Tuesday, August 22, 2006

As Nornas

(ouvindo Wagner)

Cantam as tecedeiras
enquanto tecem os fios:
uma dá, a outra puxa,
a última esconde o desenho
e com tesoura de prata
corta o fio do destino

Sunday, August 20, 2006

The Book of Disquiet


For my English readers, the magnificent translation by Richard Zenith of Fernando Pessoa'sThe Book of Disquiet.
Considered by critics a unique masterpiece :
" Portugal's greatest modern poet...deals with the only important question in the world, not less important because it is unanswerable: What am I ?". Anthony Burgess ( Observer )

" ...A haunting mosaic of dreams, autobiographical vignettes, shards of literary theory...Wherever you deep, there are 'rich hours' and teasing depths " . George Steiner ( Observer )


" One of the defining texts of the modern world ". Nicholas Lezard ( Guardian )

Let me add Pessoa has been the most influential author read in Portugal, co-founder of the Modernist movement,mainly through the poetry of his heteronym Álvaro de Campos, writing at the same time the poetry of Alberto Caeiro, the heteronymic "Master" of the others, such as Ricardo Reis orAntónio Mora or even Pessoa himself.While intending to build a neo-pagan system, as he called it, he studied and meditated upon hermetical, messianic matters, the "fashion" of those times. He read, translated and met the Magus Crowley in Lisbon and was very much interested in his Golden Dawn doctrines.But at a certain time he put an end to their correspondance, as if he were aware of the danger related to (black) magic.
Most astonishing, when it was discovered and published, was THE BOOK OF DISQUIET ( LIVRO DO DESASSOSSEGO ) as a sort of diary of another heteronym, Bernardo Soares : reflecting on the daily routines of the poet and his passionate but not always easy surrender to a literary , philosophical, quite lonely destiny. He died 1935,at the age of 43. How much could he have written had he lived longer is a futile question. He wrote all the time, he wrote about everything he wanted to, he left almost everything unpublished. As he told in a letter to a friend, he would like to center once more in himself as Fernando Pessoa all the poetry ascribed to the heteronyms and then publish a book that would be read as a whole.That never happened.
So here we are reading the heteronyms as if each one was a different person, a different friend to whom we can resort to, according to our mood, our need for more substantial literature and thought.

THE BOOK OF DISQUIET (transl. RICHARD ZENITH)

169

Whatever we pursue, we pursue for the sake of ambition, but either we never realize that ambition, and we are poor, or we think we've realized it, and we are rich fools.
What grieves me is that my best is no good, and that another whom I dream of, if he existed, would have done it better. Everything we do, in art or in life,is the imperfect copy of what we thought of doing.
...We're hollow on the inside as well as on the outside, pariahs in our expectations and in our realizations.

Fernando Pessoa, Caeiro, The Book of Disquiet

"There is ample metaphysics in not thinking at all.

What do I think about the world?
How should I know what I think about the world?
If I were illI would think about it.

What idea I have about things?
What opinion do I have on causes and effects?
What meditations have I had upon God and the soul
And upon the creation of the World?
I don't know. For me, to think about that is to shut my eyes
And not think. It is to draw the curtains
Of my window (but it has no curtains)."
( F.Pessoa/Alberto Caeiro , transl. Jonathan Griffin )

Compare now, before I go on with the Book of Disquiet, the assumed 'simplicity' of the voice of Caeiro (very sophisticated in fact,not at all simple, he is here responding to another heteronym of his youth, Alexander Search - the name pointing already to the metaphysical questioning of man and the mistery of the universe ) - compare it to the writer in the BOOK:

136

" The burden of feeling! The burden of having to feel ! "

All the way long we will see Pessoa divided between feeling and thinking, wanting to feel his thoughts and to think his feelings, or both at the same time, in an unbearable consciousness of being conscious of both.

335

'To feel is a pain in the neck'. This offhand remark, spoken by a stranger I met in a restaurant, has been glowing ever since on the floor of my memory.The very earthiness of the language gives the sentence spice."

459

"I'd like to be in the country to be able to like being in the city.I like being in the city in any case, but I'd like it twice over if I were in the country."

460

...Who among us, looking back down the path of no return, can say he followed it in the right way ?

375

"Life is the hesitation between an exclamation and a question.Doubt is resolved by a period."

