Thursday, September 14, 2006

TAO TE CHING



n.40

Returning is the motion of the Tao.
Yielding is the way of the Tao.
The ten thousand things are born of being.
Being is born of not being.

Regressar é o movimento do Tao.
Ceder é o caminho do Tao.
As dez mil coisas nasceram do ser.
O ser nasceu do não ser.

O movimento do TAO ( CAMINHO ) é como o da maré que flui e reflui.
As dez mil coisas representam a totalidade do universo criado.
Quanto ao não ser, origem do ser, para além dos textos sagrados, dos filósofos e dos poetas que têm elaborado essa questão, talvez só os astrofísicos nos possam agora ajudar .
Enquanto a nossa vida flui e reflui também ela, contemplemos apenas, pastoreando a alma, como faria o nosso Alberto Caeiro :
" Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
....
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho."

( O GUARDADOR DE REBANHOS )

Wednesday, September 13, 2006

Setembro



1.

Chuvadas de Setembro:
Um arrepio
pelas costas do tempo.



Ao acabar de escrever o poema fui buscar à estante uma das minhas leituras preferidas, que acrescento como sugestão de leitura para tardes tranquilas: TAO TE CHING, de Lao tsu
( trad.de Gia -Fu Feng e Jane English,1976 )
Esta imagem é do n.8:

The highest good is like water
( o bem supremo é como a água )
....

2.

Chuvadas de Setembro:
Cresce o ribeiro
nas pedras da nascente.

Tuesday, September 12, 2006

Melancolia




A MELANCOLIA I de Duerer, de 1514, para além das influencias que são apontadas ao artista - Marsilio Ficino, entre outros- representa um dos tipos de melancolia definidos por Cornelius Agrippa von Nettersheim no seu tratado DE OCCULTA PHILOSOPHIA, que foi divulgado como manuscrito a partir de 1510. Neste tratado descreve-se a "melancolia imaginativa" como própria dos artistas, arquitectos e artesãos; a" melancolia racional " como característica de médicos, cientistas e políticos; e a "melancolia mental" como própria dos estudiosos de teologia e dos segredos divinos. PANOFSKY sublinha a melancolia imaginativa como faceta principal desta gravura: o que permite lê-la como produto, também ela, do imaginário alquímico de que temos vindo a ocupar-nos.
Este Anjo sentado, de cara aborrecida,contrariada, pegando com displicência numa ponta do compasso que tem na mão e com o qual poderia "redesenhar" o espaço que o rodeia, é a imagem mesma da NIGREDO, a confusão de alma que é preciso sublimar, encontrando um caminho. A desarrumação dos objectos à volta de um Anjo que mais poderia ser uma dona de casa incapaz de pôr ordem nas suas coisas é outro dos sinais que o artista nos dá: a confusão do exterior reflexo da íntima confusão, enquanto se aguarda algum sinal, ou que alguma coisa de repente mude, ainda que por acaso, mais do que por intervenção própria.
A esfera pequena,no canto inferior da gravura, à esquerda, será marca de perfeição, tal como o possível arco-íris em que a palavra melancolia se inscreve também pode augurar uma transformação positiva, luminosa.
Quase tão destacado quanto o Anjo, está, sempre do lado esquerdo, um poliedro encostado a uma escada que tem por trás um anjo mais pequeno, um "putto", semi-adormecido. A nigredo é uma fase da alma em dormencia, e o mesmo sinal é dado pela cão enrolado e dormindo aos pés do Anjo. O cão, fiel companheiro do adepto em muitas das gravuras de alquimia conhecidas, e no caso de Cornelius Agrippa fazendo parte da lenda da sua vida de alquimista e nigromante.
O Anjo tem à cintura uma chave , e é Duerer quem, nos desenhos preparatórios da gravura, escreve que as chaves significam PODER.
Para Erwin Panofsky o poliedro será um cubo, desenhado de modo peculiar para que não se tenha desde logo a noção do equilíbrio das faces.O que tem todo o sentido: os alquimistas falam da pedra cúbica, e da pedra polida, quando desejam referir-se à perfeição que é necessário atingir. E para tal a CHAVE é indispensável, pois todo o proceso é cifrado, é secreto, não é dado a qualquer um.
( E.Panofsky, Saturn and Melancholy, 1964 )

