.B., La Poétique de L'Éspace,p. 214).
E os versos de Rilke vão erguendo em direcção a Deus a árvore que escolheu:
Deus vai aparecer~lhe
e para que tenha a certeza
dá forma redonda ao seu ser
e estende-lhe os braços maduros.

Árvore que talvez
pense por dentro.
Árvore que se domina
dando-se lentamente
a forma que elimina
os acasos do vento!

Podemos falar, com Bachelard, de um imaginário do ser perfeito, neste poema de Rilke; mas podemos, com Magdalena Tulli, nesta obra, igualmente falar de uma simbólica muito própria, muito íntima, da sua relação com a cidade:
o fruto, com o tempo, com o verme que o rói; e a semente, com o mesmo tempo, do renascimento perpétuo.
Os sonhos, no romance de Magdalena, acabam por moldar as pedras, devolvendo-lhes a forma primitiva ou parte dela; vencem os "acidentes" da matéria, sem permitir que a marca funda da existência se disperse.
A árvore, com o seu fruto, é forma contida na multiplicidade do devir.

(Dreams and Stones, trad. Bill Johnston, archipelago books, 2004)

Thursday, April 22, 2010

Brilho no Escuro


Outras ocupações me deixaram um pouco afastada do blog, mas não há coincidências e aqui regresso pela mão amiga de quem ama a literatura e arte e me envia outros números da revista Brilho no Escuro:agradeço a Isabel de Sá, a Graça Martins e ao João Borges, que me anuncia a preparação de um n.4.
Estejam atentos.
Podemos agora ver melhor como de um onirismo sarcástico, fazendo evocar alguns dos poemas e das collagens de Jacques Prévert bem como as leituras apaixonadas da obra de Comte Lautréamont - a grande Bíblia do surrealismo em França e entre nós - as criadoras partiram para a expressão mais intensa, quem sabe se mais dolorosa, dos atamentos da alma de que as cordas e os nós são a marca visível e quantas vezes sangrenta.
Tantos e tantos anos passados, e as almas sangram na mesma. Podemos dizer, como Verlaine "em diálogo" com Rimbaud:
Chora-se no meu coração
como chove na cidade
Verlaine chorava o amor perdido de Rimbaud, nós choramos hoje a esperança traída, o horizonte fechado, e só na arte temos refúgio, nos criadores que continuam presentes: o seu dizer torna-se o único dizer possível, na pintura, no poema, na ilustração, neste caso concreto destas revistas de fulgurante brilho..
Por um lado são eles que nos apontam novamente o caminho, como fizeram outrora (nos anos sessenta, os anos da "verde" esperança dos Verdes Anos) .
João Borges, partindo de uma título de Agustina Bessa Luís, oferece um ciclo de poemas:
Canção Diante De Uma Porta Fechada
...
Diante de uma porta fechada, estou sentado e canto. Para a chuva, para o que está do outro lado.
...

Este verso é uma entrada em diálogo com o espaço de um quarto, de uma cidade onde também chove, como na de Verlaine, uma entrada em diálogo com a leitura íntima de uma autora, uma obra (foi de início Agustina) é de seguida Irene Lisboa, a minuciosa, a ciosa da sua escrita, a tão esquecida apesar de tão inscrita no mundo. Um mundo fechado.
Interessante é ver como os poetas, através das suas obras, falam uns com os outros, como no tempo o diálogo pode não ter interrupção, é uma questão de acaso e de momento.
Mas:
O livro tem de estar ali, tem de estar disponível, como a pintura tem de ter direito à sua legítima parede, a ilustração à folha que já chama por ela, clama desesperadamente por ela, para ser um tempo que se torna espaço, como em Parzival acontece ao reino do Graal, um tempo mágico que se torna actual, presente, só ali, para cada um e para todos, para sempre.
Não me esqueçam, pinta Graça Martins na imagem que escolhi para o post, e eu digo com ela, não a esqueçam, nem a ela nem a nenhum destes nossos compagnons de route!


