Tuesday, February 23, 2010

José da Cruz Santos


Quem ama a poesia e a edição não deixará nunca de ler, de escolher, de editar...
É assim que José da Cruz Santos, Mestre da edição em Portugal, desde os anos cinquenta, quando tudo era mais difícil e parecia mais fácil - apresenta agora a sua nova colecção de poesia, JCS na Modo de Ler.
Este primeiro volume não podia ser mais belo, nem mais significativo: é feito de rosas, as rosas dos poetas, a grande roda -rosa do mundo.
Por ordem alfabética, de Alfredo Margarido a Rainer Maria Rilke, poderemos ir lendo 56 poemas, da muita poesia portuguesa e não só que o autor antologiou com o maior cuidado.
Na tradução de José Augusto Mourão lemos Angelus Silesius, o místico alemão do século XVII:
A rosa é sem porquê; floresce, porque floresce,
Não cuida de si própria, não pergunta se a vemos.

E na tradução de Paulo Quintela deixo a rosa de Rilke:
rosa, ó contradição pura, volúpia
de ser o sono de ninguém sob tantas
pálpebras.

A imagem da rosa alimenta os poetas, a imagem do livro alimenta este editor incansável.
Desejo-lhe daqui todo o sucesso.

Sunday, February 21, 2010

Miguel Yeco


Miguel Yeco, pessoano pintor, espalhou pela cidade de Lisboa, em cantos e paredes, a imagem que era o seu selo, a sua assinatura, a figurinha solitária de Fernando Pessoa.
Na imensa solidão adivinhava-se um mundo, um universo, constelações de imagens e ideias tomando formas ora excessivas ora subtis, de tal modo subtis que só um grande amor, como o de Miguel por Fernando Pessoa, poderia evocar.

Hein Semke

Arrumando preciosidades encontro este desenho de Hein Semke, representando Teresa Balté, sua mulher, pintora e poeta.
Data do início dos anos 90 - uma época em que não acontecia, como agora, que a poesia, no sentido mais lato do termo, fosse regularmente trucidada.
Porque o tempo faria valer o melhor da criação artística, os criadores sabiam, ainda que demorasse, que a hora de novos olhares acabaria por chegar e com ela não o pagamento - nunca de dinheiro se tratava - mas o prazer do reconhecimento, da contemplação inspirada ou da leitura feliz.

Monday, February 15, 2010

Rimbaud-Pessoa


A releitura de um poema de Rimbaud, escrito em 1870, Le Dormeur du Val, trouxe-me de novo à memória O Menino de sua Mãe, de Fernando Pessoa, publicado pela primeira vez na revista Contemporânea, de 1926, e inspirado segundo ele conta numa litografia vista numa pensão onde fora jantar com com um amigo (in M. Aliete Galhoz, notas à Obra Poética de Fernando Pessoa,Rio de Janeiro, 1972).
Sabemos da curiosidade e da cultura imensa de Fernando Pessoa, e da sua capacidade de traduzir ou melhor, dialogar, com obras de outros autores de cuja sensibilidade se sentia mais próximo. E na verdade o conhecimento dos horrores da guerra de 1914-1918 era geral entre nós, avivando sentimentos como os que transparecem no poema. O mesmo acontece com o poema, de vários anos anterior, de Rimbaud. Os críticos entendem que no caso deste jovem génio não será tanto esse sentimento que prevalece, mas antes o de se inspirar num motivo literário que já tinha sido trabalhado, entre outros por Victor Hugo, Souvenir de la nuit des quatre, e em Quinet, L'histoire de mes idées, numa página que pode ter inspirado Rimbaud: o jovem Quinet descreve como viu, aos quinze anos de idade, num bosque, o cadáver de um soldado com uma ferida no flanco, a escorrer sangue, boca aberta e os braços em cruz. Imagem forte, que não pode ter deixado de impressionar quem a leu (in notas à edição da Obra Completa da Pléiade).
Que os motivos literários se contaminam uns aos outros, ao longo dos tempos, é sabido.
Seria interessante ( e será que já foi feito?) identificar a tal litografia que foi vista por Pessoa, e em que restaurante, dos vários que frequentou (mas nem seriam muitos). Essa litografia talvez fosse a representação do poema de Rimbaud.
É certo que podemos, entre os clássicos, encontrar vários motivos semelhantes a este, de comoção perante a morte aparentemente sem sentido de um jovem. Mas o poema encerra ainda algo mais: a identificação da morte com o sono. O soldado morto é um dormeur, é um homem que adormeceu no vale.
A morte como sono eterno, como repouso eterno, livre do sofrimento da vida.
Procurei uma tradução em português e encontro num poeta brasileiro (é preciso ser poeta para traduzir bem...) a belíssima tradução de autoria de Ivo Barroso, e aproveito para recomendar a leitura do seu blogue e a da obra de tradução, em edição bilingue, de 1995.
Desgosto grande é que em Portugal nada ou muito pouco se saiba da grande erudição brasileira, que envergonha a nossa cada vez maior iliteracia. O Brasil dá cartas. Por mim tudo bem, não preciso nem nunca precisarei de "acordos ortográficos" de espécie nenhuma, para acompanhar a produção brasileira que conheço desde que li pela primeira vez Clarisse Lispector, Jorge Amado e muitos dos criadores dos meus anos sessenta: Vinicius foi um deles, visitou Lisboa várias vezes, mas houve muitos mais. Para mim tudo continua. Mas lamento pelo meu país, envelhecendo mal, há anos que deixou de haver uma Livraria Brasileira como tinha havido e onde íamos regularmente aos sábados ver o que tinha chegado.
Mas voltando aos poemas:
Em Rimbaud o soneto começa com a descrição realista de um vale verdejante, iluminado pelo sol, em suma, uma paisagem amena e suave; na segunda quadra já se descreve então um jovem soldado, de boca aberta, cabeça nua repousando na erva fresca: dorme, estendido sob as nuvens, pálido na sua cama verde onde a chuva cai.
Feita esta descrição, quase evocando no início uma natureza-mãe que embale e aqueça o jovem adormecido, o poeta revela então aos poucos o que ali acontece: o jovem dorme, sorri como uma criança doente sorriria no meio da sua sesta; e chega então o apelo " Nature, berce-le chaudement, il a froid" ( Natureza, embala-o calorosamente, ele tem frio).
Apercebemo-nos, com subtileza delicada, desse grande mistério que é a morte, sono eterno em que a Grande-Mãe nos recebe e embala.
No último terceto a imagem cruel:
"Os perfumes não fazem estremecer suas narinas;
Ele dorme ao sol, a mão posta no peito
Tranquilo. Dois buracos vermelhos no seu lado direito".
Não se diz nunca a palavra morte , evoca-se o vale, o brilho do sol em contraste com o vermelho dos buracos da bala, sem que se diga sangue, como tampouco se disse morte - pois não fazia falta. A concisão, a economia do verso torna-o mais secreto e mais belo, mais intenso, muito mais comovente.
O adormecido do vale, jovem soldado varrido pelo acaso da guerra, não ouve já o canto da ribeira, não vê o céu sob o qual repousa, não sente o cheiro dos gladíolos em que está deitado.
Esta referência aos sentidos carrega de melancólica saudade do essencial da vida, num jovem de dezasseis anos como era Rimbaud à data, o seu poema.
Bem diferente será o caso de Pessoa.
Embora recuperando algumas das imagens próprias do motivo central do jovem soldado morto na guerra, longe dos seus ( da mãe, da criada velha), trespassado por duas balas, a descrição, realista e desenvolvida numa série de quadras ( o soneto obrigaria a muito mais contenção, nem tudo é mau nas formas rígidas! ) escolhe antes o contraste entre os objectos que perdurarão, como a cigarreira dada pela mãe, o lenço dado pela criada - pormenores que, escolhidos para comover mais, antes nos distraem do pormenor essencial que é morrer jovem numa guerra sem sentido.
Ao contrário de Rimbaud, em cujo imaginário, panteísta, sensual, encontramos o lamento e também o reconhecimento do arbitrário mas inevitável sacrifício ritual da vida à morte, como se dum Attis se tratasse e não dum jovem soldado, em Pessoa o que encontramos, na escolha (ainda que emocionada) deste mesmo motivo é a identificação com o seu desgosto de viver, na permanente saudade da infância quando tinha mãe, criada velha, contos de embalar, brinquedos (que lhe partiram, como dirá Álvaro de Campos).
Pessoa, num extremo exercício de consciência de si, depressa nos remete para uma saudade que já pouco tem a ver com o motivo-base do poema, passando o jovem soldado a uma quase figuração do que o poeta vê de si mesmo, um "menino de sua mãe" que há muito deixou de o ser. Não vê, nem sente, como Rimbaud, o desgosto de uma vida que se perde em mais um sacrifício, vê antes na vida desperdiçada do jovem soldado o que entende ser o desperdício da sua própria vida.
Relembrando a biografia, deixa de ser o tal menino quando a mãe, viúva, casa pela segunda vez e constitui nova família. Nunca mais o poeta deixará de glosar o motivo da infância perdida, nem como ortónimo nem como heterónimo, em nenhum dos múltiplos casos.

