Thursday, October 11, 2007

Nobel de Literatura 2007


Doris Lessing foi a laureada deste ano.
Conheço a obra, parcialmente. O livro de que mais gostei foi o Golden Notebook.
Mas nunca seria a minha escolha.
Em matéria de prosa feminina original, inovadora, pela escrita e pela estrutura romanesca, tive sempre dois amores: Virginia Woolf e Agustina Bessa Luís. Virginia já morreu, mas Agustina, se tivesse quem a traduzisse bem para inglês, teria sido distinguida há muito tempo.
A sua prosa não é local, é universal.
Veja-se como grande parte do mérito de Manuel de Oliveira, nos seus filmes, se deve à inspiração de ambientes, temas e caracteres que Agustina lhe inspira.

Monday, October 08, 2007

Charters de Almeida



Exposição e Colóquio.

A não perder este grande tema das cidades imaginárias, seus labirintos de criação, portas, passagens, fixando memórias míticas do tempo: passado, presente, futuro

Colóquio a 18 de Outubro, no CCB
Exposição no Museu de Arqueologia

Saturday, October 06, 2007

Para a Sofia e o Manuel




( a Árvore e a Casa )

A árvore é antiga:
permanece de pé
olhando o Tejo.

Dentro de casa
vê-se a ramagem cinza
encostada ao vidro
da janela.

Fora de casa
a cabeleira solta
suaviza a brancura
do ângulo das linhas.

Thursday, October 04, 2007

O Budismo na Cultura Portuguesa



Com organização de PAULO BORGES e DUARTE BRAGA publicou-se na Ésquilo editores um volume dedicado ao Budismo na cultura portuguesa.
Colaboraram vários especialistas de renome e entre eles alguns cuja escolha recaiu sobre a obra de Pessoa/Caeiro : é o caso de José Eduardo dos Reis, com o ensaio POR QUE VEIO O ALBERTO CAEIRO DO OCIDENTE? Igualmente interessante se revela Catarina Nunes de Almeida, com o estudo da obra de Casimiro de Brito, escritor de grande sensibilidade, cujo interesse pela contemplação de índole Zen é conhecida, revelando-se sobretudo na sua poesia.
Esteve recentemente entre nós o Dalai Lama, Nobel da Paz, figura insigne da luta pela liberdade e pelos direitos humanos,que incluem, naturalmente, o direito de expressão religiosa: e aqui cumpre felicitar as edições Ésquilo, que publicaram O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS com prefácio do Dalai Lama, e ainda SABEDORIA PARA VIVER, DALAI LAMA EM PORTUGAL (os textos da suas conferencias).
Embora julgue que todas as matérias, estas e outras que constam do catálogo, sejam trabalhadas a partir do inglês, é um sinal muito positivo que editores e estudiosos se empenhem em divulgar matérias relativas ao conhecimento e ampliação da nossa consciência espiritual, num momento em que, sobretudo na Europa, se volta a ser atacado pela doença do racionalismo positivista -sempre unificador e nunca inspirador (pois o interessante para o progresso maior é a diferença e não o culto doentio de uma "igualdade" que reduz, em vez de ajudar ao verdadeiro desenvolvimento, intelectual, artístico, religioso, e até social, económico, político; pois não se fala tanto e cada vez mais da necessidade de "oposições" bem preparadas?)
Os ensaios do volume trazem abundantes referências bibliográficas, o que é excelente para quem deseje aprofundar o estudo do Budismo em Portugal.
Uma observação ainda, a propósito do ensaio de Markus Gabriel : o conceito de UNGRUND não foi cunhado por Schelling mas por Jacob BOEHME, o grande teósofo alemão ( 1575-1624) inspirador de muitos autores subsequentes, como Goethe e Novalis, além do próprio Schelling. Sugiro como fonte, além do próprio BOEHME, as obras de Alexandre KOYRÉ, LA PHILOSOPHIE DE JACOB BOEHME, Vrin, Paris 1971, p.321; ou de mais fácil leitura, Jacob Boehme, Cahiers de l'Hermétisme, Albin Michel, Paris,1977, p.189 .
O Ungrund, (Sem-fundo) é um eterno Nada, como Boehme o define no Mysterium Pansophicum, um Vazio onde se gera a Palavra de onde surgirá a criação.Sem-fundo é o nome que poder ser dado a Deus: este é o " Nada eterno", o "Nada eterno que é o Uno eterno", "o Absoluto sem essência que em si mesmo é fundamento eterno", mas o nome que mais lhe convém, diz Boehme, é "Sem-fundo", abismo sem fundo e sem fundamento.E, como observa Koyré, o Ungrund não é a causa última nem primeira do mundo, e nem sequer a sua própria causa, é o Absoluto, sem mais : " É o fundo eternamente fecundo da vida e do Absoluto, o germe absoluto que, enquanto germe, não é ainda, e não é ainda nada, mas que contém dentro de si tudo o que irá ser".

Deixo uma sugestão: que se acrescente ao catálogo da Ésquilo uma tradução do I CHING, com os prefácios de Wilhelm, de Jung, e por que não, de novo o Dalai Lama.
Ou que se reimprima a obra notabilíssima do Padre Joaquim A. de Jesus Guerra : O LIVRO DAS MUTAÇÕES (publicado com o Prof. DR. Aidan Nai-kwong Poon).

Wednesday, October 03, 2007

No rebanho de Caeiro

Sabemos como Fernando Pessoa cresceu à sombra de Shakespeare, Milton, Yeats, Poe, Whitman, - e toda a pléiade de filósofos do hermetismo, com destaque para Waite.
Abrindo ao acaso o Guardador de Rebanhos: o rebanho que ele pastoreia são os seus pensamentos, um pouco à deriva na juventude de Alexander Search, em que o universo interrogado, quando interrogado assusta, omitindo respostas.
Caeiro será o Mestre que tenta consolar:

"Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
( Pensar é estar doente dos olhos )
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia:tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."
( II)

Mas a inocência é mais uma das máscaras, que Pessoa arranca no primeiro momento: pois ao homem moderno o que é dado é a culpa, e a busca da redenção possível, e não a inocência, perdida desde a Queda.
A Queda foi o momento crucial da aquisição da consciência : de si e do outro, também ele mascarado de Deus e de Diabo.
O Sensacionismo é verdadeiro em Rimbaud, que explode nele, com a quilha do seu barco/corpo afundando-se no mar dos sentimentos e das emoções.
Mas é falso em Pessoa/Caeiro, que o esconde sob a capa de um panteísmo místico que não chega a ser, pois não há entrega, nem mansa nem explosiva, há uma permanente reflexão/ discussão/negação, que de poema em poema afirma o pensamento e nunca outra coisa.
A verdade estava dita logo no início: o rebanho era os seus pensamentos, em torno do que deveriam ser as suas sensações.
Pelos poemas passa a interrogação do universo, da natureza e de Deus, como a podemos encontrar nos antigos alquimistas.
Pessoa documentou-se sobre o Yoga, as tradições místicas Hindús, Kabalísticas, e outras, como as da Ordem da Golden Dawn de que o Mago Crowley fez parte. Que na sua mão poética, a mais mística, segundo alguns críticos, estas reflexões perpassem não será de admirar.
Provocou o dizer do pensamento, embora afirmando que procurava a emoção tranquila dos sentidos ( é em Álvaro de Campos que encontraremos a explosão do verdadeiro sensacionista).
Predomina em Caeiro o sentido da vista. Descreve o que diz "ver" e se não acredita em Deus é "porque nunca o vi".
Nunca o viu, mas busca no entanto a visão "interior", aquela que faz com que se parta (na aventura da vida) "munido de olhos": olhos que permitem a visão interior, a do arrebatamento que ele procurava "de todas as maneiras" sem o ter conseguido, ou julgando não o ter conseguido: porque a sua realização suprema estava na obra, não na vida, e a sua obra fala por ele, todo o tempo e a todos, como se vê pelas sucessivas traduções que vão finalmente surgindo.
Ajudará saber que Pessoa tinha na sua biblioteca o volume de Einstein sobre a teoria da relatividade, o primeiro Ulisses publicado por Joyce, e que não é casual a sua meditação sobre o tempo que se "espacializa" como no mítico Graal de Wagner.
Pessoa/Caeiro, ou o homem que vê, face ao cego que por ali passa caminhando e pára na sua caminhada. Ambos vivendo uma realidade diferente, ainda que verdadeira na sua "sincronicidade".
Onde há sincronicidade há um jogo de opostos:
o homem que vê / o homem que é cego
o homem sentado no alto / o cego ali (em baixo ) caminhando na estrada
o homem que mexe (desliga) as mãos /o cego que pára na estrada
o homem que fica quieto / o cego que continua o caminho...