Tuesday, February 23, 2010

José da Cruz Santos


Quem ama a poesia e a edição não deixará nunca de ler, de escolher, de editar...
É assim que José da Cruz Santos, Mestre da edição em Portugal, desde os anos cinquenta, quando tudo era mais difícil e parecia mais fácil - apresenta agora a sua nova colecção de poesia, JCS na Modo de Ler.
Este primeiro volume não podia ser mais belo, nem mais significativo: é feito de rosas, as rosas dos poetas, a grande roda -rosa do mundo.
Por ordem alfabética, de Alfredo Margarido a Rainer Maria Rilke, poderemos ir lendo 56 poemas, da muita poesia portuguesa e não só que o autor antologiou com o maior cuidado.
Na tradução de José Augusto Mourão lemos Angelus Silesius, o místico alemão do século XVII:
A rosa é sem porquê; floresce, porque floresce,
Não cuida de si própria, não pergunta se a vemos.

E na tradução de Paulo Quintela deixo a rosa de Rilke:
rosa, ó contradição pura, volúpia
de ser o sono de ninguém sob tantas
pálpebras.

A imagem da rosa alimenta os poetas, a imagem do livro alimenta este editor incansável.
Desejo-lhe daqui todo o sucesso.

Sunday, February 21, 2010

Miguel Yeco


Miguel Yeco, pessoano pintor, espalhou pela cidade de Lisboa, em cantos e paredes, a imagem que era o seu selo, a sua assinatura, a figurinha solitária de Fernando Pessoa.
Na imensa solidão adivinhava-se um mundo, um universo, constelações de imagens e ideias tomando formas ora excessivas ora subtis, de tal modo subtis que só um grande amor, como o de Miguel por Fernando Pessoa, poderia evocar.

Hein Semke

Arrumando preciosidades encontro este desenho de Hein Semke, representando Teresa Balté, sua mulher, pintora e poeta.
Data do início dos anos 90 - uma época em que não acontecia, como agora, que a poesia, no sentido mais lato do termo, fosse regularmente trucidada.
Porque o tempo faria valer o melhor da criação artística, os criadores sabiam, ainda que demorasse, que a hora de novos olhares acabaria por chegar e com ela não o pagamento - nunca de dinheiro se tratava - mas o prazer do reconhecimento, da contemplação inspirada ou da leitura feliz.

