Friday, June 16, 2006

Alexandre O'Neill



AUTO-RETRATO

O'Neill( Alexandre ), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
( omita-se o olho triste e a testa iluminada )
o retrato moral também tem os seus quês
( aqui uma pequena frase censurada...).
No amor? No amor crê ( ou não fosse ele O'Neill )
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito ) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...
( 1962 )


Outra editora de referencia, a Guimarães, onde era alegria e privilégio poder ser editado.
Alexandre O'Neill, com esta obra, oferece à leitura os seus amigos, muitos, de Breton a Michaux, Éluard, João Cabral, os seus pintores, Júlio Pomar, o seu quotidiano e o de um país a adoecer de cansaço de alma, ao gosto de Pessoa, ortónimo e heterónimo que todos líamos naquele tempo, com grande normalidade. Só hoje, tantos anos depois, é preciso fazer "projectos de leitura para as escolas". Naquele tempo lia-se desde pequeno, sem programas especiais, conversava-se nos cafés, nos escritórios dos editores onde muitos se encontravam sem temor de plágios, as ideias eram abertas, circulavam, as imagens davam consistencia às ideias, discutia-se, enfim, vivia-se ainda que por vezes nas entrelinhas de grandes dificuldades.
Alexandre tem poesia certeira: vejam só como o poema SIGAMOS O CHERNE pode ser relido, na sua mensagem actualizada e para quem não aceite "contratos" incondicionais, algo melancólica, pois os tempos, de que noutros poemas ele também se ocupa, "apodrecem", no reino da Dinamarca de marca Portugal.

Deixo-vos com a última estrofe, esperando que procurem a obra de O'Neill, em antiquários, se não for de outro modo, e a leiam por inteiro:

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentindo o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

De um outro humor é a SAUDAÇÃO A JOÃO CABRAL DE MELO NETO:

João Cabral de Melo Neto,
Você não se pode imitar,
mas incita a ver mais de perto,
com mais atenção e vagar,
o que está como que em aberto,
ainda por vistoriar,o que vive entre pedra e terra
e o que é entre muro e cal,
o que tem "vocação de bagaço"
e o que resiste no osso ou no "aço
do osso", mais essencial.

...

De prosaico há-de ser chamado
pelos do "estilo doutor",
cabeleireiros da palavra,
pirotécnicos do estupor,
que dão tudo por uma ária
de alambicado tenor,
que encaixilham a dourado
morceaux choisis de orador,
mas de prosaico não foi chamado
o nosso Cesário Verde?
O lugar comum se repete
aqui ou do outro lado...

...

Prosaico: o não enfático,
o que não mente a si mesmo,
o que não escreve a esmo,
o que não quer ser simpático,
o que é "a palo seco",
o que não toma por outro
mais fácil trajecto
quando está diante do pouco,
nem que seja um insecto.

Já se deixa ver que prosaico,
assim, mal definido,
não é uma atitude
que se arvore ou um laivo,
uma tinta de virtude:
é um modo de ser,
mesmo antes do verso,
mesmo fora do verso,
mesmo sem dizer.

Será neste sentido,
prosaico Melo Neto,
que no poema "O RIO"
cita Berceo:"Quiero
que compongamos yo e tú una prosa" ?
Será no mesmo sentido
de Pessoa-Alberto Caeiro
(outro prosaico, mas desiludido...) :
"...escrevo a prosa dos meus versos
e fico contente " ?

*

Quanto a mim, ainda o bonito
me põe nervoso, o meu canito
ainda tem plumas- e lindas !-
e o emu verso deita-se muito,
não sobre a terra, mas em sumaúmas,
já com bastante falta de ar...

Ó Poeta,
não é motivo para não o saudar !

(1959 )

Reparei, no meu counter, que tenho vários amigos brasileiros consultando o blog, o que me deixa feliz.
Por isso escolhi a homenagem a João Cabral, entre os poemas com endereço do O'Neill.
Vale a pena, em outro momento, trazer aqui Cesário Verde, seu muito preferido, e referir o excelente e sempre actual ensaio de Helder Macedo, publicado na &ETC.

Wednesday, June 14, 2006

Pimenta, read & mad


De novo na &ETC.
Em 1984, a aventura continua.
Em READ & MAD Alberto Pimenta lança mais um desafio: à nossa cultura (discutindo as teorias e práticas de Marcel Duchamp), à nossa inteligência, à nossa sensibilidade.
Revela-se poeta anarquista e alquimista ao mesmo tempo, algo que só os espíritos tacanhos não serão capazes de entender.
Melhor do que Rimbaud, nesta obra que gosto de considerar um "study-case" de alquimia do Verbo, Pimenta une, funde, em gloriosa CONJUNÇÃO, o Verbo de Camões e de Pessoa, transformando em 14 novos poemas a sublimação inspirada dos poemas de que partiu, sem que deles nada se perdesse, mas tudo se transmutasse:
."..e nada mais há a acrescentar além dos exemplos.além dos exemplos mais nada, a não ser o sorriso silencioso em que se anuncia o gozo de finalmente ter chegado a compreender."

E aqui fica um exemplo, deixando-se à sabedoria do leitor o prazer de adivinhar de que poemas, de Pessoa e de Camões, nasceu a Pedra Filosofal oferecida:

" Que poderei do mundo, já querer?
Montes, e a paz que há neles, pois são longe?
Paisagens, isto é, ninguém ?

Tenho a alma feita para ser de um monge
Mas não me sinto bem,
Que naquilo em que pus tamanho amor
Não vi senão desgosto e desamor
E morte, enfim, que mais não pode ser.

Se eu fosse outro, fora outro. Assim
Aceito o que me dão
Como quem espreita para um jardim.

Pois vida me não farta de viver,
Pois já sei que não mata grande dor,
Se cousa há que magoa de maior
Eu a verei: que tudo posso ver...
Onde os outros estão.

Que outros?. Não sei.

Há no sossego incerto
Uma paz que não há,
E eu fito sem o ler o livro aberto
Que nunca mo dirá...

A morte, a meu pesar, me assegurou
De quanto mal me vinha; já perdi
O que a perder o medo me ensinou.
Na vida, somente desamor vi.
Na morte, a grande dor que me ficou.

Parece que para isto só nasci ! "

( Poema XI )

Friday, June 09, 2006

Mais PIMENTA







Em 1977 publica Alberto Pimenta o HOMO SAPIENS, experiência que contou com a colaboração do director do Jardim Zoológico e sua equipa e a ajuda de vários amigos, entre eles Alexandre O'Neill, Almeida Faria, António Tabucchi, Jorge Listopad.
O livro, entregue às edições &ETC. transcreve os comentários atónitos ou nem por isso...dos visitantes do Jardim.
A experiencia foi um desafio à inteligência, à perspicácia, ao humor, ao bom senso, do bom povo português e teria feito as delícias da escola surrealista mais severa.
Pimenta esteve "exposto" no dia 31 de Julho de 1977 entre as 16 e as 18 horas,numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico, gravando os comentários que se iam ouvindo.
Por exemplo:
" -Ó pá, anda cá ver isto! Aqui o macaco é um homem.
-Ó pá, isto é um festival do caraças.Vamos embora, que isto é para nos tramar.
-Ai o macacão! É o homem-macaco! Só lhe falta a mulher-eléctrica .
-Dá-lhe uma banana, pá.
-Aos preços que estão as casas, não admira. Qualquer dia vimos cá parar todos.
-Já me estão a lixar. O gajo está a desenhar, está ali a fazer a caricatura da malta.
...
-Não, ele é racional.
-Mas não fala.
-Vamos mas é embora daqui.
-Ele é português?
-Deve ser estrangeiro.
-Ele que ali está, é porque alguma fez.
...
-Ele também dormirá cá?
-Não, tem as calças bem vincadas, gosta da comodidade.
...
-Ainda há bocado cá passei e quem estava era o gorila.
-Não percebo o que ele quer! Que é que quer dizer 'homo sapiens' ?
-Então, é uma espécie de macaco. É um animal como os outros"

E assim por diante...Vale a pena ler.
Será que hoje algum director, sem medo de afrontar o politicamente correcto, daria autorização ?
Temos o livro, a memória divertida recuperada como um espelho onde nos podemos ver: ah, a matemática, o português, a iliteracia, o discutido eduquês, a cultura clássica em perda, a filosofia também...enfim.
O Alberto Pimenta cá está para nos chamar à ordem.
O HOMO SAPIENS foi, como lhe chamou o director de então, "uma questão de cultura", por isso autorizou a experiência.Ler de novo o livro será isso mesmo: uma questão de cultura.

Alberto Pimenta



A primeira edição foi de 1977.Sucederam-se várias, em Portugal, em Itália, no Brasil.
Esta é de 1987, nas ed. Centelha, de Coimbra.
Espantoso, como o que então nos fazia rir hoje nos faz gargalhar, ainda que com desgosto.Portugal é um país que "divide" os que o amam; qualidade terrível pois atrai e repugna ao mesmo tempo, numa relação perversa e destrutiva.Alberto punha em sub-título ao Discurso.."com notas de Capêlo Filho " (alusão óbvia ao capêlo distintivo dos catedráticos...) "Catedrático de Literaturas Paradas".
Como são certeiras as suas palavras, e mais ainda agora, em que catedráticos ou não nos perdemos pelos corredores do tempo perdido, sem conseguir encontrar nada que valha a pena.
Alberto Pimenta pertence ao escol dos que tiveram e têm voz original, sem complacências, a par de uma erudição inteligente e cada vez mais rara. O SILÊNCIO DOS POETAS, para dar só um exemplo, é uma obra fundadora, de referencia, nas nossas bibliografias.
A sua contribuição para a literatura Experimental, para o exercício da Performance e para uma escrita poética ou de ficção sempre surpreendente, fazem dele um caso muito especial na nossa literatura : o olhar é despojado de intenções que não sejam as de livremente criar ironizando, renovando o discurso crítico ou partindo para uma aventura da alma feita de reflexão íntima, profunda, comovente.
Alberto Pimenta atravessou as ESTAÇÕES que são a marca da vida. Podemos seguir com ele, em boa companhia.

&ETC...



Em 1978, era editada uma obra-prima de Herberto Helder, O CORPO O LUXO A OBRA , com um desenho de Carlos Ferreiro, como já era costume.
A palavra "puxava" a imagem e, vendo bem, não podia haver melhor título: do corpo (que eu entendo como corpo da palavra) nasce o luxo ( o espaço ) da obra; num processo muito semelhante ao dos alquimistas: da pedra ( que como a palavra é substancia ) nasce o espaço ( o brilho ) do ouro.
Herberto Helder abre o livro com uma citação de HÚMUS, de 1966/7 :

"A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
(...)
Sou os mortos- diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu."

E já no interior misterioso do poema do corpo, do luxo e da obra:

"...
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia.Vi
os flancos suados das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas."

E termina: " Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra."

Foi escrito em 22-23-XI-77 e publicado um ano depois.
Deixa no fim, em citação para quem pudesse ler e entender, a transcrição da Tábua de Esmeralda, de Hermes Trismegisto.E conclui, para nós todos, leitores:
" No âmbito das funções e valores simbólicos, o poema é o corpo da transmutação, a árvore do ouro, vida transformada: a obra. O poema faz-se com o corpo, no corpo, de baixo até cima, sagitariamente.Ou num ininterrupto circuito zodiacal."