Friday, February 12, 2010

Revista de Arte


Brilho no Escuro:
Há dias assim, dias felizes em que o acaso de uma amizade nos permite o reencontro com artistas que acompanhamos outrora, apreciando a sua inspiração, a independência e originalidade das suas vozes ( obras ) que o tempo, o eterno corruptor, não corrompeu.
Recebo esta revista ( e lamento não ter visto o n.1 e ter vindo a saber que talvez não haja n.3 ) e descubro a mão de Isabel de Sá na ilustração, e poemas seus que me remetem para as edições eETC. onde desde sempre os marginais, os alheios, os invisíveis dos discursos da moda podiam encontrar um espaço próprio, livre, sem imposições de qualquer espécie; ali se convivia com alguns dos grandes textos que a editora dava a conhecer em traduções pioneiras; ali todos se sentiam bem.
Descubro ainda o Paulo da Costa Domingos, com outro poema, que leio como quem não vê um amigo de longa data, nunca esquecido.
E finalmente uma voz que é jovem, no meio desses mestres da poesia de sempre, João Borges, que espero poder acompanhar por algum tempo, o tempo que me for concedido.
Esta é uma revista de arte, em que poesia e ilustração mutuamente se iluminam, daí o brilho no escuro, a luz no coração vibrante das palavras.
E é um desafio: o da interrogação, como a da Alice no País das Maravilhas, que se procura a si mesma para entender quem é e o que é o mundo à sua volta.
Uma interrogação a que só o artista com a sua arte pode responder, com um Eu Sou - "eu sou", como aquele que exclama, do fundo do universo "eu sou aquele que é ", eu sou o Ser-em-si, o Absoluto, a Essência, o eterno e indestrutível Fundamento da existência que, no seu poema, Isabel de Sá define como Princípio da Realidade.
Uma realidade insubmissa.

Se a arte
não for insubmissa
se não permanecer
desobediente
e não escapar ao controlo
é o quê ?

Se a arte
não for insurrecta
se não permanecer
pedra viva escaldante
é o quê ?
a arte se não disser Eu Sou ?

Dizer eu sou, significando a essência do que se é, neste caso ( como noutros) artesão da dissidência, é cada vez mais difícil nos dias que correm.
E decidir-se a editar uma revista de arte que será de poucos, devendo ser de muitos, é nestes dias que correm outro acto de insubmissão.
Mas é nesta insubmissão que se respira, e é dado a ver um coração que bate.

