Wednesday, April 23, 2008

Henrique Chaudon


Há fantásticas coincidências: no dia em que vou ao Teatro São Luiz ouvir as Valsas Brasileiras de Francisco Mignone, recebo o livro de poemas de Henrique Chaudon, meu amigo transatlântico.
Nas valsas encontro o som dos chorinhos, atravessado por Chopin, entre outros mais modernos europeus. Mas o que fica na alma é essa mistura da tradição e do lamento brasileiro com o exercício ora romântico ora modernista das composições de Mignone.
Da pianista Alexandra Mascolo-David escreveu o crítico do Washington Post:
" a splendid pianist, refined, searching and expressive, and her playing is loaded with insight and interpretative detail".
Não poderei dizer melhor.
Quanto ao Henrique, seus poemas são para reler devagar, depois de os ter lido.Também nele encontro o fundo cruzar de linguagens: da paisagem e dos dias brasileiros de sua morada, suas pessoas, seus lugares preferidos, com o trabalho de sublimação que opera na palavra poética. Seu dizer é directo, despido, ainda que emocionado.

Poema do mais Profundo

" Meu coração é campo extenso
onde dormem flores, trigo, ervas.
Meu coração é lago tranquilo
onde passam nuvens, o sol, a lua.
Meu coração é fonte
regato
rio.

Meu coração é poço.

Lá 
do profundo silêncio
posso mirar as estrelas ".

A terra, a água, o ar (céu ) - os elementos da vida natural caminham para uma simbiose na meditação que propõe o último verso: o poço do profundo silêncio onde pode mirar as estrelas.
Walt Whitman está na epígrafe, apontando essa sensualidade terreal, mas os poetas são transformadores, alteram tudo o que tocam, e poderemos encontrar também aqui  a marca de uma  sabedoria oriental, que a imagem do poço condensa, como no Yi King:
n. 48 Tsing, o Poço:
O poço significa união.
O poço não aumenta nem diminui, pode mudar-se a cidade, mas não pode mudar-se o poço... a acção de beber a água fresca do poço repousa na sua posição central e correcta. 
Aqui a noção de centro imóvel é o mais importante, e é esse sentimento que os versos finais do poema de Henrique nos transmitem. 
Noutro poema escreve:
"...
É hora de ficar parado
sentado imovelmente na cadeira.
Vejo a noite em me redor:
desgasta a pedra, os campos,
meus cabelos, tudo quanto toco.
Não me esforçarei agora.
Sentado aqui nesta cadeira
ouvirei seu falar mudo e convincente:
ensina mais que os longes todos, mais que os alfarrábios.

Mais,
muito mais".

Do panteísmo latente à observação realista de um Erich Fried ou ainda, no fecho que é súmula, o mais e o menos de um Celan quando escreve :
"tudo é menos do que/ é/ tudo é mais" ( in Cello-Einsatz)
Celan do fundo da sua noite da alma, Chaudon do fundo da sua melancolia e abandono ao real ( o real é o destino). Um pouco como nas valsas brasileiras. 


 
 

Monday, April 21, 2008

Corpus Jan Fabre



Obra magnífica, sobre o percurso artístico de um grande artista, Jan Fabre.
Como nos diz  Luk van den Dries, no prefácio,a obra de Fabre incarna uma das formas exemplares do teatro do nosso tempo.
Teatro radical, implantado em profundidade: guarda o eco da grande tradição, os primeiros rituais, o teatro grego, os dramas da Idade-Média, Renascimento e Barroco.
Um teatro feito de memória, actualizada.
O livro é uma compilação de ideias, antes de mais. Mas ainda de palavras e imagens. Contempla os segredos do trabalho do palco, à medida que  vai sendo preenchido com os seus corpos próprios: dos actores, e do guia que é Fabre, mesmo no improviso, ou sobretudo no improviso. O melhor improviso é o que foi mais profundamente reflectido, preparado. Não há arbitrariedade na grande arte, quem não perceber esta lógica da criação original, está longe de poder vir a ser um criador. 
Diz Luk que o seu livro tenta penetrar " na alquimia da criação". Fabre é o grande alquimista, o grande transformador que sublima a imperfeição da existência no corpo. Mas esse é o desafio: a imperfeição do corpo, que o seu trabalho alquímico em todos os sentidos ajudará a ultrapassar. 
Ao abordar a imagem do corpo na obra de Fabre, Luk aborda de igual modo uma concepção moderna da estética do teatro.Passo a citar, lembrando que muito do que é dito se pode igualmente aplicar à dança, como arte suprema do corpo no espaço.
" O teatro é uma arte contaminada.Uma arte contaminada pela vida.E trazida por actores que não podem subtrair-se à sua forma humana, seu peso, a envergadura dos seus membros, seu sexo.Aparece um corpo, aparece   sempre um corpo, e nós olhamos para ele.Este corpo fala, sua, liberta uma aura, atrai ou repele. O teatro é um media carnívoro. Alimenta-se de corporalidade, de corpos que não se podem controlar, que são ignorantes das leis e excerbam ingenuamente as suas próprias paixões. Corpos que querem tudo e cada vez mais. Namorando perigosamente as fronteiras do impossível, desafiando as interdições da moral....O teatro é um cadafalso a partir do qual os corpos se lançam no abismo". 

