Monday, February 19, 2007

William Blake


The Songs of Innocence and of Experience contain "some of the most charming lyrics ever written in English.The childlike simplicity and trust of the Songs of Innocence is unique...Blake rejected common sense and believed that the material world is unreal.Those who knew him regarded him as a lunatic..."
(George H. Cowling, ed. Songs of Innocence and of Experience, Introduction )
Se é certo que há uma inocência aparente nas canções da inocência, não é menos verdade que Blake tem a intenção de as contrastar com as canções da experiência, pondo assim a descoberto as pulsões contraditórias da alma humana, como escreve no subtítulo da obra :" Showing the Two Contrary States of the Human Soul ".
Concluímos assim que é feita de sabedoria mais profunda a sua lírica, e não de ingenuidade meio infantil meio lunática como alguns pretenderam simplificando o seu contributo para a literatura e arte do seu tempo. Um dos poemas mais citados é THE LAMB, O Cordeiro; mas só pode ser de verdade entendido se o lermos seguido de outro ainda mais célebre THE TIGER, O Tigre.
É no brilho feroz do tigre que se revela o que o cordeiro esconde na sua aparente ( e insisto no termo ) inocência; pois de verdade não existe inocência no mundo, a Queda pôs termo a essa virgindade primordial e toda a criação foi contaminada pelo pecado dos nossos primeiros pais.
Blake acreditava na sua intuição espiritual. Dizia que os seus poemas lhe eram ditados por "autores da eternidade, authors in eternity". Como Pesoa fará mais tarde, aludindo a "oculta mão" que por ele escrevia...
Para Blake ser poeta era ser visionário no sentido mais nobre do termo. Era ter uma especial capacidade de imaginar, para além do que a natureza e a realidade permitissem. Por outras palavras, a capacidade de alcançar a essencia do mistério natural, vendo no cordeiro como no tigre a "ordem da existencia" pela qual eram regidos.
"Mental things alone are real" só as coisas mentais são verdadeiras, observa, podendo por aqui situar-se na tradição dos melhores cultores do hermetismo em Inglaterra. Para eles a imaginação era " a estrela no homem ".
A apreensão da realidade é sempre melhor feita por intermédio do símbolo :
" To see a world in a grain of sand
And a Heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour ".

Ver um mundo num grão de areia
E um Céu numa flor selvagem,
Na palma da mão conter o infinito,
E a eternidade numa única hora.

Misticismo, panteísmo também, em certa medida, mas sobretudo entendimento da cadeia dos seres num universo ordenado, mas infelizmente decaído e a necessitar de regeneração. Algo para que só um santo, um místico ou um poeta, que tenha um pouco de ambos, poderá contribuir.

Thursday, February 15, 2007

Thanks Gawain



Romãs ou as chávenas de Gawain:
Gawain, o autor do blog heaven tree, acaba de regressar de Taiwan onde foi ver a exposição de obras de arte da China milenar.
No blog divulga, como sempre, as suas emoções, com abundante erudição que maneja em prosa elegante e viva, para nos entusiasmar, a nós distantes e mais impreparados. E nós ( os seus leitores fiéis ) deixamo-nos entusiasmar.
Assim aconteceu com estas chávenas que ele trouxe de regresso à Tailândia fazendo mais um post.
A beleza das romãs pintadas fez-me pensar em como é forte a marca dos símbolos em todas as culturas e evoquei desde logo o Cântico dos Cânticos (3-4 ):

Como és bela, minha amada,
como és bela !
....
Teus lábios são fita vermelha,
tua fala melodiosa;
metades de romã teus seios
mergulhados sob o véu.