Monday, February 15, 2010

Rimbaud-Pessoa


A releitura de um poema de Rimbaud, escrito em 1870, Le Dormeur du Val, trouxe-me de novo à memória O Menino de sua Mãe, de Fernando Pessoa, publicado pela primeira vez na revista Contemporânea, de 1926, e inspirado segundo ele conta numa litografia vista numa pensão onde fora jantar com com um amigo (in M. Aliete Galhoz, notas à Obra Poética de Fernando Pessoa,Rio de Janeiro, 1972).
Sabemos da curiosidade e da cultura imensa de Fernando Pessoa, e da sua capacidade de traduzir ou melhor, dialogar, com obras de outros autores de cuja sensibilidade se sentia mais próximo. E na verdade o conhecimento dos horrores da guerra de 1914-1918 era geral entre nós, avivando sentimentos como os que transparecem no poema. O mesmo acontece com o poema, de vários anos anterior, de Rimbaud. Os críticos entendem que no caso deste jovem génio não será tanto esse sentimento que prevalece, mas antes o de se inspirar num motivo literário que já tinha sido trabalhado, entre outros por Victor Hugo, Souvenir de la nuit des quatre, e em Quinet, L'histoire de mes idées, numa página que pode ter inspirado Rimbaud: o jovem Quinet descreve como viu, aos quinze anos de idade, num bosque, o cadáver de um soldado com uma ferida no flanco, a escorrer sangue, boca aberta e os braços em cruz. Imagem forte, que não pode ter deixado de impressionar quem a leu (in notas à edição da Obra Completa da Pléiade).
Que os motivos literários se contaminam uns aos outros, ao longo dos tempos, é sabido.
Seria interessante ( e será que já foi feito?) identificar a tal litografia que foi vista por Pessoa, e em que restaurante, dos vários que frequentou (mas nem seriam muitos). Essa litografia talvez fosse a representação do poema de Rimbaud.
É certo que podemos, entre os clássicos, encontrar vários motivos semelhantes a este, de comoção perante a morte aparentemente sem sentido de um jovem. Mas o poema encerra ainda algo mais: a identificação da morte com o sono. O soldado morto é um dormeur, é um homem que adormeceu no vale.
A morte como sono eterno, como repouso eterno, livre do sofrimento da vida.
Procurei uma tradução em português e encontro num poeta brasileiro (é preciso ser poeta para traduzir bem...) a belíssima tradução de autoria de Ivo Barroso, e aproveito para recomendar a leitura do seu blogue e a da obra de tradução, em edição bilingue, de 1995.
Desgosto grande é que em Portugal nada ou muito pouco se saiba da grande erudição brasileira, que envergonha a nossa cada vez maior iliteracia. O Brasil dá cartas. Por mim tudo bem, não preciso nem nunca precisarei de "acordos ortográficos" de espécie nenhuma, para acompanhar a produção brasileira que conheço desde que li pela primeira vez Clarisse Lispector, Jorge Amado e muitos dos criadores dos meus anos sessenta: Vinicius foi um deles, visitou Lisboa várias vezes, mas houve muitos mais. Para mim tudo continua. Mas lamento pelo meu país, envelhecendo mal, há anos que deixou de haver uma Livraria Brasileira como tinha havido e onde íamos regularmente aos sábados ver o que tinha chegado.
Mas voltando aos poemas:
Em Rimbaud o soneto começa com a descrição realista de um vale verdejante, iluminado pelo sol, em suma, uma paisagem amena e suave; na segunda quadra já se descreve então um jovem soldado, de boca aberta, cabeça nua repousando na erva fresca: dorme, estendido sob as nuvens, pálido na sua cama verde onde a chuva cai.
Feita esta descrição, quase evocando no início uma natureza-mãe que embale e aqueça o jovem adormecido, o poeta revela então aos poucos o que ali acontece: o jovem dorme, sorri como uma criança doente sorriria no meio da sua sesta; e chega então o apelo " Nature, berce-le chaudement, il a froid" ( Natureza, embala-o calorosamente, ele tem frio).
Apercebemo-nos, com subtileza delicada, desse grande mistério que é a morte, sono eterno em que a Grande-Mãe nos recebe e embala.
No último terceto a imagem cruel:
"Os perfumes não fazem estremecer suas narinas;
Ele dorme ao sol, a mão posta no peito
Tranquilo. Dois buracos vermelhos no seu lado direito".
Não se diz nunca a palavra morte , evoca-se o vale, o brilho do sol em contraste com o vermelho dos buracos da bala, sem que se diga sangue, como tampouco se disse morte - pois não fazia falta. A concisão, a economia do verso torna-o mais secreto e mais belo, mais intenso, muito mais comovente.
O adormecido do vale, jovem soldado varrido pelo acaso da guerra, não ouve já o canto da ribeira, não vê o céu sob o qual repousa, não sente o cheiro dos gladíolos em que está deitado.
Esta referência aos sentidos carrega de melancólica saudade do essencial da vida, num jovem de dezasseis anos como era Rimbaud à data, o seu poema.
Bem diferente será o caso de Pessoa.
Embora recuperando algumas das imagens próprias do motivo central do jovem soldado morto na guerra, longe dos seus ( da mãe, da criada velha), trespassado por duas balas, a descrição, realista e desenvolvida numa série de quadras ( o soneto obrigaria a muito mais contenção, nem tudo é mau nas formas rígidas! ) escolhe antes o contraste entre os objectos que perdurarão, como a cigarreira dada pela mãe, o lenço dado pela criada - pormenores que, escolhidos para comover mais, antes nos distraem do pormenor essencial que é morrer jovem numa guerra sem sentido.
Ao contrário de Rimbaud, em cujo imaginário, panteísta, sensual, encontramos o lamento e também o reconhecimento do arbitrário mas inevitável sacrifício ritual da vida à morte, como se dum Attis se tratasse e não dum jovem soldado, em Pessoa o que encontramos, na escolha (ainda que emocionada) deste mesmo motivo é a identificação com o seu desgosto de viver, na permanente saudade da infância quando tinha mãe, criada velha, contos de embalar, brinquedos (que lhe partiram, como dirá Álvaro de Campos).
Pessoa, num extremo exercício de consciência de si, depressa nos remete para uma saudade que já pouco tem a ver com o motivo-base do poema, passando o jovem soldado a uma quase figuração do que o poeta vê de si mesmo, um "menino de sua mãe" que há muito deixou de o ser. Não vê, nem sente, como Rimbaud, o desgosto de uma vida que se perde em mais um sacrifício, vê antes na vida desperdiçada do jovem soldado o que entende ser o desperdício da sua própria vida.
Relembrando a biografia, deixa de ser o tal menino quando a mãe, viúva, casa pela segunda vez e constitui nova família. Nunca mais o poeta deixará de glosar o motivo da infância perdida, nem como ortónimo nem como heterónimo, em nenhum dos múltiplos casos.