Saturday, January 23, 2010

A Música em Portugal no século XX

Estamos perante uma obra monumental:
Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX (A-C) sob a direcção de Salwa Castelo-Branco, Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou um Instituto de Etnomusicologia que agora se dá melhor a conhecer através do lançamento do primeiro volume de uma série de quatro que se tornarão referência de interesse nacional e mundial para os investigadores da Etnomusicologia.
Basta procurar na letra A as entradas dos arquivos consultados para se ficar com uma ideia do que foi por um lado a dificuldade e por outro a exigência de uma informação tão completa e fundamentada quanto possível, num país como o nosso, que não inventaria, não cataloga, pouco preserva das suas memórias - neste caso da música- como de tantos outros de que se poderia falar.
O projecto durou mais de uma década a ser pensado, discutido, dividido por especialistas segundo as várias áreas, para que nada ficasse de fora: nem a tradição popular, nem a erudita, nem outras como as do fado, das etnias lusófonas ou o jazz que em Portugal se praticava; é ambicioso e abrangente, pois nele encontramos as entradas relativas aos locais, aos grupos, aos compositores, aos executantes - com abundância de fontes e documentação de todo o género.
Valeu a pena o tempo, o esforço, toda a dedicação de autores e colaboradores desta aposta mais do que bem sucedida e espero que muito bem acolhida pelos estudiosos e público em geral do Círculo de Leitores/Temas e Debates.
Não posso deixar de dizer mais alguma coisa a respeito de Salwa Castelo-Branco, a brilhante académica egípcia de que falou Rui Vieira Nery na apresentação que decorreu no Teatro Nacional de São Carlos: somos um país de lendas de mouras encantadas que ora seduzem ora se deixam seduzir; neste caso Salwa, que nos Estados Unidos singrava já num percurso universitário pioneiro, deixou-se seduzir e veio para Portugal, e para a Universidade Nova, dedicando-lhe o seu saber, o seu trabalho, a sua energia criadora que contaminou os que a rodeavam e são hoje seus colegas e discípulos. Fez escola, como fazem os Mestres.
Para Salwa uma palavra de gratidão e de carinho.
E para o país a sugestão: que o Prémio Pessoa de 2010 seja atribuído a esta académica brilhante e generosa.

Monday, January 18, 2010

Caramulo






Calculo que os amigos literatos conheçam, ou de ler ou pelo menos de ouvir falar, a Montanha Mágica de Thomas Mann, obra-prima do século XX, narrando a vida de Hans Castorp que por razões que agora não vou descrever decide ir ficando, como que para sempre, na montanha de Davos onde fora visitar um parente.
Mas talvez não conheçam o Caramulo, mais serra do que montanha, servindo contudo o mesmo fim, de sanatório pioneiro em Portugal no tratamento da tuberculose, o mal do século. Ficamos a dever a António José de Barros Veloso (cujo interesse pela História da Ciência e das Ideias Científicas tem sido expresso em variados estudos, seminários e conferências) a recuperação da memória e da história do Caramulo numa bela edição que prima pela qualidade gráfica, elegância e concisão de escrita tanto quanto pela organização dos materiais investigados.
O subtítulo, Ascensão e Queda de uma Estância de Tuberculosos, de imediato nos remete para essa leitura já citada de Thomas Mann, cuja montanha foi real, antes de ser literária.
Quanto ao nosso Caramulo é Barros Veloso quem nos conduzirá pelos seus caminhos.
Descreve em primeiro lugar o espaço:
"Aquela que é hoje conhecida por serra do Caramulo foi chamada em tempos serra de Alcoba. A palavra, que deriva do árabe, significa cúpula ou zimbório e poderá estar relacionada com o aspecto de alguns dos monumentais acidentes graníticos presentes na região". Para além da paisagem, refira-se ainda, de sedutora e misteriosa grandeza, a Anta milenar fotografada.
Depois traça a biografia do fundador, Jerónimo Lacerda: nascido em 1889, em Coimbra, aí viria a formar-se em medicina "com a classificação final de 19 valores" (em 1915).
Segue-se, na organização do volume, a descrição das infra-estruturas do sanatório, e da sua arquitectura, que já ficava a dever ao movimento modernista, nascido na Europa posterior à Grande Guerra, a noção de que os espaços deviam ser amplos e arejados, bem expostos ao sol, criando condições para o tratamento da tuberculose e doenças como o raquitismo:
É em consequência disso que vão surgir os vários edifícios "de estrutura marcada pelas linhas rectas, com telhados em forma de terraço, varandas largas e galerias".
Refere-se ainda o aparecimento da marca do estilo Art Déco, divulgado por uma nova geração de arquitectos que fizeram do Caramulo uma estância especialmente elegante: é dado o exemplo da Capela de Nossa Senhora da Esperança e de vários chalés erguidos na encosta da serra, na zona conhecida "por Fonte dos Amores, onde viviam as famílias dos doentes e de quase todos os colaboradores - médicos, farmacêuticos e gerentes dos sanatórios. Tampouco faltou naquela altura o cunho de vincado nacionalismo trazido por Raul Lino, a "casa Portuguesa", tão ao gosto do Estado Novo e das élites "em ascensão" como nota o autor.
Interessante é igualmente ver como se organizavam os horários dos pacientes, com regulares exposições ao ar livre, de manhã e à tarde. Barros Veloso transporta-nos a esse tempo, graças à sua escrita viva, de cunho pormenorizado e realista.
Continuando com a organização do volume, chegamos então aos aspectos assistenciais e científicos, que vão desde os anos 1920-1938 (a fase de arranque) passando pelo período áureo (1938-1952) para chegar ao fim anunciado (1952-1978). Estes são capítulo que interessarão muito em particular os cientistas e investigadores da medicina em Portugal. Temos uma reprodução de um aparelho de pneumotórax intitulado "caramulo", por ter sido invenção de um dos colaboradores do sanatório, que pertencia ao seu corpo clínico, Martins Queirós.
Claro, mais tarde, com a natural evolução do saber e com a descoberta da estreptomicina, todos estes processos se tornaram obsoletos.
Barros Veloso descreve ainda, com grande detalhe e abundância de documentação, as ligações políticas.
Veremos Oliveira Salazar, que foi amigo de sempre do fundador Jerónimo Lacerda, em ameno convívio com ele e António Ferro, num passeio pela serra - sendo esta uma das muitas fotografias que se incluem no livro.
O interesse histórico, científico, político, deste volume a que Barros Veloso dedicou o melhor do seu tempo, é sublinhado ainda pela qualidade da edição: está de parabéns a By the Book!
Quanto a nós, amigos leitores, talvez devamos visitar ou revisitar o Caramulo, a beleza da paisagem está lá, e está hoje em dia o Hotel e um Museu com obras escolhidas, onde nem falta um Picasso!

