Monday, June 25, 2007

Sophia de Mello Breyner


HÁ MUITO

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa


MORTE

Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada


( Sophia de Mello Breyner,Onze Poemas, movimento/poesia1971)

Wednesday, June 20, 2007

Meng Chiao



With the spirit I feel...in silence there is no speech.
With the first awareness all fetters are dissolved.
In evening thought I incline toward a troubled morning.
The boat of the wanderer has no stop on the waves.
The horses neighed, the shafts were removed here.
My teacher, the hermit Yin Ch'in who lives in the thicket
Knows that there is a friend who understands him.

( Transl. by Iulian K Shchutskii and others,
in Researches on the I Ching, 1980 )

Thursday, June 07, 2007

Quando o Inverno Chegar



A não perder esta nova produção do teatro São Luiz: inspirada em Thomas Mann, com ecos beckettianos nas marcas do encenador, esta é uma grande produção com texto de José Luiz Peixoto, encenação de Marco Martins e dramaturgia em criação colectiva de Marco Martins, Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Dinarte Branco e Gonçalo Waddington - sendo estes igualmente intérpretes. Do texto de Marco Martins no programa retiro os dois suportes da concepção-base : "a inércia e o movimento e a ideia de que pela comunicação artística se pode romper com a nossa própria inércia" sendo essa a única possibilidade de explicar ou de pelo menos tentar explicar a vida. Porque nem tudo é explicável e sobre o inexplicável paira sempre o mistério, perpétua interrogação.
A interpretação é notável, cada um dos actores construindo a personalidade neurótica dos caracteres, de forma a que não se perceba logo a dimensão trágica do seu oculto registo; saliento a performance de Beatriz Batarda, que constrói uma figura frágil, quase etérea naquela paisagem de pulsões inconscientes, mas sabendo que no coração da ingenuidade se escondem a intensa paixão e o intenso dizer da realidade.
Uma palavra para a música original de Pedro Moreira, executada ao vivo por um conjunto de câmara que só é pequeno no tamanho, acompanhando a voz de Carla Simões nos belos versos de Goethe.

De 7 a 30 de Junho.

Monday, May 28, 2007

Maiorias



As maiorias não apreciam a diferença.
Gostam de médias e de medianias, por isso são maiorias.

Friday, May 18, 2007

Gabriel Garcia Marquez



Saúdo a edição comemorativa desta obra maior que é CIEN AÑOS DE SOLEDAD, de García Marquez, levada a cabo pela Real Academia Española em conjunto com a Asociacíon de Academias de la Lengua Española.
É assim recordada ao público, em 2007, a edição de 1967, que havia de marcar para sempre o nosso imaginário romanesco.
Absorvida e digerida a herança surrealista avançava-se agora, pela mão dos heróis de Maconde ( aquela pequena aldeia de uma vintena de habitantes, no centro de um mundo "tão recente que muitas coisas careciam de nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo" )- avançava-se, dizia eu, para uma obra de maravilhação alquímica que se apossava dos leitores como os ciganos de visita à aldeia se apossavam da alma do incompreendido, ainda que respeitado, fundador.
E aqui estou eu fazendo de novo deste livro a minha companhia porque, como diz o cigano, "as coisas têm vida própria...é tudo questão de despertar-lhes a anima".
A anima, nem mais, como qualquer alquimista junguiano nos diria.
É esse um dos segredos da leitura e dos bons livros. Não morrem e dão-nos vida uma e outra vez.