Podemos continuar com alguma poesia persa, citada nos dicionários, como a de Firdousi:
" as suas faces são como a flor da romãzeira e os seus lábios como o doce das romãs" ;

O simbolismo da romã prende-se com o simbolismo dos frutos que têm muitos caroços, e aludem por isso à fecundidade, à multiplicação desejada.
Na Grécia antiga a romã é o fruto de Hera e de Afrodite; e na Ásia a romã aberta simboliza em geral a expressão dos desejos, bem traduzida por uma expressão popular vietnamita: "a romã abre-se e deixa sair cem filhos".
Na mística cristã este simbolismo da fecundidade é transposto para o plano espiritual: para S.João da Cruz os bagos de romã são as perfeições divinas nos seus inumeráveis efeitos.
Mas como em todo o texto poético há sempre mais mistério para além do que se adivinha. O símbolo, como linguagem outra que é, respira, e deixa respirar outras manifestações:

Reguengos

Já pesam as romãs semi-abertas
nas romãzeiras molhadas

cairam as chuvas da tarde
aguardam-se os beijos fatais
que só os Anjos concedem

bagos vermelhos
em bocas apetecidas

Jardim de Inverno
onde se perdem as vozes
onde se abrem feridas

onde secretamente
mais árvores são plantadas

(Y.K.C., in Mealibra,
Revista do Centro Cultural do Alto Minho 2005 )

Sunday, January 28, 2007

Novas Leis



Proclamação da Nova Lei

ATENA

Nem anarquia, nem despotismo eu quero
que os meus cidadãos cultivem com devoção.
E que não se lance o temor fora da cidade.
Sem nada recear, qual dos mortais seria justo ?

( Euménides, 696-699, trad. Rocha Pereira )

Thursday, January 25, 2007

Vasos Gregos em Portugal



Mais uma belíssima exposição oferecida pelo Museu Nacional de Arqueologia. Pode ser visitada de 26 de Janeiro a 15 de Julho de 2007.
A exposição constitui ao mesmo tempo uma homenagem a Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra e Comissária Científica desta exposição, na sua qualidade de grande especialista da Cultura, Literatura e Arte Gregas.
Quando estudante em Coimbra, tive o grande privilégio de ser aluna da ilustre Professora na cadeira de História da Cultura Clássica. Devo-lhe o amor que aprendi a ter à Cultura, à Literatura, à Arte - ao pensamento filosófico e à criação em geral. Quando tenho saudades do tempo de estudante, e são cada vez maiores, pego num dos seus livros e volto a ler. Repetidamente leio as suas traduções dos grandes trágicos gregos. As Bacantes, por exemplo: ainda hoje sinto como actual o conflito entre a ordem civilizacional que Penteu deseja impôr, excluindo as pulsões mais fundas do ser humano, e a entrega à desordem emocional, ainda que ritualizada do culto de Diónisos. Este castigará Penteu pela arrogancia: no ser humano, como no divino, é preciso ver o "outro", reconhecer no outro a parte que ele contém de nós mesmos. A lição é de luz e de sombra...
Outro livro bom comanheiro e que aconselho aos alunos: HÉLADE, Antologia da Cultura Grega. Enquanto não se adquire o gosto de ler as fontes, aqui se encontrará uma selecção traduzida por mão de Mestre, indo desde a Ilíada e da Odisseia de Homero, passando por Hesíodo, Safo, entre muitos outros textos, autores e fragmentos dos pré-socráticos até Platão, Aristóteles e os que se lhes seguiram. O exemplo de um manual perfeito, nesta hora de tanta discussão em torno de novos manuais e novos modelos pedagógicos. Não há pedagogia esvaziada de saber. Vejamos Sófocles, na Antígona:
Coro
Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co'o sopro invernoso do Noto
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
mortal, dos deuses a mais sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.
....
Da sua arte o engenho subtil
p'ra além do que se espera, ora o leva
ao bem, ora ao mal;
se da terra preza as leis e dos deuses
na justiça faz fé, grande é a cidade;
mas logo a perde
quem por audácia incorre no erro.
....
(trad. Rocha Pereira )

Como bem recorda o Coro, o mérito é o do trabalho, sem ignorar o engenho, e o erro a evitar é o do excesso (da arrogancia ). Só no saber não existe nem nunca existirá excesso, pois o saber é humilde, na ânsia de conhecer mais e melhor, enquanto for possível.
A exposição é um exemplo de amor da beleza e da sabedoria partilhado comnosco.
No fragmento com que ilustro o post ( de um vaso da colecção de Manuel de Lancastre ) Diónisos, seguido por uma Ménade, caminha levando na mão uma taça com oferendas.
Não sendo deuses, aceitemos contudo, nós também, a taça de oferendas. O vinho de Diónisos é o vinho da vida.