Friday, February 12, 2010

Revista de Arte


Brilho no Escuro:
Há dias assim, dias felizes em que o acaso de uma amizade nos permite o reencontro com artistas que acompanhamos outrora, apreciando a sua inspiração, a independência e originalidade das suas vozes ( obras ) que o tempo, o eterno corruptor, não corrompeu.
Recebo esta revista ( e lamento não ter visto o n.1 e ter vindo a saber que talvez não haja n.3 ) e descubro a mão de Isabel de Sá na ilustração, e poemas seus que me remetem para as edições eETC. onde desde sempre os marginais, os alheios, os invisíveis dos discursos da moda podiam encontrar um espaço próprio, livre, sem imposições de qualquer espécie; ali se convivia com alguns dos grandes textos que a editora dava a conhecer em traduções pioneiras; ali todos se sentiam bem.
Descubro ainda o Paulo da Costa Domingos, com outro poema, que leio como quem não vê um amigo de longa data, nunca esquecido.
E finalmente uma voz que é jovem, no meio desses mestres da poesia de sempre, João Borges, que espero poder acompanhar por algum tempo, o tempo que me for concedido.
Esta é uma revista de arte, em que poesia e ilustração mutuamente se iluminam, daí o brilho no escuro, a luz no coração vibrante das palavras.
E é um desafio: o da interrogação, como a da Alice no País das Maravilhas, que se procura a si mesma para entender quem é e o que é o mundo à sua volta.
Uma interrogação a que só o artista com a sua arte pode responder, com um Eu Sou - "eu sou", como aquele que exclama, do fundo do universo "eu sou aquele que é ", eu sou o Ser-em-si, o Absoluto, a Essência, o eterno e indestrutível Fundamento da existência que, no seu poema, Isabel de Sá define como Princípio da Realidade.
Uma realidade insubmissa.

Se a arte
não for insubmissa
se não permanecer
desobediente
e não escapar ao controlo
é o quê ?

Se a arte
não for insurrecta
se não permanecer
pedra viva escaldante
é o quê ?
a arte se não disser Eu Sou ?

Dizer eu sou, significando a essência do que se é, neste caso ( como noutros) artesão da dissidência, é cada vez mais difícil nos dias que correm.
E decidir-se a editar uma revista de arte que será de poucos, devendo ser de muitos, é nestes dias que correm outro acto de insubmissão.
Mas é nesta insubmissão que se respira, e é dado a ver um coração que bate.