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Podemos seguir o ano com mais um número da Revista CRIATURA cujos editores escolhem para antologiar poetas e poemas variados, nos temas e julgo que nas idades.Há um lugar para os jovens, com os seus primeiros versos ( o Diogo Vaz Pinto que me corrija se estou enganada) e para autores já com obra feita. Bom espaço, boas escolhas - esta é uma qualidade rara que me faz ler a revista com interesse e cuidado.
Claro, como todo o leitor, não sou inocente na leitura, tenho preferências que me fazem voltar a alguns autores que vou acompanhando e conhecendo melhor.
Outros vou descobrindo.
Desta vez, e fazendo sempre jus às vozes femininas, escolho um pequeno poema de Ana Salomé, uma espécie de diário de intenções que me recordam o conselho de Rilke nas Cartas a um Jovem Poeta: se está a começar não escreva poemas de amor...esse amor que julgamos único na realidade torna-se banal pois o amor é de sempre, é de todos, e de início vivido de forma igual. Ora a grande poesia é feita da diferença e não do mesmo que possamos julgar, por ingenuidade, diferente e inovador. Há que ler muito, ler tudo, até chegar à desejada diferença.
DIÁRIO
A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
(Ana Salomé, p.13)

Este é um Manifesto que bem podia comparar-se ao de Álvaro de Campos, também ele cultor de uma prática poética que se quis directa e quotidiana, sem resquícios de alguma evocação mais sentimental, ele que disse na altura que todas as cartas de amor eram ridículas...
É muito interessante descobrir nestas novas vozes poéticas uma herança que ali permanece viva, ainda que não explícita, e vai conduzindo o fio da experiência - que hoje em dia é narrada sem qualquer ocultação ou pseudo- timidez.
Tudo mudou na vida, nas opções mais sinceras ou mais de ocasião, cigarros e bebidas de mistura com sexo ora insípido ora mais feliz (passa por aí o Sexo e a Cidade da série conhecida) - tudo atravessa a linguagem poética como atravessa os chats, o face-book, o you tube e é essa trivialidade mesma que nos traz a mudança própria do século, e de que esta nossa poesia se faz eco. Forma, deforma, informa, num modelo que transforma estas vozes em mais do que poesia, documento social.
Poesia documental pois, viva e vivida, citadina, juvenil e jovial, também por vezes um pouco melancólica, como se os poetas soubessem de antemão que alguma vez os poemas terão fim.
Disse citadina: e também muito lisboeta, da Lisboa da moda, dos sítios da noite preferida, como por ex. vemos em David Teles Pereira, de que cito um excerto:
LUX/FRÁGIL
...
Há, claro, esconderijos perfeitos:Cais da Pedra
a Santa Apolónia, Armazém A, Sala 2 com
o rugoso paladar a fumo excessivamente caro.
....De novo o poeta reflecte sobre a necessidade
de imprimir no som o relevo de uma certa
distorção, em sintonia com as músicas
que constantemente ouve. É disso que se trata
no fundo, do poema ser como nenhuma outra música
e mesmo assim nunca ser silencioso.
...
O coração- simplifiquemos com simbologia
a questão- deixou de ser invisível, deixou
de ter o que dizer.

O poeta volta a olhar para a pista,
Já nem sequer sente vontade de escrever.
Só a uma centena de corpos a dançar a mesma
música se assemelha o poema.

Qualquer palavra agora seria escusada.
( D.Teles Pereira, pp.19-20)


Assim nos confrontamos com uma prosa poética, descritiva, (como a poderíamos ler no Livro do Desassossego, com a Rua dos Douradores de Pessoa, o mundo que o poeta vê à sua volta de um modo desprendido, de coração esvaziado ele também).
Neste poema observou-se primeiro uma rapariga que dança, e se torna cada vez menos interessante à medida que o tempo (o poema) corre: porque para o poeta a pulsão reside no poema e é mesmo assim que deve ser. O corpo é o corpo da escrita, a rapariga na noite do LUX é meramente um transitório foco de (des?)inspiração.
Quanto aos espaços, a música ouvida por todos com a tal centena de corpos a dançar - é mais uma manifestação do viver em comum ( no espaço do colectivo) uma vida que se torna talvez difícil de viver sozinho.
Sinal dos tempos.
Mas é bom que se saiba, com Rilke, e mesmo com Pessoa, que a flôr do poema só abre na solidão.

José Carlos Barros traz neste número as várias evocações dos seus escritores preferidos: Florbela Espanca, Bernardo Soares; e Luís Filipe Parrado fala-nos de Gauguin, no intervalo de falar de outras coisas, mais próximas e mais íntimas, como no poema da Natureza Morta Com Maçãs:

É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.
(p.106)

Poderia continuar por mais tempo, mas é o espaço que me limita no blog.
O importante é ler e dar a ler; está feito. E só mais uma chamada de atenção, last but not least: esta é uma poesia culta, de poetas que vão aos museus, aos concertos, compram livros para ler ...para além das noites e dos dias de que nos falam.
E agora vou, como diria o L.F.Parrado, à minha vida: levanto-me/ para tratar dos pratos e talheres (no meu caso dos netos)/O blog, desculpem, tem que ficar por aqui.



Saturday, January 09, 2010

Criatura 2009

Continuando com a revista, sugiro agora a leitura de um haiku de José Carlos Barros:

O Vento
O vento dos poemas
não faz mexer
uma folha.


Outro poema, de um pseudo-neorealismo de humor subtil, de Luis Filipe Parrado:

Teoria da Narrativa Familiar
Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da côr da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

Para além do "discurso" o interessante no poema é o fecho que nos deixa em suspenso: a aprendizagem da mentira que mudou tudo.
Não sabemos e não ficaremos a saber o que que foi que mudou: a ideologia que supostamente formara o poeta? O seu olhar sobre o mundo perturbado pelos caos de uma outra presença ( a irmã que nascera), ou muito simplesmente a adolescência difícil (todas as adolescências são difícieis) e em que a mentira é uma forma de preservação do sossego interior?
Não sabemos, e pouco importa, o mistério é da natureza do poema e é a razão do poeta.

Outro poema, do mesmo autor:
TUDO O QUE O MEU PAI DISSE QUANDO AOS QUINZE ANOS DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA

"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem essas mãos".