Tuesday, May 08, 2007

Uma Casa Portuguesa



INEZ WIJNHORST apresenta a sua "Casa Portuguesa": há algo de babélico na acumulação dos andares, e os sótãos imperfeitos, como que inacabados, deixam espaço à imaginação de quem deseje continuar a construir, erguendo camada sobre camada...
A ideia de uma construção em aberto, ainda que perigosa ( pode ruir ) seduz. Ergue-se ao alto, como o castelo de cubos ou de legos das crianças. Reconstitui um certo imaginário da infância.
Mas esta casa fala ainda de outras coisas: dos espaços amontoados das sociedades modernas, do sufoco, não fossem as janelas em Portugal estarem quase sempre abertas, deixando ver a vida que se vive.
Deixa-nos ainda, esta casa de Inez, com a sensação de estarmos perante uma forma contida como um ovo mas que pode, a qualquer momento,explodir por força de tanta contenção.
Diz Gaston Bachelard que " o espaço é nosso amigo ". Mas na geometria imperfeita das vidas o espaço pode ser violento, a protecção pode falhar, dar-se uma explosão fatal. A casa portuguesa está a abarrotar de coisas e de gente.
A metáfora de Inez não me faz esquecer a nossa vida real: se puxarmos o fio será que resiste a um abanão mais forte ?

Friday, April 27, 2007

Manuel Alegre



Chega Manuel, com as Doze Naus :
....
"Entre aquém e além ser e não ser
tantas portas abertas ou talvez nenhuma.
Não há senão um verso por escrever
e sobre a areia branca a breve espuma."

Sente-se em alguns dos poemas uma inquietação melancólica, uma interrogação perplexa, uma quase lamentação interpelando um deus que continua escondido, uma voz que ainda não se fez ouvir, um verso que ainda não foi escrito: "Agora tenho de escrever o poema/ porque nada está escrito.E o que se acaba não acaba"...
É assim mesmo o tempo do poeta, cruza os mares da vida numa viagem sem fim.

Sunday, April 22, 2007



O MONTE

anoitecer suave
no topo das colinas

calam-se os pássaros,
as lebres e os coelhos
aninham-se nas tocas

sai um morcego
a mordiscar romãs

os gatos sorrateiros
saltam entre os telhados
em busca de algum ninho
ou de algum rato

luar de Agosto

lá em baixo
na estrada
conversam os namorados

Chanson pour mes petits-enfants




LE JOUR ET LA NUIT

Pendant le jour l'enfant s'amuse.
Il aime regarder autour de lui:
la maison
le soleil
l'arbre dans le jardin
l'oiseau qui vole dans le ciel
la voiture
l'avion
l'autobus ramenant les enfants de l'école
un petit garçon qui promène son chien
un autre qui s'en va jouer un peu plus loin...

La nuit descend, l'enfant s'endort
ses rêves sont heureux.
Parfois un monstre arrive qui fait peur
l'enfant crie au secours
le monstre disparaît
tout est bien dans sa chambre:
les jouets lui font signe
ils sont gais,ils sont là.
N'aie pas peur
dit le petit poussin
il est beau, il est doux
jaune comme un soleil.

Le soleil chasse l'ombre
l'enfant s'endort tranquille
bientôt le jour viendra.

Tuesday, April 17, 2007

A FERVURA DO AIRE



Um encontro de saudade com Antonio Dominguez Rey, poeta, professor, ensaista, no MAPA DA LINGUA PORTUGUESA NO MUNDO: "siga a trilha de quem fala português"...
Reli o seu estudo sobre Antonio Machado, encontrando na saudade que o poeta teve de Platão e de Cristo uma nova fórmula para um moderno Graal:

"Dices que nada se créa?
No te importe, con el barro
de la tierra haz una copa
para que beba tu hermano".

Mas de uma ideia parti para outra, a da poesia de Antonio Rey, ele mesmo poeta do encantamento da palavra.
E tão belo é o seu soar que não traduzo, apesar da língua-gémea facilitar a tradução, deixo no original um fragmento do poema que encontrei.Há navegações felizes...