Mudou a realidade com a mudança no espaço; e mudou o tempo, que se tornou "vertical", como o dos místicos.
"O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos. Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual."
Noutro poema, Caeiro parece dar resposta, discordando:
"Tu, Místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.../ Para mim, graças a ter olhos só para ver,/ Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;/
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação".
Ah, mas não fosse Pessoa a contradição-em-si, não fosse ele, como carne de Deus ( roubando a Viktor Kalinke uma magnífica expressão do seu ensaio GOTTES FLEISCH ) ao mesmo tempo a mais aguda consciência, não teríamos outro poema, de 1930, em que diz da "alma" de todas as coisas: "Há em cada cousa aquilo que ela é que a anima"...
Esta "animação" é, por outras palavras, "energia"; e onde há energia há consciência, e onde há consciência há reflexão, há interpretação...há pelo menos uma pulsação própria de cada coisa, de cada ser, de cada pessoa (ainda que na Second Life da heteronimia).

Monday, October 01, 2007

Na Caza de Aurora


De manhã
soltam-se as pombas
são pombas brancas de leque
bebem antes dos pardais

o tempo fica comprido
o espaço também se alonga
não é o espaço de fora
mas é o espaço vivido
avivam-se muitas memórias

À tarde
falam as gralhas
sob o ácer japonês
em face do outro, inglês,
que é mais alto e sobranceiro

a Fátima serve o chá

À noite joga-se às cartas
ou fazem-se paciências
e contam-se histórias de medo

a Rosa fecha o portão,
voltará de manhã cedo
sacudindo o nevoeiro

Monday, September 17, 2007

Na noite de Borges

I
O jardineiro é feliz.

Cultiva o seu jardim
maior ou menor
oculto ou revelado

O jardineiro é feliz
no espaço que lhe foi
dado

II
A aurora ilude
ao prometer o dia.

Traz consigo o poente
o declinar da luz
a noite
que se esconde

Canta um pássaro
mas é finita
a sua melodia

III
Um homem sozinho na sua noite
sozinho no seu silencio
de mar
ou de montanha

Ao longe as palavras certeiras
que não são para ele

Seguem outro caminho

Wednesday, September 05, 2007

Ler Borges



I

Ler Borges
é caminhar
por sendeiros estreitos
linhas e entrelinhas
que nos atiram para
o precipício de um nome
uma obra
uma ideia
uma imagem
que nos prende e
nos cega não ilumina
perturba
tomemos as rosas
que ele dá a contemplar
e parece
que nunca murcharão
uma é rosa amarela
outra é centro do mundo
mas não do nosso olhar
que se perde
não vemos o infinito
sentimos a dôr aguda
de ler
mas não de ver
outra ainda
é rosa de alquimistas
as abelhas
em busca do seu mel
da rosa de Jean de Meung
disse Borges
que ela não existe
é como a flôr azul
de outro romântico suave
o romance da rosa é um labirinto
de disparates
apesar do sucesso que teve
noutros tempos
os seus
que não os nossos
os de Borges
os nossos tempos são outros
ainda que ele goste de se
contradizer quando fala do outro
que é o mesmo
não há mesmos
só outros
outrar-se é
o que ele faz melhor
como Pessoa
teríamos de ler a sua biblioteca
aí também se escondem rosas
as de Ricardo, o Reis, que se coroa
de rosas
porque são belas e
efémeras e
logo murcharão
lembrando o seu destino
que não concede
ao centro
nenhuma revelação

Dirão alguns
ao ler-me
e o lírio de Saron
a rosa dos vales?

e a rosa de Celan
a de má cinza?


a rosa que é
a rosa
que é
a rosa
que é a rosa?

Borges diz
"ser para sempre;mas nunca ter sido".

II

Também eu
sou os livros que li
(não os que leio
os que li )

as leituras estão feitas
a vida está vivida
nada de novo
nas páginas que folheio
nas pétalas
que desfolho
não busco a interrogação
mas o ponto final

III

O Anjo da Memória:

No pequeno caderno
inscreve o nome

qualquer letra
lhe serve

ele é o dono
do alfabeto inteiro

IV

É a memória
que (me) divide
o tempo

nele me posso
(re)ver

espelho
da água que (es)corre

o tempo define
o espaço
e eu definho
no tempo

nessa onda me afundo
não me salvo

VI

E Rilke ?

Rilke é outro que tal
deixou-se encantar pela rosa
a imagem da rosa
o perfume da rosa
a ideia de rosa
ideia
que mais tarde
o haveria de matar
com o seu espinho
bem real

Thursday, August 30, 2007

De Tavira com Amor



I

De dia
a espera
mais longa

de noite
a lua
mais branca

entre a noite
e o dia
o Anjo
que chora
e canta

quebrada
a flauta de jade
perdeu-se
a magia antiga

chora o Anjo
canta o Anjo

asas da melancolia

II

Entre as rendas da avó
há uma renda que voa
é uma renda-borboleta

voa
mas não à toa
é uma renda discreta

procura uma flôr azul
uma flôr branca
ou de ouro

é uma renda-borboleta
vai sozinha
no seu vôo

III

Sonhos confusos
engolidos
pela onda mais negra

água
do rio que passa

à beira-rio
a sombra-mãe aguarda
esconde os sonhos na caixa

Thursday, July 26, 2007

Saudades de Tavira


Outrora
nos telhados
podia-se voar

Outrora
nos jardins
podia-se correr

E nos canaviais
fingir
que se morria
...
As rendas da avó
guardavam
a nossa vida


(detalhe do quadro de Inez Wijnhorst
em Inside-Out, 2007)

INEZ WIJNHORST INSIDE-OUT 2007



O melhor dos pretextos para ir a Tavira, e junto ao rio visitar a nova exposição de INEZ WIJNHORST.
Perto do rio fica também a casa da minha avó: uma avó que recordo sentada com as suas agulhas, o seu crochet, as suas rendas de fios intermináveis. Tenho algumas guardadas, envelhecendo nas gavetas da cómoda que foi a do seu quarto, gavetas tão grandes que nós, pequenos, brincávamos dentro delas até ser apanhados e postos de castigo. Bons tempos, em que havia avós, disponíveis e carinhosas, férias, dias quentes e noites longas, que mais tarde dariam para eu ler, por exemplo, os romances torrenciais de Agustina Bessa Luís.