Criatura 2008


Já algum tempo que desejava apresentar aos meus leitores, sobretudo aos leitores de poesia, esta revista, CRIATURA, organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica.
Por várias razões:
o mérito da iniciativa, num momento em que todos se queixam de que é difícil publicar poesia, ninguém compra livros de poesia, ninguém lê, etc.
e pelo que o esforço revela de um entusiasmo não perdido, o mesmo que outrora, na mesma Associação Académica, nos anos 60, permitiu que se criasse um grupo de teatro estudantil que levava à cena peças de um experimentalismo inovador, desafiador também por vezes e nem sempre bem acolhido pela censura; faziam-se ensaios diferentes: um aligeirado para a censura, outro que já seria o ensaio geral do espectáculo concebido.
Revejo-me no espírito desta revista: inovar e criar pela escrita dos poemas, com sua linguagem própria, muito reflexo da experiência que é a dos jovens de hoje, como outrora foi a nossa;e inovar ainda pelo modelo que escolhem, de uma revista independente, de boa apresentação gráfica, bom papel, letra agradável de ler; a estas qualidades acrescenta-se ainda a pluralidade dos autores que colaboram, num conjunto de vozes bem diversas, nacionais e estrangeiras, e todas interessantes seja pelos temas seja pelos estilos.
Alguns autores colocam em epígrafe os seus preferidos:Walt Whitman, Luiz Pacheco, Nuno Júdice, outros.
A escrita feminina afirma-se coloquialmente sem recusar nem obscurecer as palavras ou imagens necessárias para exprimir alguma situação: do corpo, do eu, do outro, da cidade ou do mundo; é uma poesia liberta e viajada, uma poesia atravessada de cultura - outras culturas, outros mundos e muitas outras leituras.
Leia-se Elena Medel:

Habitat

O tecto do meu quarto é Hollywood.
Nunca ninguém
me poderá ver chorar no seu clítoris de néon.
Aconchegam-me pirilampos que se derramam em lugares distantes,
pontos de interrogação que viajam de graça,
enaltecidos por acrobatas que gozam comigo
e com as suas pegadas fulminam a Via Láctea
e o seu suor e o vestígio são a silhueta no chão
de Salomé a pontapear a cabeça do pregador:
piedade, deus frio, para a minha mesinha de cabeceira.

Filhos de Haley a destruir o meu refúgio,
Sunset Boulevard na noite escura do meu tecto.

( a autora é espanhola, esta é uma tradução de David Teles Pereira)

Veja-se como no entresonho de um quarto às escuras a viagem corre de um presente hollywoodesco sexualizado a um passado mítico como o de Salomé, figura que a história ampliou devido à decapitação de João Baptista exigida a Herodes.
Outro dos poetas antologiados oferece, com grande originalidade uma revisitação do pintor Munch (p. 113-114).
O que reforça o que eu já disse atrás sobre este fenómeno de uma nova poesia contemporânea, culta, de expressão coloquial ou directa, viajada, e que a revista Criatura nos dá a conhecer.
Parabéns e que continuem em 2010.




Friday, January 08, 2010

A Cidade


A Cidade de Aristófanes revisitada por Luis Miguel Cintra, no Teatro São Luiz.
A não perder.

Thursday, December 17, 2009

Mário Avelar, a ficção

Mário Avelar publicou este primeiro romance em 2008.
Mas não podia ser mais actual a sua leitura nos dias conturbados que correm.
O tempo de que ele se ocupa, da Revolução de Abril vivida por jovens entre o Liceu e a Universidade, nascidos e criados em famílias burguesas uns e famílias politicamente mais evoluidas e activas outros, entre eles o jovem herói, faz reflectir sobre o tempo que vivem agora os jovens do século XXI, num Portugal que não assimilou por completo as lições da tão aguardada Democracia .
A verdadeira história de vida que se desenha na obra, e lhe confere um interesse acrescido de memória social, justificaria plenamente a recomendação de leitura.
Mas há mais: a narrativa distingue-se por uma qualidade que lhe é muito própria, correndo a um ritmo tão veloz quanto o das aventuras e das surpresas vividas, numa linguagem simples e directa, não descartando o coloquial, distanciando-se quanto baste com sentido de humor, o que faz do nosso exercício de acompanhamento uma aventura prazenteira.
O autor é um erudito (da área dos estudos anglo-americanos) que não exibe a sua erudição, mas nos deixa em subtexto a experiência e a grande cultura transversal que possui:
dos romances de um Sterne, por exemplo, de um Melville, de um Joyce que fez o seu retrato quando jovem, de um Faulkner cujo realismo foi chegando à modernidade portuguesa, de uma Virginia Woolf (autores que M.Avelar traduziu) - e fico por aqui, pois muitos mais poderia citar. Nós somos o que lemos, disse alguém. E um escritor é feito das suas muitas leituras.
Há uma outra dimensão, crítica e humorística que também distingue esta obra, sem que se perca no entanto o verdadeiro sentido do que nela se deseja preservar:
a memória de uma Revolução que atravessou uma sociedade envelhecida e à qual os jovens da época ( entre a surpresa, o entusiasmo ou as lágrimas, a militância, a distância ou a descrença) emprestaram as suas vidas, entregaram o seu futuro.
Nem que fosse apenas por esta razão, nós, os leitores mais velhos, que vivemos com outra idade aqueles tempos e nos reconhecemos nos episódios descritos, devemos recomendar uma nova edição, para novas leituras dos novos adolescentes e não só.

Friday, December 11, 2009

Mário Avelar, o jazz ao fim do dia


Mário Avelar, Académico, poeta, ficcionista com paixão confessa e manifesta em muitas das sua obras também pela Belas-Artes, sem excluir o Cinema, suprema arte dos tempos modernos, oferece aos seus leitores um pequeno livro de poesia por onde passa Coltrane, um dos míticos jazzistas que o inspira, entre outros vários músicos e pintores.
Editado na Black son Editors (2000) o título já é indicativo das escolhas dos autores e obras preferidas: PELA MÃO DE MUSSORGSKI,NUMA GALERIA COM ANJOS
Haverá música dentro dos poemas, haverá pintura para encantar os olhos enquanto se ouve essa música, abrindo as sensações à passagem de um tempo que mais do que nosso é dos anjos que pouco a pouco se darão a conhecer.
Os anjos, formas subtis, formas sublimes, que indisciplinam a alma.
Num dos poemas inspirado em obra de Ilda David (Encore-Incubus) Mário escreve:
"Às vezes sento-me na sala a ver Coltrane
no canal Muzzik.Vigil, 1965

Electricidade estática...
agita-se o modem...

www.whatisthematrix.com

Delette! Silencia-se o nome...
Már..má...my residual
self image.