Tuesday, January 23, 2007

Jorge Casimiro



De Jorge Casimiro, MURMÚRIOS VENTOS, recolha da sua poesia numa bela edição ilustrada por Ana Casimiro.
São poemas de cariz confessional em que as palavras se moldam à emoção que o autor procura esculpir na memória de quem lê.


"em palavras me desnudo a cada verso
e nua paisagem me descubro
tão longe tão vazio tão repleto"

A leveza de mão da ilustradora completa de forma inspirada, como que voando só por si, a densidade dos textos que trabalha.
Como se a palavra de pedra fosse erguida por um sopro de discreta transformação.
Talvez não por acaso a editora se chame PÁSSARO DE FOGO...

Wednesday, January 17, 2007

BABYLONE de Manuel Alegre



A obra de Manuel Alegre continua em digressão pelo mundo.
Lançada agora em França na colecção "Paroles d'Ailleurs" a edição bilingue de BABILÓNIA (poema épico de 1983, revisto em 2000 na Obra Completa); e no próximo mês de Fevereiro será lançado em Leipzig o romance RAFAEL na tradução de Markus Sahr.
Sabendo, por experiencia, como é difícil traduzir poesia, saúdo a tradução francesa de João Carlos Vitorino Pereira. A tradução é um acto de amor e um exercício de pacência e humildade. Exige a leitura por dentro do poema, uma leitura mais íntima, mais secreta, em que a voz se torne nossa e a possamos transformar. A tradução tem o seu quê de alquímica devoração: apropriamo-nos das palavras do outro, do seu pensamento, do ritmo que a ele preside, para dar forma-outra na língua que já não é só dele, mas dele e de um outro em conjunção feliz.
Babilónia surge como um "grande cantico subterrâneo", uma epopeia que mais parece ser a expressão da "corrente de consciência" de um escritor atento e sofrendo com a mudança e a decadencia inevitável dos tempos. A marca Camoniana é forte e Manuel não a esconde, antes a proclama.
Ao contrário de Pessoa, que pretendeu, em MENSAGEM, reler a História de Portugal, Manuel Alegre relê o pulsar da vida num universo em permanente mudança.
Aqui a viagem é passagem, o jardim é o sonho de um espaço que deixou de ser idílico e esconde muita tormenta (aproveite-se para ler a seguir Senhora das Tempestades...) .
A epígrafe dá o tom " Esta é Babilónia, lugar da vossa residência". E segue-se, antes do canto de Manuel, a transcrição do maravilhoso Poema Babilónico da Criação:

"Aquele que tudo viu
aquele que chegou aos confins do país
o sábio, o omnisciente,
que conhece todas as coisas
aquele que leu os segredos
e desvendou o que estava escondido
transmitiu-nos um saber
de antes do dilúvio.

Longo foi o caminho que percorreu.
Quando voltou, fatigado mas sereno,
gravou sobre a pedra
o relato da viagem".

(Epopeia de Gilgamesh,Prólogo)

Este é o sopro profético que leva o nosso poeta a cantar, também ele, o que viu, o que aprendeu, o que lhe foi difícil e finalmente o que o apaziguou, suavizando a relação consigo e com o mundo..Responde a Gilgamesh a par e passo, quase verso a verso, confrontando o seu caminhar com o que outros descrevaram na memória dos tempos.
Cito agora na tradução francesa alguns dos poemas que mais dizem sobre o caminho percorrido:
IN MEZZO DEL CAMINO
1.
"Ta vie est au milieu: ta contradictoire
vie périlleuse passionée.
Changer l'homme ( disais-tu ) Faire l'histoire.
Comment abolir maintenaint le quotidien ?
La jungle est sombre et tu es seul
avec ta guitare et ta mémoire
au milieu du chemin".

O meio do caminho, no meio da vida: a pausa da sabedoria que só não é infinita porque nada é infinito no homem:
3.
...
"Tu es simplement de passage
et ce qui reste de toi est ton absence.

Tu t'assois.
Ta chaise est l'auberge d'un soir.
Te voilà assis sur l'adieu lui-même".