Monday, April 14, 2008

Armando Silva Carvalho



O seu último livro O Amante Japonês, na editora Assírio e Alvim.
Lido o poeta, ler os livros que ele lê:
Camilo Pessanha
Pessoa-Campos (mas quem lê este, lê todos...)
Herberto Helder
Novalis
William Blake
Luiz Pacheco
Carlos de Oliveira (sim Finisterra, sempre...)
Manuel de Freitas
Sá de Miranda
...

De um roteiro mais íntimo e selvagem, a um roteiro não menos íntimo e selvagem (Wagner também lá está, com a sua vertigem musical, ambição desmedida que só em Veneza terá fim) Armando oferece neste seu livro os poemas que só ele sabe erguer, como

"Altos ciprestes, esses poemas
Que se perfilam ao longe na planície escrita dos meus dias.
Negras presenças do mundo, dos homens, da rosa
Incendiada nas palavras. 
...
Versos do começo e do fim
Fábulas de nervos ao redor do cérebro
Quem vos traz aqui ao sabor do vento imoderado
De encontro ao vidro sujo do meu rosto e do carro ?"

Viaja-se, neste livro.
Num carro que tem asas e que voa, por vezes desamparado, de lugar em lugar. Mas o poeta sabe qual é o seu ofício, qual é o seu lugar.
Uma palavra acesa na fímbria do tecido, na pétala da rosa ou na espuma do mar. Nem sempre se dirá a luz, mas sempre sempre esse bater convulso do sangue no coração do mundo.



Friday, April 04, 2008

Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo



Em edição cuidada, como todas aquelas de que Piedade Ferreira e Rogério Petinga se ocupam, saiu na colecção Oceanos mais um livro de Ana Marques Gastão, 
LÁPIS MÍNIMO.
Já a côr escolhida para a capa indica a suave melancolia que encontraremos nos seus versos, muito próximos de uma sensibilidade oriental, mística por vezes e igualmente  discreta, ainda que directa.
Há uma grande contenção e elegância de alma na escrita de Ana, que me faz lembrar a Princesa Shikishi , filha do Imperador Goshirakawa, que serviu como vestal do templo e deixou um legado de escritos melancólicos de grande luminosidade e beleza. Foi no seu tempo considerada  uma das glórias da criação poética, e ainda hoje quem a  lê não pode deixar de se encantar :é a alma que fala, na sua simplicidade e nudez. 
Deste século XII japonês passamos, com o mesmo encantamento fluido, para os aforismos de Ana Marques Gastão.
São feitos de prosa poética, e um Michaux, por exemplo, se fosse vivo nunca lhes negaria o título de poemas. 
Poemas escritos, como ela diz, com lápis mínimo: sentimentos-sugestões-imagens-reflexões em tom menor, usando agora uma linguagem musical.
Há música nos seus textos, no ritmo da sua escrita.
Não é formal, é balançada, mesmo quando alguma suspeição ou amargura a atravessa. 
O olhar sapiente (consciente) distancia-se, de si e dos outros, no acto de (se) escrever.Basta evocar Pessoa, Michaux, Celan (que muito admirava Michaux, considerava-se seu discípulo) para percebermos que não há ingenuidade no acto de criação, por muito que a busca da palavra no tempo nos absorva e não cesse. Os poetas perdem, muito cedo, o olhar da infância, a relação entregue e disponível com o mundo. E é no esforço da Ponte que vai surgindo a Obra. As palavras são o seu caminhar.
Quando Ana escreve:
"Roubo-te à linguagem, só assim serás real" (P.43) diz menos e diz mais (Celan) do que aquilo que diz e ficou dito. 
Nunca nada fica dito, as palavras levantam vôo, seguem o seu caminho oculto, irão perder-se ou encontrar-se mais longe, noutro espaço, do "Interior Longínquo" de que falava Michaux.
Com Lápis Mínimo desenha-se um espaço-tempo ideal, de apelo e rejeição, de meditação-aceitação do que em si mesmo, pela vida e pela Obra, o autor vai descobrindo: " Que na memória fiquem não só os lugares, mas também as horas"(p.42).
Escrever é descobrir, mais do que inventar: o segredo está lá, no interior dos mandalas. 
Ana pode dizer "Sou uma caçadora de emoções"(p.84). Mas sabe que é transformadora, é esse o seu segredo. Esse o fio que nos leva, de página em página, à procura de mais: sabemos  de onde partiu ? Pois queremos saber onde irá chegar: rasgada a pele, onde o Outono, o osso do Inverno, a Primavera do coração que bate.
Bem pode dizer, como nos diz no fim:
"A palavra é o meu nome. A palavra quer ser outra de mim, está além".