E todavia não inflamei
o templo da deusa. Herosta...?
Pena idêntica:
a rasura do tempo.
Delette."
...

Continua o poema, atravessado por um quotidiano que interrompe, distancia, não vá o leitor esquecer-se do que é a condição actual do poeta (entre o real e o imaginário):
contempla, ouve, escreve, mas mais do que sublima interpela, apaga ou recupera, uma identidade que não deseja perdida na memória.
Os gestos e as fracturas que as rotinas impõem ajudam ao distanciamento que torna mais presente e mais premente a necessidade do poema, a sua escrita, a sua voz de substância ainda que descontinuada.
Descontinuar- para melhor perpetuar- é o ofício presente do poeta.
Ah, e os Anjos:
Estão no poema X, A PORTA DOS BOÁTIROS DE KIEV- ESCADA PARA A LUA
(Georgia O'Keeeffe)

"Afinal, tudo parece
girar em torno de anjos,
de sopros...ténues carícias
...
um sorriso ou um timbre...

que seria das palavras
sem o afago dos anjos?"


Mas eu recordo, com Rilke, que se alguma vez entre nós ecoasse a voz temível do Anjo, ou se ele nos tomasse nos braços, morreríamos sufocados de tanto desejo e ansiedade.
Todo o Anjo é terrível e o toque da sua asa uma ferida mortal.
Mas recordo ainda com Borges (citação de acaso): o que nos faz é mais o que lemos do que o que escrevemos.
Com Mário amplia-se a lição: o que vemos, o que ouvimos... tudo isso faz de nós o que somos e um pouco mais ainda.

Friday, December 04, 2009

Michel Giacometti


Album de homenagem a Giacometti, o sábio vindo de fora que gostava das coisas pequenas e grandes da terra, da nossa terra.
Um olhar de Outro mais atento, mais cuidadoso, mais carinhoso para o país solitário que Portugal ainda era.
Um olhar solidário.
São de MiguelTorga as palavras com que o livro começa:
"Não sei que vento o trouxe de terras estranhas. Sei que há muito aportou aqui e que, afortunadamente, criou raízes. Como que a dar-lhes alimentos, estuda as várias manifestações da nossa cultura popular, desde a música às danças, aos adágios, à culinária, às próprias mezinhas com que nos curamos.Foi desses tesouros - alguns definitivamente salvos pelo seu carinho - que, de resto, falámos largo tempo. ele a discretear e eu a sentir, emocionado, que tinha diante de mim um livro aberto da pátria".
A edição é muito bela, a arte da fotografia recupera a eternidade no tempo, o ser num espaço quase a deixar de existir.
Pena não haver um cd das recolhas de música popular que Giacometti fez ao longo dos anos, a acompanhar a edição...
M.T., Diário, vol.XIII

Friday, November 27, 2009

Unsuk Chin



Para quem goste de música contemporânea, mas sobretudo para quem tenha feito de Alice no País das Maravilhas o seu livro de culto, deixo a sugestão da mais bela prenda de Natal:
da compositora coreana Unsuk Chin, actualmente vivendo na Alemanha ( em que outro país fariam uma produção tão inspirada como esta? ) a ópera ALICE in WONDERLAND, apresentada na Bayerische Staatsoper.
O design dos figurinos, das máscaras, das marionettes, é tão belo quanto surpreendente e valoriza a história que é contada, a música que é ouvida, absorvendo-nos como num sonho de que não nunca mais apetece acordar.
Unsuk Chin, que escolhe livremente os motivos dentro do tema principal, decide abrir e fechar a sua composição com dois sonhos seus que enquadram a aventura de Alice, e deste modo a tornam ainda mais pessoal e interior do que já era pela mão de Lewis Carroll.
Uma citação de Proust ajuda também o ouvinte a perceber a intenção da compositora:
"We don't receive wisdom: we must discover it for ourselves after a journey that no one can take for us or spare us" (Marcel Proust).

E claro, a outra citação escolhida só podia ser a de Carroll na boca de Alice:
"Who in the world am I?
Ah, that's the great puzzle!"

Assim, de novo pela mão de Alice, caminhamos pela interrogação da consciência e do ser.
No meu ensaio sobre TEATRO E SOCIEDADE fiz referência à Alice de Bob Wilson, produção estreada em Lisboa anos atrás; agora temos Unsuk Chin, que podemos apreciar em dvd, e em breve teremos a ALICE de Tim Burton, que vai estrear em 2010 e podemos desde já encomendar.
Mas a lição que eu tiro é a do que pode um livro inspirador e fundador como este - muito mais para adultos do que para crianças - oferecer de novo à meditação dos seus leitores do século XXI.
A resposta é simples: tudo.
Tudo o que diga respeito à curiosidade, do ser e do saber; à coragem de fugir à rotina dos tempos arriscando caminhos que não sabemos como se abrirão ou fecharão diante de nós.
Caminhar é uma palavra boa.
Arriscar, para se poder ser o que se é e não o que os outros querem que sejamos, é outra palavra boa.
Os tempos precisam de Beleza, e de coragem para essa beleza.
Ainda que a rainha nos mande cortar a cabeça.

Wednesday, November 11, 2009

A Mão de Luísa Costa Gomes


Luísa Costa Gomes, com aquela criatividade feita de desprendimento (ou o que quiserem..) que já lhe conhecemos desde os primeiros contos com que nos sobressaltou, há muitos anos, apresenta agora ILUSÃO
( ou o que quiserem) romance (ou o que quiserem), nas edições D.Quixote.
Numa prosa rápida, como os tempos, incisiva de humor inteligente e distanciado, Luísa sabe muito bem o que quer: descrever uma sociedade onde impera uma inquietação que oscila entre o pueril e o golpismo, uma sociedade onde tudo e todos são de consumo rápido, e rapidamente descartáveis, o que pode acarretar alguma infelicidade.
ILUSÃO não é título de acaso, é indicação de leitura: vive-se em Portugal num espaço de ilusão, atravessado por um tempo que a seu tempo imporá a realidade, seja doce ou amarga.
Recomendo a leitura, podemos rever-nos mais uma vez nesta obra em que uma geração muito diferente da nossa (digo da minha) é exposta com subtil crueldade, (ou o que quiserem) fazendo esboçar o sorriso de quem se sente cúmplice desta autora que renovou e continua, pelos vistos, a renovar a linguagem com que descreve o mundo que a rodeia.
Não falta energia nesta prosa, nem alegria, e ainda menos cultura: por entre as peripécias vão passando algumas memórias da nossa literatura, a propósito de alguma peça de teatro, de algum guião a ser preparado, etc. o que me leva a repetir o que me farto de dizer nas aulas: sem cultura (neste caso artística, literária) não há criação original inovadora. E também só com muita cultura se pode brincar à vontade com o que a cultura é ou não é, atravessando a vida, a nossa e a dos outros (ou o que quiserem)...
Lê-se, e chegados ao fim sentimos, como o herói conturbado, que se "subiu um degrau".
Mais não digo, é obra para ler!