A referencia ao mistério zodiacal recorda-me o que pretendo ainda fazer : conversar no blog com outro poeta que admiro,
o Alberto Pimenta, também ele na &ETC., também ele com uma voz que é corpo transfigurado.

Fiama




Fiama Hasse Pais Brandão.
Recebe o Prémio da Associação dos Críticos Literários em 2006, que se juntará a um conjunto de outros prémios recebidos pela originalidade da sua produção ao longo de muitos anos.
Quando procuro nas estantes o livro que vou reler é quase sempre com as ediçoes ETC. que deparo, belas, pequenas-grandes edições com capas do Carlos Ferreiro que o Vítor Silva Tavares gostava de associar às obras que publicava.
Trago aos olhos do leitor uma dessas edições, neste caso de Fiama, a peça de teatro" POE ou o Outro Corvo", de 1979, com um retrato seu a abrir o livro.
Outrora, falo assim porque tenho saudade desse tempo, o editor escolhia os seus autores porque apreciava o que eles faziam, viessem ou não a ter sucesso; e as edições eram acompanhadas com carinho: preferia-se a tiragem pequena, e não se "trituravam" restos.Os autores, julgo eu, eram mais felizes.
Celebra-se Beckett agora. Mas porque não encenam os jovens encenadores as peças de teatro que, como as de Fiama, mudaram, a seu modo, a linguagem teatral do nosso tempo? E mais, por que razão nas Escolas de Arte ninguém estuda, ainda que não represente, o que se fez?
Leio, da Poesia 61, Fiama, Gastão Cruz, outros, cuja escrita nunca se interrompeu, mas naquela altura tinha outro sabor: o desafio, a originalidade, a antecipação de um desconcerto que se tornou actual.
Nesta peça, com um actor e três actrizes, todas variantes do mesmo feminino imaginado pelo actor/autor, discute-se o real e o imaginário- discute-se o que é a literatura, para resumir um pouco à pressa.
Não perdeu actualidade, este texto, antes pelo contrário.

Deixo uma sugestão: representem Fiama, fazendo brilhar a obra junto com o prémio...

Wednesday, May 31, 2006

Amores Secretos



A ilustração e a capa são de Mariana Viana.
Buscou no texto os detalhes que mais apelavam à sua imaginação.
Fez um quadro, e a partir do quadro fez a capa. Foi comovente ver como fui lida por outros olhos e outra geração, muito mais nova.

Em Portugal, a aventura da PO.EX



Neste volume dos anos setenta encontramos uma recolha dos textos teóricos e outros documentos da poesia experimental portuguesa que, tal como os outros movimentos do género, floresceu na realidade mais cedo, nos anos sessenta.
Ana Hatherly foi sem dúvida a Musa inspiradora, embora se deva a E.M.de Melo e Castro a elaboração dos organigramas que ele, poeta-engenheiro, se esforçou por deixar como referencia .
Temos assim o que ele chama " A ROTURA de 1960,e a POESIA 61", num dos braços, com o seu:

"radicalismo
semântico/textual

Reformulação de um
discurso outro

Neoplatonismo teorizante."

E no segundo braço a POESIA EXPERIMENTAL, com o seu :

"Radicalismo morfológico
A palavra objecto
O texto matéria
Empirismo sensual
Visualização
Sintaxe combinatória
Uma semântica outra."

Cita, em nota, O PRÓPRIO POÉTICO, eds.QUIRON, São Paulo, como fonte a consultar para um maior desenvolvimento.
Em organigramas seguintes, na deriva da PALAVRA,faz desembocar em arte experimental, nem sempre poesia mas sempre palavra poética, correntes várias que evoluem a partir da tradição oral, da tradição escrita literária, passando por todos os "ismos" conhecidos até à chamada "literatura psicológica" de influencia freudiana (o surrealismo) ou Junguiana com a abertura que ele faz ao inconsciente colectivo, na altura um conceito inovador e muito discutido, sendo hoje plenamente aceite.

Foram muitos os praticantes da Arte experimental, e talvez omita algum, mas sem maldade. Recordo os que conheci e admirei:
Ana Hatherly que, tal como Henri Michaux, deu pintura à poesia, e poesia à pintura, em exercícios de rara beleza.
Melo e Castro, o organizador de ideias, numa época em que fazia falta des-organizá-las para respirar melhor.
Salette Tavares, Musa também ela, autora de formas concisas convidando ao olhar e ao pensamento.
António Aragão, Alberto Pimenta, inspirados e contraditórios, com obra em prosa, em poesia, e com performances que, no caso de Alberto Pimenta, foram sempre exercícios de verdadeira imaginação e criação em liberdade, como agora de novo nos fariam muita falta. A voz de Alberto Pimenta é ao mesmo tempo sábia e irreprimível, quando não explosiva; e o seu olhar é crítico, não separando a experiencia individual da colectiva, com suas amarguras.
Recordo o Alexandre O'Neill e, claro, o Herberto Helder, da Electrónicolírica e de tudo o mais que se segue na sua obra de tão grande fôlego e inspiração continuada.

o poema,cont.e fim




E podemos então concluir, com o poeta:

" mais do que caligrafia, arte da escrita."

""O chinês,língua feita para a caligrafia.A que INDUZ (sublinhado meu), que provoca o traço inspirado."

"Os chineses eram chamados a um outro destino.

Abstrair é libertar-se, desenlamear-se."

"Ser calígrafo como se é paisagista.Em melhor.Na China é o calígrafo o sal da terra."

"Tal como a natureza, a língua na China propõe à vista e não decide."

"Caracteres abertos a várias direcções."

"Toda a língua é universo paralelo.Nenhuma mais bela do que a chinesa."

" A escrita é um comportamento."


Com estas reflexões, que da arte da caligrafia conduzem à Ética do artista, julgo que posso concluir bem.O artista é o mediador entre o Belo,o Bom ( ou justo) e o Verdadeiro.

o poema, cont.

Tuesday, May 30, 2006

H.M. o poema



Da meditação da imagem, surge o poema; deixo-o digitalizado, em toda a extensão, para que se faça de Michaux uma fiel leitura.

Monday, May 29, 2006

H.M.Continuando

" Passagem.
Venceu o gosto de esconder. A reserva, a prudencia, levaram a melhor, a contenção natural, a instintiva tendencia chinesa de apagar os rastos, evitar pôr-se a descoberto.

Venceu o gosto de esconder.
Assim o escrito ficou protegido, secreto; segredo entre iniciados.

Segredo difícil,demorado, difícil de partilhar, segredo para fazer parte de uma sociedade no interior de uma sociedade.Círculo que durante séculos e séculos permanecerá no poder.Oligarquia dos subtis.

O prazer da abstracção levou a melhor.
O pincel permitiu o passo, o papel facilitou a passagem.

O real original, o concreto e os sinais que lhe eram próximos, eram algo de que se tornara possível abstrair sem dificuldade; abstrair, avançar, depressa com traços escorregando sem resistencia no papel, permitindo um outro modo de ser chinês.

Abstrair-se tinha levado a melhor.
Ser mandarim tinha levado a melhor."

Michaux,Ideogramas



" Ideogramas sem evocação.

Caracteres variados que nunca mais acabam.
A página que os contém: vazio dilacerado.
Dilacerado por múltiplas vidas indefinidas.

Houve contudo uma época em que os sinais ainda eram falantes, ou quase, já alusivos, mostrando, mais do que coisas, corpos ou matérias, antes grupos, conjuntos, expondo situações.

Houve uma época.E houve outras. Sem tentar simplificar, nem resumir, cada uma delas entregue à missão de desconcertar por conta própria, puseram-se a baralhar as pistas, a manipular os caracteres de modo a afastá-los ainda mais da legibilidade primitiva."

Henri Michaux



Em 1975 as edições FATA MORGANA publicam, de Henri Michaux, IDÉOGRAMMES EN CHINE.Por este pequeno livro passa o saber e a poesia de uma língua, a chinesa, que é a língua viva mais antiga do mundo.
Para Michaux poeta e pintor o fascínio é duplo.Nos ideogramas chineses contemplam-se as imagens, soltam-se as palavras-pensamento.

"traços em todas as direcções.Em todos os sentidos virgulas, caracóis, ganchos, acentos, aparentemente, ao alto e em todos os níveis.Desconcertantes arbustos de acentos.

Rascunhos, fracturas, princípios subitamente interrompidos.

Sem corpos, sem formas, sem rostos, sem contornos, sem simetria, sem um centro, sem evocar nada de conhecido.
Sem regra aparente de simplificação, unificação, generalização.
Nem sóbrios, nem limados, nem despojados.
Tudo como que espalhado,
é assim a primeira aproximação. "

Thursday, May 25, 2006

E Mais Ary




Ary dos Santos passa da exclamação jocosa (mais séria do que pode parecer) de um poema como POETA CASTRADO, NÃO! a uma suavidade melancólica, mística, que surpreende quem se habituou à sua produção mais crítica.Deixo uma estrofe do primeiro exemplo,reproduzindo na imagem o poema de inspiração franciscana, em que invectiva o santo:CANTO FRANCISCANO.

Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lanzudo
publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
poeta castrado, não!

....

Mais Ary

SONETO PRESENTE

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que fôr o meu.

Sunday, May 21, 2006

Ary, II

Ary dos Santos viveu o surrealismo de Cesariny, não gostou do movimento concretista e ironiza deixando recados-jocosos a alguns seus contemporâneos.
Mas a outros presta homenagem poética em estrofes que são de rima sincera:
"...
Mas há coisas que se puxam
que não podemos saber
coisas que nascem estrebucham
antes de alguém as dizer:
Viva o Zé Gomes Ferreira
quando inventa uma roseira.
Viva o Manuel da Fonseca
quando nos fala da seca
e viva o Miguel que outorga
ar livre mesmo que morda.

E tu e tu que me pões
um mago dentro da cama
filho do pai de Camões
Mário de Rosas e lama
Cesariny Vasconcelos
nomes que a choldra não grama
porque tu não vais com eles
e ficas em verda rama
tocando no bolso esquerdo
os nomes de quem te chama.

Só é poeta quem perde
o corpo de quem mais ama
-Isto o dirá em verdade
o grande Eugénio de Andrade."

Nesta BREVÍSSIMA ANTOLOGIA DA POESIA COM CERTEZA são ainda "louvados" Alexandre O'Neill, Pacheco, José Régio, Natália.
Tudo poderá ser lido em RESUMO.

Saturday, May 20, 2006

Ary dos Santos


Encontro em RESUMO um pouco da sua voz, que o Fernando Tordo mais tarde iria cantar.
E já nesse tempo, que parece tão antigo, de tão esquecido, o amor pela poesia brasileira.
Aqui fica, para leitores futuros, O GUARDA CHUVA (CARTA CIRCULAR), de José Carlos Ary dos Santos ao João Cabral de Mello Neto, que cita em epígrafe:

"não há guarda- chuva contra o poema"
João Cabral de Mello Neto

O GUARDA CHUVA


Chovem protestos palavras
dramaturgos e profetas:
a chuva dos manifestos
fecunda a horta das letras.
Chovem bátegas de sílabas
chovem doutrinas e tretas
chovem ismos algarismos
que numeram os poetas.