Passemos agora ao maior monumento literário que, na nossa cultura, dá testemunho da melancolia dita imaginativa, própria de artistas, neste caso Bernardim Ribeiro com a sua MENINA E MOÇA.
Pela mão do Professor José V. de Pina Martins foi publicado na Fundação Gulbenkian o fac-simile da edição de Ferrara de 1554 ( Lisboa, 2002 ). Um precioso estudo antecede o fac simile fornecendo aos investigadores, ou simples leitores, toda a informação e todo o historial relativo a esta obra- prima das nossas letras, que ainda não "transitou" para o mundo, como devia, por nunca se ter feito uma tradução inglesa. O momento há-de chegar, como chegou para outros, ainda que com séculos de atraso. Um amigo da blogosfera já colocou no éter a sua tentativa, pedindo sugestões a quem o possa ajudar com boas sugestões. Aqui fica o seu blog : IDIOCENTRISM.

A primeira nota, de grande interesse, é que nesta edição a menina diz " menina e moça me levaram de casa de minha mãe" e não de "casa de meu pai" como sempre nos habituaram na escola, devido a outras leituras de outras edições.Faz muita diferença, do ponto de vista psicológico e simbólico, dizer uma coisa ou outra.
Bernardim, seguindo a tradição da lírica de Amigo, falando pela boca de uma jovem que foi separada de sua mãe; projectando-se num universo todo feminino, com seu ambiente e sua psicologia muito próprios; somando a isso a expressão de uma saudade infinita e sem cura. Um lamento pungente.
Não vou transcrever aqui a novela, o que pretendo é deixar uma sugestão de leitura, chamando a atenção para o NEGRO DE ALMA de que ela dá testemunho.
Nos primeiros capítulos descreve-se a partida, sem razão que se conheça, criando um ambiente de mistério .
Depois a paisagem, de montes e vales, os precipícios da imaginação.
Surge o rouxinol, cujo canto melodioso cedo se apagará, também ele.
E logo de seguida aparece também, sem que se saiba ao certo de onde nem porquê, a dama vestida de negro. Toda esta imprecisão adensa a atmosfera de sonho que caracteriza a novela. A dama surge como que de dentro da água que a Menina estava a contemplar :
" E, estando assim olhando para onde corria a água, ouvi bulir o arvoredo.Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo. Mas olhando para ali vi que vinha uma mulher e, pondo nela bem os olhos, vi que era de de corpo alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo; vestida toda de preto, no seu manso andar e meneios seguros do corpo e do rosto e do olhar parecia de acatamento.Vinha só(...) E entre uns vagarosos passos que ela dava, de quando em quando colhia um cansado fôlego, como que lhe queria falecer a alma".

Duas figurações da Anima, a juvenil, da Menina, e a melancólica adulta , a Dona que desliza mais como a Sombra que é do que como a mulher que devia ser. Bernardim exprime em ambas, logo nestes primeiros capítulos, a desordem da alma e o desespero de que se sente possuído.

Saturday, September 02, 2006

Paul Celan


SCHIBBOLETH

Junto com as minhas pedras,
que foram crescendo com lágrimas
por trás das grades,

fui arrastado
para o meio da praça,
para ali
onde a bandeira se desfralda, à qual
não prestei juramento nenhum.

Flauta,
dupla flauta da noite:
pensa na escura
vermelhidão gémea
em Viena e Madrid.

Põe a tua bandeira a meia-haste,
recordação.
A meia-haste
para hoje e sempre.

Coração:
dá-te também aqui a conhecer,
aqui, no meio da praça.
Chama-o, ao Schibboleth, grita-o
para o longe da pátria:
Fevereiro. No pasarán.

Unicórnio:
tu sabes das pedras,
tu sabes das águas,
vem,
eu levo-te até
às vozes
da Estremadura.