(translations by Richard Zenith )

And guess whose is this one?


Also belonging to Dr. Rau's collection.
Some hints: oil painting , The Tower of Maghera ( no google allowed ! ) 1735-1742.

The Rau collection ( Dr.Rau called it his "petit Louvre" ) will be shown in Lisbon until the end of September.
It includes 95 works , from Fra Angelico to Bonnard, in a variety of schools and artists that can be seen as a summary of western painting and its masters.

Still for Gawain



Still from the RAU collection.
What is it with Canaletto that we are immediatly attracted to his paintings?

Cranach the Elder for Gawain's eyes



From the RAU COLLECTION, now in Lisbon, this Judith (1525).
Cranach being a friend of Luther, recently at odds with the Pope and the Church (1517 ) this picture acquires an extra symbolic sense : the sword of virtue slaining the head of all evils.

Thursday, August 17, 2006

Mais Hildegarda



LXVII
Antífona

Deus fez saber,desde a primeira mulher,
que da custódia do homem a mulher se nutriria.

LXXIII
Transborda Caridade
Antífona

Em tudo transborda a caridade:
notável desde os abismos aos céus mais altos,
mais amável dos bens,
o Rei supremo
ela beijou.


(trad.J.F.de Carvalho e J.T.de Mendonça)

Hildegarda von Bingen


Uma das primeiras obras de Hildegarda, ORDO VIRTUTUM, escrita antes de 1151, apresenta-nos a imagem da cidade celeste, Jerusalém. Neste drama lírico o simbolismo da cidade liga-se ao do jardim florido, como que sugerindo a recuperação de um estado natural perfeito, edénico, como nos tempos que antecederam a Queda.
A cidade está protegida por muralhas, em cujas pedras se encontram encastoadas jóias, "gemas". Como salienta Peter Dronke a palavra latina gemma tanto pode significar jóia como rebento - desenhando-se deste modo a imagem floral, e de renascimento do jardim edénico.
As pedras são ainda para Hildegarda "pedras humanas", vivas, e o alicerce da cidade é o lapis vivus, o filho de Deus, Cristo.
No centro da cidade cresce a árvore cósmica. As raizes são os profetas, as virtudes são os ramos e os frutos, o todo sendo ao mesmo tempo humano e divino.
O que neste drama é apontado será desenvolvido com mais pormenor em duas das suas obras em prosa: o SCIVIAS (conhece as vias ) e o LIBER DIVINORUM OPERUM, cosmologia completada em 1173," coroando o trabalho de toda a sua vida", nas palavras de Dronke.
As obras acima citadas são visões que Hildegarda afirma lhe terem sido transmitidas por uma voz ou luz celeste.Em ambas surge no fim a cidade celeste, a Jerusalém divina.
As leituras que na opinião de Peter Dronke mais terão influenciado a monja são a CIDADE DE DEUS de Sto.Agostinho, o APOCALIPSE de S.João e o PASTOR DE HERMAS, uma alegoria cristã do século II da nossa era.
De Hildegarda traduziram Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino de Mendonça um conjunto de poemas, FLOR BRILHANTE em ed. bilingue da Assírio e Alvim (2004) de que deixo apenas um bonito exemplo:

LXIII

Para o Evangelho
Antífona

Ó púrpura de sangue,
fluíste de excelsa altura
tocada por Deus
tu és a flor
que o sopro da serpente
jamais lesou.


Bibliografia:
Peter Dronke, in A SIMBÓLICA DO ESPAÇO, ed.Estampa, 1991
Aos melómanos curiosos, a edição em CD da American Opera Projects :ORDO VIRTUTUM, adapted from the work of Hildegard von Bingen by Lisa Bielama, Kitty Brazelton, Ebe Beglarian, Elaine Kaplinsky. Com o título de HILDEGARLS.
1.Prologue
2. Act I
3. Act II
4. Act III
5. Act IV
6.Processional.

A não perder.

Monday, August 14, 2006

Tavira III

BALADA DE TAVIRA

De Tavira cantarei
o rio com suas margens
suas mouras encantadas
aguardando um novo amigo

De Tavira cantarei
Mesquitas Mosteiros Igrejas
ruínas da sua história

O choro do Abencerragem
frente ao poço da memória.

Tavira II

Tavira, nas ruínas:

As ruínas são de um pátio
com uma fonte no meio.
Junto à fonte
um mouro chora o seu reino.