Chovem ciências ocultas
chovem ciências concretas
e nascem alfaces cultas
para poemas-dietas.
Chovem tiros de espingarda
chovem pragas e lamentos
e cresce a couve lombarda
nos quintais do sentimento.
Chove granizo política
dum céu carranca cinzento
constipa-se logo a crítica
que se mete para dentro.
Chovem as poetisas símias
da menina flor dos olhos
surgem canteiros de zínias
salpicados de repolhos.

Chovem as mulheres a dias
com os sonetos nas curvas
lavadeiras de poesia
em barrela de águas turvas.
Chove uma chuva de pedra
chovem astros em cardume
há uma erva que medra
com este estrume de lume.

Medra a erva do talento
medra a baga do azedume
não há erva que não medre
nas estufas do ciúme.
Chove uma chuva miúda
que é chuva de molhatolos
sai o poema taluda
e saem rimas nos bolos.

Para o poeta que chova
por dentro,em razão inversa,
forçoso é ter guarda-chuva
contra a palavra perversa
que foi um chão que deu uva
e hoje só dá conversa.


Escolhi para ilustrar este poema um desenho de JÚLIO CAPELA publicado no último número da revista de Cultura MEA LIBRA ao cuidado de Maria João Fernandes, que felicito, deixando também um abraço ao Director, Fernando Canedo.

Klee, O equilibrista


O EQUILIBRISTA é um quadro de 1923.Anos felizes.
Por uma associação, que no blog tem de ser permitida, lembro-me agora de O DESEQUILIBRISTA de M.S.Lourenço.Esses anos 60 também eram felizes, para quem via publicada a sua poesia. Os editores liam os autores, e a obra não era tratada como produto de mercearia,vendida ou não ao balcão.

Friday, May 19, 2006

Paul Klee


Ao grupo fundador do movimento BAUHAUS leva Paul Klee a sua sensibilidade musical (estudou piano desde criança) muitas vezes transpondo para a sua pintura a ordem, o equilibrío, a harmonia, ou mesmo um exercício como o da "Fuga", que conhecia por força dos estudos musicais.
A busca da forma e da côr era para ele o equivalente da busca da forma e do som nos compositores.O que para ele se desenvolvia no espaço, desenvolvia-se para os outros no tempo.
Mas era idêntico o processo da busca sempre em curso, surpreendente, inacabada ou aberta, como muitas das suas obras.Havia matemática estruturando a obra, como há matemática na elaboração musical. E havia pensamento filosófico, e psicológico, ou não fosse já Freud conhecido na sociedade culta mais avançada.
Enquanto em Berlin uma pléiade de artistas discutia e apresentava a sua visão inovadora, Robert Musil, austríaco que a guerra levaria para a Suiça apresentava, em O HOMEM SEM QUALIDADES, uma sociedade a caminho do abismo da qual emergia um novo ser, aberto (daí sem qualidades) um homem "em formação" a que a utopia do andrógino viria a dar forma final.
Enquanto se aguarda, pela mão de JOÃO BARRENTO, a tradução desta obra-prima, deixo uma imagem alusiva a esse inacabamento tal como Paul KLEE o concebeu.
Pode ser encontrado no magnífico volume PAUL KLEE, THE NATURE of CREATION,Hayward Gallery,London, 2002.
Chama-se L'HOMME APROXIMATIF (1931).

Hein Semke


Neste busto intitulado O POETA (c.1949), anota o crítco que "para além de um simples gesto de relação com a vida parece explanar-se o modo como ela se estabelece, serena e simples."

As grandes mãos, a força da criação, seguram uma flôr encostada à cabeça, (a estrela, sede da imaginação):

"Pondo em simultâneo a flôr, motivo estético e natural, a cabeça, lugar de construção mental e poética do mundo ...esta imagem torna-se categórica afirmação do individualismo..."

( in Catálogo da Exposição de homenagem a Hein Semke, Esculturas, 1899-1995, no Museu de José Malhoa )

Para além das notas críticas,o desejo expresso em luminosas palavras, que Teresa Balté, sua mulher, evoca:
" QUE DO TU PARA O TU A LUZ BRILHE...Hein Semke..Há chamas que nunca mais se apagam".

Aqui neste Maio, a minha fraterna lembrança.

Wednesday, May 17, 2006

G.Benn III



NÃO PODE SER LUTO

Nessa cama pequena, quase de criança, morreu a Droste
(pode ver-se no museu dela em MEERSBURGO),
neste sofá Holderlin, na torre, em casa de um marceneiro,
Rilke, George, lá foram em camas de hospital, na Suiça,
em Weimar os grandes olhos de Nietzsche
pousavam numa almofada branca
até ao último olhar-
tudo isso tralha velha agora, ou que se foi de vez,
indefinível, apagada
na ruína indolor e eterna.

Trazemos em nós sementes de todos os deuses,
o gene da morte e o gene do prazer-
quem os separou: as palavras e as coisas,
quem os misturou: tormentos e o lugar
em que se acabam, madeira com fiozinhos de lágrimas,
sede mesquinha de horas breves.

Não pode ser luto.Longe demais, além demais,
intocáveis demais a cama e as lágrimas,
nem não, nem sim,
nascimento e dor física e crença,
uma ondulação, anónima, um deslizar,
algo de supraterreno, a fazer-se sentir no sono,
agitou cama e lágrimas-
trata de adormecer !

(trad. V.Graça Moura)

Veja-se a memória e saudade de uma cultura sempre presente nos grandes artistas : são humildes, na sua arte, reconhecem os outros, não permitem que os tempos os transformem em "tralha velha", mesmo que a isso aludam. Nesta lista de saudade falta Goethe, que é evocado num outro poema como sábio universal.
E deixem que termine com um elogio à antiga O OIRO DO DIA, do Porto, que pela mão de JOSÉ DA CRUZ SANTOS deu sempre voz aos melhores poetas do mundo, viessem de onde viessem poemas e convicções.

G.Benn, II


Embora um dos poemas de Benn que vou transcrever se inspire em Matisse, na realidade as imagens com que ele conviveu, como médico e como médico militar, estão mais próximas de um pintor expressionista como MUNCH e o célebre GRITO; mas eu escolho aqui MORTE NA CÂMARA DA DOENTE, um óleo de 1895. É apesar de tudo menos doloroso, no silencio suspenso, do que a descrição feita por Benn de uma sala de partos onde muitas mulheres pariam em sofrimento e outras certamente morriam.

SALA DAS MULHERES DE PARTO

Mulheres mais pobres de Berlim
-em quarto e meio treze filhos,
reclusas, putas, marginais-
gemem aqui, ventre a torcer-se.
Em parte alguma se uiva assim.
Em parte alguma à dor, desdita,
mais indiferença pode ver-se,
aqui há sempre algo que grita.

'Mulher, avie-se! Tá a perceber?
Não está aqui para o prazer.
Nem deixe as coisas arrastar-se
se nesse parto vai borrar-se!
Não está aqui para o descanso.
Não vem por si.Dê-lhe um avanço!'
Ei-lo: pequeno e arroxeado.
De fezes e mijo vem untado.

De onze camas, sangue e choro,
sai gemedeira em saudação.
Só de dois olhos rompe um coro
de aleluias que ao céu vão.

Tudo esta peça de carne há-de
conhecer: dor, felicidade.
E se o estertor um dia exala
inda há mais doze nesta sala.

(trad.Vasco Graça Moura)

Do realismo cru evolui Benn para uma forma de expressão mais discreta e sofisticada, embora sem nunca perder o sentido da realidade e da experiencia de vida : também os erros ajudam à sabedoria.

CAMPO DOS INFELIZES

Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.

A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.

E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo.

(trad.V.Graça Moura)

HENRI MATISSE:ASPHODÈLES

Ramos-mas as folhas faltam,
Vasos-mas como urnas dilatados
Asphodelos
a Proserpina dedicados.

(trad. V.Graça Moura)

Tuesday, May 16, 2006

Gottfried Benn


Vasco Graça Moura, 50 poemas de Gottfried Benn, Porto, s.d.

Belíssima tradução de GOTTFRIED BENN ( como todas as que Vasco Graça Moura nos tem oferecido ) e que recordo porque passam em 2006 cinquenta anos sobre a sua morte, em Berlin, cidade onde se tinha fixado de novo depois do fim da guerra, continuando a escrever e a exercer clínica como médico militar, que fora a sua profissão.
Como diz Graça Moura, no prefácio, as ideias de Benn e as suas posições políticas "conferem-lhe traços antipáticos" que são resumidos por Michael Hamburger em REASON AND ENERGY:STUDIES IN GERMAN LITERATURE.
Para Benn era incontestável a existência de um POEMA ABSOLUTO, o POEMA SEM FÉ, o POEMA DIRIGIDO A NINGUÉM, como se o absoluto residisse exclusivamente na voz e no labor de quem o escrevia.
Gottfried Benn pertenceu à geração de um Pessoa, de um Valéry, mas conserva na sua poética os traços de um Expressionismo radical e na verdade ultrapassado, ao tempo, pelos Modernistas e post-modernistas, que romperam precisamente com o sistema fechado da Ideia absoluta, ou Poema absoluto.Entretanto acontecera o surrealismo, a segunda guerra mundial e acima de tudo a voz pungente, o apelo da escrita-memória, de Celan.
G.Benn interrompe a escrita a partir de 1936, quando ainda saem os POEMAS ESCOLHIDOS, e retoma a publicação da sua obra em 1948,com POEMAS ESTÁTICOS.

Aqui fica um poema que destoa do realismo cru de muito do que escreveu, mas condensa o mais interessante:o vôo da palavra.

PALAVRA,FRASE

Palavra, frase - E as cifras falam
a vida vivida, súbito sentido,
o sol estaca, as esferas calam,
tudo se concentra a ela volvido.

Palavra - um brilho, um voo, um fogo,
um jacto de chamas, de estrelas um traço -
em redor do mundo e de mim há logo
o escuro medonho no vazio espaço.

Sunday, May 14, 2006

Octavio Paz, Renga


Em 1969 houve quatro poetas que se reuniram num pequeno hotel da Rive Gauche de Paris : Octavio Paz, Charles Tomlinson, Jacques Roubaud,Edoardo Sanguinetti.
Fechados no sótão, escreveram durante quatro dias um poema colectivo em inglês, francês, italiano e espanhol, composto por quatro séries de sete poemas cada um.
Escolhi o poema de Octavio Paz, escrito inteiramente por ele, e que fechará bem o ciclo que aqui tenho deixado :

RENGA (I, 7)

"Calina respiración de la colina.
Bajo sus arcos duerme la noche,
arden las brasa.

Peregrinación serpentina:
la boca de la gruta, lápide que abre,
(abracadabra), la luna.

Entro
en la alcoba de párpados: los ojos
-hamam de los muertos- lavan las imágenes.
Resurreccion sin nombre propio:
soy un racimo de sílabas anónimas.

No hay nadie ya en la cámara subterránea
(caracola, amonita, casa de los ecos)
nadie sino esta espiral somnílocua,
escritura que tus ojos caminantes,
al proferir, anulan

-y te anulan, tu mismo
caracola, amonita, cuarto vacío : lector."