A FERVURA DO AIRE

Subín ó monte cheo
de ruídos e espantallos
que arredaban as aves
sen poderen picar
os grans da miña sombra.
Adentreime entre os piños
e sentín lenta a luz
no corpo, xa baleiro
da teima que porfía.
Ergueito, nu, cos brazos
oferentes, as febras
do sol nos lises tenros,
cantei vellas gabanzas
à humidade das fontes,
ó arrecendo da terra,
ó rulo dos paxaros
no segredo da fraga.
Vivín, lonxano, o arrolo
do mar nas ponlas luídas
e fun herba silvestre
ou mastro na marea
sobranceira das árbores.
....
Voa, paxaro, ó fondo
pecho do ceo, voa.
A miña inquedanza abre
de anseios a gaiola.
Voa, corazón, voa
ó mais lonxe da vida,
que non me cabes dentro,
e douna por perdida.
....
O alento esvae sempre
un paxaro de lume
invisíbel e acende
a fervura bendada
da arxila no poema.
....
Hora na que a palabra,
sen ser, lucente abrolla
a vertixe do instante.
Inquedanza da sombra,
premura devanceira
que rexorde o tecido
do ceo con agoiros
e xemidos de cobre.
....
Morreron as palabras,
as frases, a sintaxe
do mundo.O que non morre
é a fervura do aire,
as raíces dos talos
que ruben polas gorxas
agoirando palabras.


Eis o canto, incompleto, com o desejo que deixa de continuar a ser.

Thursday, April 12, 2007

DALI



Um lema para todos os criadores:
"Desde pequeno o meu lema é o de Montaigne: não se consegue o universal senão a partir do ultra local" (Salvador Dali ).
Assim, em Figueras, se ia formando um génio cuja obra teve e tem reconhecimento indiscutível.
Pergunto, quem tem medo de ler Montaigne, hoje em dia, quem reflecte sobe a sua escrita sóbria, nítida, exemplar ? Do alto da sua Torre nenhum detalhe, nenhuma observação, lhe escapa.
Mas vinha isto a propósito de mais um achado meu nas caixas do CAVE CANIS: a reprodução da primeira novela de Salvador Dali, incompleta, e que o grupo transcreveu para a tornar acessível. Datada de 1920, já revela a imaginação prodigiosa que será sua marca, a par do gosto do local, neste caso uma pequena povoação perto de Figueras, onde situa o enredo. Mostro, para que conste, sem mais. O título é Tardes d'estiu, e a edição foi feita ao cuidado de Victor Fernandez. Escrito em catalão, seria interessante traduzir este texto, ainda que se trate de um fragmento.

Monday, April 09, 2007

A ARCA DE PESSOA



Amigos leitores de Fernando Pessoa, uma boa notícia:
Saiu já, em edição do ICS, com organização de Steffen Dix e Jerónimo Pizarro, o conjunto de comunicações apresentadas no Colóquio de Leipzig que ambos organizaram em 2005.
Parabéns aos organizadores e ao ICS que permite aos investigadores fazer obra continuada.
Agora é ler, a Arca está aberta, venham os novos Indiana Jones...

Tuesday, April 03, 2007

Palau i Fabre


Grande amigo de Picasso, Josep Palau i Fabre viveu em França na década de 40.
Colaborou em 1996, a convite da Fundação Gulbenkian, num ciclo intitulado CLARÓS INSTANT, Imagem e Palavra na Poesia Catalã Actual.
Devo dizer que talvez dessa ideia de Imagem e Palavra me tenha surgido a mim a ideia do nome deste blog.
Tinha tido a honra de conhecer Palau i Fabre muitos anos antes, em Barcelona, ficando aí a saber que ele era, não apenas um amigo, mas um dos maiores conhecedores da obra de Picasso.
Além de poesia, que deixarei documentada com um pequeno exemplo, interessava-se, como eu, pela simbólica alquímica.
Nas edições 62, Historia de la Literatura Catalana, podemos ler POEMAS DE L'ALQUIMISTA, publicados em conjunto com outro grande artista JOAN BROSSA.
Aqui fica a versão livre de um dos seus poemas, lido outrora, em 1996:

PEDRA ( a Xavier Zubiri)

Dura como a água dura.
Raiz de si própria.
Em êxtase perpétuo
a pedra perpetua
a pedra, imagem pura
e a ideia de pedra
se nos torna madura
(1942)

De um artista bem mais jovem, Perejaume, nascido em 1957, um poema que também foi lido entre nós e de que deixo a versão livre:

VOLTEM A PÔR

Voltem a pôr na terra o ouro, espalhem na montanha o bronze, o mármore e o marfim, para que representem aquilo que agora mais falta nos faz: o lugar de onde sairam..