Nada acontece ao acaso e, como diz a pintora, citando Sandra Cisneros," The Universe is a cloth, and all humanity interwoven. Each and every person connected to me, and me connected to them, like the strans of a rebozo. Pull one string and the whole thing comes undone. Each person who comes into my life, affecting the pattern, and me affecting theirs".
Há aqui um vôo da tal borboleta que, batendo as asas nos antípodas, causa um cataclismo ( que pode ser da alma) no mundo que nos é próximo.

Inez tem um espírito filosofante, que acrescenta dimensão superior à sua obra : a contemplação dos seus quadros leva-nos a meditar e a descobrir que ali nada surge ao acaso, obedecendo cada gesto, cada escolha, a um movimento profundamente estruturado, algures na sua consciência, no seu inconsciente, no espaço de sombra onde os arquétipos se formam.
E por aí, por essa dimensão simbólica, surge a universalidade que é a própria da arte. Podemos então perceber e viver o Universo como um Todo, o que os alquimistas da alma faziam, cada um trazendo mais um elo para a Grande Cadeia do Ser de que falou Lovejoy, evocando Platão e toda a tradição neo-platónica, até aos nossos dias.

Do fio (das Parcas, que Inez descreve no catálogo) ao vestido do destino - pois o que nos veste igualmente nos define, tanto ou mais do que aquilo que nos despe...chegamos à mais íntima das tessituras, vista à lupa. E acontece o surpreendente ( mas não há arte sem surpresa, esse é outro dos mistérios, dos fundamentos da arte ). Citando Inez:
" E agora, vista à lupa, a imagem por detrás do espelho não corresponde ao objecto reflectido: duplamente fragmentado como através de um prisma, numa escala ampliada(em imagens gémeas), o exterior espelhou o interior e o verso o reverso".

Como Alice no País das Maravilhas, e Por Trás do Espelho, ora se diminui ( adquire-se paciência ) ora se cresce (adquire-se consciência) no processo de caminhar que é a criação em permanente desafio.
Nesta aventura do fiar e desfiar descubro, como cordão umbilical, uma curiosidade infinita, uma interrogação permanente, um olhar que não esconde, uma voz que não cala.
Em Inez não há silêncio nem medo.

Wednesday, July 25, 2007

O Dia e A Noite



De dia
a espera
mais longa

De noite
a lua
mais branca

Entre a noite
e o dia
o Anjo
que chora
e canta

Quebrada
a flauta de jade
perdeu-se a
magia
antiga

Chora o Anjo
canta o Anjo

Asas da melancolia

Sunday, July 22, 2007

Witold K. na Holanda



Grande antológica de uma obra monumental, a visitar até final do mês.
Os críticos referem-se à arte de Witold como sendo de um renascentista, pela variedade de temas e conhecimentos que revela.
Da pintura ao design e às concepções científicas mais elaboradas.
Na verdade caminhou ao longo da vida de olhos postos no futuro, mais do que no passado, e a celebração chega agora, no século XXI.

Thursday, July 19, 2007

Hommage to Witold K.


For many many years his melancholy paintings have been staring at me, while I searched for his name, his face, his painter-hand somewhere. We didn't meet in Paris, as we could.
I found him now, celebrating a long and wonderful career and am paying my hommage.
I can see him in the past with Jaques Prévert, whom we both loved, for his poetry, his genius.
And can see him with Stephen Hawking by the picture of a black hole model.
Black were those times when he fought for freedom in a country closed, as if forever.
But there's no forever closure in art, the real name for freedom.
I cherish this fragile, slightly stained watercolour, precisely for its frailty.Those characters turn their backs to a destiny they ignore but fear, they are not going, they are being taken, and that's the worst of cruelties.
In silence, to be taken, in silence hiding their face, as if it could change their destiny.
It reminds us of what we are, whoever and wherever we may be.

Tuesday, July 10, 2007

O Cavaleiro




Vai veloz o cavaleiro
na sua nova montada

Vai feliz e vai ligeiro
deixa para trás o lastro
que tanto o atormentava

Vê o céu à sua frente
no horizonte infinito

Vai feliz e vai ligeiro
não teme nenhum perigo

Leva a máscara na mão
deixa um coração partido
no peito do seu amigo

Wednesday, July 04, 2007

RENGA


1

If only I could
order the gusty breezes
I should like to say
I command you to leave this
solitary tree alone

2

The tree is old
it stands
facing the river

3

Night ferries
luminous swans
afloat on the moon's river

4

Silvery clouds
summerwinds blowing
on the sea

5

Burning forests
blazing summers
blinding suns

6

Un papillon aveugle
aimant
une lumière éteinte

7

Amar
só o efémero
as pétalas que caem

8

Like the sun and the moon
east and west
raising the light

9

O vento sopra
suavemente penetra
fecunda o ventre
da terra

Thursday, June 28, 2007

Jorge Queiroz



Do pequeno para o grande, do grande para o pequeno, assim foi caminhando Jorge, como Alice no País das Maravilhas.
Coube ao Museu de Serralves, sempre pioneiro nas suas apresentações, fazer desta antológica um grande acontecimento permitindo que se veja em Portugal a obra de um artista que já escolheu Berlim como segunda pátria.
A mostra deixou ver obras que vão desde o fim da década de 90 até às mais recentes, datadas de 2006.
Cito João Fernandes, na sua introdução ao livro que é agora memória da exposição:
"O desenho de Jorge Queirós combina e associa, acrescentando-lhes lugares estranhos, uma temporalidade ambígua, personagens híbridas, originárias de palcos cujos teatros, papéis ou peças resistem a uma leitura unívoca. Este é um desenho transiente, que se ocupa de transferências várias, entre técnicas, formatos, motivos, histórias e situações".

Parte do fascínio causado pela contemplação destes desenhos, que ao mesmo tempo pretendem ser e são, menos e mais do que isso, resulta da curiosidade que o percurso da mão nos desperta. Para onde empurra o lápis, o que vai buscar ao alto ou ao pé da página , ou de súbito descobrir no oco de um buraco que não seria suposto estar lá mas surge, como nos sonhos, sem função prévia que se adivinhe definida.
Nisto consiste a dimensão de maravilhoso que nos prende. Na surpresa, na associação livre que também a nós nos entusiasma e faz seguir o caminho que transforma o espaço branco num espaço aberto de criação.
Somos levados para dentro desse espaço pelas leituras múltiplas que o artista nos permite, ou oferece.
Seria fácil, para dar pontos de referencia, evocar a pintura metafísica, ou a pintura surrealista, cujo ideário foi claramente assumido por alguns na primeira metade do século XX.
Mas não seria suficiente, pois Jorge vai mais longe: conhece, e segue em frente, cita, mas desconstrói ou sublima. Deixa claro que o seu gosto é procurar, movido por uma pulsão que a ele mesmo inquieta, e se irá reflectir nas formas por vezes inusitadas e nas cores com que decide alterar o espaço do desenho.
Ao exercício, só aparentemente aleatório, das manchas que restringem, soma o artista a pontuação discreta, quase oculta, mas muito rigorosa das figuras perturbadoras: de costas, de frente, subindo, descendo, ora a esconder-se ora a surgir de surpresa como nos contos da infância ( não é por acaso que anda por ali um coelho ou se encontra uma chave...). Sublinho a importância das "marcas" dos objectos, cada um e todos eles com uma função própria, desviante: dizendo que há mais, há muito mais ainda, e como no enredo interminável das Mil e Uma Noites ali se encontram mil e uma formas que aspiram a ser ( como diria Goethe ) e a ser reconhecidas.
O que me leva a uma última reflexão sobre o Ser e o Tempo: a mão que foi desenhando e pintando, nestes quadros, aspira à materialização dos seus fantasmas no Tempo, um tempo mítico como o do espaço do Graal que Gurnemanz define ao jovem Parsifal atónito: " O tempo aqui transforma-se em espaço".
Caberá ao artista dar-lhe a dimensão ideal.