A pintura que ilustra o post é de CHU TA ( 1626-1705 ) : RAMO DE ÁRVORE.
Escreve François Cheng, a seu propósito: " ...trata-se antes de um corpo vivo, com a sua ossatura, a sua musculatura, o nó poderoso das suas articulações.Ramo transformado em braço, ombro, coxa, joelho : incarnação mágica do inanimado."
In L'ESPACE DU RÊVE,Paris, 1980.

Jorge de Sena

Traduzindo BASHÔ.

"Quebrando o silêncio
do charco antigo a rã salta
n'água - ressoar fundo.

Qual velha sem dentes
a cerejeira sem folhas
juvenil floresce.

Mal pensas na morte
que cedo espreita: as cigarras
cantam no arvoredo.

Primavera: até
montes sem nome se enfeitam
de véus matinais.

Bendito este vale
onde o vento suave cheira
vagamente a neve.

...

Alta brilha a lua
enquanto o verme escondido
a castanha rói."

Reckert, sobre a poetica da Asia Oriental


"As duas grandes línguas de cultura da Ásia Oriental caracterizam-se por uma ambiguidade imanente que, ao mesmo tempo que faz de todo o significante um meio para a expressão de significados plurais, faz também das línguas mesmas aquilo a que o outrora célebre MacLuhan designou como COOL MEDIA : quer dizer, para serem inteligíveis exigem da parte de quem recebe a "mensagem" uma activa colaboração no seu deciframento. Mas além desta tendencia inerente, a tradição literária tanto do chinês como do japonês tem cultivado sistematicamente a ambivalência (ou melhor a plurivalência) como recurso estilístico consciente. É difícil não interpretar isto como uma convicção filosófica de que nenhum significante poderá jamais reproduzir totalmente o significado a que pretende corresponder, e que portanto é inútil tentar forçá-lo a atingir essa meta quimérica. Trata-se de uma desconfiança que pode ser rastreada até à doutrina semiótica do sábio taoísta ZHUANG Zî, no século IV a.C. :
'A rede serve para prender o peixe: prende o peixe e esquece a rede; a armadilha serve para prender a lebre:prende a lebre e esquece a armadilha; as palavras servem para prender ideias: compreende a ideia e esquece as palavras.Quem dera encontrar alguém que tenha esquecido as palavras, para conversar com ele! ' "

( Stephen Reckert, BASHÔ E A ARTE DO INACABADO, in UMA RÃ QUE SALTA, Homenagem a Bashô, ed Limiar, 1995 )

Murilo Mendes


Murilograma a Bashô

O grito gris
Das aves altas
Com seu realejo.

Mira estas flores gigantes
Arrumadas em Ikebana:
São sólidas que nem cadeiras.

As hastes do boi
Majestosas determinam
O ritmo do seu andar.

O diamante despertou
Quando sentiu infiltrar-se
O braço branco da lua.

A flecha voa no ar:
Desce, porta uma mensagem
Da minha amiga giróvaga.

O habitante de Hiroshima
Aponta a nuvem no céu
E chora.

( Roma, 1964 )

Eugenio de Andrade, homenagem a Basho...

"As cigarras ardem
nos ramos do verão
como lenha verde.

Um rumor pueril
e doce de abelhas
enganava a sede.

No cimo da torre
da praça mais branca
é que o sol se despe,

e dança dança dança."

Homenagem a Basho I



Adoeço na viagem
meus sonhos vagueiam já
nesses campos secos.
(B.)

UMA RÃ QUE SALTA foi o título dado a uma pequena antologia de poemas de Bashô e de poemas inspirados por ele, em 1995, na ed.Limiar do Porto, iniciativa de um poeta nortenho, Egito Gonçalves, que também colaborou na edição.Ei-lo aqui em diálogo com Bashô:

Uma rã mergulha.
Um velho tanque.
Ruído de água
(B.)

No som
do poema
outra rã mergulha.
(E.G.)

Stephen Reckert escreve sobre BASHÔ E A ARTE DO INACABADO:
"A poesia mais célebre da língua japonesa é um haiku do mestre supremo desse género supremamente condensado, Matsuo Munefusa (1644-94)- Bashô de seu nome poético.

O velho charco...
som da água
onde a rã mergulha

"Não raro o próprio haiku faz ondas concêntricas no subconsciente do leitor. ..O inesperado mergulho da rã ensina que além de superfície o charco é também profundidade.
Em quase todas as línguas existem micropoemas- seguidillas e solares andaluzas, quadras portuguesas, robaiyat persas, ...mas o laboratório em que a micropoesia tem sido submetida ao longo dos últimos treze séculos ao mais aturado e contínuo estudo e cultivo é o Japão.
A preferencia por estrofes de três ou cinco unidades reflecte a aversão pela simetria e a regularidade ( consideradas óbvias e pouco subtis ) sendo reconhecida como uma das bases permanentes da estética japonesa, diferenciando-a da chinesa" (S.R.)

Um monge do séc.XIII, KENKO, justifica o elegante desprezo dos japoneses pela regularidade e a simetria como a outra face da estima pelo fragmentário e o inacabado, observando:" deixar qualquer coisa incompleta dá a entender que há espaço para crescimento".
Esta é uma lição que serve românticos tanto quanto modernistas ou surrealistas, pois deixa a porta aberta à imaginação de quem cria, é certo, mas igualmente de quem se "deixa criar ou recriar ao ler,ver ou ouvir o poema assim oferecido.

Este pequeno livro, só no tamanho, ficou a dever-se ao amor de Casimiro de Brito e Stephen Reckert pela poesia da Ásia Oriental; as ilustrações deste e dos posts seguintes são as caligrafias de YUKIE KITO dos poemas de Bashô.
Foi uma iniciativa do PEN Clube Português, a que se podia ter seguido a versão inglesa dos poetas incluídos, pois numa época de imperialismo linguísitico de que não se escapará o que não for traduzido não será divulgado como seria desejado por parte dos poetas.
É certo que cultivam a FORMA ABERTA, mas tal não implica que não desejem ser lidos, mais do que simplesmemte conhecidos.
Deixo aqui em homenagem o meu contributo para esta belíssima arte:
No velho portão da alma:
o ferrolho bem fechado
(2013)

Thursday, May 11, 2006

Joan Brossa


Não houve artista ou movimento criador a que João Cabral não dedicasse especial interesse, amizade ou carinho.
É o caso de Joan Brossa, o poeta catalão que se torna criador de pinturas poemas, objectos, instalações por onde se passeia um público que vê nele, desde as primeiras experiencias poéticas de 1940, a força visual da imagem ultrapassando a fronteira do limite conceptual, seja ele qual for.Interessou-se primeiro pelo surrealismo e sua magia, passa para uma prática de quotidiano "alterado", ou não seria poético, evoluindo já a paritr da década de 70 para o que os críticos definem como"forma idónea de conectar a verdade psíquica com o símbolo"( Pilar Palomer)
Brossa rompe com as convenções da linguagem, e por aí dele se aproxima decerto igualmente João Cabral.
Experimental, vanguardista, são termos que o enquadram bem, mas teremos sempre de recordar que não é o acessório que para ele importa, e apenas o que surge de dentro, com força e imposição própria.
Escreve Brossa: " Para que seja eficaz, a imagem poética deve vincularse à consciencia obscura...se não for assim converte-se em cabeleira postiça retórica e aborrecida...A mensagem, seja ela qual for, deve sair de dentro, e não como algo que se acrescente."

Em PAISAGENS COM FIGURAS (1954-1955 ) dedica João Cabral um belo poema a Brossa:

Fabula de Joan Brossa

Joan Brossa, poeta frugal,
que só come tomate e pão,
que sobre papel de estiva
compõe versos a carvão,
nas feiras de Barcelona,
Joan Brossa,poeta buscão,
as sete caras do dado,
as cinco patas do cão
antes buscava Joan Brossa,
místico da aberração,
buscava encontrar nas feiras
sua poética sem-razão.
....
....

(deixo o resto para quem tenha mais curiosidade e queira continuar a ler, por si próprio).

E MAIS PEDRAS de Joao Cabral, cont.

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impesoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistencia fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra ( de fora para dentro,
cartilha muda ),para quem soletrá-la.

***

Outra educação pela pedra: no Sertão
( de dentro para fora, e pré-didáctica ).
No Sertão a pedra não sabe leccionar,
e se leccionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


João Cabral, se não conheceu, gostaria de ter conhecido o Guillevic das pedras de Carnac, o que vê nelas um imperativo de carácter, como o nosso poeta brasileiro vê nelas a permanencia da condição humana, inalterada, inalterável.
A Educação pela Pedra faz-se pela moral, rígida, e pela ossatura concreta do poema na carne e no papel. É uma cartilha difícil a que nos é oferecida, se não mesmo impossível, na plena exaltação das práticas experimentalistas e quase libertárias.O exemplo do Sertão já é algo diferente: aqui o ser humano virou pedra, é essa a sua tremenda condição.

Podia agora sugerir que lessem, na mesma Educação pela Pedra, o surpreendente, ou talvez não, poema alquímico por excelência neste conjunto de João Cabral:

FAZER O SECO,FAZER O HÚMIDO

E Mais Pedras...

João Cabral de Melo Neto, o visionário, só por acaso Engenheiro...

PEQUENA ODE MINERAL

Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.

Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,

informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.

Tua alma foge
como cabelos,
unhas humores,
palavras ditas

que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.

Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.

Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.

Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.

Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,

pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.

Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silencio puro,

de pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que a ausencia
que as vozes ferem.

(in O ENGENHEIRO )

Joao Cabral de Melo Neto,Obra Completa, 1994


HOMENAGEM A PICASSO

O esquadro disfarça o eclipse
que os homens não querem ver.
Não há música aparntemente
nos violinos fechados.
Apenas os recortes dos jornais diários
acenam para mim como o juizo final.



A ANDRÉ MASSON

Com peixes e cavalos sonâmbulos
pintas a obscura metafísica
do limbo.

Cavalos e peixes guerreiros
fauna dentro da terra a nossos pés
crianças mortas que nos seguem
dos sonhos.

Formas primitivas fecham os olhos
escafandros ocultam luzes frias;
invisíveis na superfície pálpebras
não batem.

Friorentos corremos ao sol gelado
de teu país de mina onde guardas
o alimento a química o enxofre
da noite.


( in PEDRA DO SONO )


A MESA

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto, ainda leve, quente

e fresco como o pão.

( in O ENGENHEIRO )

COEUR D'AMOUR...