Um leitor da blogoesfera escrevia-me, há pouco tempo, a propósito de Celan:" não se estará a exagerar o seu judaísmo ao comentar os seus poemas ? "
É claro que não se pode esquecer a sua origem, mas não é a sua origem e sim o sofrimento que ela lhe causou que marca a sua memória e a sua poética de dôr e divisão face a um mundo ( e a um Deus ) que permitiu o horror dos campos de concentração, onde Celan viu morrer quem lhe era querido e quem lhe seria estranho, se não tivesse morrido ali também naquelas circunstancias. Celan escapa, mas não esquece e há imagens que o acompanharão "hoje e sempre".
Tais imagens, e muitos dos apelos e das invocações que faz, dirigem-se a um Olhar Ausente, um olhar cego, que negra nuvem toldou durante demasiado tempo.
Será preciso falar, será preciso DIZER o que muitos tinham decidido que seria indizível, e é o esforço do dizer que estrutura a poética de Celan e não o seu judaísmo.Mas o seu judaísmo, como o comunismo dos espanhóis que foram abatidos na guerra de 1936 é a causa próxima do sofrimento e da perseguição que fazem parte de uma História vivida e não pode nem deve ser apagada.
Jean Bollack, um dos maiores intérpretes da obra de Celan aborda precisamente a questão da escrita e do apagamento contra o qual é necessário lutar. Apagamento do autor, enquanto judeu e não só: voz incómoda, voz que dá testemunho, que tem o direito de julgar porque foi injustamente julgada. " O tempo esconde, mas a escrita não é levada como o resto".
L'ÉCRIT , une poétique dans l'oeuvre de Celan, par JEAN BOLLACK ( P.U.F., Paris, 2003 )

A propósito de Schibboleth, escreve Bollack ( citando Celan : " nunca escrevi uma linha que não estivesse ligada à minha existência; sou realista à minha maneira " ) que a imagem do Uncórnio apela à unidade, à coerencia que no mundo ( e em muitos dos seus amigos) se perdia. E neste caso, muito concreto, é ainda um apelo ao amigo Erich Einhorn (unicórnio em alemão) a quem escreve para lhe lembrar uma causa comum, a da liberdade (ainda que utópica, como se verá na posterior evolução da causa russa).Este é um poema que deve ser lido a par de outro," in memoriam Paul Éluard " , também ele comunista e cujo canto à liberdade é um dos textos mais comoventes e empolgantes que se podem ler.
Assim se estrutura uma poética da verdade e do dizer a verdade, na sua circunstancia.

Mas para lá de tudo isto fica o poema, e a sua lingua própria, falando com os outros poemas, estabelecendo uma continuidade que obriga a que se leia um e outro, todos em face uns dos outros, completando imagens e sentidos numa cadeia única de percepçaõ.
Citando Bollack " Os poemas absorvem outros poemas, os de Celan e os de outros poetas.Têm uma necessidade de continuação e ao mesmo tempo usam os elementos mais contingentes, mais casuais, tornados significantes no sistema de referencias estabelecido...O encontro mais fortuito é o mais forte...A rede semântica afirma-se ao constituir-se...A obra poética é fabricada com a língua da própria obra" ( p.210 ).
Os poemas são um diálogo contínuo com a poesia " com o seu poder ilimitado de exploração, e as suas limitações; encontram-se neles todas as posições intermédias, entre o proibido e a reflexão mais corajosa e dura, entre a evasão e o bloqueamento, entre o sucesso inesperado e a constatação lúcida da impotência" 
( p. 211 ).

Digo só, para terminar, que esta poética da fractura e continuidade da consciência, que funda o Modernismo, é uma das causas do deleite de ler e reler Rilke, ou Celan ou Pessoa, ao qual se poderiam aplicar algumas das reflexões de Jean Bollack no tocante à poesia que se constitui no diálogo dos poemas uns com os outros, dos heterónimos uns com os outros.
Sempre defendi que para entender Pessoa é preciso lê-lo todo, e em permanente confronto com as suas múltiplas vozes.