Jan Fabre


Da caixa do Cave Canis, outra surpresa, Jan Fabre:
" M'agrada el moviment, els colors que es confonen entre ells,
la flama que es revifa, la brillantor i el centelleig de la llum,
la mort d'un tros de fusta, les brases, la foscor
i el nou començament..."

Aos Amigos do Cave Canis


Arrumando prateleiras, o reencontro feliz com os artistas de CAVE CANIS. Eram (são? ) muitos e animados de um espirito de liberdade e criatividade que neste momento ainda mais falta me fazem.
Cito, do Manifesto contra o Populismo Perverso:

" Sense ètica, no hi ha estètica.Ni dignitat.
...
L'art no és un entreteniment vagarós, lleure de privileiats que es miren el món des de fora, com a espectadors.Parafresejant Picasso/Tàpies:l'art es una arma de guerra contra l'enemic, un mitja per combatre l'obscurantisme i la violència.
...
En temps de barbàrie, vindiquem la il-lustració contra les tenebres,l'esperit critic contra el dogma...Això es: la dignitat contra la immundícia."

A ilustração é um negativo de MANEL ESCLUSA: La pedra, La Muntanya, L'Univers...
da exposição de Boston, 1983

Friday, March 23, 2007

ERATA


LABYRATIONEN. Livro de poesia e arte editado na Erata que não descura a literatura e a arte em complemento ou confronto.
Aqui poeta e pintor entendem-se quanto ao que desejam dizer: um desabafo severo contra a imprensa que comparam à lama das ruas, à folhagem caduca, entre outras coisas.
Adivinha-se um exercício de fronteira entre o perene, a obra de arte, a poesia, e o efémero, a vaidade de um círculo poderoso, é certo, mas que não ficará na memória do tempo.
Os autores são Michael Goller e Mike Wassermann, ambos pertencentes à geração que convive com os Media e por isso sente que pode relativizar o seu peso, a sua dimensão.
As imagens fortes de cada estrofe são lama, pó, insecto, folhagem caduca; o pintor desenha um jornalista de microfone na mão mas já percebemos que para ambos os criadores aquela voz, ainda que ampliada, é uma voz pequena.
Eis o poema:

À IMPRENSA

Vós sois
a lama que salpica
as ruas.

Vós sois
o pó
chamuscado
na luz.

Vós sois
o insecto
que pica
e zumbe.

Sois
como a folhagem
que cai no chão
e morre.