LE COEUR D'AMOUR ÉPRIS, é a reprodução integral en fac-simile das miniaturas do Codex Vindobonensis 2597 da Bibliteca Nacional de Viena ( ed. Philippe Lebaud, 1981 ).
O texto de René d'Anjou, célebre no seu tempo, já talvez só interesse, como dizem os editores, aos medievalistas. Mas as miniaturas que o ilustram são consideradas ainda hoje como as mais belas que se possam conceber para exprimir a relação de amor.
Representam dezasseis étapas de um percurso amoroso que ficou inacabado; há páginas em branco que deviam continuar a ilustração começada.
É um livro que nos faz regressar ao tempo da Cavalaria Medieval, e do amor escondido por damas que exigiam corações valorosos antes de se entregar.René d'Anjou morreu em 1480,e uma parte do reino em que nascera, a Provença, um ano depois é integrada na França. Daí a homenagem que neste livro se lhe presta, pela mão do Curador e outros especialistas, na edição do fac-simile.
Marie-Thérèse Gousset, Doutora em História de Arte, comenta as miniaturas e resume a acção em que se inscrevem; e pode continuar a explicar a narrativa através de um outro suporte, o do manuscrito de Paris ( Ms. fr. 24399-B.N. Paris ). Assim vamos nós percorrendo, por sábias mãos, que amam a literatura e a arte, todo um panorama da QUÊTE ( a palavra Busca ou Procura não dá o sentido integral da Quête ) religiosa, espiritual, e amorosa com o seu carrego de sofrimento, tanto quanto de alegria e prazer; idealismo e cinismo, diz a crítica, convivem lado a lado.
O livro fecha com um conjunto de poemas próximos do tom do COEUR D'AMOUR ÉPRIS.
René d'Anjou define a obra como conjunto de Parábolas, dando assim a entender que existe uma carga simbólica a decifrar.A utilização de enigmas e parábolas que escondem ao mesmo tempo que de verdade revelam ( vemos o mesmo nos Fiéis de Amor ) é algo de comum na literatura cortês.Mas também se assiste, como será o caso, à transposição da matéria dos sonhos. E isso dá uma dimensão universal ao conjunto artístico oferecido.
René, adormece e tem um sonho que narra: vê-se como cavaleiro CORAÇÃO, correspondendo aos imperativos do Desejo, e disposto a enfrentar todos os nobres da Távola Redonda, se tal fôr necessário: Lancelote, Gawain, Galaad, Tristão...
Assim começa a aventura.

Tuesday, May 09, 2006

G.KUNERT


Em 1983, um grupo de amigos germanistas decidiu dar a conhecer ao público português, com alguma regularidade, a poesia alemã do século XX.
GUNTER KUNERT foi um dos escolhidos, e na ed. Apáginas tantas, com ilustrações de Mário Botas, fez-se a 1. edição de 90 poemas.
O poeta nasceu em Berlin em 1929, e pode dizer-se que toda a sua vida foi dedicada à poesia.É considerado um dos autores da ex-RDA, mas a partir de 1979 é na Alemanha Federal que o encontramos a viver e a escrever.
No primeiro bloco de poemas, intitulado Recordação dum Planeta,escreve ele "Sobre alguns que escaparam" (referindo-se ao outro lado do sofrimento, o daqueles que também foram vítimas da destruição causada por uma guerra insana).

" Quando o homem
Foi retirado
Dos escombros
Da sua casa
Bombardeada,
Sacudiu-se
E disse: Nunca mais.

Pelo menos não já."

É bom ver que há sempre dois lados na moeda terrível dos confrontos sangrentos, antes de se fazerem juízos de valor que serão injustos se forem alargados e radicais.Com estes poetas da geração que fala, em vez de calar uma culpa secreta que não têm, se desenha de novo um caminho que é, no dizer de Kunert, para mais do que nós todos, um caminho que ambiciona erguer já um futuro.

"Para Mais do que Eu"

Sou aquele que busca
Um caminho.
Para tudo o que é mais
Do que
Metabolismo
Circulação sanguínea
Alimentação
Decomposição das células.

Sou aquele que busca
Um caminho
Que é mais largo
Do que eu.

Não demasiado estreito.
Não a via-de-um-homem-só.
Mas tampouco
A poeirenta estrada
Mil vezes percorrida.

Sou aquele que busca
Um caminho.
Um caminho para mais
Do que eu.

Monday, May 08, 2006

Donizete Galvao




MUNDO MUDO é o mais recente livro de Donizete Galvão (São Paulo,2003), ilustrado com desenhos a tinta de Rogério Barbosa, que ganhou o prémio Gunther de Pintura em 1994.
O meu encontro com Donizete deu-se através do comum amor pela poesia de Paul Celan, mas sou hoje uma leitora fiel do que ele escreve e me vai mandando.
A sua obra poética é publicada desde 1988, sendo logo reconhecida e premiada com o Prémio APCA de autor revelação. Mas a obra define-se pela continuação e não apenas pelo arranque, ainda que já distinto e merecendo distinção.Li com especial prazer DO SILÊNCIO DA PEDRA (1996 ) e A CARNE E O TEMPO (1997 ), entre outros dos seus livros.
Neste MUNDO MUDO, a epígrafe é de Paul Celan :
" Mudo o que entrou
na vida, mudo."

Toda a poesia, como a vida, é feita de mudança. Camões também passa por aqui.Na primeira série, A NOITE DAS PALAVRAS, é patente uma amargura que o olhar simples das coisas simples, noutros poemas, não consegue apagar:

Lady Macbeth

"Que vê
quando me vê?
Um cão,
um ladrão,
um osso,
um fosso,
um traste,
um rapaz
de olhos tristes?

Que diz
a aspereza
das palavras
em ira?
Boa sorte,
boa morte,
fica na tua,
que a serventia da casa
é a porta da rua ? "


Lembrança de Severo Sarduy

" Quando se fere
com a tesoura
a haste
da manga,
escorre
o líquido,
visco
oloroso
que prenuncia
nas ventas
o gozo.
Antecipação
do paraíso
na tarde calorenta
do suco de manga
gelado
que desliza
pela garganta."


No ciclo dos HOMENS SEM MORADAS, caminhando já para o fim do livro, o Crepúsculo, que antecede o Mundo Mudo, o mundo em que de tanto falar (que não é o mesmo que dizer ) e tanto comunicar o que acontece é a noite da solidão e do silencio,surge a imagem da Besta do Apocalipse:

" Este é o espaço da Besta triunfante.
Uns trazem o peito marcado por seus cascos.
Outros, de fora, imploram para ser pisoteados."

Não é preciso que chegue o fim do mundo para que a Besta nos atormente.Esse tormento pode ser aquele a que todos os dias assistimos, sem poder fazer nada. DIZER é então importante, imperativo, para que o mundo não emudeça de vez à nossa volta.
As manchas da indiferença, como as de sangue nas mãos de Lady Macbeth , não serão apagadas.Como diz um dos críticos da obra de Donizete ,a sua poesia já não busca o "efeito". É simples e directa, o seu mundo é o da gente pequena, marcando as suas origens, é o dos mitos e rituais com que aprendeu a entender melhor o mundo que o rodeava, é o do dizer límpido que se situa entre o movimento e o repouso:
" Roçar de andorinha
entre vôo e pouso.
Parábola desenhada
por vento e asa."
(in Notícias do dia )

Saturday, May 06, 2006

A musica de Tabucchi


TRISTANO MORRE, de António Tabucchi, trad port. D.Quixote, 2006

" A história é como o amor, é uma música, e o músico és tu, e ao tocá-la revelas um enorme talento, és um intérprete que sopra a plenos pulmões no trompete ou faz deslizar arrebatadamente o arco sobre as cordas...admirável, uma execução perfeita, palmas. Mas não conheces a partitura.Só a decifras mais tarde, muito mais tarde, mas entretanto a música evaporou-se..." (p.91)

António Tabucchi publica, se bem me lembro, desde a década de 70.
O primeiro dos seus romances que li, e segui como quem viajasse com ele, nesse mesmo nocturno, já musical e muito "pessoano", foi NOCTURNO INDIANO, de 1984.
Depois vim encontrar em AFIRMA PEREIRA um país, uma Lisboa, um conjunto de personagens que faziam parte de uma história social e política de que não estávamos afinal ainda muito longe. A Revolução tinha alargado o horizonte habitual, mas a pequena rotina, o espírito burguês do pequeno e assustado funcionário agora iludido com um outro poder, mantinha-se, e fazia daquela história que devia retratar um passado recente, um presente ainda indefinido.
A música era tocada, por muitos, por todos, mas não se conhecia a partitura.

Com TRISTANO MORRE encontra-se outro país, mas na verdade o que nele se descreve é um espaço universal, o da condição humana, consciente e sofredora. Passa nas páginas do livro um sopro de melancolia dolorosa, que a coragem dos lutadores contra o nazi-fascismo não chega a fazer esquecer.Esses morreram bem, sabiam por que viviam e por que morreriam.A sua vida tinha razão de ser. Ainda que pobres, nada lhes faltava.

Mas aos heróis da vida de hoje, que o são apenas porque estão vivos, tudo falta.É essa a razão de tanta melancolia e não as cefaleias atrozes :
"Sabes o que significa cefaleia?...Para já é um leve ruído, porque é assim que começa, uma campainha esquisita que é como um silvo ou um lamento agudo, um sonar, chega de muito longe, das profundezas, dás por ele, e de repente as coisas assumem contornos ameaçadores,como se aquele silvo se tivesse introduzido na vista, aguçando-a, distorcendo-a, e ficas com a sensação de ter um prisma no lugar dos olhos, porque os contornos, as arestas, os objectos ampliaram a sua existencia no espaço, dilataram-se, mudaram de geometria, e ao mudarem deixaram de significar aquilo que significavam...e a partir daí tudo ondeia, o espaço cresce como uma maré...o chão liquefaz-se, e um pulmão que parece todo o universo respira à tua volta, ou melhor, dentro de ti, e tu estás em cima dele e ao mesmo tempo dentro dele,és um grão de pó ..." (p.89).

O leve ruído da cefaleia, que depressa se transforma num conjunto de sensações infernais, é a antecipação do cântico da morte.
E relembro, não sei porquê, mas relembro, Rilke, nos Cadernos de Malte Laurids Brigge:
" Antigamente sabia-se (ou talvez se pressentisse) que se trazia a morte dentro de si, como o fruto o caroço.As crianças tinham dentro uma pequena e os adultos uma grande. TINHA-SE a morte, e isto dava às pessoas uma dignidade particular e um calmo orgulho.
Meu avô, o velho camareiro Brigge, a esse ainda se lhe via que trazia dentro de si uma morte. E que morte! durou dois meses, e era de voz tão forte que se ouvia até lá fora na quinta. "
E segue: " Era uma VOZ, a voz que sete semanas atrás ninguém conhecia ainda,porque não era a voz do Camareiro..."
Era a voz da morte do Camareiro, uma voz atroadora e exigente. Exigia, e "exigia mesmo morrer. Ele morreu a sua morte difícil " (trad.Paulo Quintela)

Será essa a razão de tanta melancolia ? Já nem a morte se poderá escolher, o progresso , com o seu excesso e a sua vacuidade, não nos deixará TER o pouco que sempre foi nosso.