Mas é a palavra que redime, daí a necessidade absoluta da escrita, na pedra da memória.Tal como Celan, outro profeta da eterna transmutação do Verbo no ouro do poema, Manuel Alegre dirá:
8.
"Tu ne te libères que par la parole
par la porte défoncé de la parole
syntaxe désagrégée
blanc espace de solitude

De l'autre côté de la grammaire se trouve la mer
tu verras peut-être ces îles jamais vues

Puis soudain une guitare".

Noutra secção, O Homem Sentado À Mesa, L'Homme Assis À Table - descreve-se o trabalho do poeta, sentado à mesa, diante da folha do papel, percorrendo esse "long chemin de la vie vers le mot". Espera-se atingir o pássaro, aquela figura mágica que nos poemas de Prévert desinquietava as almas juvenis, esperançosas.
O homem sentado à mesa não está parado, caminha por dentro das memórias, das ideias, das palavras que tenta organizar, do vôo de alma que se ergue como um pássaro ao alto, na janela.
Last but not least, parabéns aos editores e ao tradutor.

Friday, January 12, 2007

INEZ WIJNHORST



Uma história bem contada, a propósito da arte de Inez no nosso País das Maravilhas, tem de começar pelo princípio.
Inez trocou a sua Holanda natal, de subtis cambiantes, pela luz mais crua e aparentemente mais pura de Lisboa.
Lisboa onde Fernando Pessoa viveu o seu exílio de alma, Lisboa que quase não é pátria de ninguém que ame verdadeiramente a arte: os que amaram tiveram de fugir. Amadeu foi um deles, Arpad e Vieira da Silva foram outros, a tão celebrada hoje Paula Rego foi crescer e amadurecer para Londres, enfim são muitos os exilados e poucos os escolhidos para a mesa faustosa da celebração.
Mas a aventura de Inez processa-se ao contrário. Ela escolheu, e segue o seu caminho.
Tal como Alice, Inez espreita o que se passa atrás do espelho: o seu olhar detém-se ora nos pormenores triviais da vida moderna, como é o caso em REAL ESTATE ROBBERY, que define como " pisar a fronteira entre privacidade e voyeurismo" ora mergulha na profundidade do inconsciente arquetípico dando-lhe expressão literária e imagética que surpreende pela originalidade da linguagem que propõe. Refiro-me à colecção dos desenhos de UMA HISTÓRIA MAL CONTADA.
Não podendo colocar no blog a série transcrevo a título de exemplo dois momentos, dois poemas, que funcionam em separado se assim quisermos, ou em conjunto se o nosso gosto e a nossa empatia nos levar a construir a nossa história íntima também a partir deles.

" no caminho de A para o B
naquela estrada longa
que une o inferno ao céu
a alegria e a perda, a inocência e a decadência
existem outras histórias
sem limites ".

Esta a escolha dos textos, esta a escolha do caminho, que simbolicamente levará a uma unidade dual e desejada.Porque o segredo e o fascínio da obra de Inez é precisamente que ela reúne opostos e contradições, não exclui, mas descobre e aponta, reinventa e recupera para de novo abrir caminho. A criação é um continuum, nada da sua herança cultural se perde ou se rejeita, os seus desígnios são firmes e são claros, o seu suporte é o dos valores da arte universal.
Também por aqui passa o nosso e dela desassossego : como é Pessoana a sua inspiração...

" quatro meses depois, com
saudades de dançar
procuram casa em Lisboa
e pensam duas vezes
na produtividade e nos mecanismos de flexibilidade
na contaminação genética e na co-incineração de lixos perigosos
no desassossego
e na imposição de horários
(quase ) tudo incerteza.
o futuro, a mediocridade".

Uma discreta ironia a protege, impedindo que se feche naquele autismo complacente de tantos criadores conhecidos, que já nada procuram e por isso já nada mais descobrem. Cadáveres adiados...diria o nosso poeta, o eterno insatisfeito eternamente votado às citações eruditas das efemérides.



Inez Wijnhorst traz um sopro de vida à melancolia dos tempos.
E uma chamada de atenção. JACOBS LADDERS, a série das Escadas de Jacob, de pedras , de cordas, de espinhos que deixarão marcas de sangue, é uma profunda chamada de atenção para os mistérios da vida e da morte: vive-se lutando com o Anjo, morre-se da sua ausencia se não tivermos a coragem de lutar. Este é um forte aviso, um forte apelo à interioridade mística. Ou melhor, mítica, universal, e mística, pessoal.
Assim vai Inez, no seu caminho de cordas e de estrelas.