Saturday, February 24, 2007

Celan recordando a França

De Paul Celan, outro poema antigo, da primeira fase da sua obra. Escrito provavelmente em Bucareste e incluído no conjunto de DER SAND AUS DER URNEN, A AREIA DAS URNAS.
Em 1938-39 Celan tinha completado em Tours os seus estudos de medicina e em Paris tinha contactado o grupo dos surrealistas, de que guarda algumas memórias embora depois se tenha afastado das práticas mais radicais, por razões que se percebem: o sofrimento da guerra não o deixará mais voltar a sorrir ou a sonhar, e as imagens que o perseguem são cruéis, de agressão e pesadelo.
A referencia a Monsieur le Songe traz à memória Rilke, outro grande referente para a cidade de Paris, com OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE e com as ELEGIAS DE DUÍNO.
Barbara Wiedemann, que edita e comenta a Poesia Completa da Suhrkamp, nota que nas ELEGIAS DE DUÍNO (V) Rilke alude a essa figuração da morte que é a modista "Madame Lamort".
Por curiosidade deixo ao leitor esse passo de Rilke, na tradução de Paulo Quintela:
....
" Praças,ó praças de Paris, teatro infindo,
onde a modista, Madame Lamort,
entrelaça e entrança os inquietos caminhos da Terra,
fitas infinitas, e inventa deles novos laços,
franzidos, flores, cocardas, frutos artificiais-,tudo
inverosimilmente pintado,- para os baratos
chapéus de inverno do Destino.
....
Anjo! haveria uma praça que não conhecemos, e ali,
sobre o tapete indizível, mostrariam os amantes, que aqui
nunca chegam a poder realizá-las, as suas ousadas
altas figuras do impulso do coração,
suas torres de desejo, suas escadas que, há muito tempo,
ali onde o solo falhava, apenas se apoiavam
uma à outra, trementes,- e ali poderiam,
em frente dos espectadores em volta, inúmeros mortos silenciosos:
lançariam eles então as suas últimas moedas sempre poupadas,
sempre escondidas, que nós não conhecemos, eternamente
válidas moedas da felicidade ante o par
finalmente sorrindo verdadeiramente sobre o apaziguado
tapete? "

Celan, no seu poema, falará de uma espécie de "João Pestana" oriundo da treva e não do céu dos Anjos da Guarda que protegem o embalar suave da criança ou dos amantes que podem adormecer felizes.
Aqui o sono é o eterno sono da morte.

RECORDAÇÃO DE FRANÇA

Tu pensa comigo: o céu de Paris,o grande lírio do Outono...
Comprávamos corações na florista:
eram azuis e abriam-se na água.
Começou a chover no nosso quarto
e veio o nosso vizinho, Monsieur le Songe, um homenzinho seco.
Jogámos às cartas, eu perdi as meninas-dos-olhos;
tu emprestaste-me o teu cabelo, eu perdi-o, ele abateu-nos.
Saiu pela porta, a chuva foi com ele.
Estávamos mortos e podíamos respirar.

Wednesday, February 21, 2007

Les Dames de Venise


Para o Fernando Canedo


Paul Celan, LES DAMES DE VENISE:

Nenhuma de vós
deu pelas mocas
que zumbindo voavam
ao vosso encontro ?

Era
este aparente
caminhante .

Poema escrito em 1968, na Fundação Maeght, onde se encontrava uma série de esculturas de Alberto Giacometti, criadas para a Bienal de Veneza de 1956.
Como em tudo o que nos deixou, a marca dominante é a de uma ameaça que nunca desaparece, antes espreita sorrateiramente onde quer que se vá, onde quer que se esteja. Não se foge ao destino, é o que o poeta repete sem cessar.
Já num texto anterior, ABER, MAS, conta Celan como não viu voar os cisnes de Genf pois entretanto alguém tinha arremessado um pau contra ele,vindo do nada, directo à alma.

