Saturday, December 15, 2007

Natal 2007

Natal
Ao sol
de olhos fechados

oriento-me
como as plantas

um canário invisível
gorgeia
a despedir-se,
não tarda a noite
vem aí

fecho as janelas
mas não corro as cortinas
que não tenho

a lua vem a seguir
com o seu brilho

Wednesday, December 12, 2007

Andre Letria


A Ilustração como arte do simples e do belo merece aqui um destaque.
André Letria "abre" OS LUSÍADAS, faz do livro a sua aventura, de memória e de mar, ao sabor das escolhas de Manuel.
Navegamos com ele nessas ondas.

Manuel Alegre


De Manuel Alegre, com ilustrações de André Letria, um primeiro CAMÕES dedicado aos netos, mas que será um prazer para todos.
"Quando eu era criança, lembro-me de ver na minha casa e nas casas de pessoas de família ou amigas, normalmente na sala de visitas, um livro grande, encadernado, que se destacava de todos os outros."

Também eu tive na casa dos meus pais, sempre à mão, um livro que era OS LUSÍADAS : um minilivro, em papel bíblia, editado em Leipzig, e que andava comnosco de bolso em bolso, de casa para casa. Tinha pertencido ao meu avô.
Hoje a primeira página tem uns risquinhos dos meus netos, e já tirei o livrinho da vista de todos. Escondo-o no meu escritório, onde as mãozinhas não se atrevem tanto.
Mas abundam nas estantes muitas outras edições da Obra de Camões, para quando chegar o momento de a estudarem. Essa é a maneira de despertar o gosto e a curiosidade de ler: ter os livros à mão, deixar inclusivé um ou outro risquinho...Pegou-se no livro, perguntou-se o que é ou de quem é, falou-se do que lá vem, do que fez quem escreveu, quando foi, em que tempos.

Ler é sempre uma aventura maravilhosa, e com este primeiro Camões que Manuel Alegre nos oferece o país natalício alarga o seu sentido: que haja mais memória, que haja mais leitura e literatura nas prendas que se dão.

Monday, December 10, 2007

Jorge de Sena



As edições ERATA de Leipzig continuam com a sua linha de literatura portuguesa contemporânea, entregue aos cuidados do tradutor MARKUS SAHR, a quem os desafios difíceis, como este de traduzir Jorge de Sena, não atemorizam, antes pelo contrário.
Depois de Herberto Helder, Manuel Alegre, Jorge de Sena, outros se seguirão...
Bons Votos para 2008 !

Luis Tinoco




A não perder:
a últimas apresentações dos CONTOS FANTÁSTICOS de TERRY JONES, musicados por LUÍS TINOCO, com a ORQUESTRA METROPOLITANA de Lisboa.
Serão ditos por JOÃO REIS, sexta, sábado e domingo.
O mundo poético e humorístico de Jones encontra em Luís Tinoco uma inspiração feita de empatia e alegria: les beaux esprits se rencontrent!
Quem gosta de boa música, de ler e ouvir dizer, aproveite esta ocasião.

Tuesday, December 04, 2007

Tavira Forever

Ah, amigo,
naquele tempo era o mar
com as praias douradas
e mais acima o campo
de árvores debruçadas
sobre as pedras do rio
( amendoeiras rosa,
alfarrobeiras velhas )

naquele tempo o jardim
tinha um lago de peixes
e no coreto a banda
ainda tocava

havia o miradouro
com a serpente enrolada
na branca escadaria

para lá se fugia

ninguém nos descobria
ninguém nos castigava

Wednesday, November 28, 2007

Ilustrarte 2007




Belíssimo catálogo de uma iniciativa que já atingiu dimensão internacional.
Decorreu no Barreiro (afinal não é só em Lisboa que as actividades culturais e artísticas acontecem, e ainda bem) esta bienal internacional dedicada à ilustração para a infância.
O catálogo contém uma mostra muito completa e variada de autores e estilos e é antecedido por uma observação de Paula Rego, pertinente, como tudo o que ela diz:
" Nunca percebi por que é que o termo ilustração é usado depreciativamente no mundo da arte....É uma vez mais o velho e estúpido snobismo das Belas Artes".
Felizmente tudo muda, embora às vezes demore muito tempo, e o esforço confiante dos comissários Ju Godinho e Eduardo Filipe ganhou esta batalha contra o preconceito.
De 1360 concorrentes escolheram-se 50.
E foi uma aposta ganha.
A Ilustração é Arte, como conclui Anthony Browne, um dos membros do júri. E diz mais:
que prevalece a originalidade sobre a técnica, embora saber desenhar seja um pressuposto
que as ilustrações não são descrições do texto mas criações a partir do texto
que são para todos e não só para crianças as ilustrações dos criadores