Há mais um grito, nas últimas páginas do livro de Tabucchi, e não é por acaso:
"Eu sou voz, e a tua é mera escrita, a minha é voz...a escrita é surda..estes sons que ouves agora no ar sobre a tua página hão-de morrer, a escrita fixa-os e mata-os."(p. 164)

Contudo sabemos que neste jogo especular e crepuscular ao mesmo tempo, nem a voz nem a escrita morrerão.
O avô de Malte," espacializou " a sua morte: não cabia no quarto, nem na sala, exigia que o seu corpo fosse arrastado de um lado para o outro e explodia em cóleras terríveis se os espaços se tivessem esgotado antes do dia terminar.A casa precisaria de asas para se alargar e conter uma tal morte.
Podíamos dizer, com Wagner, que ali o tempo se tornava espaço, mas não um tempo edénico e sim o seu inverso, infernal.
Tabucchi faz o contrário: "temporaliza" o espaço, se assim se pode dizer. O espaço pemanece imóvel, e é na memória do tempo, dos muitos tempos, atravessados pelas vidas de uns e outros, e também dos muitos nomes -que afinal são um só - o da paixão que também ela morre, que a história da morte de Tristano se vai desenrolando.O espaço ali torna-se tempo.
A cefaleia cruel que começa com um ruído inquietante, culminará na distorção do espaço, precisamente porque não é do espaço que ele deseja tratar, mas sim do tempo, uma verdadeira aventura da consciencia que se procura recuperando no mais fundo da memória o que ainda lá está guardado, à espera de ser contado, revivido, para desse modo adquirir uma eternidade desejada, e que só uma tal "voz" permite.
O que não é dito não existe.
"O espaço cresce como uma maré...o chão liquefaz-se..", Tristano sente-se dentro e fora desse pulmão gigante que é o universo inteiro, e ei-lo transformado em grão de areia, no centro do universo. Pelo SOPRO conhecerá finalmente, como um místico, a primeira e última realidade que é a sua.
Para terminar, um poema de Lindley W. Hubbell :

I am not a person.
I am a succession of persons
Held together by memory.

When the string breaks,
The beads scatter.

Thursday, May 04, 2006

Guillevic III


Cont. de LES ROCS
V

La danse est en eux,
La flamme est en eux,
Quand bon leur semble.

Ce n'est pas un spectacle devant eux,
C'est en eux.

C'est la danse de leur intime
Et lucide folie.

C'est la flamme en eux
Du noyau de braise.


VI

Ils n'ont pas voulu être le temple
Où se complaire.

Mais la menace est toujours là
Dans le dehors.

Et la joie
Leur vient d'eux seuls,

Que la mer soit grise
Ou pourrie de bleue.


VII

Ils sentent le dehors,
Ils savent le dehors.

Peut-être parfois l'auront-ils béni
De les limiter:

La toute puissance
N'est pas leur faible.


VIII

Parfois dans leur nuit
C'est un grondement
Qui longtemps résonne.

Et leur grain se noie
Dans un vaste effroi:

Ils ne savaient plus
Q'ils avaient une voix.


IX

Il arrive qu'un bloc
Se détache et tombe,

Tombe à perdre haleine
Dans la mer liquide.

Ils n'étaient donc bien
Que des blocs de pierre,

Un lieu de la danse
Que la danse épuise.


X

Mais le pire est toujours
D'être en dehors de soi
Quand la folie
N'est plus lucide.

D'être le souvenir d'un roc et l'étendue
Vers le dehors et vers le vague.



Não há cântico maior, nem mais simples, nem mais forte, do que este de Guillevic , do seu amor à terra , o espaço que nos foi dado, e temos de merecer.
A sua voz ficou comnosco, desde essa noite de 1965, ficou comigo até hoje, que o leio e o releio, quando a simplicidade da força me faz mais falta, por alguma razão.
Guillevic nasceu em 1907, faleceu em 1997, em 2007 passam 100 anos sobre o seu nascimento.Deixo aqui a memória e o desejo de que possa voltar a ser ouvido.
Prometo a tradução portuguesa deste pequeno ciclo.

Guillevic II



Percebem-se melhor os seus poemas quando nos é dado contemplar a paisagem que os inspirou.Guillevic é terráqueo, como diz,o seu coração bate fundo no interior da terra, no interior do mar, e vive ele próprio essa estranhíssima união, para sempre misteriosa e que ele não se cansa nunca de cantar.

CARNAC

Quand le géant noir
Qui dort parmi les fossiles du fond des mers
Se lève et regarde,

Les astres au creux du ciel ont froid
Et viennent se chauffer coude à coude.

Les yeux morts de cent mille morts
Tombent dans les rivières
Et flottent.


MONTAGNES

Il faudra bien laisser à leur place, à leur sort,
Ces montagnes de terre,
Qui ont forme de seins pourtant
Et qui respirent.

Il faudra leur laisser de former ce front bleu
Devant lequel ont passe -

Nous avec la furie en nous
Et trop de chair.


Como não recordar aqui a terra-mãe que alimenta e embala os seus filhos, e os acolhe no seio, quando a ela regressam transformados e feridos de morte, pelo excesso, a morte que a vida aceita.
De TERRAQUÉ, o ciclo dos Rochedos, LES ROCS, é para mim dos mais comoventes.
A poesia de Guillevic ia sendo, com o tempo, tocada pelo anjo, como ele próprio escreve num poema que assim termina:" La honte soudaine d'éprouver sur moi/ Le toucher de l'ange".
O Anjo toca quem ama, quem grita, quem sofre, se entrega e se redime. Sente-se ,na obra de Guillevic, essa emoção profunda que é reconhecer a necessidade de uma reconciliação do homem consigo mesmo, e com a natureza contraditória do mundo que o rodeia. Será pelas coisas simples, mais uma vez, que tal pode acontecer. As coisas, os elementos, a fúria apaziguada e :

-Patience,quelques siècles
Et nous pourrons peut-être
Nous faire ensemble une raison.


LES ROCS
I

Ils ne le sauront pasles rocs,
Qu'on parle d'eux.

Et toujours ils n'auront pour tenir
Que grandeur.

Et que l'oubli de la marée,
Des soleils rouges.

II

Ils n'ont pas besoin du rire
Ou de l'ivresse.

Ils ne font pas brûler
Du soufre dans le noir.

Car jamais
Ils n'ont craint la mort.

De la peur
Ils ont fait un hôte.

Et leur folie
Est clairvoyante.

III

Et puis la joie

De savoir la menace
Et de durer.

Pendant que sur les bords,
De la pierre les quitte

Que la vague et le vent grattaient
Pendant leur sieste.


IV

Ils n'ont pas à porter leur face
Comme un suplice.

Ils n'ont pas à porter de face
Où tout se lit.


V

La danse est en eux,
La flamme est en eux,
Quand bon leur semble.
....

Continuo adiante com o resto do ciclo, mas chamo desde já a atenção para uma certa "alquimia " do verbo que ele recusa, por contemplar a vida na sua essencia mais livre e depurada, como a pedra, o rochedo a que se identifica, sólido , permanecendo (fiel) sem ter de esconder o rosto que é o seu, ao contrário de muitos do seu tempo.

Guillevic


Em 1965 o poeta Guillevic veio a Lisboa, a convite de David Mourão-Ferreira.
Bretão, comunista militante e exigente, o seu verbo era a própria força da natureza em movimento, como as vagas daquele mar da Bretanha que ele tanto amava.
Mar e terra, matéria e espírito, o da força das ideias condutoras, que o levavam a escrever:

"Les mots
C'est pour savoir"

ou ainda:

" Les mots, les mots
Ne se laissent pas faire."

Sente-se, na poesia de Guillevic, o esforço e o respeito, que não permitem subterfúgios ligeiros, enganadores, e muito menos modismos como os que foram muitas vezes praticados pelos seus contemporâneos.Há no seu verbo uma entrega despojada e absoluta,uma força ao mesmo tempo comovida e implacável, perante as realidades da vida.
Teve uma infância dura, como bretão que partilhava ,com a simplicidade do olhar, a miséria que descreve por vezes em CARNAC. Mas é também neste ciclo que encontramos o "casamento da terra e do céu" tal como não existe em nenhum outro lugar:
" Nulle part comme à Carnac
Le ciel n'est à la terre,
Ne fait monde avec elle...

Para lá de qualquer enquadramento político, nunca negado, ou estético, o que fica é a "integração orgânica" como escreve um dos seus críticos,pois toda a sua poesia parte e é feita do "vivido". Ao recordá-lo como bretão vemo-lo rodeado de rochedos antigos, vagas alterosas, cozinhas com lareiras onde arde um fogo acolhedor.Os seus poemas são, no verdadeiro sentido "evocações" da sua condição, da condição humana quando a sua experiencia pouco a pouco se alarga.
Há um lado religioso, místico, panteísta, se se quiser, no Guillevic materialista.É homem nascido na pátria dos druidas, onde os rochedos marcam espaços sacrificiais, um "sangue místico" no dizer dos seus críticos, atravessa o seu vocabulário poético.
Nasceu em Carnac em 1907.O seu pai era marinheiro, a aventura corria-lhe no sangue.
Guillevic lê Marx, e em 1943 junta-se ao partido comunista clandestino. Já em 1942 se tornara amigo de Éluard,cujos poemas também bebiam nas mesmas convicções.

Deixo o leitor com alguns dos textos que a meu ver representam a marca forte do seu olhar, como em TERRAQUÉ:

Choses

L'armoire était de chêne
Et n'était pas ouverte.

Peut-être il en serait tombé des morts,
Peut-être il en serait tombé du pain.

Beaucoup de morts
Beaucoup de pain.

( 1942)

Sunday, April 30, 2006

Mais Boris Vian


No artigo dedicado à "Mitologia Vianesca", Pierre Baratay recupera as estruturas e imagens de mitos tradicionais como o de Édipo, o de Orfeu, o das Ménades - para apresentar a sua visão de alguns dos importantes romances de Boris Vian:
L'HERBE ROUGE ; L'ÉCUME DES JOURS; LE VOYEUR.
Outro estudioso, Noel Arnaud, também convida os colegas do COLLÈGE DE PATAPHYSIQUE a descobrir, em L'AUTOMNE à PÉQUIN, uma estrutura alquímica, pois entende que ali " o sol ocupa um lugar determinante", como na obra alquímica.É neste romance que Angel, que sofre um processo iniciático, dirá : " Mon système est trop parfait pour pouvouir jamais être réalisé: en outre, il est incommunicable."
Quanto às mulheres, nas obras citadas, são identificáveis aos quatro elementos, diz Baratay. Recorde-se o Imaginário da Matéria nas obras de G.Bachelard e a compreensão desta ideia será logo mais fácil.
Os processos do autor podem ser conscientes ou inconscientes, mas isso em nada altera o seu valor simbólico real.
Finalmente, como nos tratados de alquimia, Baratay descreve o "Bestiário Psicológico" que encontra nestas obras de Vian, sobretudo em L'Écume des Jours e L'Automne à Péquin; na primeira, as imagens nascem do mar, nota ele; na última nascem da terra; na primeira são imagens-peixe; na última, imagens-serpente. Mas todas correspondem a uma dinâmica oriunda das energias do inconsciente.
( OBLIQUES, pp. 183-197)

BORIS VIAN, le jazz est dangereux


Boris Vian, nesta Europa que se quer tão arrumada, tão normalizada que mete medo, deveria poder ressuscitar, com as suas canções, os seus textos, de todo o género, o seu humor/amor,como o que dedicou a Ursula, o seu jazz, tão mal amado naquela França que se divertia nas noites longas de Saint-Germain e vir gritar aos ouvidos de hoje o irónico artigo que escreveu sobre os "malefícios "do Jazz.
Não vou transcrevê-lo aqui por inteiro, mas deixar só a conclusão:
" ATTENTION! Il y a danger. SUPPRIMEZ LE JAZZ et vous aurez tué dans l'oeuf tous les germes de rébellion sociale qui, à brève écheance, engendreront, tôt ou tard, la guerre atomique."
Escrito nos anos 50, por que será que este protesto parece ainda, em Portugal, de tão grande actualidade?