Wednesday, October 28, 2009

A Terceira Mão

Cada livro de Manuel Gusmão é um acontecimento no nosso mundo literário.
A TERCEIRA MÃO vem no seguimento de cinco outras obras (uma delas é libretto de ópera Os Dias Levantados, para o compositor António Pinho Vargas) .
Em todas a mesma densidade poética, o mesmo sentido da palavra recolhida, contida, o que aumenta a tensão do que é dito e não dito, e obriga o leitor a reler até ao ponto de já não desejar entendimento mas simplesmente a música e a fusão com esse outro universo transcendente.
Andam por este livro alguns amigos de memória querida e que eu também conheci, li sempre e admirei: Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Carlos de Oliveira (não é republicado, estudado, porquê?)
Nos anos sessenta, de que tenho saudades, nós líamo-nos uns aos outros, acompanhávamos as obras que iam sendo publicadas, reconhecíamos sem regatear o génio de cada um.
Mas falemos de Manuel Gusmão: esta é uma obra que recupera memórias e as transforma, recupera leituras e as transforma. Sem medo, pois na obra poética é tudo transformação.
Em O Futuro Outrora (p.23 e segs.) sinto que passa Rilke, com as suas Elegias, com o sopro que é mais do Anjo do que dele, "a mão do vento" , "um ritmo outro nas árvores invadindo a partitura" , um canto que se afunda num rio "demasiado fundo, demasiado lento, demasiado antigo".
O rio da memória, o canto de "estranhas aves"- sereias na verdade, "nomes velozes" que ferem, expondo as cicatrizes "do tempo que não cessa", como o rio que não pára, como a vida que se esquece.
Cito, para acabar, o final da última estrofe, a letra g da poética partitura:
...
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.

Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste

comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.

Ainda há pouco tempo outro grande poeta fez vibrar a palavra com o seu fogo, rodar as altas esferas com o seu canto, erguer o corpo da vida no altar mais secreto:Herberto Helder.

Monday, October 26, 2009

O PARAISO

Uma discussão recente em torno da Bíblia (Antigo Testamento) com algum impacto mediático mas inútil do ponto de vista de um verdadeiro esclarecimento - levou-me a procurar na minha biblioteca um livro que aqui recomendo.
É de agradável leitura, e é principalmente o livro de um conhecedor cujos argumentos são fundamentados e não fruto de um capricho momentâneo.
Refiro-me à obra de Jean Delumeau, UNE HISTOIRE DU PARADIS, ed. Fayard, 1992, de que talvez haja tradução portuguesa.
O autor começa por citar Marjorie Reeves, a grande estudiosa de Joachim de Flora, cujo pensamento marcou, desde a Idade Média, muitos dos sonhos de utopia de que se alimentou o ocidente. Cita-a para dizer isso mesmo "os sonhos dos homens constituem uma parte da sua história e explicam muitos dos seus actos". Continuando com um poeta que é do nosso tempo e será de todos os tempos, Henri Michaux ( já me ocupei dele nos meus blogs) o autor cita-o para dizer que "não somos um século de paraísos". O que o leva precisamente à questão que é nuclear no seu livro: estudar a história e testemunho dos nossos antepassados, para reconstituir na medida do possível o que terá sido o sonho dessa felicidade eterna prometida e tão depressa perdida.
Delumeau mantém-se no círculo do ocidente, fazendo dos séculos XIV-XVIII o seu território cronológico privilegiado. Mas começa, como não podia deixar de ser, pelas grandes tradições que vão de Moisés a Homero e a São Tomás de Aquino.
Não me quero alongar, o que proponho é esta leitura e a humildade de quem aborda os grandes temas civilizacionais que ainda hoje condicionam o nosso imaginário, na literatura como na arte, e os nossos comportamentos.
A imagem que escolhi representa, extraída de um missal do século XV, o Paraíso Terreal de que Adão e Eva são expulsos pelo Anjo. Do mesmo século temos um Livro de Horas (de Rouen) representando Adão e Eva no Paraíso Terreal. E várias outras representações poderiam ser escolhidas, sempre descrevendo um paraíso terreal, materializado com o primeiro par, com os animais primeiros da mesma criação,etc.
Assim se constitui de algum modo a imagem de um espaço ideal que terá existido e que talvez um dia possa vir a ser redescoberto. Espaço caracterizado por uma abundância feliz, de todos os pontos de vista, materiais e espirituais. Primeiro mito fundador.
Com a expulsão outro mito irá ser constituído: opondo-se a uma eternidade primeira, uma efemeridade, uma mortalidade garantida também de vários pontos de vista, materiais e espirituais. Todos os bens, a começar pelo bem da vida, se tornaram perecíveis. Assim se define a realidade da condição humana, agora mais distante da divindade criadora.
O Jardim terá de ser cuidado, a horta semeada e regada, os animais guardados, o corpo da mulher poderá dar à luz o seu primeiro par: dois filhos, cada um a seu modo servindo o deus seu protector. Porque este deus não está longe, observa e acompanha.
Um dos filhos, pastor cuidadoso, figura o tempo de uma civilização agrária, que pede sacrifícios animais, neste caso, mas noutros serão mesmo sacrifícios humanos; o outro filho é fratricida, ou melhor, evoca ainda o tempo do sacrifício humano que garante mais prosperidade, e ao fugir de um crime que aquele deus já parece abominar, transforma-se no primeiro fundador de cidades.
Surge assim a cidade como espaço de oposição ao campo, e muito em especial aqui ao paraíso terreal ( que tinha sido um Jardim).
Na cidade a humanidade evolui, cresce, socializa-se, e o comportamento dos homens passa a ser avaliado por uma dimensão ética antes menos sublinhada. Antes o grande valor era a obediência, agora será a consciência moral.
A cidade deve ser uma cidade justa, como diz Platão, criando na REPÚBLICA a primeira grande utopia social.
Para um leitor moderno, a CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queiroz, poderá ser uma releitura também ela carregada de sentido, como estas que fazemos da Bíblia. O que encontramos em Eça é a visão pessoal, moderna, laicizada, dos mitos da nossa memória colectiva.