On Writing

Pessoa/ Bernardo Soares, THE BOOK OF DISQUIET
( Translated by Richard Zenith )

116

" To write is to forget. Literature is the most agreeable way of ignoring life. Music soothes, the visual arts exhilarate, and the performing arts ( such as acting and dance ) entertain. Literature, however, retreats from life by turning it into a slumber. The other arts make no such retreat - some because they use visible and hence vital formulas, others because they live from human life itself.
This isn't the case with literature. Literature simulates life. A novel is a story of what never was, and a play is a novel without narration. A poem is the expression of ideas or feelings in a language no one uses, because no one talks in verse."

If you enjoyed this fragment, go on reading, quite soon you will find that Pessoa, under his many voices, dreams or disguises if you want, will say this and its contrary, for he enjoys the contradiction out of which he built his entire (literary) life. At a point he will disclose his secret way not to forget, but to remember :

443

" I don't write in Portuguese. I write my own self."

Thursday, August 31, 2006

Lied ( a montanha e o vale )

Desceu
da montanha
ao vale.

Chegado a casa
bebeu um copo
do vinho
que lá ficara
guardado.

Foi ao poço
buscar água:
lavou as mãos
e a cara
lavou os pés
cansados
do caminhar.

Subia a lua
no céu
quando se foi
deitar.

Alentejo

Fim de Agosto:
na planície dourada
o vôo do milhafre

Tuesday, August 22, 2006

As Nornas

(ouvindo Wagner)

Cantam as tecedeiras
enquanto tecem os fios:
uma dá, a outra puxa,
a última esconde o desenho
e com tesoura de prata
corta o fio do destino

Sunday, August 20, 2006

The Book of Disquiet


For my English readers, the magnificent translation by Richard Zenith of Fernando Pessoa'sThe Book of Disquiet.
Considered by critics a unique masterpiece :
" Portugal's greatest modern poet...deals with the only important question in the world, not less important because it is unanswerable: What am I ?". Anthony Burgess ( Observer )

" ...A haunting mosaic of dreams, autobiographical vignettes, shards of literary theory...Wherever you deep, there are 'rich hours' and teasing depths " . George Steiner ( Observer )


" One of the defining texts of the modern world ". Nicholas Lezard ( Guardian )

Let me add Pessoa has been the most influential author read in Portugal, co-founder of the Modernist movement,mainly through the poetry of his heteronym Álvaro de Campos, writing at the same time the poetry of Alberto Caeiro, the heteronymic "Master" of the others, such as Ricardo Reis orAntónio Mora or even Pessoa himself.While intending to build a neo-pagan system, as he called it, he studied and meditated upon hermetical, messianic matters, the "fashion" of those times. He read, translated and met the Magus Crowley in Lisbon and was very much interested in his Golden Dawn doctrines.But at a certain time he put an end to their correspondance, as if he were aware of the danger related to (black) magic.
Most astonishing, when it was discovered and published, was THE BOOK OF DISQUIET ( LIVRO DO DESASSOSSEGO ) as a sort of diary of another heteronym, Bernardo Soares : reflecting on the daily routines of the poet and his passionate but not always easy surrender to a literary , philosophical, quite lonely destiny. He died 1935,at the age of 43. How much could he have written had he lived longer is a futile question. He wrote all the time, he wrote about everything he wanted to, he left almost everything unpublished. As he told in a letter to a friend, he would like to center once more in himself as Fernando Pessoa all the poetry ascribed to the heteronyms and then publish a book that would be read as a whole.That never happened.
So here we are reading the heteronyms as if each one was a different person, a different friend to whom we can resort to, according to our mood, our need for more substantial literature and thought.

THE BOOK OF DISQUIET (transl. RICHARD ZENITH)

169

Whatever we pursue, we pursue for the sake of ambition, but either we never realize that ambition, and we are poor, or we think we've realized it, and we are rich fools.
What grieves me is that my best is no good, and that another whom I dream of, if he existed, would have done it better. Everything we do, in art or in life,is the imperfect copy of what we thought of doing.
...We're hollow on the inside as well as on the outside, pariahs in our expectations and in our realizations.

Fernando Pessoa, Caeiro, The Book of Disquiet

"There is ample metaphysics in not thinking at all.

What do I think about the world?
How should I know what I think about the world?
If I were illI would think about it.