Tuesday, April 01, 2008

Henri Michaux


De 2005, mas que nunca perderá actualidade, o estudo de Robert Bréchon sobre Henri Michaux:
HENRI MICHAUX, La poésie comme destin, ed. aden.
Proposto como Biografia, é mais do que isso.
Bréchon, já no seu tratamento da obra de Fernando Pessoa nos habituara a uma linguagem erudita, de bom conhecedor (porque amando a obra daquele que nos apresentava) sem contudo perder a elegância, a fluidez do discurso.
O que fazia, no caso de Pessoa, como agora no caso de Michaux, o exercício do estudo e da leitura algo de muito sedutor. 
Os franceses são sedutores e Bréchon, neste seu livro, é sedutor em extremo. Abre-se, lê-se sem mais interrupções, capítulo a capítulo, até chegar ao fim.
Conta, como que em conversa de mesa de café, como descobriu Michaux, como o leu pela primeira vez, como veio depois a conhecê-lo pessoalmente, sem que por isso se tenham tornado de facto amigos íntimos.
Com que facilidade, morto Michaux, celebrado no mundo, editado, reeditado, traduzido, exposto em galerias e museus (era pintor e a sua obra neste campo não era de menor importância) poderia Bréchon fazer desses encontros algo de superiormente marcado e marcante, para ambos:
 Mas não; de honestidade intelectual exemplar, parte dessa elegância de ser de que falei, Bréchon diz simplesmente que Michaux a ele o impressionou e arrebatou pela obra, como pela personalidade, só aparentemente frágil (tinha um sopro cardíaco), mas que nunca chegaram a ser amigos íntimos, no pleno sentido da palavra. E conta o episódio dos convites para tomar chá, que aceitava, acompanhado às vezes pela sua mulher:
"Il la recevait avec une exquise courtoisie, devant une tasse de thé presque incolore.
Elle était fascinée par l'extrême distinction de cet homme, proche de la soixantaine...
d'une présence légère et diaphane, avec pourtant des éclats de voix, des chuchotements, des rires étouffés".
A alegria dos encontros perdia-se à medida que se aproximava a publicação da obra prevista de Michaux. Era, no relacionamento com os editores, um autor difícil:
 "J' étais pris entre les exigences de Mallet (o editor) qui avait conçu pour les volumes de la collection un plan type auquel chaque auteur devait se conformer, et celles de Michaux, dont le mot préféré était non".
E segue a saborosa narrativa, entremeada com referências à obra, marcando de forma sensível os grandes temas que seriam para sempre centrais e vitais no decurso da vida de um criador que, ao contrário do que sempre julgara, viveria até bastante tarde. 
Um dos poemas citados logo de início põe a nú essa preocupação, de hipocondríaco-poeta, com o corpo:

Je suis né troué

Il souffle un vent terrible.
Ce n'est qu'un petit trou dans ma poitrine
Mais il souffle un vent terrible.
(...)
Ah! Comme on est mal dans ma peau!
(...)
Et c'est ma vie, ma vie par le vide.
S'il disparaît, ce vide, je me cherche, je m'affole et c'est encore pis.
....
Nasci furado

Sopra um vento terrível.
É só um buraquinho no meu peito
mas sopra lá dentro um vento terrível.
(...)
Ah, como se está mal na minha pele!
(...)
E é a minha vida, a minha vida pelo vazio.
Se desaparece, este vazio, procuro-me, assusto-me e é ainda pior.

Bréchon refere-se a este poema e a um outro (Nausée, ou C'est la Mort qui Vient), como expressões do "sofrimento ontológico de Michaux", ao fim e ao cabo "o único tema da sua poesia"; e acrescenta: 
"il souffre du manque d'être, qui est l'envers d'un excès d'être" (ele  sofre da falta de ser, que é o reverso de um excesso de ser). 
E não dizia já Paul Celan, que "tudo é menos do que é/ tudo é mais " ?
Em Michaux tudo é mais.
E Bréchon, poeta, além de ensaísta notável, é o guia perfeito para esta leitura-aventura de alma.




Primavera no São Luiz

Monday, March 31, 2008

Ilustrações



Desenho de uma menina de 10 anos para um poema, O MONTE

Anoitecer suave
no topo das colinas

calam-se os pássaros,
as lebres e os coelhos
aninham-se nas tocas

sai um morcego
a debicar romãs

os gatos sorrateiros
saltam entre os telhados
em busca de algum ninho
ou de algum rato

luar de Agosto

lá em baixo
na estrada
conversam os namorados
...