Monday, June 25, 2007

Sophia de Mello Breyner in memoriam



NA SOMBRA DE SOPHIA

As ondas são as mesmas,
saltam nas rochas
da infância

Sophia dança
na praia

Contam-se os grãos
do tempo,

não se pode virar
a ampulheta

( Praia da Granja, no dia de São João, Junho de 2007 )

Sophia de Mello Breyner


HÁ MUITO

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa


MORTE

Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada


( Sophia de Mello Breyner,Onze Poemas, movimento/poesia1971)

Wednesday, June 20, 2007

Meng Chiao



With the spirit I feel...in silence there is no speech.
With the first awareness all fetters are dissolved.
In evening thought I incline toward a troubled morning.
The boat of the wanderer has no stop on the waves.
The horses neighed, the shafts were removed here.
My teacher, the hermit Yin Ch'in who lives in the thicket
Knows that there is a friend who understands him.

( Transl. by Iulian K Shchutskii and others,
in Researches on the I Ching, 1980 )

Thursday, June 07, 2007

Quando o Inverno Chegar



A não perder esta nova produção do teatro São Luiz: inspirada em Thomas Mann, com ecos beckettianos nas marcas do encenador, esta é uma grande produção com texto de José Luiz Peixoto, encenação de Marco Martins e dramaturgia em criação colectiva de Marco Martins, Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Dinarte Branco e Gonçalo Waddington - sendo estes igualmente intérpretes. Do texto de Marco Martins no programa retiro os dois suportes da concepção-base : "a inércia e o movimento e a ideia de que pela comunicação artística se pode romper com a nossa própria inércia" sendo essa a única possibilidade de explicar ou de pelo menos tentar explicar a vida. Porque nem tudo é explicável e sobre o inexplicável paira sempre o mistério, perpétua interrogação.
A interpretação é notável, cada um dos actores construindo a personalidade neurótica dos caracteres, de forma a que não se perceba logo a dimensão trágica do seu oculto registo; saliento a performance de Beatriz Batarda, que constrói uma figura frágil, quase etérea naquela paisagem de pulsões inconscientes, mas sabendo que no coração da ingenuidade se escondem a intensa paixão e o intenso dizer da realidade.
Uma palavra para a música original de Pedro Moreira, executada ao vivo por um conjunto de câmara que só é pequeno no tamanho, acompanhando a voz de Carla Simões nos belos versos de Goethe.

De 7 a 30 de Junho.

Monday, May 28, 2007

Maiorias



As maiorias não apreciam a diferença.
Gostam de médias e de medianias, por isso são maiorias.

Friday, May 18, 2007

Gabriel Garcia Marquez



Saúdo a edição comemorativa desta obra maior que é CIEN AÑOS DE SOLEDAD, de García Marquez, levada a cabo pela Real Academia Española em conjunto com a Asociacíon de Academias de la Lengua Española.
É assim recordada ao público, em 2007, a edição de 1967, que havia de marcar para sempre o nosso imaginário romanesco.
Absorvida e digerida a herança surrealista avançava-se agora, pela mão dos heróis de Maconde ( aquela pequena aldeia de uma vintena de habitantes, no centro de um mundo "tão recente que muitas coisas careciam de nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo" )- avançava-se, dizia eu, para uma obra de maravilhação alquímica que se apossava dos leitores como os ciganos de visita à aldeia se apossavam da alma do incompreendido, ainda que respeitado, fundador.
E aqui estou eu fazendo de novo deste livro a minha companhia porque, como diz o cigano, "as coisas têm vida própria...é tudo questão de despertar-lhes a anima".
A anima, nem mais, como qualquer alquimista junguiano nos diria.
É esse um dos segredos da leitura e dos bons livros. Não morrem e dão-nos vida uma e outra vez.

Tuesday, May 08, 2007

Uma Casa Portuguesa



INEZ WIJNHORST apresenta a sua "Casa Portuguesa": há algo de babélico na acumulação dos andares, e os sótãos imperfeitos, como que inacabados, deixam espaço à imaginação de quem deseje continuar a construir, erguendo camada sobre camada...
A ideia de uma construção em aberto, ainda que perigosa ( pode ruir ) seduz. Ergue-se ao alto, como o castelo de cubos ou de legos das crianças. Reconstitui um certo imaginário da infância.
Mas esta casa fala ainda de outras coisas: dos espaços amontoados das sociedades modernas, do sufoco, não fossem as janelas em Portugal estarem quase sempre abertas, deixando ver a vida que se vive.
Deixa-nos ainda, esta casa de Inez, com a sensação de estarmos perante uma forma contida como um ovo mas que pode, a qualquer momento,explodir por força de tanta contenção.
Diz Gaston Bachelard que " o espaço é nosso amigo ". Mas na geometria imperfeita das vidas o espaço pode ser violento, a protecção pode falhar, dar-se uma explosão fatal. A casa portuguesa está a abarrotar de coisas e de gente.
A metáfora de Inez não me faz esquecer a nossa vida real: se puxarmos o fio será que resiste a um abanão mais forte ?

Friday, April 27, 2007

Manuel Alegre



Chega Manuel, com as Doze Naus :
....
"Entre aquém e além ser e não ser
tantas portas abertas ou talvez nenhuma.
Não há senão um verso por escrever
e sobre a areia branca a breve espuma."

Sente-se em alguns dos poemas uma inquietação melancólica, uma interrogação perplexa, uma quase lamentação interpelando um deus que continua escondido, uma voz que ainda não se fez ouvir, um verso que ainda não foi escrito: "Agora tenho de escrever o poema/ porque nada está escrito.E o que se acaba não acaba"...
É assim mesmo o tempo do poeta, cruza os mares da vida numa viagem sem fim.

Sunday, April 22, 2007



O MONTE

anoitecer suave
no topo das colinas

calam-se os pássaros,
as lebres e os coelhos
aninham-se nas tocas

sai um morcego
a mordiscar romãs

os gatos sorrateiros
saltam entre os telhados
em busca de algum ninho
ou de algum rato

luar de Agosto

lá em baixo
na estrada
conversam os namorados

Chanson pour mes petits-enfants




LE JOUR ET LA NUIT

Pendant le jour l'enfant s'amuse.
Il aime regarder autour de lui:
la maison
le soleil
l'arbre dans le jardin
l'oiseau qui vole dans le ciel
la voiture
l'avion
l'autobus ramenant les enfants de l'école
un petit garçon qui promène son chien
un autre qui s'en va jouer un peu plus loin...

La nuit descend, l'enfant s'endort
ses rêves sont heureux.
Parfois un monstre arrive qui fait peur
l'enfant crie au secours
le monstre disparaît
tout est bien dans sa chambre:
les jouets lui font signe
ils sont gais,ils sont là.
N'aie pas peur
dit le petit poussin
il est beau, il est doux
jaune comme un soleil.

Le soleil chasse l'ombre
l'enfant s'endort tranquille
bientôt le jour viendra.

Tuesday, April 17, 2007

A FERVURA DO AIRE



Um encontro de saudade com Antonio Dominguez Rey, poeta, professor, ensaista, no MAPA DA LINGUA PORTUGUESA NO MUNDO: "siga a trilha de quem fala português"...
Reli o seu estudo sobre Antonio Machado, encontrando na saudade que o poeta teve de Platão e de Cristo uma nova fórmula para um moderno Graal:

"Dices que nada se créa?
No te importe, con el barro
de la tierra haz una copa
para que beba tu hermano".