Thursday, December 21, 2006

Gargantua


Mais histórias e mais imagens para recordar:
Les Albums de SAMIVEL, neste caso o GARGANTUA, segundo Rabelais, ed. Delagrave, Paris 1934.
Ou de como os excessos podem divertir e nós com eles aprender..No capítulo da disciplina de Ponocrates lemos como este estava decidido a mudar a vida de Gargantua mas sem fazer nenhuma revolução, " o que é um mau sistema".O método não era proibir, mas instruir.

Os da Resistencia




Outro livro da minha infância.
Conta as aventuras de dois diabinhos que, no inferno do Sr.Hitler, como é explicado pelos autores ( presos na altura, em 1944 ) pensam na melhor maneira de poderem fugir dali para fora.
"Eux aussi avaient leur Petite Braise - La Flamme de leur coeur- mais elle n'avait hélas ! aucun pouvoir magique, et ne pouvait pas fondre les barreaux de leur prison - de toutes les prisons - comme ils auraient voulu".
O livro foi dedicado , no Natal de 1944, deste modo:
Cet album, édité par C.D.L.R.
"Ceux de la Résistance"
est dédié aux enfants de France, en témoignage
d'une grande épopée.
Noel 1944

A memória de outros, transformada na nossa memória de sempre, não permite que se apague a chama do nosso coração.
Mas com ela precisamos de aquecer também o coração dos que agora nos rodeiam. Não se trata de um dever, mas de um verdadeiro acto de amor.

Contes des Mille et Une nuits



Este livro faz parte das minhas memórias mais antigas.
Enquanto o meu pai me lia a história eu contemplava deslumbrada as imagens.
As imagens ficaram na minha memória.
Naquele tempo um livro assim podia ser encontrado nas livrarias de Lisboa. Refiro-me a um tempo de há muito mais de meio-século.
A edição, de 1930, é da Librairie Delagrave. Mas o livro ainda conserva a vinheta da Livraria Portugalia, da Rua do Carmo.
Estas eram as prendas de Natal que me faziam sonhar e que agora mostro aos meus netos, esperando que os livros venham também a fazer parte das suas memórias felizes.

Thomas More por Hans Holbein jr. 1527



" Uns sentam-se nas tabernas e, no meio dos copos, emitem juízos sobre o talento de quem escreve e com grande autoridade criticam, tanto quanto lhes apraz, quem quer que seja, pelos seus escritos como se lhes puxassem pelos cabelos; eles, entretanto, sentem-se ao abrigo de tudo, e, como se costuma dizer, fora do alcance, pois tão lisos e tão bem barbeados andam em todo o corpo estes homens de boa vida que nem um cabelo têm por onde possam ser apanhados. Alguns são, além disso, tão ingratos que, mesmo quando se deliciam perdidamente com uma obra, nem por isso apreciam mais o seu autor; nada diferem dos convidados sem educação que, depois de terem saboreado largamente um opíparo banquete, partem para casa a arrotar, mas sem agradecerm àquele por quem foram convidados".
( UTOPIA, ed. fac simile 1518, trad. Aires A. Nascimento )

Comentário natural : outrora como agora ?

Thomas Morus



Utopians of the world, pay attention to this splendid fac-simile critical edition of Morus UTOPIA, presented with an Essay by the hand of one of the most eminent scholars and connaisseurs of Humanism and Renaissance, Prof. José V. de Pina Matins, former director of the Educational Department of the Fundação Calouste Gulbenkian.
The present director, Dr. Manuel Carmelo Rosa is now responsible, with great success, for the further development of educational and scientific activities in the Foundation, of which this is a magnificent example. We should be grateful for the dedication and enthusiasm Pina Martins during so many years put in this project.
Last, but not least, let us praise Prof. Aires A. Nascimento, responsible for the critical edition and portuguese translation.
I cannot think of a better gift for the coming NEW YEAR.