Saturday, January 23, 2010

A Música em Portugal no século XX

Estamos perante uma obra monumental:
Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX (A-C) sob a direcção de Salwa Castelo-Branco, Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou um Instituto de Etnomusicologia que agora se dá melhor a conhecer através do lançamento do primeiro volume de uma série de quatro que se tornarão referência de interesse nacional e mundial para os investigadores da Etnomusicologia.
Basta procurar na letra A as entradas dos arquivos consultados para se ficar com uma ideia do que foi por um lado a dificuldade e por outro a exigência de uma informação tão completa e fundamentada quanto possível, num país como o nosso, que não inventaria, não cataloga, pouco preserva das suas memórias - neste caso da música- como de tantos outros de que se poderia falar.
O projecto durou mais de uma década a ser pensado, discutido, dividido por especialistas segundo as várias áreas, para que nada ficasse de fora: nem a tradição popular, nem a erudita, nem outras como as do fado, das etnias lusófonas ou o jazz que em Portugal se praticava; é ambicioso e abrangente, pois nele encontramos as entradas relativas aos locais, aos grupos, aos compositores, aos executantes - com abundância de fontes e documentação de todo o género.
Valeu a pena o tempo, o esforço, toda a dedicação de autores e colaboradores desta aposta mais do que bem sucedida e espero que muito bem acolhida pelos estudiosos e público em geral do Círculo de Leitores/Temas e Debates.
Não posso deixar de dizer mais alguma coisa a respeito de Salwa Castelo-Branco, a brilhante académica egípcia de que falou Rui Vieira Nery na apresentação que decorreu no Teatro Nacional de São Carlos: somos um país de lendas de mouras encantadas que ora seduzem ora se deixam seduzir; neste caso Salwa, que nos Estados Unidos singrava já num percurso universitário pioneiro, deixou-se seduzir e veio para Portugal, e para a Universidade Nova, dedicando-lhe o seu saber, o seu trabalho, a sua energia criadora que contaminou os que a rodeavam e são hoje seus colegas e discípulos. Fez escola, como fazem os Mestres.
Para Salwa uma palavra de gratidão e de carinho.
E para o país a sugestão: que o Prémio Pessoa de 2010 seja atribuído a esta académica brilhante e generosa.