O Prémio desta edição foi ganho po Susanne Jansen, com Hansel e Gretel, (ténica mixta). Fez a capa do catálogo.
Mas há interessantes Menções honrosas, como a do francês Martin Jarrie, Drôles d'Oiseaux (acrílico) que deixo também no post. É de um lirismo que contrasta com o realismo de traço forte da ganhadora e demonstra como foi variada a mostra dos artistas.

A dimensão da arte- do texto ou da ilustração- é universal, ou não é arte.
Aqui fica esta ideia, para bonita prenda natalícia...

Friday, November 23, 2007

Melancolia de Durer



Para H.C.
A Melancolia de Durer


A minha primeira sugestão, para o entendimento desta obra, seria ler SATURNO E A MELANCOLIA, de Klibansky,Panofsky e Saxl.
Em seguida, não menos importante, de Edgar Wind, MYSTÈRES PAIENS DE LA RENAISSANCE (trad.franc. Gallimard); e ainda, de Edwin Panofsky, STUDIES IN ICONOLOGY, Humanistic Themes in the Art of the Renaissance.
Nestes autores se encontra abundante e rigorosa informação sobre a época, a divulgação de um novo pensamento, neo-platónico, cabalístico, alquímico, através das traduções devidas a Marsilio Ficino, Reuchlin, Pico della Mirandula, os grandes expoentes do Humanismo e Renascimento.
O Anjo de Durer tem a marca da Melancolia, estado de alma atribuído a Saturno, e marca, nos alquimistas, da NIGREDO, anunciadora de uma transformação espiritual (que pode ou não vir a concretizar-se).
Na criação artística essa melancolia tanto pode representar a pausa depressiva, depois de completada uma Obra, como um compasso de espera em que alguma coisa se aguarda, seja a revelação, seja a mudança.
No exercício artístico a espera pela inspiração pode traduzir-se num tédio melancólico, que só um novo impulso virá modificar.
No dicionário Mito-Hermético de Dom Pernety, lemos que a Melancolia significa a putrefacção da matéria. Os adeptos também a designam por calcinação, incineração, matéria "ao negro" (nigredo) por haver algo de triste na côr negra. Mas na Obra alquímica a nigredo anuncia as novas fases: albedo e rubedo, a da perfeição maior.
O Anjo de Durer aguarda, de asas caídas, que a transformação se verifique.
A Melancolia I, de 1514, é geralmente vista pelos historiadores de arte como uma figura de mulher representando a condição humana na sua impossibilidade de atingir a perfeição do conhecimento e da vida, da sabedoria divina e dos segredos da natureza ( depois da expulsão do Paraíso).
Mas há mais a dizer, e o que é de salientar é a influencia dos escritos de Marsilio Ficino, conhecido do pai de Durer que o mantinha informado das recentes obras desse autor.
Willibald Pirckheimer, amigo chegado, levara precisamente o LIBRI DE VITA TRIPLICI de Ficino (Florença,1489 ) e o padrinho de Durer, Anton Koberger publicara em 1497 as cartas de Ficino, onde muita matéria hermética era discutida. A sua visão do "carácter saturnino" é a própria da melancolia do homem de génio, enquadrando-se ainda na definição do místico neo-platónico cristão.
Ficino distingue dosi tipos de melancolia, uma própria do brilhantismo da mente, outra da doença maníaco-depressiva.
Mas mais interesssante, na minha opinião, é a afirmação feita por outros estudiosos, para quem a iconografia da Melancolia I coincide com a definição de Agrippa von Nettersheim em DE OCCULTA PHILOSOPHIA, que circulava em manuscrito já desde 1510. Ainda que influenciado por Ficino, vai mais longe na clarificação dos tipos de melancolia, referindo a "Melancholia Imaginativa", uma condição própria dos artistas, arquitectos e artesãos...Não há dúvida que é nesta categoria que se inclui a obra de Durer e o seu significado. Assim, para lá do Anjo, que não é mulher, é figuração da Anima alada, ainda que de rosto escurecido ( melancolia em grego é bílis negra), a caminho da espiritualização, há elementos simbólicos à sua volta que são importantes para decifrar o negro momento da espera:
O compasso na mão, símbolo da ordem que a medição impõe.
A ampulheta, que mede o tempo, limite último da nossa condição.
A esfera, representação máxima da completude, da perfeição.
A Pedra cúbica, símbolo da Pedra alquímica, aos pés da escada onde parece dormir um "putto"( o puer eternus, mediador da transformação).
A escada, que podemos encontrar em muitas gravuras alquímicas, símbolo do caminho e da ascenção a que conduz (recorde-se o fim do Mutus Liber).
A balança, símbolo do equilíbrio, da harmonia que é preciso cultivar.
O cão enrolado aos pés, animal que é companheiro da obra e do adepto em muitos tratados, como se vê em Mchael Maier, ou até no Fausto de Goethe, quando Mefisto escolha a forma de cão para seguir Fausto até casa (figura a natureza animal a ser purificada).
Last, but not least, O Arco-Íris e o sol no horizonte, símbolos da AURORA CONSURGENS, tratado de enorme influencia (estudado por Marie-Louise von Franz). A luz dissipará o dragão, variante da Besta do Apocalipse que define a melancolia.
Mas, para além de todas as explicações, bom mesmo é contemplar a gravura e deixar que as suas imagens, como ideias-força, tomem conta de nós.