What idea I have about things?
What opinion do I have on causes and effects?
What meditations have I had upon God and the soul
And upon the creation of the World?
I don't know. For me, to think about that is to shut my eyes
And not think. It is to draw the curtains
Of my window (but it has no curtains)."
( F.Pessoa/Alberto Caeiro , transl. Jonathan Griffin )

Compare now, before I go on with the Book of Disquiet, the assumed 'simplicity' of the voice of Caeiro (very sophisticated in fact,not at all simple, he is here responding to another heteronym of his youth, Alexander Search - the name pointing already to the metaphysical questioning of man and the mistery of the universe ) - compare it to the writer in the BOOK:

136

" The burden of feeling! The burden of having to feel ! "

All the way long we will see Pessoa divided between feeling and thinking, wanting to feel his thoughts and to think his feelings, or both at the same time, in an unbearable consciousness of being conscious of both.

335

'To feel is a pain in the neck'. This offhand remark, spoken by a stranger I met in a restaurant, has been glowing ever since on the floor of my memory.The very earthiness of the language gives the sentence spice."

459

"I'd like to be in the country to be able to like being in the city.I like being in the city in any case, but I'd like it twice over if I were in the country."

460

...Who among us, looking back down the path of no return, can say he followed it in the right way ?

375

"Life is the hesitation between an exclamation and a question.Doubt is resolved by a period."

(translations by Richard Zenith )

And guess whose is this one?


Also belonging to Dr. Rau's collection.
Some hints: oil painting , The Tower of Maghera ( no google allowed ! ) 1735-1742.

The Rau collection ( Dr.Rau called it his "petit Louvre" ) will be shown in Lisbon until the end of September.
It includes 95 works , from Fra Angelico to Bonnard, in a variety of schools and artists that can be seen as a summary of western painting and its masters.

Still for Gawain



Still from the RAU collection.
What is it with Canaletto that we are immediatly attracted to his paintings?

Cranach the Elder for Gawain's eyes



From the RAU COLLECTION, now in Lisbon, this Judith (1525).
Cranach being a friend of Luther, recently at odds with the Pope and the Church (1517 ) this picture acquires an extra symbolic sense : the sword of virtue slaining the head of all evils.

Thursday, August 17, 2006

Mais Hildegarda



LXVII
Antífona

Deus fez saber,desde a primeira mulher,
que da custódia do homem a mulher se nutriria.

LXXIII
Transborda Caridade
Antífona

Em tudo transborda a caridade:
notável desde os abismos aos céus mais altos,
mais amável dos bens,
o Rei supremo
ela beijou.


(trad.J.F.de Carvalho e J.T.de Mendonça)

Hildegarda von Bingen


Uma das primeiras obras de Hildegarda, ORDO VIRTUTUM, escrita antes de 1151, apresenta-nos a imagem da cidade celeste, Jerusalém. Neste drama lírico o simbolismo da cidade liga-se ao do jardim florido, como que sugerindo a recuperação de um estado natural perfeito, edénico, como nos tempos que antecederam a Queda.
A cidade está protegida por muralhas, em cujas pedras se encontram encastoadas jóias, "gemas". Como salienta Peter Dronke a palavra latina gemma tanto pode significar jóia como rebento - desenhando-se deste modo a imagem floral, e de renascimento do jardim edénico.
As pedras são ainda para Hildegarda "pedras humanas", vivas, e o alicerce da cidade é o lapis vivus, o filho de Deus, Cristo.
No centro da cidade cresce a árvore cósmica. As raizes são os profetas, as virtudes são os ramos e os frutos, o todo sendo ao mesmo tempo humano e divino.
O que neste drama é apontado será desenvolvido com mais pormenor em duas das suas obras em prosa: o SCIVIAS (conhece as vias ) e o LIBER DIVINORUM OPERUM, cosmologia completada em 1173," coroando o trabalho de toda a sua vida", nas palavras de Dronke.
As obras acima citadas são visões que Hildegarda afirma lhe terem sido transmitidas por uma voz ou luz celeste.Em ambas surge no fim a cidade celeste, a Jerusalém divina.
As leituras que na opinião de Peter Dronke mais terão influenciado a monja são a CIDADE DE DEUS de Sto.Agostinho, o APOCALIPSE de S.João e o PASTOR DE HERMAS, uma alegoria cristã do século II da nossa era.
De Hildegarda traduziram Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino de Mendonça um conjunto de poemas, FLOR BRILHANTE em ed. bilingue da Assírio e Alvim (2004) de que deixo apenas um bonito exemplo:

LXIII

Para o Evangelho
Antífona

Ó púrpura de sangue,
fluíste de excelsa altura
tocada por Deus
tu és a flor
que o sopro da serpente
jamais lesou.