Monday, January 18, 2010

Caramulo






Calculo que os amigos literatos conheçam, ou de ler ou pelo menos de ouvir falar, a Montanha Mágica de Thomas Mann, obra-prima do século XX, narrando a vida de Hans Castorp que por razões que agora não vou descrever decide ir ficando, como que para sempre, na montanha de Davos onde fora visitar um parente.
Mas talvez não conheçam o Caramulo, mais serra do que montanha, servindo contudo o mesmo fim, de sanatório pioneiro em Portugal no tratamento da tuberculose, o mal do século. Ficamos a dever a António José de Barros Veloso (cujo interesse pela História da Ciência e das Ideias Científicas tem sido expresso em variados estudos, seminários e conferências) a recuperação da memória e da história do Caramulo numa bela edição que prima pela qualidade gráfica, elegância e concisão de escrita tanto quanto pela organização dos materiais investigados.
O subtítulo, Ascensão e Queda de uma Estância de Tuberculosos, de imediato nos remete para essa leitura já citada de Thomas Mann, cuja montanha foi real, antes de ser literária.
Quanto ao nosso Caramulo é Barros Veloso quem nos conduzirá pelos seus caminhos.
Descreve em primeiro lugar o espaço:
"Aquela que é hoje conhecida por serra do Caramulo foi chamada em tempos serra de Alcoba. A palavra, que deriva do árabe, significa cúpula ou zimbório e poderá estar relacionada com o aspecto de alguns dos monumentais acidentes graníticos presentes na região". Para além da paisagem, refira-se ainda, de sedutora e misteriosa grandeza, a Anta milenar fotografada.
Depois traça a biografia do fundador, Jerónimo Lacerda: nascido em 1889, em Coimbra, aí viria a formar-se em medicina "com a classificação final de 19 valores" (em 1915).
Segue-se, na organização do volume, a descrição das infra-estruturas do sanatório, e da sua arquitectura, que já ficava a dever ao movimento modernista, nascido na Europa posterior à Grande Guerra, a noção de que os espaços deviam ser amplos e arejados, bem expostos ao sol, criando condições para o tratamento da tuberculose e doenças como o raquitismo:
É em consequência disso que vão surgir os vários edifícios "de estrutura marcada pelas linhas rectas, com telhados em forma de terraço, varandas largas e galerias".
Refere-se ainda o aparecimento da marca do estilo Art Déco, divulgado por uma nova geração de arquitectos que fizeram do Caramulo uma estância especialmente elegante: é dado o exemplo da Capela de Nossa Senhora da Esperança e de vários chalés erguidos na encosta da serra, na zona conhecida "por Fonte dos Amores, onde viviam as famílias dos doentes e de quase todos os colaboradores - médicos, farmacêuticos e gerentes dos sanatórios. Tampouco faltou naquela altura o cunho de vincado nacionalismo trazido por Raul Lino, a "casa Portuguesa", tão ao gosto do Estado Novo e das élites "em ascensão" como nota o autor.
Interessante é igualmente ver como se organizavam os horários dos pacientes, com regulares exposições ao ar livre, de manhã e à tarde. Barros Veloso transporta-nos a esse tempo, graças à sua escrita viva, de cunho pormenorizado e realista.
Continuando com a organização do volume, chegamos então aos aspectos assistenciais e científicos, que vão desde os anos 1920-1938 (a fase de arranque) passando pelo período áureo (1938-1952) para chegar ao fim anunciado (1952-1978). Estes são capítulo que interessarão muito em particular os cientistas e investigadores da medicina em Portugal. Temos uma reprodução de um aparelho de pneumotórax intitulado "caramulo", por ter sido invenção de um dos colaboradores do sanatório, que pertencia ao seu corpo clínico, Martins Queirós.
Claro, mais tarde, com a natural evolução do saber e com a descoberta da estreptomicina, todos estes processos se tornaram obsoletos.
Barros Veloso descreve ainda, com grande detalhe e abundância de documentação, as ligações políticas.
Veremos Oliveira Salazar, que foi amigo de sempre do fundador Jerónimo Lacerda, em ameno convívio com ele e António Ferro, num passeio pela serra - sendo esta uma das muitas fotografias que se incluem no livro.
O interesse histórico, científico, político, deste volume a que Barros Veloso dedicou o melhor do seu tempo, é sublinhado ainda pela qualidade da edição: está de parabéns a By the Book!
Quanto a nós, amigos leitores, talvez devamos visitar ou revisitar o Caramulo, a beleza da paisagem está lá, e está hoje em dia o Hotel e um Museu com obras escolhidas, onde nem falta um Picasso!

malevithc


Podemos seguir o ano com mais um número da Revista CRIATURA cujos editores escolhem para antologiar poetas e poemas variados, nos temas e julgo que nas idades.Há um lugar para os jovens, com os seus primeiros versos ( o Diogo Vaz Pinto que me corrija se estou enganada) e para autores já com obra feita. Bom espaço, boas escolhas - esta é uma qualidade rara que me faz ler a revista com interesse e cuidado.
Claro, como todo o leitor, não sou inocente na leitura, tenho preferências que me fazem voltar a alguns autores que vou acompanhando e conhecendo melhor.
Outros vou descobrindo.
Desta vez, e fazendo sempre jus às vozes femininas, escolho um pequeno poema de Ana Salomé, uma espécie de diário de intenções que me recordam o conselho de Rilke nas Cartas a um Jovem Poeta: se está a começar não escreva poemas de amor...esse amor que julgamos único na realidade torna-se banal pois o amor é de sempre, é de todos, e de início vivido de forma igual. Ora a grande poesia é feita da diferença e não do mesmo que possamos julgar, por ingenuidade, diferente e inovador. Há que ler muito, ler tudo, até chegar à desejada diferença.
DIÁRIO
A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
(Ana Salomé, p.13)