No meu outro blog, de simbologia e alquimia, pode encontrar a indicação de uma obra de M.L.von Franz, Alchimie et Imagination Active onde, a partir de um tratado de Gerhard Dorn, seguidor de Paracelso, se definem as formas de meditação como imagens do Eu profundo a ser assimilado pelo processo da "imaginação activa".

Desenhos de Durer




Caro Henrique,
Veja como no auto-retrato do jovem Durer ( desenho, c.1491 ) já se exprime a preocupação e a concentração de espírito que veremos na Melancolia e noutras gravuras e pinturas posteriores.
Há uma sombra passando neste rosto, bem semelhante ao do Anjo, e o apoio da mão é muito característico.
Acima ficou outro desenho, o de um velho de 93 anos, como ele descreve, "ainda saudável e levando uma boa vida" em Antuérpia.
Supõe-se que serviu de inspiração à pintura de S. Jerónimo que se encontra no Museu de Arte Antiga em Lisboa.

Saturday, November 10, 2007

Mealibra



Mealibra, revista de literatura e arte, celebra Agustina Bessa-Luís e David Mourão-Ferreira, nesta edição de Outono.
De Agustina celebram-se os 85 anos.
De David a memória.
Li Agustina pela primeira vez por sugestão de um amigo: lê OS INCURÁVEIS, lê os TERNOS GUERREIROS (eram os anos 60, eu tinha vinte anos). Na sua prosa excessiva, torrencial, podia-se mergulhar como num mar profundo. A sua obra tinha a marca do génio, a marca da diferença, quase uma maldição (por ser mulher). Atrevia-se, na cidade dos homens, a desarticular sentidos, paixões, percursos e cruzamentos sociais, numa escrita forte, determinada, em que imperava o universo feminino, com as suas sombras, os seus medos, as suas traições.
O mundo de Agustina é um mundo ao mesmo tempo mágico e cruel de tão real. O seu olhar não perdoa, a sua mão é fiel ao seu olhar.

Mais Luis Miguel



Para saber mais sobre Luís Miguel Cintra e a aventura do Teatro da Cornucópia, o livro de Maria Helena Serôdio, editado pela Cotovia.
Através dele acompanharemos a aventura de uma vida inteiramente dedicada ao teatro e ao serviço de uma verdadeira educação pela arte, na mais nobre dimensão ética e estética que a possa definir.