Bibliografia:
Peter Dronke, in A SIMBÓLICA DO ESPAÇO, ed.Estampa, 1991
Aos melómanos curiosos, a edição em CD da American Opera Projects :ORDO VIRTUTUM, adapted from the work of Hildegard von Bingen by Lisa Bielama, Kitty Brazelton, Ebe Beglarian, Elaine Kaplinsky. Com o título de HILDEGARLS.
1.Prologue
2. Act I
3. Act II
4. Act III
5. Act IV
6.Processional.

A não perder.

Monday, August 14, 2006

Tavira III

BALADA DE TAVIRA

De Tavira cantarei
o rio com suas margens
suas mouras encantadas
aguardando um novo amigo

De Tavira cantarei
Mesquitas Mosteiros Igrejas
ruínas da sua história

O choro do Abencerragem
frente ao poço da memória.

Tavira II

Tavira, nas ruínas:

As ruínas são de um pátio
com uma fonte no meio.
Junto à fonte
um mouro chora o seu reino.

Tavira I, na margem do rio

Tavira I, na margem do rio Gilão:

Na margem do rio
aguardando o amigo

Na margem do rio
penteando o cabelo

Na margem do rio
o amigo tardando

O amigo não veio


(Para a Mariana)

Tuesday, August 08, 2006

Octavio Paz

Entre Irse y Quedarse

"Entre irse y quedarse duda el día,
enamorado de su transparencia.

La tarde circular es ya bahía:
en su quieto vaivén se mece el mundo.

Todo es visible y todo es elusivo,
todo está cerca y todo es intocable.

....

La luz hace del muro indiferente
un espectral teatro de reflejos.

En el centro de un ojo me descubro;
no me mira, me miro en su mirada.

Se disipa el instante. Sin moverme,
yo me quedo y me voy: soy una pausa."


Apenas outro comentário: do jogo dos opostos nasce um centro de claridade, um olho que a Paul Celan assustaria de tão indiferente na sua transparencia, mas que a Octavio Paz ilumina, não tanto como pausa,como ele diz, mas antes como instante supremo de alguma fusão mística. Nesse instante se anulam o espaço e o tempo.

Monday, August 07, 2006

Intervalos:Fernando Pessoa e Octavio Paz

FernandoPessoa

Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus ?...E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio ?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio ?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real ?

Deus é um grande intervalo,
Mas entre quê e quê ?...
Entre o que digo e o que calo
Existo ? Quem é que me vê ?
Erro-me...E o pombal elevado
Está em torno da pomba, ou de lado ?

(Além-Deus, V/ Braço Sem Corpo Brandindo Um Gládio)


Octavio Paz

Entre lo que veo y digo,
entre lo que digo y callo,
entre lo que callo y sueño,
entre lo que sueño y olvido,
la poesia.
Se desliza
entre el sí y el no:
dice lo que callo,
calla
lo que digo,
sueña
lo que olvido.
No es un decir:
es un hacer.
Es un hacer
que es un decir.
La poesia se dice y se oye:
es real.
Y apenas digo
ES REAL,
se disipa.
Así es más real ?

Idea palpable,
palabra
impalpable:
la poesia
va y viene
entre lo que es
y lo que no es.
Teje reflexos
Y los desteje.
La poesia
siembra ojos en la página,
siembra palabras en los ojos.
Los ojos hablan,
las palabras miran,
las miradas piensan.
Oír
los pensamientos,
ver
lo que decimos,
tocar el cuerpo de la idea.
Los ojos
se cierran,
las palabras se abren.

(DECIR:HACER, a Roman Jacobson)

Um único comentário: da metafísica à poesia, do pensar ao dizer, um intervalo.