Wednesday, December 20, 2006

O Alimento do Graal



No seu quadro " A Virgem do Santo Graal " de 1857, Dante Gabriel Rossetti expõe de forma completa a simbólica da taça da Abundância, espiritual e material, segundo a tradição messiânica de Joachim de Fiore.
O Reino do Graal é o Reino do Espírito Santo, o terceiro reino do mundo, depois dos anteriores que tinham trazido a revelação do deus único, redentor. Neste último reino, do Espírito Santo, se iniciaria a época da abundância, depois de muita carência, não só espiritual, com a degradação dos tempos, como material com as fomes e as pestes que assolavam a Europa.
É no seu LIBER FIGURARUM, o Livro das Figuras, que o visionário descreve o último dos tempos.
A tradição do Graal prende-se a estas visões, não porque os seus autores tenham podido ler o códice, mas porque tais predições corriam, de uma época de abundância em que Deus redimiria o mundo de todo os sofrimentos e injustiças, para sempre, através da manifestação do seu glorioso Espírito.
As doutrinas foram espalhadas sobretudo pelas ordens mendicantes, mais próximas dos pobres e suas necessidades.
Em Portugal, por exemplo, a Rainha Santa Isabel é um dos expoentes da doutrina: veja-se o milagre do pão transformado em rosas;o seu confessor e conselheiro era um padre franciscano.
Já no século XVII veremos o Padre António Vieira pedir, quando preso pela Inquisição em Coimbra, que lhe levassem o Livro das Figuras. Há muita doutrina que ele transpõe para a sua HISTÓRIA DO FUTURO.
E Lessing, no século do Iluminismo, não esquece Joachim de Fiore e o Livro, com a divisão dos três reinos, na sua obra fundamental para o estudo do deísmo alemão, A EDUCAÇÃO DO GÉNERO HUMANO.

Mas recuperemos a fonte, a descrição da cerimónia do Graal, tal como se encontra em Chrétien de Troyes ou em Eschenbach. No primeiro a procissão é descrita de forma breve; entra um jovem com uma lança na mão, branca e esplendorosa, com uma gota de sangue escorrendo pelo fio da lâmina até à sua mão; todos podem contemplar o seu mistério mas Perceval não ousa fazer perguntas, pois tinha sido aconselhado a ser discreto; segue-se depois o graal, nas mãos de uma bela jovem que dois criados antecediam, com lustres de ouro a iluminar a sala; quando ela chegou com o graal, uma enorme claridade se espalhou fazendo empalidecer a luz dos lustres; a seguir a esta jovem entrou outra com uma salva de prata; o graal era de ouro puro, cravejado de pedras preciosas; seguiu-se a lavar ritual das mãos, e a descrição das mesas em que um banquete riquíssimo é servido, enquanto o graal passa várias vezes pelo nosso herói sem que ele pergunte seja o que fôr; a descrição dos alimentos, dos vinohs e das sobremesas do banquete é tão pomenorizada que quase nos faz salivar- algo que acontecia certamente aos que se deliciavam a ouvir Chrétien narrando estas aventuras.
Quanto ao segundo dos autores, Eschenbach, a descrição que nos oferece não é menos significativa: entra primeiro um pagem transportando a lança que sangra; abre-se depois uma porta por onde surgem duas jovens de grande beleza segurando nas mãos candelabros de ouro; seguem-se damas de grande porte e nobreza dispostas em filas de quatro (tendo aqui este número um forte simbolismo, pois representa a perfeição da totalidade);as últimas quatro damas levavam nas mãos uma pedra preciosa que durante o dia o sol penetrava com os seus raios; era uma pedra com reflexos de granada, de grandes dimensões, comprida e larga para servir de tampo de mesa; era nesta mesa que o senhor do castelo era servido;a descrição continua até que chega a rainha, vestida de seda da Arábia e transportando finalmente um objecto "perfeito e ao qual nada faltava", chamado Graal; à roda da mesa onde foi pousado o Graal havia mais de cem outras,com toda a nobreza convidada; procede-se à lavagem das mãos e começa a refeição, constando de vinho em taças de ouro e pão que é trazido da mesa do Graal, juntamente com tudo o que cada hóspede pudesse desejar " comida fria ou quente, podendo repetir à vontade os pratos já comidos, ou pedindo outros novos que não se conhecessem"; haveria de tudo, pois o Graal era "a flor de toda a felicidade; trazia à terra uma tal plenitude de benesses que os seus méritos igualavam ou quase os que se reconhecem como sendo do reino do Céu". Também neste caso a descrição detalhada abre o apetite de quem lê ou quem ouve; tudo era possível de obter pela virtude do Graal.
Alimento físico e espiritual, saciando os desejos do corpo e os sonhos da alma, permitindo a felicidade que o reino do Espírito Santo pela boca dos messianistas vinha prometendo e adiando...