Saturday, November 03, 2007

Sonata de Outono



Mais uma vez o Teatro São Luiz faz brilhar a rentrée.
Com a Sonata de Outono de Ingmar Bergman, que muitos de nós viram a seu tempo no cinema, construiu-se um espectáculo intenso, enquadrado num palco que lhe confere uma dimensão lunar superior.
No limiar da consciência assiste-se ao dizer tumultuoso e cruel de um inconsciente longamente recalcado.
Afrontam-se mãe e filha (s), com as suas memórias, as suas acusações, sofrimentos e remorsos.
A ferida incurável e a degradação dos sentimentos estão claramente simbolizados na filha doente, com uma doença degenerativa que a mantém presa à cama e já incapaz de se exprimir a não ser por sons quase incompreensíveis.
O tema subjacente é o da impossibilidade de dizer, de comunicar, de estabelecer um elo mais verdadeiro entre o sentido, o pensado, o dito. O sucesso da mãe, por excessivo, apaga a tímida luz da filha que finalmente confessa o sofrimento por que passou. Mas como ela própria diz, o sacrifício da mãe ficando em casa por amor em nada melhorou a relação, que continuou difícil.
A dôr de uma será às vezes o remorso de outra, não há mãe que não tenha vivido com o remorso: de ter dito, ou de não ter dito; de ter feito ou de não ter feito, sabendo-se à partida que o dizer e o fazer são quase sempre impossíveis.
O círculo de luz azul que ilumina a esquerda da cena figura bem a solidão mais nocturna da alma, o fechamento a que tudo se reduz no fim.
Lembra também que a perfeição formal é um momento isolado no contexto da vida.
A vida é feita de outras coisas, marcas pequenas da nossa permanente e humana imperfeição.

Assina o cenário e figurinos o António Lagarto, com a sua mão de Mestre. Quem tem arte e métier destaca-se pela qualidade da obra, e ele é exemplo disso: repare-se na solução encontrada com o piano de brinquedo (resolve a questão da música tocada e discutida) a casinha e o comboio, sublinhando o universo da infância que se desmoronou.
A direcção musical é de Nuno Vieira de Ameida, com o bom gosto e rigor que lhe são conhecidos.
A encenação é partilhada: Fernanda Lapa e Cucha Carvalheiro. O trabalho conjunto destaca-se pelo mesmo rigor já referido acima para o António e o Nuno, e por uma sobriedade que deixa respirar o texto e o trabalho dos actores: cada um a seu modo vai ocupando o espaço que lhe cabe, materializando com o corpo e com a voz o Outono da alma em que cairam.
Se muito passa pela relação mãe-filha e pela (in)capacidade ou impossibilidade da abdicação maternal, tudo passa, em surdina, pela discussão da arte e da relação do artista consigo, com a sua arte e com o resto do mundo: para o artista (como é o caso desta mãe) não há resto do mundo, só satisfação e realização pessoal, numa fuga constante à realidade.
Para o artista o real pode tornar-se insuportável.
Uma palavra de admiração excepcional para o trabalho de actriz de Fernanda Lapa, incarnando estes dilemas.
Estão todos de parabéns.

A Peça ficará em cena até 25 de Novembro.
Quem gosta de teatro deve ir ver.

Saturday, October 27, 2007

Luis Miguel Cintra o Construtor


A peça de Ibsen escolhida para um conjunto de representações que fecharão o Outono não podia ser outra.
Luis Miguel Cintra foi por excelência o Construtor do teatro moderno em Portugal : as actividades do grupo da Faculdade de Letras não se esgotaram quando o grupo transitou do espaço estudantil para o espaço mais real e mais duro da vida.
Nesse espaço real, que cresceu com o tempo, se afirmou a escolha decisiva de um TEATRO DO SER, o mais difícil, porque não permite oscilações de carácter, nem acomodações facilitistas.
Poucos no nosso meio cultural terão demonstrado, ao longo dos anos, uma tão grande entrega à paixão do teatro. Servindo-o com uma extensa e sempre actualizada bagagem cultural, feita da leitura profunda dos grandes temas e dos grandes autores.
Luís Miguel Cintra é o Mestre, no sentido mais clássico do termo, que George Steiner entendeu definir.
É aquele que nos pode ensinar, como se diz no Segundo Fausto, porque também ele aprendeu: " ...dieser hat gelernt/ Er wird uns lehren".

A Aprendizagem faz-se na vida, o segundo elemento logo a seguir à cultura que se adquire. A vida é sempre mais rica porque na vida nada está adquirido à partida, a entrega tem de ser confiante e esperançada, e acima de tudo FIEL: a uma ideia, um sentimento, um objectivo, uma paixão. Neste caso a paixão do palco, partilhada com o resto do mundo que a deseje igualmente partilhar.
O teatro é serviço, e Luís Miguel cumpriu e cumpre integralmente esse serviço.

Quem ensina, porque aprendeu, aprendeu o que é próprio da alma humana, e transparece nos grandes temas e nos grandes e pequenos heróis de tragédias e comédias que se conhecem desde o teatro clássico ao mais moderno praticado hoje em dia.E o próprio da alma humana é, como diriam Boehme, ou Goethe, ver o celestial e o infernal e as esferas intermédias em que o ser humano se move : pois ele é o mediador do céu e do inferno, só ele pode desafiar e ser desafiado, ainda que em luta desigual.