Para quem não conheça a sua música (ele tocava trompete), os seus livros, a sua pintura, os seus muitos amigos do chamado colégio de "PATAPHYSIQUE", ver: BORIS VIAN DE A à Z, OBLIQUES, n. 8-9.
Como primeira leitura talvez L'ÉCUME DES JOURS ?
E entre outras canções, a VALSE DINGUE, "Une chanson d'Hamour".
Deixo uma estrofe, para ser saboreada, tanto quanto cantada:

"Un' valse en forme de chaise
a repriser des bas
Un' valse en forme de fraise
qu'on mange avec ses doigts
Un' valse avec des écailles
comme un petit poisson
Un' valse pour les volailles
et pour les saucissons
...
Un' valse en peau d' anchois
Un' valse en paté d' foie
Allons chanter dans les bois "

Friday, April 28, 2006

Sa-Carneiro



O aliciante, na leitura de um bom livro, é que nos remete para outras leituras.
Neste caso, depois de ter lido o estudo de Fátima Inácio Gomes, lembrei-me de um outro, que igualmente aconselho, de Maria José de Lancastre, intitulado O EU E O OUTRO ( para uma análise psicanalítica da obra de Mário de Sá-Carneiro).
Publicado em 1992, não perdeu a sua actualidade, neste ano em que em torno da obra de Pessoa se devem voltar a ler Almada Negreiros e Mário,o infeliz companheiro que desejava mudança, mas a si mesmo não se conseguiu mudar.
As Cartas fornecem, como é natural, o maior suporte para a análise que Maria José se propõe fazer: descrever o itinerário de uma situação melancólico-depressiva que o poeta terá atravessado durante a estadia em Paris, em 1912, e a seguir, novamente regressado, em 1915/16, data do seu suicídio.
A memória do jovem amigo perdura na de Pessoa: num poema de 1934, dedicado a Sá-Carneiro, escreve: " Como éramos só um falando.Nós eramos como um diálogo numa alma". (in F.Pessoa, Poesias Inéditas, ed. Ática, 1960)
A este propósito Maria José de Lancastre observa, nas notas, que este "diálogo numa alma" podia representar simbolicamente o que se passa numa sessão psicanalítica. Estaríamos aqui perante um caso de "transfert".
Dieter Woll, citado pela autora e ainda hoje um dos estudiosos que não podemos esquecer( REALIDADE E IDEALIDADE NA LÍRICA DE SÁ-CARNEIRO,Lisboa, 1968 ) fala de "depressão" ao abordar o estado de espírito do poeta.
Àcerca do retrato que Almada fez de Sá-Carneiro, a autora observa que é o único em que o vemos de corpo inteiro. Feito em 1963, retrata-o sentado à mesa de um café, onde numa folha de papel se pode ler a palavra "quasi".O seu rosto, gordo, como ele se descreveu tantas vezes, está virado para o alto, numa pose lânguida que, como diz Maria José tanto podia vir da memória de Almada como dos textos do poeta.
Certeira é a anotação do quase : pois ele foi quase, e só por não ter chegado a ser se transformou, na memória dos amigos e leitores, o símbolo mesmo da OBRA inacabada.Obra que numa interpretação de simbólica junguiana nos permitiria ver Pessoa como o Espírito, Sá-Carneiro como a Alma e a ligação profunda entre ambos como o momento que não foi possível viver, ultrapassando-o.
A questão do transfert é pertinente, e pode aplicar-se tanto a um como a outro dos poetas de "alma unida" , Na impossibilidade de haver integração sublimada, a fractura instalou-se em ambos de forma irremediável. Mas o jovem exilado em Paris lia Nerval, o romântico decadente, enquanto o Pessoa lisboeta, digerindo Freud, procurava na heteronimia os desdobramentos redentores.

Kati Kustner : OKTAV


Exposição de pintura a partir do romance ANFANG, EDITION ERATA, 2006.
KULTURRAUM, Leipziger Raum.

Ou de como uma escrita fragmentada pode inspirar uma pintura que se adivinha ao mesmo tempo quotidiana, cósmica e vibrante.

Wednesday, April 26, 2006

Ursula Le Guin,The left hand of darkness


Encontramos em autores modernos, como Ursula Le Guin, a recuperação, ainda que de forma distópica, de mitos antigos, neste caso o do Andrógino.
A mão esquerda da Treva não torna apetecível a ideia de um paraíso em que todos os seres, sendo andróginos, se bastam a si próprios, numa desolação em que ninguém precisa de ninguém.
O mito fez carreira, desde o tempo de Platão, e há códices da Idade-Média, como o desta imagem, do LIVRE DES MERVEILLES do séc.XV francês, em que vemos o Criador debruçado complacentemente sobre uma Eva hermafrodita a colher o fruto da árvore que se adivinha ser a do conhecimento.
Mais interessante é antes a estória contada na QUESTE DEL SAINT GRAAL( ed. de Pauphilet, 1984); no conto messiânico da Nave de Salomão, os heróis são conduzidos a uma cidade que é, na opinião do estudioso francês, "o símbolo transparente da Jerusalém Celeste "; antes de se lá chegar é narrada a lenda da verdadeira Árvore da Vida:
Eva, ao ser castigada com a expulsão do Paraíso, levou um ramo da árvore de cujo fruto tinha comido.E guardou-o,para lembrança da sua infelicidade. Plantou-o na terra, onde o ramo se manteve erecto, criou raiz e cresceu.Este ramo, que a primeira pecadora trouxe consigo, tinha um grande significado.Eva era ainda virgem, conta o autor da QUESTE, mas fez um discurso dirigido aos seus sucessores: "Não vos lamenteis por termos perdido a nossa herança; não está perdida para sempre,vede aqui no crescimento do ramo o sinal do nosso regresso futuro". E o autor explica por que razão é a mulher e não o homem a portadora do ramo (a portadora da vida, pois ele cresceu). Pela mulher se perdeu a vida do Paraíso, e pela mulher a vida será recuperada (com a Virgem Maria e o fruto do seu ventre).
Continuando: o ramo em pouco tempo se fez árvore, uma árvore alta,frondosa, com o tronco, os ramos e folhas tudo branco como a neve.Sendo o branco o símbolo da virgindade, percebe-se que Eva, ainda virgem, só podia plantar uma árvore dessa mesma côr.
Estando a dada altura Adão e Eva sentados junto da árvore, ouvem uma voz do Alto que lhes diz para não se lamentarem pois a árvore continha mais vida do que morte; e eles passaram a chamar-lhe ÁRVORE DA VIDA.Plantaram de seguida muitas outras,que logo tomaram raiz, mantendo a mesma côr branca.
Mais tarde ainda voltam a ouvir uma voz que lhes ordena " que se unam carnalmente". Consumada a união, a árvore, que era branca, tornou-se tão verde como a erva dos campos, e passou a ter flor, e dar fruto, o que antes não tinha acontecido.

Podemos especular sobre o sentido da Árvore que Eva traz do Paraíso: do Conhecimento, e da Vida, pois a seguir à união do casal que antes fora "andrógino" se transforma em verdadeira árvore, portadora de flor e de fruto. Adão e Eva também cumprirão o destino previsto: crescem (em conhecimento e vida) multiplicam-se, e os seus filhos cobrem a terra.

Tuesday, April 25, 2006

MAIS JORN


ASGER JORN nasceu na Dinamarca em 1914.De 1936 a 1939 teve logo a sorte de fazer uma carreira de sucesso, com grandes encomendas que o levaram a Paris, ao "Palais des Temps Nouveaux", em 1937 e a uma colaboração com Fernand Léger para o "Grand Palais de la Découverte" .
Em Guy Atkins, seu biógrafo, e autor do Catalogue Raisonné da sua obra, encontramos todas as informações necessárias à compreensão do seu percurso, variado e empenhado, tanto nas questões de discussão artística, como política.
Veremos Jorn associado ao movimento Cobra, à Internacional Situacionista, com início em 1957. Colaborou com poetas como Chr. Dotremont e Guy Debord. Teve sempre grande ligação ao pensamento e criatividade literária do seu tempo.
Dos seus heróis, Atkins destaca Alfred Jarry, Huizinga, Karl Marx, Niels Bohr, Gaston Bachelard, James Joyce, Ruskin , e tantos outros que deixarei de fora. Pretendo apenas mostrar como a arte, todas as artes, se alimentam de cultura e memória, antiga ou contemporânea.
A partir de 1960 Jorn faz escolhas dos que lhe são mais próximos, pela imaginação e experimentalismo: Dubuffet, Michaux, são nessa altura os mais importantes.
Numa entrevista em que lhe perguntam afinal o que é ele, por se achar a sua obra interessante mas também contraditória, Jorn responde: há pessoas nas aldeias que andam por lá sem fazer nada, vasculhando nas cinzas e encontrando as coisas mais espantosas...dizem que são malucos, mas toda a gente os respeita porque representam tudo o que há de mágico, estranho e inexplicável na vida.
Só para terminar, o quadro que pinta depois da guerra e que intitula , como bem se compreende, JOIE DE VIVRE (Alegria de Viver), 1946.

BAUDELAIRE E JORN


Como se verá pelo quadro reproduzido, a literatura andará sempre de mãos dadas com a arte, pois os poetas e pintores de todos os tempos encontrarão nas imagens de uns e outros uma fonte de inspiração que não se esgota.
Tudo depende do momento em que se lê ou vê, e da empatia que se sente.Magritte releu Baudelaire e Asger Jorn também o releu à sua maneira e prestou-lhe homenagem neste quadro de 1942, pintado na Dinamarca,seu país natal, para onde regressou por causa da guerra (antes vivera em Paris).
Aqui fica então, para o prazer dos olhos , HOMAGE TO BAUDELAIRE.