Sunday, December 17, 2006

Saturday, December 16, 2006

Genio e Loucura



Para os estudiosos e curiosos da obra múltipla de Fernando Pessoa recomendo a edição em dois tomos dos seus Escritos sobre GÉNIO E LOUCURA, em recolha e transcrição de Jerónimo Pizarro para a edição crítica que tem vindo a ser publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
O trabalho de J. Pizarro merece os maiores elogios. Só quem não visitou outrora a velha arca, ou agora o espólio na B.N. para agrupar núcleos do mesmo ensaio ou dos mesmos temas, julgará que esse trabalho é fácil e directo, estando os documentos prontos a ser trabalhados para publicação; e omito as dificuldades de "ler" os mss.pois nem tudo o que Pessoa escreveu, antes pelo contrário, está dactilografado. A maior parte dos textos foi escrita à mão, em papéis muitas vezes de acaso, do escritório ou do café - enfim, só um grande amor à obra de Pesoa levará,como aconteceu neste caso, um estudioso a preparar mais volumes de uma edição crítica que tem sido morosa mas cujo resultado final é muito de louvar.
O passo seguinte é o de ampliar a discussão em torno destes escritos , tendo em conta as leituras de Pessoa, (a sua biblioteca) os temas então em moda, a herança de filósofos como Nietzsche , médicos e ensaístas que se debruçaram sobre a ligação entre génio e loucura, problemas de degenerescencia ( como os discutidos por Max Nordau, Freud e outros ) não esquecendo os grandes escritores que Pessoa leu e por vezes cita como cultores do fantástico e do maravilhoso que ele mesmo tenta cultivar, desde a sua juventude.
Um dos textos que logo me chamou a atenção foi o fragmento do conto intitulado THE DOOR : pela imediata relação que estabeleci com THE TURN OF THE SCREW, de Henry James, cuja obra consta da biblioteca de Pessoa.Da discussão da natureza da porta surgiria a discussão da natureza do mal, o mesmo podendo dizer-se da célebre porta do CASTELO DE BARBA AZUL.

Tuesday, December 12, 2006

NATAL 2006



No ano da Famíla.
Sagrada Família, séc. XVIII, Caza de Nossa Senhora da Aurora.

He noite de nascimento,
em que Deos mostrou seu dia.
He noite de gran memoria,
noite em dia convertida,
escuridão consumida
con gran resplendor de glória:
no meio mais luminosa
que no mundo nunca viste,
e de escura, fria e triste,
a mais doce e gloriosa.
Oh noite favorecida
de memorável coroa,
vista de Deos em pessoa,
começando humana vida!
dos anjos todos cercada,
dos elementos servida,
do Padre e Filho escolhida,
do Spirito Sancto espirada!

(Gil Vicente, AUTO DA FÉ )

Sunday, December 10, 2006

O PENSADOR


Sob a égide de RODIN, com o célebre pensador, o poema de um poeta discreto, Américo Gonçalves, que apresenta em SEARA DE PALAVRAS a sua colheita.
Livro de balanço de vida em escrita vivida, oscilando entre pensamento e sentimento, com alguma ironia distanciada como é o caso do poema "Olhares Cruzados".
Em "O Pensador" a reflexão é límpida e não oculta uma certa saudade melancólica, de si mesmo e do mundo, ao gosto de Bernardim ou do Pessoa tardio de alguma poesia rimada.
Eis o poema:

O PENSADOR

O Pensador rejeita obrigações.
Corre o espaço, mas sem meridianos
e sem montes que lhe tolham as ideias.

Quer vadiar sem tempos, nem monções,
contando os dias mas sem pensar nos anos.