À medida que o Construtor Solness, na peça de Ibsen, se entrega à jovem que irrompeu na sua vida como um raio de sol e o seu carácter é aprofundado, muda Luís Miguel muito subtilmente de registo, tão subtilmente que é preciso grande atenção para notar como do realismo inicial, sublinhado pelo tom (o corpo,o gesto e a voz) da representação, se caminhou para um simbolismo onírico, surreal, a que ele e Beatriz Batarda se entregam de modo inspirado para não dizer genial.
A morte do herói não chegará a ser trágica, porque foi uma dupla libertação: a jovem, figuração da alma (da Anima) perdida, reconhece naquela queda o vôo de uma eterna sublimação.

George Steiner escreve, a propósito de Ibsen que ele "estava na posição do escritor que inventa uma nova linguagem e tem de a ensinar aos seus leitores".
O mesmo direi de Luís Miguel: inventou, para o seu modelo teatral, novas linguagens, cénicas e dramatúrgicas, que vai ensinando aos seus espectadores.Todos nós aprendemos com ele.

No fim do espectáculo, disse-me o Luís Miguel que antes de outras peças, incluindo a do Construtor Solness, se devia ler aquela que o próprio Ibsen considerou a mais importante para se perceber o todo da sua obra.
E foi o que fiz. Li ontem à noite, na bela edição da Cotovia, QUANDO NÓS,OS MORTOS, DESPERTARMOS, a peça de 1899, representada pla primeira vez em 1900. Nesta peça discute-se muito claramente a oposição arte/vida, o egoísmo próprio do criador face à generosa entrega que os outros podem esperar dele. Discute-se ainda, ao modo de um futuro Thomas Mann a questão do Tempo: o nosso, o dos outros, o íntimo, o social, e acima de tudo a a revelação brutal de que a entrega oportuna ou tardia à Ilusão de que se perdeu a memória e se recupera o desejo só pode levar a uma trágica, embora consentida, destruição.
É já em 1900 que Ibsen confronta o mundo e a sociedade de que participa, dissecando-a, com os seus piores fantasmas.
Não é por acaso que a mulher de Rubek se chama MAJA e que o seu grito de liberdade nos soa a ILUSÃO:
"Sou livre como um pássaro,
Livre, livre, livre!"

Há ilusão, mas não há liberdade no mundo.

Monday, October 22, 2007

Fables de La Fontaine



Mais uma obra-prima de Bob Wilson, desta vez as Fábulas de La Fontaine, na Comédie Française.
Podemos comprar o dvd, mas podemos também pensar: por que razão os nossos teatros nacionais não escolhem, uma vez por ano, para as crianças, matérias que sejam ao mesmo tempo belas e didácticas? As fábulas de La Fontaine são para crianças e adultos, como toda a boa literatura, que é universal.
E à imaginação do encenador cabe actualizar o seu sentido que, por ser ético, é também de todos os tempos.

Wednesday, October 17, 2007

O Desenho da Vera



O desenho da Vera ( 10 anos ) para o conto da avó, O PRÍNCIPE NO REINO DOS LAGARTOS
(Porto Editora, em breve)

Friday, October 12, 2007

Para a Gabriela


Na mão trazia a romã
vinha de longa distância

e nos olhos que trazia?

na mão trazia a romã
bagos de puro rubi

e nos olhos que trazia?

na mão trazia a romã
com o seu brilho feliz

e nos olhos que trazia?

memórias da sua infância
campos verdes
e jardins

Thursday, October 11, 2007

Nobel de Literatura 2007


Doris Lessing foi a laureada deste ano.
Conheço a obra, parcialmente. O livro de que mais gostei foi o Golden Notebook.
Mas nunca seria a minha escolha.
Em matéria de prosa feminina original, inovadora, pela escrita e pela estrutura romanesca, tive sempre dois amores: Virginia Woolf e Agustina Bessa Luís. Virginia já morreu, mas Agustina, se tivesse quem a traduzisse bem para inglês, teria sido distinguida há muito tempo.
A sua prosa não é local, é universal.
Veja-se como grande parte do mérito de Manuel de Oliveira, nos seus filmes, se deve à inspiração de ambientes, temas e caracteres que Agustina lhe inspira.

Monday, October 08, 2007

Charters de Almeida



Exposição e Colóquio.