( do livro a publicar, Outonais e outros poemas)

Wednesday, March 26, 2008

A Arte do Actor


Em regra são os encenadores, os dramaturgos, os críticos e teóricos que se dirigem aos actores.
Mas há outros que o fazem e cuja reflexão, neste caso poético-filosófica, não é menos interessante, antes pelo contrário. Refiro-me a HERBERTO HELDER, poeta de eleição, cujo poema merecia ser objecto de monólogo integrado nalgum espectáculo que o desse a conhecer.
O POEMACTO tem na parte III uma evocação do actor como alguém que "subtrai Deus de Deus", dizendo "uma palavra inaudível". Merecia ser lido na íntegra, eu deixo aqui  umas estrofes, celebrando assim o dia mundial do teatro.

III

O actor acende a boca. Depois, os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.


Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue
Assim o actor levanta o corpo, 
enche o corpo com melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
........
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a amanhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

(in Poemacto, 1961, dedicado a Luis Pacheco.) 


Monday, March 24, 2008

Poetas na Primavera


( ao Herberto Helder )

É Primavera
frase banal
bastava ter lido 
na agenda

os poetas acordam
nesse dia
são chamados a ler
os seus poemas

contentamento
vão...

melancolia
de quem não é
o que é
(a voz mais pura)
mas apenas  bandeira
propaganda
daquele único dia
em que se finge
que tudo é mais
quando é menos
(eu recordo Celan:
"tudo é menos do que
é,
tudo é mais")
mas de nada me serve 
recordar
ele também diz 
"vai nascendo a verdade"
e não a vejo nascer

os satisfeitos
a dedo
são perfeitos
(re)eleitos
não cantam as outras 
vozes
antes dizem e redizem
as suas palavras (re)ditas
ou benditas ou
malditas
que nada mais acrescentam
às suas vidas 
vividas
(di)vididas

eu busco
na minha estante
aquela voz
mais sumida
que sempre deu
poesia
poema servido em sangue
como o cordeiro
inocente

corro à janela e
grito
para quem possa
entender
aqui está o seu poema,
o poema
que ele escreveu e
já ninguém sabe ler

é o poema-gemido
poema-ofício-do tempo
não cabe nestas agendas
que não lembram o momento

as colunas do seu nome
o travessão
que as suporta

não obrigo ao re-Camões
que também já está
batido
embora ele nos inspire,
mas obrigo a quem o leu
e tudo com ele aprendeu
das duras lições da vida
que a vida deu
e não deu:

Apagaram-se as luzes. É a triste primavera cercada
pelo germe das guitarras.
E enquanto dorme o leite, minha casa
pousa no silêncio, e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes, cai a cabeça -
e as palavras nascem.
- Puras, desgraçadas.

Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures se aniquilam para um sublevado
campo de seivas.
Para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta, melancolia
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera, e nela um sexo
entre ávidos arbustos, luas excepcionais, pedras
atravessadas pela primeira música.
Contudo, apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Eis então o poeta
o seu Ofício Cantante

está deitado no chão
da casa mais antiga 
ao pé do mar
 na ilha
onde não há sereias
nem vozes
que decomponham
o som da sua voz
a música
da primeira 
e última 
Primavera

(ler Herberto Helder, Ofício Cantante )




Friday, March 21, 2008

Nos 60 anos do Hot Club de Portugal


Outras Vias, Outras Vidas


Na cave...

de olhos fechados
pisar
outros caminhos

florestas
lagos
planícies

desertos
precipícios

a música retém
o pensamento
dilata o coração

alarga
afunda
o peito

acelera
trava
suspende

a frágil
emoção

que não sabemos
quando
como
muito menos
ainda
de onde
vem

pairam no ar
nas espirais
do fumo
que não há
as vozes soltas
loucas
de
intensos
instrumentos

um sax branco
lidera
mas não por muito
tempo

o piano intervém
tem coisas a dizer
o baixo
a bateria
algo vão contrapôr
e a guitarra
lírica
também se faz ouvir

já ondulam os corpos
balouçam
as cabeças

alguém pede cerveja
para que não se veja
a lágrima que espreita
o choro
que se contém

o silêncio
é total

uma criança aguarda
no alto
das escadas

sonha
viaja
flutua
naquela bolha
de sons

fez-se a iniciação

mais uma noite longa
outras mais hão-de vir

alguém disse
olhe que não
o blues não é azul
e não tem de ser
melancolia

é saudade perdida
lembrada

de outras vidas

....

Tuesday, March 11, 2008

Erata

O Príncipe no Reino dos Lagartos



Às meninas e meninos de todas as idades...
ler com prazer também é aprender.