Este é um Manifesto que bem podia comparar-se ao de Álvaro de Campos, também ele cultor de uma prática poética que se quis directa e quotidiana, sem resquícios de alguma evocação mais sentimental, ele que disse na altura que todas as cartas de amor eram ridículas...
É muito interessante descobrir nestas novas vozes poéticas uma herança que ali permanece viva, ainda que não explícita, e vai conduzindo o fio da experiência - que hoje em dia é narrada sem qualquer ocultação ou pseudo- timidez.
Tudo mudou na vida, nas opções mais sinceras ou mais de ocasião, cigarros e bebidas de mistura com sexo ora insípido ora mais feliz (passa por aí o Sexo e a Cidade da série conhecida) - tudo atravessa a linguagem poética como atravessa os chats, o face-book, o you tube e é essa trivialidade mesma que nos traz a mudança própria do século, e de que esta nossa poesia se faz eco. Forma, deforma, informa, num modelo que transforma estas vozes em mais do que poesia, documento social.
Poesia documental pois, viva e vivida, citadina, juvenil e jovial, também por vezes um pouco melancólica, como se os poetas soubessem de antemão que alguma vez os poemas terão fim.
Disse citadina: e também muito lisboeta, da Lisboa da moda, dos sítios da noite preferida, como por ex. vemos em David Teles Pereira, de que cito um excerto:
LUX/FRÁGIL
...
Há, claro, esconderijos perfeitos:Cais da Pedra
a Santa Apolónia, Armazém A, Sala 2 com
o rugoso paladar a fumo excessivamente caro.
....De novo o poeta reflecte sobre a necessidade
de imprimir no som o relevo de uma certa
distorção, em sintonia com as músicas
que constantemente ouve. É disso que se trata
no fundo, do poema ser como nenhuma outra música
e mesmo assim nunca ser silencioso.
...
O coração- simplifiquemos com simbologia
a questão- deixou de ser invisível, deixou
de ter o que dizer.

O poeta volta a olhar para a pista,
Já nem sequer sente vontade de escrever.
Só a uma centena de corpos a dançar a mesma
música se assemelha o poema.

Qualquer palavra agora seria escusada.
( D.Teles Pereira, pp.19-20)


Assim nos confrontamos com uma prosa poética, descritiva, (como a poderíamos ler no Livro do Desassossego, com a Rua dos Douradores de Pessoa, o mundo que o poeta vê à sua volta de um modo desprendido, de coração esvaziado ele também).
Neste poema observou-se primeiro uma rapariga que dança, e se torna cada vez menos interessante à medida que o tempo (o poema) corre: porque para o poeta a pulsão reside no poema e é mesmo assim que deve ser. O corpo é o corpo da escrita, a rapariga na noite do LUX é meramente um transitório foco de (des?)inspiração.
Quanto aos espaços, a música ouvida por todos com a tal centena de corpos a dançar - é mais uma manifestação do viver em comum ( no espaço do colectivo) uma vida que se torna talvez difícil de viver sozinho.
Sinal dos tempos.
Mas é bom que se saiba, com Rilke, e mesmo com Pessoa, que a flôr do poema só abre na solidão.

José Carlos Barros traz neste número as várias evocações dos seus escritores preferidos: Florbela Espanca, Bernardo Soares; e Luís Filipe Parrado fala-nos de Gauguin, no intervalo de falar de outras coisas, mais próximas e mais íntimas, como no poema da Natureza Morta Com Maçãs:

É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.
(p.106)

Poderia continuar por mais tempo, mas é o espaço que me limita no blog.
O importante é ler e dar a ler; está feito. E só mais uma chamada de atenção, last but not least: esta é uma poesia culta, de poetas que vão aos museus, aos concertos, compram livros para ler ...para além das noites e dos dias de que nos falam.
E agora vou, como diria o L.F.Parrado, à minha vida: levanto-me/ para tratar dos pratos e talheres (no meu caso dos netos)/O blog, desculpem, tem que ficar por aqui.



Saturday, January 09, 2010

Criatura 2009

Continuando com a revista, sugiro agora a leitura de um haiku de José Carlos Barros:

O Vento
O vento dos poemas
não faz mexer
uma folha.