Tavira I, na margem do rio

Tavira I, na margem do rio Gilão:

Na margem do rio
aguardando o amigo

Na margem do rio
penteando o cabelo

Na margem do rio
o amigo tardando

O amigo não veio


(Para a Mariana)

Tuesday, August 08, 2006

Octavio Paz

Entre Irse y Quedarse

"Entre irse y quedarse duda el día,
enamorado de su transparencia.

La tarde circular es ya bahía:
en su quieto vaivén se mece el mundo.

Todo es visible y todo es elusivo,
todo está cerca y todo es intocable.

....

La luz hace del muro indiferente
un espectral teatro de reflejos.

En el centro de un ojo me descubro;
no me mira, me miro en su mirada.

Se disipa el instante. Sin moverme,
yo me quedo y me voy: soy una pausa."


Apenas outro comentário: do jogo dos opostos nasce um centro de claridade, um olho que a Paul Celan assustaria de tão indiferente na sua transparencia, mas que a Octavio Paz ilumina, não tanto como pausa,como ele diz, mas antes como instante supremo de alguma fusão mística. Nesse instante se anulam o espaço e o tempo.

Monday, August 07, 2006

Intervalos:Fernando Pessoa e Octavio Paz

FernandoPessoa

Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus ?...E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio ?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio ?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real ?

Deus é um grande intervalo,
Mas entre quê e quê ?...
Entre o que digo e o que calo
Existo ? Quem é que me vê ?
Erro-me...E o pombal elevado
Está em torno da pomba, ou de lado ?

(Além-Deus, V/ Braço Sem Corpo Brandindo Um Gládio)


Octavio Paz

Entre lo que veo y digo,
entre lo que digo y callo,
entre lo que callo y sueño,
entre lo que sueño y olvido,
la poesia.
Se desliza
entre el sí y el no:
dice lo que callo,
calla
lo que digo,
sueña
lo que olvido.
No es un decir:
es un hacer.
Es un hacer
que es un decir.
La poesia se dice y se oye:
es real.
Y apenas digo
ES REAL,
se disipa.
Así es más real ?

Idea palpable,
palabra
impalpable:
la poesia
va y viene
entre lo que es
y lo que no es.
Teje reflexos
Y los desteje.
La poesia
siembra ojos en la página,
siembra palabras en los ojos.
Los ojos hablan,
las palabras miran,
las miradas piensan.
Oír
los pensamientos,
ver
lo que decimos,
tocar el cuerpo de la idea.
Los ojos
se cierran,
las palabras se abren.

(DECIR:HACER, a Roman Jacobson)

Um único comentário: da metafísica à poesia, do pensar ao dizer, um intervalo.

Saturday, July 29, 2006

Homenagem a Magritte



Alice

É do lado de cá do espelho
que corremos perigo.
Do lado de lá
tudo tem solução:
Alice espera por nós,
Alice dá-nos a mão.

Thursday, July 27, 2006

Mr. Pessoa

ON FIRST LOOKING into Honig's Pessoa

This man was three or five or many poets,
All with their own names, all with their own lives,
Writing in Portuguese and broken English sonnets,
A pagan, a parnassian....
....
And that which poetry is all about,
The metaphysician sick of metaphysics,
SOLEMN INVESTIGATOR OF USELESS THINGS.
Fernando Pessoa, as you saluted Whitman
With one hand tied behind you back.
I salute you, Honig and Octavio Paz.
(KARL SHAPIRO)

Poema escrito por Karl Shapiro na contracapa da tradução de O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, por Edwin Honig e Susan Brown , New York 1971, 1985,1986.
Destaco este livro por ter sido pioneiro no esforço de dar a conhecer a obra de Fernando Pessoa pela voz de Alberto Caeiro, sempre surpreendente (e não teria que ser assim ?) quando o relemos.
Eis o célebre n.9. Sou um guardador de rebanhos:

IX. I'M A KEEPER OF SHEEP

I'm a keeper of sheep.
The sheep are my thoughts
And my thoughts are all sensations.
I think with my hands and feet
And with my nose and mouth.

To think a flower is to see it and smell it
And to eat a fruit is to taste its meaning.

That's why on a hot day
When I ache from enjoying it so much,
And stretch out on the grass,
Closing my warm eyes,
I feel my whole body lying full length in reality,
I know the truth and I'm happy.