Ou, como no lema que as Edições Erata escolheram para a Feira do Livro de Leipzig, neste Março :
besser lesen, besser lieben
Por outras palavras:
quem melhor lê, melhor ama

Friday, March 07, 2008

Teatro Praga


Turbo-Folk, pelo Teatro Praga no São Luiz:
O São Luiz dando sempre o exemplo ( a que já nos habituou ) de generosamente abrir as portas a tudo o que inova e renova, mexe e remexe, com uma alegria e um humor que ultrapassa os limites da cena e atinge, como a seta incerta mas certeira dos jovens turbo-lentos lá de cima, nós todos, os de cá de baixo.
Eu gosto de palcos assim, onde tudo acontece ao mesmo tempo, paciência para quem se distrai e perde um ou outro detalhe. A solução é voltar e voltar a ver...algo que neste caso se fará com gosto.
Num palco onde tudo acontece, tudo pode acontecer: canto, surpreendente, na bela voz de Larissa, intervenções de stand-up (um pouco longas na segunda parte do espectáculo) e cartazes (piadinha brechtiana de distanciamento) e diálogos de delicioso delírio por onde passa tudo o que pode passar:conversa de café, filosofia, metafísica, teologia, psicanálise, numa onda "pseudo"- que desmistifica o intelectualismo que felizmente para nós já foi pior do que é, embora ainda subsista.
A proposta é de diversão em versão colectiva que podemos e devemos aplaudir, não tanto pela coragem, como era costume alguns dizerem (era tão in ser corajoso, quando já não havia perigo nenhum) mas pela inventiva, post-post (outro cliché, mas o que se há de fazer...) pela fluência do ritmo, sem nunca chegar a ser alucinante. Poderia ter sido, o aquecimento fora excelente, estávamos bem preparados !
Sem esquecer que no actual ciclo se inclui o que neste momento há de melhor em Portugal: a presença de emigrantes, de África, Brasil ou como, neste caso, do Leste, trazendo experiências e imaginários que nos abrem espaços de criação a que não estávamos habituados.
Não sabíamos rir ( e será que já sabemos? )
Mas é assim que se começa: infiltrando a melancolia atlântica até que essa espessa substância da alma se transmute em pedras de alegria.
A minha geração cresceu com o Prazer do Texto (Barthes, sim, também sou culta..) as novas gerações podem crescer com O PRAZER DO PALCO.

Monday, January 28, 2008

O Conto de Goethe/ E.Nunes: produção e post-produção



Quem conta um conto...acrescenta-lhe um ponto.
Emmanuel Nunes quis ser fidelíssimo ao espírito e à letra do Conto de Goethe, mas essa fidelidade prejudicou a ópera como espectáculo "total" que deve ser.
Uma ópera é um todo que inclui o libreto e a música, o canto, a encenação, figurinos e acima de tudo um fio dramatúrgico que estruture e sustente a acção, por muito subtil que a desejemos.
Vários destes elementos não estiveram presentes, por excessiva preocupação de ter tudo todo o tempo e em simultâneo, num palco que se tornou confuso e, para a leitura ( entendimento ) do espectador, inoperante. A dada altura esse excesso tornou-se mesmo insuportável, com os actores/cantores e sobretudo com os bailarinos (absolutamente dispensáveis) abandonados no palco, esbracejando (não, não é assim que se improvisa) em vez de obedecer a alguma coreografia que acrescentasse algo mais ao rigor da composição que nos era oferecida. Não sendo possível, ou desejável, acrescentar algo mais o melhor teria sido eliminar os bailados. Ganhava-se em coerencia.
Emmanuel Nunes "leu" o Conto com fidelidade, mas sem prescindir em nada do que entendeu ser a sua liberdade de criador-compositor.Assim, ampliou de tal modo a composição para lá dos sentidos do Conto que estes, sendo vários, se perderam por completo no tal excesso que acima referi.
Emmanuel não se cingiu a uma das linhas centrais dessa obra esotérica quanto baste. Optou por "apresentar" em vez de escolher, mas escolher faz parte do acto de criação, tanto quanto a liberdade de criar.
Na escolha reside a ordenação, sem escolha o que fica é uma soma e nem tudo o que se soma num palco resulta a bem do espectáculo.
O grande defeito de E. Nunes foi não ter ficado apenas com um dos temas mais caros a Goethe (imaginário alquímico, iniciação maçónica, ideal de serviço a uma utopia social transformadora) mas uma tentativa de livremente (arbitrariamente? ) ir compondo o que as imagens literárias lhe sugerissem, deixando aos outros colaboradores a dificuldade de lidar com um palco que poderia ser muito post-moderno mas se tornou de uma monotonia que prejudicou O Conto, Goethe e o desejo de conhecer melhor a obra deste gigante da cultura universal. Faltou aqui um dramaturgista que ajudasse o compositor nesta sua primeira ópera.
A ópera, como teatro que é, não pode viver só de imagens, precisa de uma dinâmica própria que as articule.

