
Com organização de PAULO BORGES e DUARTE BRAGA publicou-se na Ésquilo editores um volume dedicado ao Budismo na cultura portuguesa.
Colaboraram vários especialistas de renome e entre eles alguns cuja escolha recaiu sobre a obra de Pessoa/Caeiro : é o caso de José Eduardo dos Reis, com o ensaio POR QUE VEIO O ALBERTO CAEIRO DO OCIDENTE? Igualmente interessante se revela Catarina Nunes de Almeida, com o estudo da obra de Casimiro de Brito, escritor de grande sensibilidade, cujo interesse pela contemplação de índole Zen é conhecida, revelando-se sobretudo na sua poesia.
Esteve recentemente entre nós o Dalai Lama, Nobel da Paz, figura insigne da luta pela liberdade e pelos direitos humanos,que incluem, naturalmente, o direito de expressão religiosa: e aqui cumpre felicitar as edições Ésquilo, que publicaram O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS com prefácio do Dalai Lama, e ainda SABEDORIA PARA VIVER, DALAI LAMA EM PORTUGAL (os textos da suas conferencias).
Embora julgue que todas as matérias, estas e outras que constam do catálogo, sejam trabalhadas a partir do inglês, é um sinal muito positivo que editores e estudiosos se empenhem em divulgar matérias relativas ao conhecimento e ampliação da nossa consciência espiritual, num momento em que, sobretudo na Europa, se volta a ser atacado pela doença do racionalismo positivista -sempre unificador e nunca inspirador (pois o interessante para o progresso maior é a diferença e não o culto doentio de uma "igualdade" que reduz, em vez de ajudar ao verdadeiro desenvolvimento, intelectual, artístico, religioso, e até social, económico, político; pois não se fala tanto e cada vez mais da necessidade de "oposições" bem preparadas?)
Os ensaios do volume trazem abundantes referências bibliográficas, o que é excelente para quem deseje aprofundar o estudo do Budismo em Portugal.
Uma observação ainda, a propósito do ensaio de Markus Gabriel : o conceito de UNGRUND não foi cunhado por Schelling mas por Jacob BOEHME, o grande teósofo alemão ( 1575-1624) inspirador de muitos autores subsequentes, como Goethe e Novalis, além do próprio Schelling. Sugiro como fonte, além do próprio BOEHME, as obras de Alexandre KOYRÉ, LA PHILOSOPHIE DE JACOB BOEHME, Vrin, Paris 1971, p.321; ou de mais fácil leitura, Jacob Boehme, Cahiers de l'Hermétisme, Albin Michel, Paris,1977, p.189 .
O Ungrund, (Sem-fundo) é um eterno Nada, como Boehme o define no Mysterium Pansophicum, um Vazio onde se gera a Palavra de onde surgirá a criação.Sem-fundo é o nome que poder ser dado a Deus: este é o " Nada eterno", o "Nada eterno que é o Uno eterno", "o Absoluto sem essência que em si mesmo é fundamento eterno", mas o nome que mais lhe convém, diz Boehme, é "Sem-fundo", abismo sem fundo e sem fundamento.E, como observa Koyré, o Ungrund não é a causa última nem primeira do mundo, e nem sequer a sua própria causa, é o Absoluto, sem mais : " É o fundo eternamente fecundo da vida e do Absoluto, o germe absoluto que, enquanto germe, não é ainda, e não é ainda nada, mas que contém dentro de si tudo o que irá ser".
Deixo uma sugestão: que se acrescente ao catálogo da Ésquilo uma tradução do I CHING, com os prefácios de Wilhelm, de Jung, e por que não, de novo o Dalai Lama.
Ou que se reimprima a obra notabilíssima do Padre Joaquim A. de Jesus Guerra : O LIVRO DAS MUTAÇÕES (publicado com o Prof. DR. Aidan Nai-kwong Poon).
















