Mas de uma ideia parti para outra, a da poesia de Antonio Rey, ele mesmo poeta do encantamento da palavra.
E tão belo é o seu soar que não traduzo, apesar da língua-gémea facilitar a tradução, deixo no original um fragmento do poema que encontrei.Há navegações felizes...

A FERVURA DO AIRE

Subín ó monte cheo
de ruídos e espantallos
que arredaban as aves
sen poderen picar
os grans da miña sombra.
Adentreime entre os piños
e sentín lenta a luz
no corpo, xa baleiro
da teima que porfía.
Ergueito, nu, cos brazos
oferentes, as febras
do sol nos lises tenros,
cantei vellas gabanzas
à humidade das fontes,
ó arrecendo da terra,
ó rulo dos paxaros
no segredo da fraga.
Vivín, lonxano, o arrolo
do mar nas ponlas luídas
e fun herba silvestre
ou mastro na marea
sobranceira das árbores.
....
Voa, paxaro, ó fondo
pecho do ceo, voa.
A miña inquedanza abre
de anseios a gaiola.
Voa, corazón, voa
ó mais lonxe da vida,
que non me cabes dentro,
e douna por perdida.
....
O alento esvae sempre
un paxaro de lume
invisíbel e acende
a fervura bendada
da arxila no poema.
....
Hora na que a palabra,
sen ser, lucente abrolla
a vertixe do instante.
Inquedanza da sombra,
premura devanceira
que rexorde o tecido
do ceo con agoiros
e xemidos de cobre.
....
Morreron as palabras,
as frases, a sintaxe
do mundo.O que non morre
é a fervura do aire,
as raíces dos talos
que ruben polas gorxas
agoirando palabras.


Eis o canto, incompleto, com o desejo que deixa de continuar a ser.

Thursday, April 12, 2007

DALI



Um lema para todos os criadores:
"Desde pequeno o meu lema é o de Montaigne: não se consegue o universal senão a partir do ultra local" (Salvador Dali ).
Assim, em Figueras, se ia formando um génio cuja obra teve e tem reconhecimento indiscutível.
Pergunto, quem tem medo de ler Montaigne, hoje em dia, quem reflecte sobe a sua escrita sóbria, nítida, exemplar ? Do alto da sua Torre nenhum detalhe, nenhuma observação, lhe escapa.
Mas vinha isto a propósito de mais um achado meu nas caixas do CAVE CANIS: a reprodução da primeira novela de Salvador Dali, incompleta, e que o grupo transcreveu para a tornar acessível. Datada de 1920, já revela a imaginação prodigiosa que será sua marca, a par do gosto do local, neste caso uma pequena povoação perto de Figueras, onde situa o enredo. Mostro, para que conste, sem mais. O título é Tardes d'estiu, e a edição foi feita ao cuidado de Victor Fernandez. Escrito em catalão, seria interessante traduzir este texto, ainda que se trate de um fragmento.

Monday, April 09, 2007

A ARCA DE PESSOA



Amigos leitores de Fernando Pessoa, uma boa notícia:
Saiu já, em edição do ICS, com organização de Steffen Dix e Jerónimo Pizarro, o conjunto de comunicações apresentadas no Colóquio de Leipzig que ambos organizaram em 2005.
Parabéns aos organizadores e ao ICS que permite aos investigadores fazer obra continuada.
Agora é ler, a Arca está aberta, venham os novos Indiana Jones...

Tuesday, April 03, 2007

Palau i Fabre


Grande amigo de Picasso, Josep Palau i Fabre viveu em França na década de 40.
Colaborou em 1996, a convite da Fundação Gulbenkian, num ciclo intitulado CLARÓS INSTANT, Imagem e Palavra na Poesia Catalã Actual.
Devo dizer que talvez dessa ideia de Imagem e Palavra me tenha surgido a mim a ideia do nome deste blog.
Tinha tido a honra de conhecer Palau i Fabre muitos anos antes, em Barcelona, ficando aí a saber que ele era, não apenas um amigo, mas um dos maiores conhecedores da obra de Picasso.
Além de poesia, que deixarei documentada com um pequeno exemplo, interessava-se, como eu, pela simbólica alquímica.
Nas edições 62, Historia de la Literatura Catalana, podemos ler POEMAS DE L'ALQUIMISTA, publicados em conjunto com outro grande artista JOAN BROSSA.
Aqui fica a versão livre de um dos seus poemas, lido outrora, em 1996:

PEDRA ( a Xavier Zubiri)

Dura como a água dura.
Raiz de si própria.
Em êxtase perpétuo
a pedra perpetua
a pedra, imagem pura
e a ideia de pedra
se nos torna madura
(1942)

De um artista bem mais jovem, Perejaume, nascido em 1957, um poema que também foi lido entre nós e de que deixo a versão livre:

VOLTEM A PÔR

Voltem a pôr na terra o ouro, espalhem na montanha o bronze, o mármore e o marfim, para que representem aquilo que agora mais falta nos faz: o lugar de onde sairam..

Jan Fabre


Da caixa do Cave Canis, outra surpresa, Jan Fabre:
" M'agrada el moviment, els colors que es confonen entre ells,
la flama que es revifa, la brillantor i el centelleig de la llum,
la mort d'un tros de fusta, les brases, la foscor
i el nou començament..."

Aos Amigos do Cave Canis


Arrumando prateleiras, o reencontro feliz com os artistas de CAVE CANIS. Eram (são? ) muitos e animados de um espirito de liberdade e criatividade que neste momento ainda mais falta me fazem.
Cito, do Manifesto contra o Populismo Perverso:

" Sense ètica, no hi ha estètica.Ni dignitat.
...
L'art no és un entreteniment vagarós, lleure de privileiats que es miren el món des de fora, com a espectadors.Parafresejant Picasso/Tàpies:l'art es una arma de guerra contra l'enemic, un mitja per combatre l'obscurantisme i la violència.
...
En temps de barbàrie, vindiquem la il-lustració contra les tenebres,l'esperit critic contra el dogma...Això es: la dignitat contra la immundícia."

A ilustração é um negativo de MANEL ESCLUSA: La pedra, La Muntanya, L'Univers...
da exposição de Boston, 1983

Friday, March 23, 2007

ERATA


LABYRATIONEN. Livro de poesia e arte editado na Erata que não descura a literatura e a arte em complemento ou confronto.
Aqui poeta e pintor entendem-se quanto ao que desejam dizer: um desabafo severo contra a imprensa que comparam à lama das ruas, à folhagem caduca, entre outras coisas.
Adivinha-se um exercício de fronteira entre o perene, a obra de arte, a poesia, e o efémero, a vaidade de um círculo poderoso, é certo, mas que não ficará na memória do tempo.
Os autores são Michael Goller e Mike Wassermann, ambos pertencentes à geração que convive com os Media e por isso sente que pode relativizar o seu peso, a sua dimensão.
As imagens fortes de cada estrofe são lama, pó, insecto, folhagem caduca; o pintor desenha um jornalista de microfone na mão mas já percebemos que para ambos os criadores aquela voz, ainda que ampliada, é uma voz pequena.
Eis o poema:

À IMPRENSA

Vós sois
a lama que salpica
as ruas.

Vós sois
o pó
chamuscado
na luz.

Vós sois
o insecto
que pica
e zumbe.

Sois
como a folhagem
que cai no chão
e morre.