O Conto da Serpente Verde desdobra em duas figuras condutoras - o Barqueiro, que virá a ser o sacerdote do templo que surge das águas do rio, e o Velho da lanterna, que será o guia, conduzido pela luz da razão - a verdadeira natureza de Goethe, que em si reúne duas tendencias aparentemente contraditórias:
Sentimento, ou sensibilidade (Empfindsamkeit) e razão iluminista ( Aufklaerung ). A primeira vinha de longe, das correntes místicas e pietistas e, a dado momento da vida de Goethe, revela-se importante, na amizade de Suzanne von Klettenberg e através dela pelo conhecimento de uma série de doutrinas de carácter alquímico e hermético. A segunda é oriunda de França, com o cartesianismo florescente, a corrente dos Enciclopedistas, a doutrina da liberdade, igualdade e freternidade, marcas de uma Revolução que se desejou, a dado momento, importar para a Alemanha. Mas foi em Kant que melhor se definiu o Iluminismo, com o tratado da Razão Pura. E contudo, mesmo ele impôs limites à Razão, fechando o acesso possível ao conhecimento em "categorias", para além das quais nada se poderia conhecer. Entrava-se então noutro domínio, o da "Razão Prática", cuja entendimento recuperava a intuição, a transcendencia, a Moral, outras esferas, outros valores e experiências, para os quais a Razão só por si não podia contribuir.
Voltando ao Conto:
Entre as múltiplas personagens e as múltiplas escolhas de linhas de evolução o compositor podia ter preferido uma ou outra, mais profunda ou menos substancial, mas impunha-se, a meu ver, uma escolha.
Goethe é um gigante do pensamento universal, lança uma grande sombra à qual nos podemos acolher. Mas se assim é, tem de haver respeito por quem lança a sombra e a sua protecção intemporal. Podemos ironizar com os comportamentos, não o devemos fazer com o sentido profundo das suas obras e do seu pensamento, neste caso simbólico e mítico, como se sabe.
Emmanuel Nunes talvez devesse ter ouvido a exclamação do barqueiro aos fogos-fátuos: ouro não, não posso aceitar moedas de ouro como pagamento, só frutos da terra. Leia-se a piadinha alquímica: há os verdadeiros filósofos e os falsários, os "falsos" alquimistas, como se diz nos antigos tratados; só quem reconhece o ouro espiritual, a estrela no homem (segundo Paracelso ) pode seguir bom caminho; e esse caminho é o dos valores mais antigos, primordiais, da Sabedoria Perene. Só ela encontra e distribui os verdadeiros frutos da terra.
Ah! Mas podemos querer ser artistas sem necessariamente querer ser sábios.O exercício post-modernista passa, muitas vezes, precisamente pela negação do estudo mais aprofundado...
Então foi má ideia ter escolhido um Goethe como rampa de lançamento.Esta questão leva-nos, naturalmente, à encenação e sua problemática, dado que não houve uma prévia dramaturgia que desse movimento a um texto todo ele feito de movimentos e transformações condutoras.
O encenador é o segundo autor da obra que encena. Também aqui a questão se coloca: faz o que quer do libreto de Emmanuel Nunes, do Conto de Goethe, de nenhum, de ambos ? O que escolhe fazer como obra própria ( a grelha ) que o público colocará sobre as outras que serviram de base ? Ou faz indistintamente o que lhe apetecer, considerando o palco o seu espaço próprio, ainda que neste caso da ópera sujeito ao rigor de uma partitura, uma prosódia, ou uma simples dicção?
Os encenadores post-modernos terão uma resposta - parecida com a ideia radical da arte pela arte que, desde a década de 50-60, entretanto evoluiu no sentido do "mais" ser melhor do que o "menos". E do muito mais ainda muito melhor: como se o público só entendesse o que lhe fosse repetida e exuberantemente mostrado : amontoa-se, não se ordena, deixando que seja o espectador, também ele livremente, a fazer a sua ordenação.
Há um exibicionismo nas leituras modernas dos textos que em nada contribui para que se ame esses textos. O excesso mata, tanto quanto a penúria. Mas a fome deixa espaço para mais, e a indigestão não deixa espaço para nada.
Há modelos exemplares de tratamento moderno de grandes autores: Boulez/Chéreau para a Tetralogia de Wagner; Peter Stein (encenação) para o Fausto I-II de Goethe; ou, se quisermos, a plena post-modernidade de um Bob Wilson.
Bob Wilson é o melhor exemplo do que se pode fazer numa leitura (interpretação) de grandes clássicos: as óperas de Gluck que já podem ser apreciadas em DVD, ou ainda o emocionante e deslumbrante Black Rider (adaptação do Freischutz de Weber) apresentado em Paris, com uma aplauso de pé que durou mais de meia-hora.
Mas em todas estas produções se poderá encontrar o sentido profundo da obra que esteve na base da sua criação, ainda que "relida" a seu modo, através de um olhar que dá mais substância ao espaço num rigoroso, geométrico, puríssimo desenho de luz.
Enquanto no caso do criador-compositor podemos hesitar entre dois modelos: o de Wittgenstein "Wovon man nicht sprechen kann darueber muss man schweigen" ou o de Valere Novarina " ce dont on ne peut parler c'est cela même qu'il faut dire ", no caso do encenador talvez a questão se ponha de modo diferente e se possa então discutir, com Nicolas BOURRIAUD em Esthétique relationelle ( 1992 )a questão que ele levanta:
"Pourrais-je exister dans l'espace défini par une oeuvre et comment ? ".
Como historiador e crítico de arte a discussão poderia cingir-se apenas à criação actual de pintura, instalação, outra; mas julgo que a sua proposta vai mais longe e se aplica, na dúvida ou na certeza eventual, a todas as formas de criação em geral, na época da velocidade, da simultaneidade que faz do artista um coleccionador "de dados a manipular, reutilizar, reencenar" (Postproduction, 2001).
O encenador deste Conto ofereceu citações retiradas de uma cultura cinematográfica e não só: por exemplo, a Princesa tem as mãos de Eduardo mãos-de tesoura, filme em que Johny Depp brilhou há alguns anos.Mas chegará para salvar uma peça?
Oferecer tudo, todo o tempo, a todos, é uma proposta que se esgota a si mesma, pela usura que daí advém, para o criador e talvez mais ainda para o espectador. E à la longue é o espectador, sempre renovado com o passar do tempo, que mantém viva a obra de arte.
Chegámos onde chegámos - como espécie inteligente- pela selecção.
O criador que não seleccione, na "post-produção" do seu processo criador, ficará talvez visível por um tempo, mas só por um tempo, e quando se afundar tudo se afundará também com ele. Não digo que tenhamos de nos prosternar diante do passado das obras e seus autores.Devemos servir-nos delas e deles, mas com inteligência e sensibilidade.
Concluindo com Bourriaud:
" Cabe-nos a nós, espectadores, julgar as obras de arte em função das relações que produzem dentro do contexto específico em que se movem.Pois a arte, e não vejo outra definição que a todas englobe, é uma actividade que consiste em estabelecer laços com o mundo, materializando de uma forma ou de outra as suas relações com o espaço e o tempo".
Não por acaso Bourriaud anuncia que no seu próximo livro falará do fim do pensamento post-moderno.