Conhecendo a totalidade da obra de Pessoa sabemos como é mentiroso este último verso: nunca o poeta se sentiu dono da verdade e ainda menos desse impossível e indefinível sentimento de ser feliz. Só não mente quando escreve o célebre poema do Fingidor.
Pessoa desdobra-se para se apagar? Para que, no excesso, se possa finalmente reduzir a um único centro, o da sua consciência ?

Continuo com a tradução de Honig, para que os meus leitores de língua inglesa se deliciem. Dos meus comentários eles não precisarão.

XXX. IF THEY WANT ME TO BE A MYSTIC, FINE.I'M A MYSTIC

If they want me to be a mystic, fine, I'm a mystic.
I'm a mystic, but only of the body.
My soul is simple and doesn't think.

My mysticism is not wanting to know.
It's living without thinking about it.

I don't know what nature is: I sing it.
I live on a hilltop
In a solitary whitewashed cabin.
And that's my definition.


This translation was awarded the prize of THE POETRY SOCIETY OF AMERICA

Ramos Rosa,Homenagem a Paul Celan

O António Ramos Rosa sabia como gosto da poesia de Paul Celan.
À sua boa amizade devo este poema que me mandou, de homenagem a Celan, envolvendo a importancia de dizer, e de dizer o Nome. Por ser belíssimo o transcrevo:

HOMENAGEM A PAUL CELAN

"Forma-irmã, coroa vazia
sobre a água, lâmpada e amêndoa,
talvez alma solar,
mas também polvo da sombra
com os nomes queimados.
Onde te escondes? Esperas talvez
uma palavra ou uma carícia nua,
um sopro...Se a torrente branca
do vazio
se ouvir
talvez tu estales
com um só olho de sombra
em que dormem as duas mãos da alba.
Com um latido de urgência
mas sem fatal avidez
reúno as iniciais vazias do teu nome
para te abraçar
antes que tenhas um sentido
antes que te evapores".

António escrevia "em diálogo": a sua poesia adquiria também, deste modo, uma amplidão maior, indiscutível.
Aqui fica a minha homenagem sentida.

Tuesday, July 25, 2006

Sir Gawain and the Green Knight



" These translations by Marie Borroff not only are one of the great achievements of the translator's craft but are works of art in their own right" Lee Patterson,YALE UNIVERSITY.

Encontramos neste romance de cavalaria, para além da sua alta qualidade literária, o que faz dele um clássico de seu pleno direito, como observa M.Borroff na introdução, a marca da tradição cavalheiresca medieval:serviço leal ao rei, serviço cortês à dama, bravura destemida ao defrontar os cavaleiros adversários.
Neste romance, como nos outros conhecidos, de que Parzival foi o mais celebrizado pelas versões que teve e pelo tratamento que Wagner lhe veio a dar, haverá TENTAÇÃO, QUEDA, REDENÇÃO - momentos que na aventura da vida do herói contribuem para uma exemplar modificação do seu carácter, tornado assim mais nobre e mais humilde, por mais nobre.
Sir Gawain é chamado a defrontar o CAVALEIRO VERDE, que o recebe no seu sumptuoso castelo, lhe oferece magníficas caçadas e usará também a sua própria mulher como isco para o fazer cair nas armadilhas do desejo.
Não vou contar o enredo todo.Mas chamo ainda a atenção para um pormenor muito importante, que é o desvendar do nome: só quando o cavaleiro verde diz a Gawain o seu nome verdadeiro, descrevendo a sua linhagem, podem ambos selar uma amizade feita de perdão e entendimento.

How runs your right name? - and let the rest go.
That shall I give you gladly, said the Green Knight then;
Bertilak de Hautdesert, this barony I hold.
Through the might of Morgan le Fay, that lodges at my house,
By subtleties of science and sorcerer's arts,
The mistress of Merlin, she has caught many a man,
For sweet love in secret she shared sometime
With that wizard, that knows well each one of your knights
and you.
Morgan the Goddess, she,
So styled by title true;
None holds so high degree
That her arts cannot subdue.

