

A MELANCOLIA I de Duerer, de 1514, para além das influencias que são apontadas ao artista - Marsilio Ficino, entre outros- representa um dos tipos de melancolia definidos por Cornelius Agrippa von Nettersheim no seu tratado DE OCCULTA PHILOSOPHIA, que foi divulgado como manuscrito a partir de 1510. Neste tratado descreve-se a "melancolia imaginativa" como própria dos artistas, arquitectos e artesãos; a" melancolia racional " como característica de médicos, cientistas e políticos; e a "melancolia mental" como própria dos estudiosos de teologia e dos segredos divinos. PANOFSKY sublinha a melancolia imaginativa como faceta principal desta gravura: o que permite lê-la como produto, também ela, do imaginário alquímico de que temos vindo a ocupar-nos.
Este Anjo sentado, de cara aborrecida,contrariada, pegando com displicência numa ponta do compasso que tem na mão e com o qual poderia "redesenhar" o espaço que o rodeia, é a imagem mesma da NIGREDO, a confusão de alma que é preciso sublimar, encontrando um caminho. A desarrumação dos objectos à volta de um Anjo que mais poderia ser uma dona de casa incapaz de pôr ordem nas suas coisas é outro dos sinais que o artista nos dá: a confusão do exterior reflexo da íntima confusão, enquanto se aguarda algum sinal, ou que alguma coisa de repente mude, ainda que por acaso, mais do que por intervenção própria.
A esfera pequena,no canto inferior da gravura, à esquerda, será marca de perfeição, tal como o possível arco-íris em que a palavra melancolia se inscreve também pode augurar uma transformação positiva, luminosa.
Quase tão destacado quanto o Anjo, está, sempre do lado esquerdo, um poliedro encostado a uma escada que tem por trás um anjo mais pequeno, um "putto", semi-adormecido. A nigredo é uma fase da alma em dormencia, e o mesmo sinal é dado pela cão enrolado e dormindo aos pés do Anjo. O cão, fiel companheiro do adepto em muitas das gravuras de alquimia conhecidas, e no caso de Cornelius Agrippa fazendo parte da lenda da sua vida de alquimista e nigromante.
O Anjo tem à cintura uma chave , e é Duerer quem, nos desenhos preparatórios da gravura, escreve que as chaves significam PODER.
Para Erwin Panofsky o poliedro será um cubo, desenhado de modo peculiar para que não se tenha desde logo a noção do equilíbrio das faces.O que tem todo o sentido: os alquimistas falam da pedra cúbica, e da pedra polida, quando desejam referir-se à perfeição que é necessário atingir. E para tal a CHAVE é indispensável, pois todo o proceso é cifrado, é secreto, não é dado a qualquer um.
( E.Panofsky, Saturn and Melancholy, 1964 )
Passemos agora ao maior monumento literário que, na nossa cultura, dá testemunho da melancolia dita imaginativa, própria de artistas, neste caso Bernardim Ribeiro com a sua MENINA E MOÇA.
Pela mão do Professor José V. de Pina Martins foi publicado na Fundação Gulbenkian o fac-simile da edição de Ferrara de 1554 ( Lisboa, 2002 ). Um precioso estudo antecede o fac simile fornecendo aos investigadores, ou simples leitores, toda a informação e todo o historial relativo a esta obra- prima das nossas letras, que ainda não "transitou" para o mundo, como devia, por nunca se ter feito uma tradução inglesa. O momento há-de chegar, como chegou para outros, ainda que com séculos de atraso. Um amigo da blogosfera já colocou no éter a sua tentativa, pedindo sugestões a quem o possa ajudar com boas sugestões. Aqui fica o seu blog : IDIOCENTRISM.
A primeira nota, de grande interesse, é que nesta edição a menina diz " menina e moça me levaram de casa de minha mãe" e não de "casa de meu pai" como sempre nos habituaram na escola, devido a outras leituras de outras edições.Faz muita diferença, do ponto de vista psicológico e simbólico, dizer uma coisa ou outra.
Bernardim, seguindo a tradição da lírica de Amigo, falando pela boca de uma jovem que foi separada de sua mãe; projectando-se num universo todo feminino, com seu ambiente e sua psicologia muito próprios; somando a isso a expressão de uma saudade infinita e sem cura. Um lamento pungente.
Não vou transcrever aqui a novela, o que pretendo é deixar uma sugestão de leitura, chamando a atenção para o NEGRO DE ALMA de que ela dá testemunho.
Nos primeiros capítulos descreve-se a partida, sem razão que se conheça, criando um ambiente de mistério .
Depois a paisagem, de montes e vales, os precipícios da imaginação.
Surge o rouxinol, cujo canto melodioso cedo se apagará, também ele.
E logo de seguida aparece também, sem que se saiba ao certo de onde nem porquê, a dama vestida de negro. Toda esta imprecisão adensa a atmosfera de sonho que caracteriza a novela. A dama surge como que de dentro da água que a Menina estava a contemplar :
" E, estando assim olhando para onde corria a água, ouvi bulir o arvoredo.Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo. Mas olhando para ali vi que vinha uma mulher e, pondo nela bem os olhos, vi que era de de corpo alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo; vestida toda de preto, no seu manso andar e meneios seguros do corpo e do rosto e do olhar parecia de acatamento.Vinha só(...) E entre uns vagarosos passos que ela dava, de quando em quando colhia um cansado fôlego, como que lhe queria falecer a alma".
Duas figurações da Anima, a juvenil, da Menina, e a melancólica adulta , a Dona que desliza mais como a Sombra que é do que como a mulher que devia ser. Bernardim exprime em ambas, logo nestes primeiros capítulos, a desordem da alma e o desespero de que se sente possuído.