Monday, January 14, 2008

PESSOA, PAIS E OUTROS MAIS


Ricardo Pais trouxe a Lisboa a sua nova encenação de Fernando Pessoa, em "Turismo Infinito", não apenas o do poeta, mas igualmente o seu, com a capacidade notável que tem de viajar por inúmeros autores, obras, sensibilidades: de um primeiro, fortemente irónico, expressionista como Sternheim, até à composição de um FAUSTO fragmentado como o próprio Pessoa era e nunca deixou de ser. Nesta sua abordagem de outrora (um clássico que devia ser estudado, dele fazendo-se um dvd, como se fez do Fausto goetheano de Peter Stein ) a fragmentação era acentuada pelo modular do espaço cénico em caixas e recortes que permitiam sentir a tensão dramática sem que, no seu impulso (pois no Fausto de Pessoa não há decurso, ao modo tradicional, há impulso, repetição obssessiva) ela se perdesse, desviando o espectador  da verdadeira linguagem, altamente elaborada, de Pessoa.
É raro, e só um encenador de grande brilho saberia como respeitar, em perfeito enquadramento e sintonia, uma obra literária tão complexa como a do nosso poeta : aconteceu outrora em FAUSTO,FRAGMENTOS, com a colaboração de António Lagarto para a cenografia.

O TURISMO INFINITO agora apresentado torna-se extremamente interessante, por vários motivos, mas destacarei este: Ricardo Pais percorreu um caminho que vai da FRAGMENTAÇÃO À TOTALIDADE, como acontece num dos poemas escolhidos para o espectáculo: CHUVA OBLÍQUA (pertencendo ao exercício interseccionista, mas a meu ver imbuído de alquimia pelo modo como as imagens e os símbolos aí se manifestam ).
Perante a escolha de poemas e a articulação dramatúrgica de António Feijó, Ricardo Pais sentiu a necessidade de ultrapassar a fragmentação de personalidades de um outro infinito turismo, o do fingimento das vozes poéticas em infinito contraponto, e alcançar a esfera mais profunda e mais obscura de um Eu em permanente fuga e dissolução.
Entra aqui a colaboração de Manuel Aires Mateus que trouxe, com a sua concepção de um espaço cénico negro e aberto, a possibilidade de cada texto adquirir, com a sua linguagem-luz própria, o seu mais incantatório e mágico significado.
O palco é um lugar de magia: ali se transmutam emoções, ali o mundo se abre ao espectador que pode, mais consciente ou inconscientemente, ampliar, também ele, o seu espaço de reflexão, a sua visão da Obra como todo.
A escolha de Manuel Mateus tem ampla influência no efeito que os textos escolhidos adquirem no âmbito da encenação, contida, sóbria e por vezes sombria quanto baste, de Ricardo Pais. Houve entre ambos uma sintonia perfeita e é desse modo que podemos dizer que nesta viagem pessoana, empreendida há anos por Ricardo, este chegou à totalidade que uma primeira fragmentação permitiu e aqui e agora se conclui.
A geometrização do universo pessoano é integrada na geometria com que Manuel Mateus redesenhou o palco, na sua escura pureza: o eu estilhaçado do poeta é recolhido, nos seus pedaços, até à visão do círculo, a bola de brincar que pertence a todas as infâncias:


"Todo o teatro é o meu quintal, a minha infancia
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal"


A batuta do maestro ( a música, linguagem do inconsciente por excelência, prescinde da palavra, é anterior a ela ) e a bola desencadeiam a chuva de imagens da infância que fundindo-se e confundindo-se na alma do poeta o fazem regressar à esfera do "indiferenciamento" do inconsciente, onde todo o processo criador se origina, tomando forma depois, quando a confusão cessa "como um muro que desaba".
No poema, aquilo a que Jung chamaria a Conjunção das imagens fundadoras não chega a levar o poeta  a uma consciência que ultrapassasse a dôr da fragmentação e da perda.
Mas no espectáculo concebido por Ricardo Pais, naquele espaço de sombra de onde as vozes se erguem, ora uma, ora outra, consegue-se a Totalidade ambicionada: o teatro também é isso, um espaço onde a sombra, nossa e dos outros,se ilumina.
Sem entrar em considerações mais vastas, de que me ocupei, faz anos, num artigo intitulado FRAGMENTAÇÃO E TOTALIDADE EM "CHUVA OBLÍQUA", termino, prestando a minha homenagem a Ricardo Pais, Manuel Mateus e todos os da equipa, participantes nesta verdadeira obra-prima de entendimento de um grande autor.
Não esqueço os actores, por vezes tão mal amados no nosso meio artístico, fazendo com que a muitos só ocorra fugir do país ingrato.
Mas eu tenho visto "crescer" as gerações: 
Assim, desde  os Monólogos de Graça Lobo, nas Cartas da Freira Portuguesa, culminando no inesquecível Monólogo de Molly Bloom ( de um Joyce que Pessoa foi dos primeiros a ler ) passando, na última Saison, pelo Monólogo de Beatriz Batarda em Quando o Inverno Chegar, sublinho o Monólogo da Corcundinha nesta peça de Ricardo, entregue ao virtuosismo de Emília Sylvestre.
Tanto no caso de Beatriz como no de Emília detectamos uma genial capacidade de alterar o jogo a que se assistia, dando elas voz a um torvelinho de emoções que desarticulam o excesso de racionalidade que podia estar em causa; o peito rasga-se, a voz sobe e a respiração fica em suspenso até ao limite do possível - tudo prova de soberbo domínio e subtil mas marcado profissionalismo. 
Last but not least, "Eles" : compõem a música do mito pessoano, sendo o mito a constelação das vozes que tentam responder, de forma estruturada, à interrogação do poeta sobre si mesmo, o seu lugar no mundo,  no universo inteiro. 
Não há resposta: e os actores, numa articulação medida e quase neutra ( que muito teria agradado a Sophia de Mello Breyner ) é isso mesmo que nos deixam perceber.
Pode haver diferente, mas  melhor é impossível .

Permito-me, como velha pessoana, sugerir um elemento bibliográfico: 
Ettore Finazzi-Agrò, O Alibi Infinito, o projecto e a prática na poesia de Fernando Pessoa, ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987

 
 
    


Wednesday, January 09, 2008

Thursday, January 03, 2008

Luis tinoco


Ei-lo que volta a atacar, com Terry Jones...
Não haverá melhor maneira de viver o Novo Ano.
Parabéns Luís!

Wednesday, January 02, 2008



Sombras


É a Sombra
das sombras

vagueia
pelos jardins

perde-se
nos labirintos

afoga-se
nos lagos

esconde-se
nos corredores
de bambú

escapa-se
pela ponte
que não une

antes separa

as pedras
do templo
e do palácio


2 de Janeiro de 2008
(agradeço a Gawain a lindíssima fotografia)

Saturday, December 15, 2007

Natal 2007

Natal
Ao sol
de olhos fechados

oriento-me
como as plantas

um canário invisível
gorgeia
a despedir-se,
não tarda a noite
vem aí

fecho as janelas
mas não corro as cortinas
que não tenho

a lua vem a seguir
com o seu brilho