Saturday, February 24, 2007

Celan recordando a França

De Paul Celan, outro poema antigo, da primeira fase da sua obra. Escrito provavelmente em Bucareste e incluído no conjunto de DER SAND AUS DER URNEN, A AREIA DAS URNAS.
Em 1938-39 Celan tinha completado em Tours os seus estudos de medicina e em Paris tinha contactado o grupo dos surrealistas, de que guarda algumas memórias embora depois se tenha afastado das práticas mais radicais, por razões que se percebem: o sofrimento da guerra não o deixará mais voltar a sorrir ou a sonhar, e as imagens que o perseguem são cruéis, de agressão e pesadelo.
A referencia a Monsieur le Songe traz à memória Rilke, outro grande referente para a cidade de Paris, com OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE e com as ELEGIAS DE DUÍNO.
Barbara Wiedemann, que edita e comenta a Poesia Completa da Suhrkamp, nota que nas ELEGIAS DE DUÍNO (V) Rilke alude a essa figuração da morte que é a modista "Madame Lamort".
Por curiosidade deixo ao leitor esse passo de Rilke, na tradução de Paulo Quintela:
....
" Praças,ó praças de Paris, teatro infindo,
onde a modista, Madame Lamort,
entrelaça e entrança os inquietos caminhos da Terra,
fitas infinitas, e inventa deles novos laços,
franzidos, flores, cocardas, frutos artificiais-,tudo
inverosimilmente pintado,- para os baratos
chapéus de inverno do Destino.
....
Anjo! haveria uma praça que não conhecemos, e ali,
sobre o tapete indizível, mostrariam os amantes, que aqui
nunca chegam a poder realizá-las, as suas ousadas
altas figuras do impulso do coração,
suas torres de desejo, suas escadas que, há muito tempo,
ali onde o solo falhava, apenas se apoiavam
uma à outra, trementes,- e ali poderiam,
em frente dos espectadores em volta, inúmeros mortos silenciosos:
lançariam eles então as suas últimas moedas sempre poupadas,
sempre escondidas, que nós não conhecemos, eternamente
válidas moedas da felicidade ante o par
finalmente sorrindo verdadeiramente sobre o apaziguado
tapete? "

Celan, no seu poema, falará de uma espécie de "João Pestana" oriundo da treva e não do céu dos Anjos da Guarda que protegem o embalar suave da criança ou dos amantes que podem adormecer felizes.
Aqui o sono é o eterno sono da morte.

RECORDAÇÃO DE FRANÇA

Tu pensa comigo: o céu de Paris,o grande lírio do Outono...
Comprávamos corações na florista:
eram azuis e abriam-se na água.
Começou a chover no nosso quarto
e veio o nosso vizinho, Monsieur le Songe, um homenzinho seco.
Jogámos às cartas, eu perdi as meninas-dos-olhos;
tu emprestaste-me o teu cabelo, eu perdi-o, ele abateu-nos.
Saiu pela porta, a chuva foi com ele.
Estávamos mortos e podíamos respirar.

Wednesday, February 21, 2007

Les Dames de Venise


Para o Fernando Canedo


Paul Celan, LES DAMES DE VENISE:

Nenhuma de vós
deu pelas mocas
que zumbindo voavam
ao vosso encontro ?

Era
este aparente
caminhante .

Poema escrito em 1968, na Fundação Maeght, onde se encontrava uma série de esculturas de Alberto Giacometti, criadas para a Bienal de Veneza de 1956.
Como em tudo o que nos deixou, a marca dominante é a de uma ameaça que nunca desaparece, antes espreita sorrateiramente onde quer que se vá, onde quer que se esteja. Não se foge ao destino, é o que o poeta repete sem cessar.
Já num texto anterior, ABER, MAS, conta Celan como não viu voar os cisnes de Genf pois entretanto alguém tinha arremessado um pau contra ele,vindo do nada, directo à alma.

Monday, February 19, 2007

William Blake


The Songs of Innocence and of Experience contain "some of the most charming lyrics ever written in English.The childlike simplicity and trust of the Songs of Innocence is unique...Blake rejected common sense and believed that the material world is unreal.Those who knew him regarded him as a lunatic..."
(George H. Cowling, ed. Songs of Innocence and of Experience, Introduction )
Se é certo que há uma inocência aparente nas canções da inocência, não é menos verdade que Blake tem a intenção de as contrastar com as canções da experiência, pondo assim a descoberto as pulsões contraditórias da alma humana, como escreve no subtítulo da obra :" Showing the Two Contrary States of the Human Soul ".
Concluímos assim que é feita de sabedoria mais profunda a sua lírica, e não de ingenuidade meio infantil meio lunática como alguns pretenderam simplificando o seu contributo para a literatura e arte do seu tempo. Um dos poemas mais citados é THE LAMB, O Cordeiro; mas só pode ser de verdade entendido se o lermos seguido de outro ainda mais célebre THE TIGER, O Tigre.
É no brilho feroz do tigre que se revela o que o cordeiro esconde na sua aparente ( e insisto no termo ) inocência; pois de verdade não existe inocência no mundo, a Queda pôs termo a essa virgindade primordial e toda a criação foi contaminada pelo pecado dos nossos primeiros pais.
Blake acreditava na sua intuição espiritual. Dizia que os seus poemas lhe eram ditados por "autores da eternidade, authors in eternity". Como Pesoa fará mais tarde, aludindo a "oculta mão" que por ele escrevia...
Para Blake ser poeta era ser visionário no sentido mais nobre do termo. Era ter uma especial capacidade de imaginar, para além do que a natureza e a realidade permitissem. Por outras palavras, a capacidade de alcançar a essencia do mistério natural, vendo no cordeiro como no tigre a "ordem da existencia" pela qual eram regidos.
"Mental things alone are real" só as coisas mentais são verdadeiras, observa, podendo por aqui situar-se na tradição dos melhores cultores do hermetismo em Inglaterra. Para eles a imaginação era " a estrela no homem ".
A apreensão da realidade é sempre melhor feita por intermédio do símbolo :
" To see a world in a grain of sand
And a Heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour ".

Ver um mundo num grão de areia
E um Céu numa flor selvagem,
Na palma da mão conter o infinito,
E a eternidade numa única hora.

Misticismo, panteísmo também, em certa medida, mas sobretudo entendimento da cadeia dos seres num universo ordenado, mas infelizmente decaído e a necessitar de regeneração. Algo para que só um santo, um místico ou um poeta, que tenha um pouco de ambos, poderá contribuir.

Thursday, February 15, 2007

Thanks Gawain



Romãs ou as chávenas de Gawain:
Gawain, o autor do blog heaven tree, acaba de regressar de Taiwan onde foi ver a exposição de obras de arte da China milenar.
No blog divulga, como sempre, as suas emoções, com abundante erudição que maneja em prosa elegante e viva, para nos entusiasmar, a nós distantes e mais impreparados. E nós ( os seus leitores fiéis ) deixamo-nos entusiasmar.
Assim aconteceu com estas chávenas que ele trouxe de regresso à Tailândia fazendo mais um post.
A beleza das romãs pintadas fez-me pensar em como é forte a marca dos símbolos em todas as culturas e evoquei desde logo o Cântico dos Cânticos (3-4 ):

Como és bela, minha amada,
como és bela !
....
Teus lábios são fita vermelha,
tua fala melodiosa;
metades de romã teus seios
mergulhados sob o véu.