Monday, February 19, 2007

William Blake


The Songs of Innocence and of Experience contain "some of the most charming lyrics ever written in English.The childlike simplicity and trust of the Songs of Innocence is unique...Blake rejected common sense and believed that the material world is unreal.Those who knew him regarded him as a lunatic..."
(George H. Cowling, ed. Songs of Innocence and of Experience, Introduction )
Se é certo que há uma inocência aparente nas canções da inocência, não é menos verdade que Blake tem a intenção de as contrastar com as canções da experiência, pondo assim a descoberto as pulsões contraditórias da alma humana, como escreve no subtítulo da obra :" Showing the Two Contrary States of the Human Soul ".
Concluímos assim que é feita de sabedoria mais profunda a sua lírica, e não de ingenuidade meio infantil meio lunática como alguns pretenderam simplificando o seu contributo para a literatura e arte do seu tempo. Um dos poemas mais citados é THE LAMB, O Cordeiro; mas só pode ser de verdade entendido se o lermos seguido de outro ainda mais célebre THE TIGER, O Tigre.
É no brilho feroz do tigre que se revela o que o cordeiro esconde na sua aparente ( e insisto no termo ) inocência; pois de verdade não existe inocência no mundo, a Queda pôs termo a essa virgindade primordial e toda a criação foi contaminada pelo pecado dos nossos primeiros pais.
Blake acreditava na sua intuição espiritual. Dizia que os seus poemas lhe eram ditados por "autores da eternidade, authors in eternity". Como Pesoa fará mais tarde, aludindo a "oculta mão" que por ele escrevia...
Para Blake ser poeta era ser visionário no sentido mais nobre do termo. Era ter uma especial capacidade de imaginar, para além do que a natureza e a realidade permitissem. Por outras palavras, a capacidade de alcançar a essencia do mistério natural, vendo no cordeiro como no tigre a "ordem da existencia" pela qual eram regidos.
"Mental things alone are real" só as coisas mentais são verdadeiras, observa, podendo por aqui situar-se na tradição dos melhores cultores do hermetismo em Inglaterra. Para eles a imaginação era " a estrela no homem ".
A apreensão da realidade é sempre melhor feita por intermédio do símbolo :
" To see a world in a grain of sand
And a Heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour ".

Ver um mundo num grão de areia
E um Céu numa flor selvagem,
Na palma da mão conter o infinito,
E a eternidade numa única hora.

Misticismo, panteísmo também, em certa medida, mas sobretudo entendimento da cadeia dos seres num universo ordenado, mas infelizmente decaído e a necessitar de regeneração. Algo para que só um santo, um místico ou um poeta, que tenha um pouco de ambos, poderá contribuir.

Thursday, February 15, 2007

Thanks Gawain



Romãs ou as chávenas de Gawain:
Gawain, o autor do blog heaven tree, acaba de regressar de Taiwan onde foi ver a exposição de obras de arte da China milenar.
No blog divulga, como sempre, as suas emoções, com abundante erudição que maneja em prosa elegante e viva, para nos entusiasmar, a nós distantes e mais impreparados. E nós ( os seus leitores fiéis ) deixamo-nos entusiasmar.
Assim aconteceu com estas chávenas que ele trouxe de regresso à Tailândia fazendo mais um post.
A beleza das romãs pintadas fez-me pensar em como é forte a marca dos símbolos em todas as culturas e evoquei desde logo o Cântico dos Cânticos (3-4 ):

Como és bela, minha amada,
como és bela !
....
Teus lábios são fita vermelha,
tua fala melodiosa;
metades de romã teus seios
mergulhados sob o véu.

Podemos continuar com alguma poesia persa, citada nos dicionários, como a de Firdousi:
" as suas faces são como a flor da romãzeira e os seus lábios como o doce das romãs" ;

O simbolismo da romã prende-se com o simbolismo dos frutos que têm muitos caroços, e aludem por isso à fecundidade, à multiplicação desejada.
Na Grécia antiga a romã é o fruto de Hera e de Afrodite; e na Ásia a romã aberta simboliza em geral a expressão dos desejos, bem traduzida por uma expressão popular vietnamita: "a romã abre-se e deixa sair cem filhos".
Na mística cristã este simbolismo da fecundidade é transposto para o plano espiritual: para S.João da Cruz os bagos de romã são as perfeições divinas nos seus inumeráveis efeitos.
Mas como em todo o texto poético há sempre mais mistério para além do que se adivinha. O símbolo, como linguagem outra que é, respira, e deixa respirar outras manifestações:

Reguengos

Já pesam as romãs semi-abertas
nas romãzeiras molhadas

cairam as chuvas da tarde
aguardam-se os beijos fatais
que só os Anjos concedem

bagos vermelhos
em bocas apetecidas

Jardim de Inverno
onde se perdem as vozes
onde se abrem feridas

onde secretamente
mais árvores são plantadas

(Y.K.C., in Mealibra,
Revista do Centro Cultural do Alto Minho 2005 )