Sunday, June 28, 2009

Manuel Aurora, O Menino o Homem e o Rio


Perto das férias de Verão, com mais tempo para ler, a minha proposta é que se escolham livros de História, Biografias ou Autobiografias, Memórias - algo que tenha a ver com uma transmissão que ajude a recordar o que foram determinados tempos, as pessoas e as suas circunstâncias, na aventura sempre apaixonante da vida.
Escolhi desta vez uma autobiografia, a de Manuel Aurora, por várias razões: fala de si com muita simplicidade, descrevendo como nasceu e onde, como cresceu, que educação recebeu, e de que modo a sua vida primeiro se integrou e depois, por assim dizer se desintegrou nos tumultos variados do PREC (Processo Revolucionário Em Curso, como foi designada a tentativa de conquista do poder pelos comunistas a seguir à Revolução de Abril).
Manuel escreveu como quem fala, à noite, à roda de uma mesa de família ou de amigos, contando como faziam os antigos contadores de estórias. 
Diz dessa autobiografia que foi "romanceada": mas o artifício serviu apenas para encobrir os nomes verdadeiros das pessoas com que se cruza, ao longo dos anos de outrora e de agora; de resto podemos considerar o seu relato o relato fiel de um homem que precisou de fazer um balanço de vida, o seu, para nessa espécie de espelho ver reflectido um país e os seus naturais, a evolução-revolução-degradação ( ele assim entende o estado do país neste momento) as boas e más decisões tomadas por uns e por outros, as questões de lealdade, amizade e carácter - tudo o que ainda hoje se discute com paixão justificada, porque algumas desilusões, para quem teve esperança, foram demais.
Este é um livro cuja oralidade de estilo logo atrai.
O Menino, o Homem e o Rio.
Um livro escrito para os seus filhos, família, amigos e para aqueles leitores que tenham a curiosidade de saber como viveu quem de repente, nos piores momentos da Revolução de Abril, viu cerceados e perseguidos os seus direitos a um pensamento livre, ao exercício honesto da sua profissão, tendo de fugir para o Brasil com a família. Do Brasil, que ficou a conhecer como ninguém, temporária pátria  de que nos fala ora com algum sentimentalismo ora com distanciado humor, são muitos os momentos que poderíamos escolher para dar a ideia do que ali o autor viveu: desde a marmita que leva para o almoço, num primeiro trabalho, até à quase orgíaca degustação de vinhos com um outro patrão que gostava de partilhar com ele as aparentes subtis apreciações que ia fazendo pela noite fora. E Manuel sem se coibir: se sabia o que dizer dizia, se não sabia inventava, e tudo para mais uma noitada de boa disposição (ou saudade adiada):
" A minha defesa era dissertar sobre o pouco que sabia de vinhos, misturando a conversa com a criação de cavalos lusitanos, passando pelo porco preto alentejano, e ao de leve sobre os rojões e as diversas formas de fazer bacalhau. Mais uma taça, e eu agora dissertava sobre a indústria têxtil do Norte ou sobre os vidros da Marinha Grande, e entretanto já havíamos pasado pelos uísques, depois eram os champanhes e eu, quanto mais falasse menos conseguia beber. Pela meia-noite já estávamos nas despedidas à porta de casa, cada um com o seu copo na mão, a discutir , filosoficamnete, se a Alice no País das Maravilhas era virgem ou atrasada mental..." (p.255).
Entre momentos dolorosos e momentos jocosos se vai estruturando uma narrativa que nunca deixa o leitor aborrecer-se, nem perder-se no caminho: o caminho de uma vida.
De regresso a Portugal, ainda que sem fazer acusações nem guardar ressentimentos, decidiu falar desses como de outros assuntos, sendo  muito especialmente interessantes as descrições da cidade do Porto dos seus anos de menino, a cidade de Lisboa já dos anos 60, e a sua eterna pátria do coração, Ponte de Lima, com o seu rio e as muitas aventuras que as suas águas foram presenciando.
Rio que ele mantém vivo, a embalar-lhe o destino.
 

Friday, June 19, 2009

O Milionário de Lisboa



Com este título editou agora José Norton a biografia ficcionada do Conde de Farrobo, figura ilustre do nosso século XIX, injustamente votada ao esquecimento: a capital, como escreve o autor, não tem sequer uma rua com o seu nome. 
Há já alguns anos que entre nós as ficções de inspiração histórica se tornaram frequentes: mas nem todas possuem a alta qualidade de um trabalho prévio de investigação, feita em arquivos, nem sempre de fácil acesso, como é agora o caso.
A extensa e útil bibliografia revela que a documentação estudada ajudou a dar corpo e substância a esta obra, em que José Norton não cedeu à facilidade de, a coberto do género ficção, ignorar a realidade histórica e social que a suporta. Fez assim uma verdadeira biografia, ainda que ficcionada, desta personagem singular cujo nome conhecemos talvez por causa dos jardins do Conde Farrobo, do Jardim Zoológico, mas pouco mais.
Cito a nota da capa:
" A vida luxuosa do homem mais rico de Portugal.Uma existência repleta de histórias de amor, beleza, ostentação, pequenos luxos, prazeres e traição. Um final inesperadamente dramático, ao estilo das melhores óperas do século XIX".
Deixo de imediato uma sugestão: que o José Norton escreva o guião para uma série televisiva, ou o libretto para uma ópera...neste momento em que à cultura e à arte tudo parece faltar .
Referi o cuidado da investigação, mas sublinho agora a qualidade da escrita: fluente, elegante, misteriosa quanto baste no desenho e desenrolar da intriga, e acima de tudo amiga do seu leitor. 
(ed. Dom Quixote/Leya, Lisboa, 2009)