Em resumo, foi a fada Morgana que levou o Cavaleiro Verde a desafiar um dos da Távola Redonda, por se ter sabido que era grande (desproporcionado) o orgulho desses cavaleiros. Entra aqui um novo conceito , o de "degree", medida, ordem, de acordo com o que deve ser a harmonia natural do ser humano, sabendo cada um o lugar que lhe compete e o comportamento que dele se espera, em cada situação. Este conceito de degree será muito glosado nas peças de Shakespeare: onde a ordem se quebra ou se altera indevidamente logo a tragédia, ou pelo menos uma grande confusão, se instala.
Mais haveria a dizer sobre o papel de Morgana, apelidade de Deusa, neste texto.
Habitando (sem que se saiba porquê) o castelo do Cavaleiro Verde dá a indicação de ser um alter-ego da sua própria mulher, a tentadora que entra no quarto de Gawain depois de cada uma das caçadas, em que visivelmente o grande prazer é físico e em que cada um dos animais pode representar a força do instinto.
Morgana deusa da vegetação, o verde do cavaleiro sua marca distinta, a aventura toda a aprendizagem da "retenue" do desejo, o amor contido do trovador face à dama a quem não pode entregar senão as suas canções.
O que não significa, como é óbvio, que não se quebrasse, muitas e muitas vezes (todas ?) uma tal obrigação.

Tuesday, July 11, 2006

O Nome

Diz.

Diz o nome.

Escolhe
as sílabas.

Indica
as letras
com a tua marca
de fogo.

As cinzas
em breve apagarão
essa rara
existência.

Friday, June 30, 2006

Para a Paula Oliveira compor


É uma cantiga de Amigo de João Zorro, trovador do tempo de D.Dinis :

En Lixboa, sobre lo mar,
Barcas novas mandei lavrar.
Ai mia senhor velida !

En Lixboa, sobre lo ler,
Barcas novas mandei fazer.
Ai mia senhor velida !

Barcas novas mandei lavrar,
E no mar as mandei deitar,
Ai mia senhor velida !

Barcas novas mandei fazer,
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida !


Bibliografia para a lírica de amigo e de amor em: Asensio, Luciana Stegagno Picchio, em Stephen Reckert e Helder Macedo.
Como diz uma pessoa amiga "corre um google ! ".
Por este e outros poemas podemos ver como o nosso fado, lisboeta e marítimo, tem uma raiz antiga, genuína e belíssima.
Podíamos fazer uma selecção temática, em torno do mar, em torno da cidade, ou dos rios e das fontes do campo, ou ainda uma selecção que fosse um "bestiário", à moda medieval, com os principais participantes da lírica de amigo e de amor :

Decid amigo sois flor
u obra morisca de esparto
o lavanco o ruiseñor
gayo o martin pescador
o mariposa o lagarto ?
O menestril o faraute
o tamborino o trompete
o tañedor de burlete
o cantador de cosaute ?

can mayor


Celebram os companheiros de CAN MAYOR dez anos de actividade da oficina de Tradução Literária. Felicito-os pela dedicação, e pelo bom gosto das escolhas feitas ao longo destes muitos anos.
Neste número podemos ler poesia de Keats, Browning, Laforgue, Claudel, W.Stevens, Apollinaire, C.Aiken, C.Riba, Éluard, B.Brecht, H.Crane, Seferis, E. Jabès, M.Luzi, Bigongiari, e Sophia de Mello Breyner. Desta o belo e actual poema do soldado morto. Rimbaud, Pessoa, Sophia, e a imagem recorrente do jovem "que foi julgado e perdido" como hoje continuam a ser.
Escolho deste belo conjunto a tradução de Bertolt Brecht, autor que li, que traduzi, podendo apreciar o mérito de Robayna e José Juan Batista neste caso:

A la muerte voluntaria de Walter Benjamin

Oí decir que levantaste la mano contra ti mismo
Anticipando al matarife.
Ocho anõs desterrado, mirando la ascensión del enemigo.
Empujado al final a una frontera intraspasable,
Pasaste, dicen, otra traspasable.

Los imperios se hunden. Delincuentes
Caminan al compás de hombres de estado. Los pueblos
Ya no se ven, cubiertos por las armas.

Negro, el futuro. Frágiles
Los poderes del bien. Veías todo eso
Al destruir tu carne atormentada.

( Bertolt Brecht )

Comovente, premonitório de outras mortes, como a de Paul Celan, outro nome grande da literatura do século XX que foi tempo de trevas para tantos e tantos criadores.