A não perder este grande tema das cidades imaginárias, seus labirintos de criação, portas, passagens, fixando memórias míticas do tempo: passado, presente, futuro

Colóquio a 18 de Outubro, no CCB
Exposição no Museu de Arqueologia

Saturday, October 06, 2007

Para a Sofia e o Manuel




( a Árvore e a Casa )

A árvore é antiga:
permanece de pé
olhando o Tejo.

Dentro de casa
vê-se a ramagem cinza
encostada ao vidro
da janela.

Fora de casa
a cabeleira solta
suaviza a brancura
do ângulo das linhas.

Thursday, October 04, 2007

O Budismo na Cultura Portuguesa



Com organização de PAULO BORGES e DUARTE BRAGA publicou-se na Ésquilo editores um volume dedicado ao Budismo na cultura portuguesa.
Colaboraram vários especialistas de renome e entre eles alguns cuja escolha recaiu sobre a obra de Pessoa/Caeiro : é o caso de José Eduardo dos Reis, com o ensaio POR QUE VEIO O ALBERTO CAEIRO DO OCIDENTE? Igualmente interessante se revela Catarina Nunes de Almeida, com o estudo da obra de Casimiro de Brito, escritor de grande sensibilidade, cujo interesse pela contemplação de índole Zen é conhecida, revelando-se sobretudo na sua poesia.
Esteve recentemente entre nós o Dalai Lama, Nobel da Paz, figura insigne da luta pela liberdade e pelos direitos humanos,que incluem, naturalmente, o direito de expressão religiosa: e aqui cumpre felicitar as edições Ésquilo, que publicaram O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS com prefácio do Dalai Lama, e ainda SABEDORIA PARA VIVER, DALAI LAMA EM PORTUGAL (os textos da suas conferencias).
Embora julgue que todas as matérias, estas e outras que constam do catálogo, sejam trabalhadas a partir do inglês, é um sinal muito positivo que editores e estudiosos se empenhem em divulgar matérias relativas ao conhecimento e ampliação da nossa consciência espiritual, num momento em que, sobretudo na Europa, se volta a ser atacado pela doença do racionalismo positivista -sempre unificador e nunca inspirador (pois o interessante para o progresso maior é a diferença e não o culto doentio de uma "igualdade" que reduz, em vez de ajudar ao verdadeiro desenvolvimento, intelectual, artístico, religioso, e até social, económico, político; pois não se fala tanto e cada vez mais da necessidade de "oposições" bem preparadas?)
Os ensaios do volume trazem abundantes referências bibliográficas, o que é excelente para quem deseje aprofundar o estudo do Budismo em Portugal.
Uma observação ainda, a propósito do ensaio de Markus Gabriel : o conceito de UNGRUND não foi cunhado por Schelling mas por Jacob BOEHME, o grande teósofo alemão ( 1575-1624) inspirador de muitos autores subsequentes, como Goethe e Novalis, além do próprio Schelling. Sugiro como fonte, além do próprio BOEHME, as obras de Alexandre KOYRÉ, LA PHILOSOPHIE DE JACOB BOEHME, Vrin, Paris 1971, p.321; ou de mais fácil leitura, Jacob Boehme, Cahiers de l'Hermétisme, Albin Michel, Paris,1977, p.189 .
O Ungrund, (Sem-fundo) é um eterno Nada, como Boehme o define no Mysterium Pansophicum, um Vazio onde se gera a Palavra de onde surgirá a criação.Sem-fundo é o nome que poder ser dado a Deus: este é o " Nada eterno", o "Nada eterno que é o Uno eterno", "o Absoluto sem essência que em si mesmo é fundamento eterno", mas o nome que mais lhe convém, diz Boehme, é "Sem-fundo", abismo sem fundo e sem fundamento.E, como observa Koyré, o Ungrund não é a causa última nem primeira do mundo, e nem sequer a sua própria causa, é o Absoluto, sem mais : " É o fundo eternamente fecundo da vida e do Absoluto, o germe absoluto que, enquanto germe, não é ainda, e não é ainda nada, mas que contém dentro de si tudo o que irá ser".

Deixo uma sugestão: que se acrescente ao catálogo da Ésquilo uma tradução do I CHING, com os prefácios de Wilhelm, de Jung, e por que não, de novo o Dalai Lama.
Ou que se reimprima a obra notabilíssima do Padre Joaquim A. de Jesus Guerra : O LIVRO DAS MUTAÇÕES (publicado com o Prof. DR. Aidan Nai-kwong Poon).