Podemos continuar com alguma poesia persa, citada nos dicionários, como a de Firdousi:
" as suas faces são como a flor da romãzeira e os seus lábios como o doce das romãs" ;

O simbolismo da romã prende-se com o simbolismo dos frutos que têm muitos caroços, e aludem por isso à fecundidade, à multiplicação desejada.
Na Grécia antiga a romã é o fruto de Hera e de Afrodite; e na Ásia a romã aberta simboliza em geral a expressão dos desejos, bem traduzida por uma expressão popular vietnamita: "a romã abre-se e deixa sair cem filhos".
Na mística cristã este simbolismo da fecundidade é transposto para o plano espiritual: para S.João da Cruz os bagos de romã são as perfeições divinas nos seus inumeráveis efeitos.
Mas como em todo o texto poético há sempre mais mistério para além do que se adivinha. O símbolo, como linguagem outra que é, respira, e deixa respirar outras manifestações:

Reguengos

Já pesam as romãs semi-abertas
nas romãzeiras molhadas

cairam as chuvas da tarde
aguardam-se os beijos fatais
que só os Anjos concedem

bagos vermelhos
em bocas apetecidas

Jardim de Inverno
onde se perdem as vozes
onde se abrem feridas

onde secretamente
mais árvores são plantadas

(Y.K.C., in Mealibra,
Revista do Centro Cultural do Alto Minho 2005 )

Sunday, January 28, 2007

Novas Leis



Proclamação da Nova Lei

ATENA

Nem anarquia, nem despotismo eu quero
que os meus cidadãos cultivem com devoção.
E que não se lance o temor fora da cidade.
Sem nada recear, qual dos mortais seria justo ?

( Euménides, 696-699, trad. Rocha Pereira )

Thursday, January 25, 2007

Vasos Gregos em Portugal



Mais uma belíssima exposição oferecida pelo Museu Nacional de Arqueologia. Pode ser visitada de 26 de Janeiro a 15 de Julho de 2007.
A exposição constitui ao mesmo tempo uma homenagem a Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra e Comissária Científica desta exposição, na sua qualidade de grande especialista da Cultura, Literatura e Arte Gregas.
Quando estudante em Coimbra, tive o grande privilégio de ser aluna da ilustre Professora na cadeira de História da Cultura Clássica. Devo-lhe o amor que aprendi a ter à Cultura, à Literatura, à Arte - ao pensamento filosófico e à criação em geral. Quando tenho saudades do tempo de estudante, e são cada vez maiores, pego num dos seus livros e volto a ler. Repetidamente leio as suas traduções dos grandes trágicos gregos. As Bacantes, por exemplo: ainda hoje sinto como actual o conflito entre a ordem civilizacional que Penteu deseja impôr, excluindo as pulsões mais fundas do ser humano, e a entrega à desordem emocional, ainda que ritualizada do culto de Diónisos. Este castigará Penteu pela arrogancia: no ser humano, como no divino, é preciso ver o "outro", reconhecer no outro a parte que ele contém de nós mesmos. A lição é de luz e de sombra...
Outro livro bom comanheiro e que aconselho aos alunos: HÉLADE, Antologia da Cultura Grega. Enquanto não se adquire o gosto de ler as fontes, aqui se encontrará uma selecção traduzida por mão de Mestre, indo desde a Ilíada e da Odisseia de Homero, passando por Hesíodo, Safo, entre muitos outros textos, autores e fragmentos dos pré-socráticos até Platão, Aristóteles e os que se lhes seguiram. O exemplo de um manual perfeito, nesta hora de tanta discussão em torno de novos manuais e novos modelos pedagógicos. Não há pedagogia esvaziada de saber. Vejamos Sófocles, na Antígona:
Coro
Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co'o sopro invernoso do Noto
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
mortal, dos deuses a mais sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.
....
Da sua arte o engenho subtil
p'ra além do que se espera, ora o leva
ao bem, ora ao mal;
se da terra preza as leis e dos deuses
na justiça faz fé, grande é a cidade;
mas logo a perde
quem por audácia incorre no erro.
....
(trad. Rocha Pereira )

Como bem recorda o Coro, o mérito é o do trabalho, sem ignorar o engenho, e o erro a evitar é o do excesso (da arrogancia ). Só no saber não existe nem nunca existirá excesso, pois o saber é humilde, na ânsia de conhecer mais e melhor, enquanto for possível.
A exposição é um exemplo de amor da beleza e da sabedoria partilhado comnosco.
No fragmento com que ilustro o post ( de um vaso da colecção de Manuel de Lancastre ) Diónisos, seguido por uma Ménade, caminha levando na mão uma taça com oferendas.
Não sendo deuses, aceitemos contudo, nós também, a taça de oferendas. O vinho de Diónisos é o vinho da vida.

Tuesday, January 23, 2007

Jorge Casimiro



De Jorge Casimiro, MURMÚRIOS VENTOS, recolha da sua poesia numa bela edição ilustrada por Ana Casimiro.
São poemas de cariz confessional em que as palavras se moldam à emoção que o autor procura esculpir na memória de quem lê.


"em palavras me desnudo a cada verso
e nua paisagem me descubro
tão longe tão vazio tão repleto"

A leveza de mão da ilustradora completa de forma inspirada, como que voando só por si, a densidade dos textos que trabalha.
Como se a palavra de pedra fosse erguida por um sopro de discreta transformação.
Talvez não por acaso a editora se chame PÁSSARO DE FOGO...

Wednesday, January 17, 2007

BABYLONE de Manuel Alegre



A obra de Manuel Alegre continua em digressão pelo mundo.
Lançada agora em França na colecção "Paroles d'Ailleurs" a edição bilingue de BABILÓNIA (poema épico de 1983, revisto em 2000 na Obra Completa); e no próximo mês de Fevereiro será lançado em Leipzig o romance RAFAEL na tradução de Markus Sahr.
Sabendo, por experiencia, como é difícil traduzir poesia, saúdo a tradução francesa de João Carlos Vitorino Pereira. A tradução é um acto de amor e um exercício de pacência e humildade. Exige a leitura por dentro do poema, uma leitura mais íntima, mais secreta, em que a voz se torne nossa e a possamos transformar. A tradução tem o seu quê de alquímica devoração: apropriamo-nos das palavras do outro, do seu pensamento, do ritmo que a ele preside, para dar forma-outra na língua que já não é só dele, mas dele e de um outro em conjunção feliz.
Babilónia surge como um "grande cantico subterrâneo", uma epopeia que mais parece ser a expressão da "corrente de consciência" de um escritor atento e sofrendo com a mudança e a decadencia inevitável dos tempos. A marca Camoniana é forte e Manuel não a esconde, antes a proclama.
Ao contrário de Pessoa, que pretendeu, em MENSAGEM, reler a História de Portugal, Manuel Alegre relê o pulsar da vida num universo em permanente mudança.
Aqui a viagem é passagem, o jardim é o sonho de um espaço que deixou de ser idílico e esconde muita tormenta (aproveite-se para ler a seguir Senhora das Tempestades...) .
A epígrafe dá o tom " Esta é Babilónia, lugar da vossa residência". E segue-se, antes do canto de Manuel, a transcrição do maravilhoso Poema Babilónico da Criação:

"Aquele que tudo viu
aquele que chegou aos confins do país
o sábio, o omnisciente,
que conhece todas as coisas
aquele que leu os segredos
e desvendou o que estava escondido
transmitiu-nos um saber
de antes do dilúvio.

Longo foi o caminho que percorreu.
Quando voltou, fatigado mas sereno,
gravou sobre a pedra
o relato da viagem".