Monday, April 24, 2006

EMILIA NADAL


O RETRATO-DECOMPOSIÇÃO, óleo de 1974, pertence ainda a uma fase da obra de Emilia Nadal em que a marca de Surrealistas e de Metafísicos como de Chirico, se fazia sentir. Filtrada, é óbvio, pela sensibilidade de uma pintora que não se deixaria aprisionar por completo, nem para sempre, por nenhuma dessas doutrinas ou experiencias, por muito libertadoras que fosssem.
O Retrato-Decomposição já permite, à sua maneira, antever o que se vai seguir.
A cabeça, de brilho lunar contra fundo azul noite, libertou-se da moldura que a devia conter, e flutua num espaço que já perto do tecto a levará para um jardim de que a árvore, também ela translúcida e lunar, já representa.
Bem centrada sobre o azulejo que é um quadrado negro, fazendo a divisão entre os dois outros que estão de cada lado, marcando o centro que é um 5, figuração da vida, quinta-essencia do impulso criador, vemos então, suspensa,uma romã aberta, quase deixando que se contem os bagos, lembrando assim que a figura que se quis decompor se mantém una , se mantém viva, nesse próprio momento em que parece escapar de toda a realidade.
A fuga é uma sublimação, representa " o espírito das coisas " em " súbitas iluminações", como diz Kandinsky - ou neste caso a projecção de um profundo desejo de viver ( a romã ) mas de outra forma, mais livre, e mais feliz, porque perto de uma árvore que é branca, como reza a lenda que era, no Paraiso Terreal recuperado por Eva e por Adão, a verdadeira Árvore da Vida.
Escreve Fernando de Azevedo no catálogo da exposição de 1992, subordinada ao título de FIGURAÇÂO DA LUZ:
" De há anos para cá que a sua pintura me lembra sempre a obra de alguém que seguisse um rasto luminoso no espaço; não meteórico e mecânico como hoje é possível e normal, mas...por uma força que só interiormente se avalia e continua a habitar um espaço desconhecido." E diz ainda, adiante: "Emília Nadal passa pelo Paraíso", referindo-se ao conjunto dos quadros inspirados no Cântico dos Cânticos, onde também encontramos o "Jardim das Romanzeiras".
Recuperando de novo esta tela mais antiga, não posso deixar de concluir que passa pela obra de Emília Nadal um Sopro Feminino,algo que remete para "O Espírito e a Esposa",como se diz no Epílogo do Apocalipse, a dupla face das Árvores da Nova Jerusalém reconstruída.

Saturday, April 22, 2006

BAUDELAIRE e MAGRITTE



LA GÉANTE é uma aguarela que Magritte pintou nos anos 1929/30, inspirado no célebre poema de Baudelaire,com o mesmo título, e que darei em tradução. Anos mais tarde, em 1967, publica-se na revista STUDIO uma conversa do pintor sobre o que une "o mistério e a poesia" : "O mistério existe, porque a mensagem poética possui uma realidade...O pensamento inspirado imagina uma ordem que une as imagens do visível; a imagem poética possui a mesma espécie de realidade que o universo. Porquê ? Porque responde ao nosso interesse natural pelo desconhecido."
Nesta aguarela, de que só vemos uma parte, a do corpo imenso da gigante, o mistério reside na dimensão dos objectos caseiros, a mesa, por exemplo, com o vaso de flores, e sobretudo na pequenez do homem que, de costas, de pouco ultrapassa a altura dos pés da mesa; a porta, a mesa, o homem,- tudo fica à esquerda de quem observa o quadro, de que se destaca então à direita o corpo nú, poderoso, da gigante cujo olhar não se desvia para esse "pequeno" mundo de que não parece fazer parte.

LA GÉANTE /A GIGANTE

No tempo em que a Natureza de poder vigoroso
gerava em cada dia seus filhos monstruosos,
gostaria eu de ter vivido com uma jovem gigante,
tal gato voluptuoso aos pés de uma rainha.

Gostaria de ter visto seu corpo a florir com a sua alma
crescendo livremente nos seus jogos terríveis.
Adivinhar se alguma chama escura se escondia no peito
ao ver nadar, nos seus olhos, húmidos nevoeiros.

Percorrer à vontade as magníficas formas,
rastejar sobre as curvas dos enormes joelhos
e às vezes, no Verão, quando os sóis doentios

a fizessem estender-se,cansada, sobre o campo,
dormir preguiçosamente à sombra dos seus seios,
como tranquila aldeia aos pés de uma montanha.


Vem a propósito recordar um poema do jovem Fernando Pessoa quando assinava Alexander Search e escrevia em inglês intitulado igualmente A GIGANTE /THE GIANTESS.
Poderá ter sido inspirado pela leitura de Baudelaire, ou ter sido apenas a concretização de um devaneio lírico e juvenil sobre o mistério assustador da Beleza.No poeta francês percebe-se que ali está a Mãe-Terra,a Grande-Mãe que a todos abraçará um dia, embalando os seus filhos ou os seus amantes, num sono mais do que preguiçoso, definitivo.
A poesia inglesa de Search foi traduzida por Luisa Freire para as ed. Assírio e Alvim ( 1999 ) e nunca será demais elogiar a elegancia do trabalho feito, e o cuidado com que a tradutora procurou ser fiel a uma "letra" nem sempre fácil, por pomposa, o que foi um traço frequente na poesia juvenil de Pessoa nesta língua, que afinal não era "a sua pátria".
Aqui deixo o poema ( de 1907 ) na tradução portuguesa:

THE GIANTESS /A GIGANTE

Vi um dia uma cómica gigante
tentando comer qualquer coisa enorme,
sozinha, num festim alucinante,
coisa,como pedra, dura e informe.
Mas para a sua boca era tão imensa
que, na sua avidez assim intensa,
dobrava o esforço de seu desejo nulo.
E seu abocanhar amplo, impotente,
teria feito rir, não fosse o riso
suspenso por isto ser pungente.
Nesta orgia oca, inconsequente,
eu a vi e, notando o seu sofrer,
perguntei: "o que é essa coisa imensa
que, sem sucesso,lutas por comer? "
E ri, grosseiro, tranquilamente.
Ela chorou e, entre lágrimas, disse:
"esta comida que, de grande, se escapa
sempre à minha boca já dorida
é a Beleza una e toda inteira".
Olhei para ela e já não me ri,
mas antes chorei, pois entendi.

Friday, April 21, 2006

Fernando Pessoa, Eros e Psique


Neste poema de Pessoa encontramos o trabalho do mito tal como ele o descobriu em Apuleio, cuja obra possuía.
Coloca-lhe uma epígrafe iniciática, maçónica, que também ela resume a "lição" do mito : união de opostos.
"...E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade."
(DO RITUAL DO GRAU DE MESTRE DA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL)

"Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E,inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia."


De grande interesse para a erótica simbólica tanto de Pessoa como de SÁ-CARNEIRO seu amigo, discípulo que assim o desejava ser, e fundador com ele de uma estética pré-modernista, é agora o estudo publicado por FÁTIMA INÁCIO GOMES, na colecção "Temas Portugueses" da I.N.C.M., com apresentação de Urbano Tavares Rodrigues.
Na realidade, ser um dos rostos múltiplos do tempo, de si próprio ou do próprio Pessoa foi sem dúvida uma das fantasias do jovem Sá-Carneiro.Vivendo e sofrendo pulsões contraditórias, que não saberá nunca como ultrapassar, escapará à impotência perante a vida através de um suicídio tão doloroso quanto ela: com frascos de estricnina que engole uns a seguir aos outros.
Para este poeta, como bem diz Fátima Gomes no último capítulo do seu livro, a mulher da "carne inexistente" é aquela que não o assustará com a sua sexualidade, que se fará pequena e neutra a seu lado, bem à maneira de como Pessoa a desenhou, quer pela voz de Ricardo Reis, quer pela aproximação e afastamento de Ophelinha, algo que vinha já dos seus tempo de Alexander Search.
Fátima Gomes conclui que esta imagem do feminino contém a saudade da Ama, "humilde e carinhosa" : "ter amas a vida inteira..." (in Elegia).
Citando, para terminar :
"Esta mulher seria a amante perfeita, a noiva idealizada que acompanharia qual Aurora ou Sophia alquímica , a ascensão do herói solar:
...
Teus beijos,queria-os de tule,
Transparecendo de carmim-
Os teus espasmos de seda...

Água fria e clara numa noite azul,
Água,devia ser o teu amor por mim..
(A Inigualável) "

Mas há aqui todo um crescimento que se perde. Na alquimia a própria Água é quente, tem o bafo da Vida, que é espírito e matéria. Sá-Carneiro morreu impreparado e jovem, eternamente adolescente como os tempos o guardarão na memória.

Ver : Fátima Inácio Gomes, O IMAGINÁRIO SEXUAL NA OBRA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, Lisboa, 2006

O FOGO DE MAGRITTE



Por muito que Magritte afirme não ser surrealista,o que se aceita pois ele criou a dada altura fora desses circuitos doutrinais quando se tornaram demasiado escolares ou políticos e impositivos, há na sua obra um quase excesso do simbólico , misterioso e actuante, provindo ou não do sonho, e por muito que o pintor afirme não acreditar no reservatório imenso que é o inconsciente, pessoal ou colectivo.
"Não creio no inconsciente, nem que o mundo se nos apresente como um sonho,de maneira diferente da do sono."

Contudo este é o mesmo Magritte que lamentará, na década de 50, que Breton não procure mais a Pedra Filosofal. A recusa, por parte de um artista, das marcas que o perturbam, como podem ser estas do inconsciente, é no fundo o reconhecimento de que elas existem, de forma mais ou menos explícita.

É interessante ver como o pintor trabalha a matéria das imagens simbólicas nos seus quadros. Nos anos 30 /40 o fogo está presente: veja-se O CICERONE, de 1947 : da boca de um ser mais máquina do que homem sai uma labareda poderosa; ou veja-se A DESCOBERTA DO FOGO, de 1934/35: um enorme saxofone a arder; ou ainda, a ESCALA DO FOGO, de 1939: sobre uma mesa, 3 elementos: papel amachucado a arder, um ovo a arder, uma chave ( a da solução ? ) igualmente a arder.Do papel amachucado podemos dizer que por aí se manifesta a recusa da literatice que também os alquimistas censuram; e quanto aos outros elementos, o significado também é claro: o ovo (da vida) que tem de ser tocado, como em Maier, ou queimado (sublimado) para que a chave da vida seja entregue.

O FOGO



O FOGO aparece na Atalanta Fugiens representado de várias maneiras: na gravura VIII vemos um homem erguendo uma espada com a qual irá tocar num ovo colocado sobre uma mesa baixa.À sua frente tem uma grande lareira com fogo de lenha a arder, e à sua direita um longo corredor abre para uma paisagem que se adivinha lá fora.
A legenda diz: "Pega no ovo e toca-lhe com um glaivo de fogo". Nos versos do Epigrama conclui-se "...Com prudencia/
toca-o (ao ovo) com uma espada de fogo, é esse o uso."
Percebe-se claramente que a imagem do ovo se refere à Vida, à semente de vida que a Obra fecundará e tornará fértil no crescimento e na chamada "augmentatio", uma das fases pelas quais se passará.
Quanto ao fogo. é o quarto elemento, o que depois da limpeza, da dissolução já descrita, permitirá chegar com sucesso ao fim que se pretende.
Outras gravuras, como a X, reforçam esta ideia: "dá fogo ao fogo...e isso chegará".
E no Epigrama: " O fogo ao fogo e Mercúrio a Mercúrio /Unem-se : eis aqui o limite da tua arte ".

Outras gravuras que passo adiante mostram como "irmão e irmã têm de beber a poção do amor", como a terra tem de ser lavrada e semeada para frutificar e finalmente o segredo é revelado numa das últimas representações: "O fruto da sabedoria humana é a árvore da vida" (gravura XXVI). Já entretanto Maier mandara que se rasgassem os livros, lembrando o desabafo de Fausto, envelhecido e cansado de tanto Saber inútil, enquanto a vida lhe passava ao lado. De uma certa maneira Fausto será "salvo" por Mefistófeles, pois será este a oferecer-lhe o fruto da árvore da vida na pessoa de Gretchen. Depois de imolada no Fausto I, transformar-se-á em redentora, no final da tragédia, elevando a essencia sublime do herói à visão do Eterno Feminino.