Outro poema, de um pseudo-neorealismo de humor subtil, de Luis Filipe Parrado:

Teoria da Narrativa Familiar
Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da côr da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

Para além do "discurso" o interessante no poema é o fecho que nos deixa em suspenso: a aprendizagem da mentira que mudou tudo.
Não sabemos e não ficaremos a saber o que que foi que mudou: a ideologia que supostamente formara o poeta? O seu olhar sobre o mundo perturbado pelos caos de uma outra presença ( a irmã que nascera), ou muito simplesmente a adolescência difícil (todas as adolescências são difícieis) e em que a mentira é uma forma de preservação do sossego interior?
Não sabemos, e pouco importa, o mistério é da natureza do poema e é a razão do poeta.

Outro poema, do mesmo autor:
TUDO O QUE O MEU PAI DISSE QUANDO AOS QUINZE ANOS DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA

"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem essas mãos".

Criatura 2008


Já algum tempo que desejava apresentar aos meus leitores, sobretudo aos leitores de poesia, esta revista, CRIATURA, organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica.
Por várias razões:
o mérito da iniciativa, num momento em que todos se queixam de que é difícil publicar poesia, ninguém compra livros de poesia, ninguém lê, etc.
e pelo que o esforço revela de um entusiasmo não perdido, o mesmo que outrora, na mesma Associação Académica, nos anos 60, permitiu que se criasse um grupo de teatro estudantil que levava à cena peças de um experimentalismo inovador, desafiador também por vezes e nem sempre bem acolhido pela censura; faziam-se ensaios diferentes: um aligeirado para a censura, outro que já seria o ensaio geral do espectáculo concebido.
Revejo-me no espírito desta revista: inovar e criar pela escrita dos poemas, com sua linguagem própria, muito reflexo da experiência que é a dos jovens de hoje, como outrora foi a nossa;e inovar ainda pelo modelo que escolhem, de uma revista independente, de boa apresentação gráfica, bom papel, letra agradável de ler; a estas qualidades acrescenta-se ainda a pluralidade dos autores que colaboram, num conjunto de vozes bem diversas, nacionais e estrangeiras, e todas interessantes seja pelos temas seja pelos estilos.
Alguns autores colocam em epígrafe os seus preferidos:Walt Whitman, Luiz Pacheco, Nuno Júdice, outros.
A escrita feminina afirma-se coloquialmente sem recusar nem obscurecer as palavras ou imagens necessárias para exprimir alguma situação: do corpo, do eu, do outro, da cidade ou do mundo; é uma poesia liberta e viajada, uma poesia atravessada de cultura - outras culturas, outros mundos e muitas outras leituras.
Leia-se Elena Medel:

Habitat

O tecto do meu quarto é Hollywood.
Nunca ninguém
me poderá ver chorar no seu clítoris de néon.
Aconchegam-me pirilampos que se derramam em lugares distantes,
pontos de interrogação que viajam de graça,
enaltecidos por acrobatas que gozam comigo
e com as suas pegadas fulminam a Via Láctea
e o seu suor e o vestígio são a silhueta no chão
de Salomé a pontapear a cabeça do pregador:
piedade, deus frio, para a minha mesinha de cabeceira.

Filhos de Haley a destruir o meu refúgio,
Sunset Boulevard na noite escura do meu tecto.

( a autora é espanhola, esta é uma tradução de David Teles Pereira)

Veja-se como no entresonho de um quarto às escuras a viagem corre de um presente hollywoodesco sexualizado a um passado mítico como o de Salomé, figura que a história ampliou devido à decapitação de João Baptista exigida a Herodes.
Outro dos poetas antologiados oferece, com grande originalidade uma revisitação do pintor Munch (p. 113-114).
O que reforça o que eu já disse atrás sobre este fenómeno de uma nova poesia contemporânea, culta, de expressão coloquial ou directa, viajada, e que a revista Criatura nos dá a conhecer.
Parabéns e que continuem em 2010.