(Epopeia de Gilgamesh,Prólogo)

Este é o sopro profético que leva o nosso poeta a cantar, também ele, o que viu, o que aprendeu, o que lhe foi difícil e finalmente o que o apaziguou, suavizando a relação consigo e com o mundo..Responde a Gilgamesh a par e passo, quase verso a verso, confrontando o seu caminhar com o que outros descrevaram na memória dos tempos.
Cito agora na tradução francesa alguns dos poemas que mais dizem sobre o caminho percorrido:
IN MEZZO DEL CAMINO
1.
"Ta vie est au milieu: ta contradictoire
vie périlleuse passionée.
Changer l'homme ( disais-tu ) Faire l'histoire.
Comment abolir maintenaint le quotidien ?
La jungle est sombre et tu es seul
avec ta guitare et ta mémoire
au milieu du chemin".

O meio do caminho, no meio da vida: a pausa da sabedoria que só não é infinita porque nada é infinito no homem:
3.
...
"Tu es simplement de passage
et ce qui reste de toi est ton absence.

Tu t'assois.
Ta chaise est l'auberge d'un soir.
Te voilà assis sur l'adieu lui-même".

Mas é a palavra que redime, daí a necessidade absoluta da escrita, na pedra da memória.Tal como Celan, outro profeta da eterna transmutação do Verbo no ouro do poema, Manuel Alegre dirá:
8.
"Tu ne te libères que par la parole
par la porte défoncé de la parole
syntaxe désagrégée
blanc espace de solitude

De l'autre côté de la grammaire se trouve la mer
tu verras peut-être ces îles jamais vues

Puis soudain une guitare".

Noutra secção, O Homem Sentado À Mesa, L'Homme Assis À Table - descreve-se o trabalho do poeta, sentado à mesa, diante da folha do papel, percorrendo esse "long chemin de la vie vers le mot". Espera-se atingir o pássaro, aquela figura mágica que nos poemas de Prévert desinquietava as almas juvenis, esperançosas.
O homem sentado à mesa não está parado, caminha por dentro das memórias, das ideias, das palavras que tenta organizar, do vôo de alma que se ergue como um pássaro ao alto, na janela.
Last but not least, parabéns aos editores e ao tradutor.

Friday, January 12, 2007

INEZ WIJNHORST



Uma história bem contada, a propósito da arte de Inez no nosso País das Maravilhas, tem de começar pelo princípio.
Inez trocou a sua Holanda natal, de subtis cambiantes, pela luz mais crua e aparentemente mais pura de Lisboa.
Lisboa onde Fernando Pessoa viveu o seu exílio de alma, Lisboa que quase não é pátria de ninguém que ame verdadeiramente a arte: os que amaram tiveram de fugir. Amadeu foi um deles, Arpad e Vieira da Silva foram outros, a tão celebrada hoje Paula Rego foi crescer e amadurecer para Londres, enfim são muitos os exilados e poucos os escolhidos para a mesa faustosa da celebração.
Mas a aventura de Inez processa-se ao contrário. Ela escolheu, e segue o seu caminho.
Tal como Alice, Inez espreita o que se passa atrás do espelho: o seu olhar detém-se ora nos pormenores triviais da vida moderna, como é o caso em REAL ESTATE ROBBERY, que define como " pisar a fronteira entre privacidade e voyeurismo" ora mergulha na profundidade do inconsciente arquetípico dando-lhe expressão literária e imagética que surpreende pela originalidade da linguagem que propõe. Refiro-me à colecção dos desenhos de UMA HISTÓRIA MAL CONTADA.
Não podendo colocar no blog a série transcrevo a título de exemplo dois momentos, dois poemas, que funcionam em separado se assim quisermos, ou em conjunto se o nosso gosto e a nossa empatia nos levar a construir a nossa história íntima também a partir deles.

" no caminho de A para o B
naquela estrada longa
que une o inferno ao céu
a alegria e a perda, a inocência e a decadência
existem outras histórias
sem limites ".

Esta a escolha dos textos, esta a escolha do caminho, que simbolicamente levará a uma unidade dual e desejada.Porque o segredo e o fascínio da obra de Inez é precisamente que ela reúne opostos e contradições, não exclui, mas descobre e aponta, reinventa e recupera para de novo abrir caminho. A criação é um continuum, nada da sua herança cultural se perde ou se rejeita, os seus desígnios são firmes e são claros, o seu suporte é o dos valores da arte universal.
Também por aqui passa o nosso e dela desassossego : como é Pessoana a sua inspiração...

" quatro meses depois, com
saudades de dançar
procuram casa em Lisboa
e pensam duas vezes
na produtividade e nos mecanismos de flexibilidade
na contaminação genética e na co-incineração de lixos perigosos
no desassossego
e na imposição de horários
(quase ) tudo incerteza.
o futuro, a mediocridade".

Uma discreta ironia a protege, impedindo que se feche naquele autismo complacente de tantos criadores conhecidos, que já nada procuram e por isso já nada mais descobrem. Cadáveres adiados...diria o nosso poeta, o eterno insatisfeito eternamente votado às citações eruditas das efemérides.



Inez Wijnhorst traz um sopro de vida à melancolia dos tempos.
E uma chamada de atenção. JACOBS LADDERS, a série das Escadas de Jacob, de pedras , de cordas, de espinhos que deixarão marcas de sangue, é uma profunda chamada de atenção para os mistérios da vida e da morte: vive-se lutando com o Anjo, morre-se da sua ausencia se não tivermos a coragem de lutar. Este é um forte aviso, um forte apelo à interioridade mística. Ou melhor, mítica, universal, e mística, pessoal.
Assim vai Inez, no seu caminho de cordas e de estrelas.

Thursday, December 21, 2006

Gargantua


Mais histórias e mais imagens para recordar:
Les Albums de SAMIVEL, neste caso o GARGANTUA, segundo Rabelais, ed. Delagrave, Paris 1934.
Ou de como os excessos podem divertir e nós com eles aprender..No capítulo da disciplina de Ponocrates lemos como este estava decidido a mudar a vida de Gargantua mas sem fazer nenhuma revolução, " o que é um mau sistema".O método não era proibir, mas instruir.

Os da Resistencia




Outro livro da minha infância.
Conta as aventuras de dois diabinhos que, no inferno do Sr.Hitler, como é explicado pelos autores ( presos na altura, em 1944 ) pensam na melhor maneira de poderem fugir dali para fora.
"Eux aussi avaient leur Petite Braise - La Flamme de leur coeur- mais elle n'avait hélas ! aucun pouvoir magique, et ne pouvait pas fondre les barreaux de leur prison - de toutes les prisons - comme ils auraient voulu".
O livro foi dedicado , no Natal de 1944, deste modo:
Cet album, édité par C.D.L.R.
"Ceux de la Résistance"
est dédié aux enfants de France, en témoignage
d'une grande épopée.
Noel 1944

A memória de outros, transformada na nossa memória de sempre, não permite que se apague a chama do nosso coração.
Mas com ela precisamos de aquecer também o coração dos que agora nos rodeiam. Não se trata de um dever, mas de um verdadeiro acto de amor.

Contes des Mille et Une nuits



Este livro faz parte das minhas memórias mais antigas.
Enquanto o meu pai me lia a história eu contemplava deslumbrada as imagens.
As imagens ficaram na minha memória.
Naquele tempo um livro assim podia ser encontrado nas livrarias de Lisboa. Refiro-me a um tempo de há muito mais de meio-século.
A edição, de 1930, é da Librairie Delagrave. Mas o livro ainda conserva a vinheta da Livraria Portugalia, da Rua do Carmo.
Estas eram as prendas de Natal que me faziam sonhar e que agora mostro aos meus netos, esperando que os livros venham também a fazer parte das suas memórias felizes.