Deita-se a dormir sobre as areias
divagando na Luz, fora do mundo.

Vê o tempo, mas nunca o Tempo é Alma,
já que a Alma-Razão vai definhando.

Vê a Causa a morrer no mar profundo
da lava que gorgola fervilhando.

Mas como é Pensador, lá vai pensando.


( Américo Gonçalves, Seara de Palavras, Lisboa, 2006 )

Knights of the Round Table


The Round Table was devised by Merlin " to embody a very subtle meaning. For in its name it mirrors the roundness of the earth, the concentric spheres of the planets and of the elements in the firmament: and in these heavenly spheres we see the stars and many things besides; whence it follows that the Round Table is a true epitome of the universe....When Merlin had established the Round Table he announced that the secrets of the Holy Grail, which in his time was covert and withdrawn, would be revealed by knights of that same fellowship ".
Far from every land, the legend goes on as told now to Perceval, be it Christian or heathen where chivalry resides, kinghts are seen flocking to the Round Table.
With merit and luck they are made companions, and for the love and dedication to their cause they forsake father, mother, wife and children. Their cause is equal to a priesthood one, and therefore quite difficult to be always faithful to. Some will achieve their purpose, some others will have to return to the service of the Round Table instead of reaching the holy realm of the Grail.
Perceval will be the chosen one, something he does not know yet.
Asked about this mistery Merlin answered:
" There will be three shall triumph in this undertaking: two will be virgins, and the other chaste. And one of the three shall surpass his father as the lion surpasses the leopard in strength and hardihood. He shall be held as master and sheperd over all his fellows; and the companions of the Round Table will consume their days in bootless pursuit of the Holy Grail until such time as Our Lord shall send him among them so suddenly as to confound them all".
Merlin than made a magic seat that passed in size and splendour every other.
Then the knights asked if those who sat there unduly would be in danger of their life; Merlin answered indeed, "and on account of the dangers that shall follow on it, it shall be known as the Seat of Danger".

We all know the legend, Perceval will end as King of the Grail, and Lohengrin, his son, will later take his place.
The others will keep on searching for perfection in a world full of dangers and miracles, telling their own stories over and over again, so that the "chain" is never broken, through the centuries.
That is why in some legends about the foundation of masonry we are told it goes back to the Round Table, when in fact the official Anderson's Constitution is dated 1723.
In modern times, I cannot think of anyone else but Wagner to give us a deeper insight into those magical times.
Read and listen to Lohengrin and Parsifal.
We could say that the legends of the Quest are all tales of transformation ( as some of Goethe's, see the Maerchen), and in that sense they belong to our universal, archetypal mundus imaginalis.
East and West have kept in their oral or written traditions such beautiful legendary memories.
No wonder a blogger, in IDIOCENTRISM, has asked for a translation of Bernardim Ribeiro's Menina e Moça, a portuguese "novela cavalheiresca", printed in Ferrara, 1554.
The knights are many, few the chosen, and Bernardim, having written in ancient Portuguese, has had some difficulty to reach the fame of those who wrote in ancient French or English.
Although Eschenbach, in his Parzival, mentions the Portuguese knights as "les plus téméraires" on account of the bravery of their many deeds.

Image taken from a tapisserie after a sketch of Burne-Jones (1833-1898), Birmingham Museum and Art Gallery

Friday, December 08, 2006

Les Demeures Philosophales



De novo Fulcanelli, ou Canseliet por ele.
Repare-se, nesta imagem de um manuscrito do século XV, como as indicações são mais claras do que secretas.
Ao alto da figura podemos ler:
"Busquemos a natureza dos quatro elementos no seio da Terra".
E em baixo:
Aqui começa a Solução dos Filósofos
e se faz o nosso Mercúrio".

A alusão é à natureza primordial, que é necessário conhecer e entender para que se processem as transformações desejadas.
Na parte inferior do vaso hermético temos o par de cuja união nascerá o philius philosophorum e emergindo do vaso o RER figurado nas três flores ainda fechadas, as três substancias com duas partes de uma ( a mesma côr ), e uma parte de outra ( a côr diferente ).

Mais REBIS


Para uma primeira leitura, agradável e com belas imagens, este "florilégio da arte secreta", como lhe chama o autor.