Tavira I, na margem do rio Gilão:
Na margem do rio
aguardando o amigo
Na margem do rio
penteando o cabelo
Na margem do rio
o amigo tardando
O amigo não veio
(Para a Mariana)
Monday, August 14, 2006
Tuesday, August 08, 2006
Octavio Paz
Entre Irse y Quedarse
"Entre irse y quedarse duda el día,
enamorado de su transparencia.
La tarde circular es ya bahía:
en su quieto vaivén se mece el mundo.
Todo es visible y todo es elusivo,
todo está cerca y todo es intocable.
....
La luz hace del muro indiferente
un espectral teatro de reflejos.
En el centro de un ojo me descubro;
no me mira, me miro en su mirada.
Se disipa el instante. Sin moverme,
yo me quedo y me voy: soy una pausa."
Apenas outro comentário: do jogo dos opostos nasce um centro de claridade, um olho que a Paul Celan assustaria de tão indiferente na sua transparencia, mas que a Octavio Paz ilumina, não tanto como pausa,como ele diz, mas antes como instante supremo de alguma fusão mística. Nesse instante se anulam o espaço e o tempo.
"Entre irse y quedarse duda el día,
enamorado de su transparencia.
La tarde circular es ya bahía:
en su quieto vaivén se mece el mundo.
Todo es visible y todo es elusivo,
todo está cerca y todo es intocable.
....
La luz hace del muro indiferente
un espectral teatro de reflejos.
En el centro de un ojo me descubro;
no me mira, me miro en su mirada.
Se disipa el instante. Sin moverme,
yo me quedo y me voy: soy una pausa."
Apenas outro comentário: do jogo dos opostos nasce um centro de claridade, um olho que a Paul Celan assustaria de tão indiferente na sua transparencia, mas que a Octavio Paz ilumina, não tanto como pausa,como ele diz, mas antes como instante supremo de alguma fusão mística. Nesse instante se anulam o espaço e o tempo.
Monday, August 07, 2006
Intervalos:Fernando Pessoa e Octavio Paz
FernandoPessoa
Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus ?...E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...
Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio ?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio ?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real ?
Deus é um grande intervalo,
Mas entre quê e quê ?...
Entre o que digo e o que calo
Existo ? Quem é que me vê ?
Erro-me...E o pombal elevado
Está em torno da pomba, ou de lado ?
(Além-Deus, V/ Braço Sem Corpo Brandindo Um Gládio)
Octavio Paz
Entre lo que veo y digo,
entre lo que digo y callo,
entre lo que callo y sueño,
entre lo que sueño y olvido,
la poesia.
Se desliza
entre el sí y el no:
dice lo que callo,
calla
lo que digo,
sueña
lo que olvido.
No es un decir:
es un hacer.
Es un hacer
que es un decir.
La poesia se dice y se oye:
es real.
Y apenas digo
ES REAL,
se disipa.
Así es más real ?
Idea palpable,
palabra
impalpable:
la poesia
va y viene
entre lo que es
y lo que no es.
Teje reflexos
Y los desteje.
La poesia
siembra ojos en la página,
siembra palabras en los ojos.
Los ojos hablan,
las palabras miran,
las miradas piensan.
Oír
los pensamientos,
ver
lo que decimos,
tocar el cuerpo de la idea.
Los ojos
se cierran,
las palabras se abren.
(DECIR:HACER, a Roman Jacobson)
Um único comentário: da metafísica à poesia, do pensar ao dizer, um intervalo.
Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus ?...E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...
Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio ?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio ?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real ?
Deus é um grande intervalo,
Mas entre quê e quê ?...
Entre o que digo e o que calo
Existo ? Quem é que me vê ?
Erro-me...E o pombal elevado
Está em torno da pomba, ou de lado ?
(Além-Deus, V/ Braço Sem Corpo Brandindo Um Gládio)
Octavio Paz
Entre lo que veo y digo,
entre lo que digo y callo,
entre lo que callo y sueño,
entre lo que sueño y olvido,
la poesia.
Se desliza
entre el sí y el no:
dice lo que callo,
calla
lo que digo,
sueña
lo que olvido.
No es un decir:
es un hacer.
Es un hacer
que es un decir.
La poesia se dice y se oye:
es real.
Y apenas digo
ES REAL,
se disipa.
Así es más real ?
Idea palpable,
palabra
impalpable:
la poesia
va y viene
entre lo que es
y lo que no es.
Teje reflexos
Y los desteje.
La poesia
siembra ojos en la página,
siembra palabras en los ojos.
Los ojos hablan,
las palabras miran,
las miradas piensan.
Oír
los pensamientos,
ver
lo que decimos,
tocar el cuerpo de la idea.
Los ojos
se cierran,
las palabras se abren.
(DECIR:HACER, a Roman Jacobson)
Um único comentário: da metafísica à poesia, do pensar ao dizer, um intervalo.
Saturday, July 29, 2006
Homenagem a Magritte
Thursday, July 27, 2006
Mr. Pessoa
ON FIRST LOOKING into Honig's Pessoa
This man was three or five or many poets,
All with their own names, all with their own lives,
Writing in Portuguese and broken English sonnets,
A pagan, a parnassian....
....
And that which poetry is all about,
The metaphysician sick of metaphysics,
SOLEMN INVESTIGATOR OF USELESS THINGS.
Fernando Pessoa, as you saluted Whitman
With one hand tied behind you back.
I salute you, Honig and Octavio Paz.
(KARL SHAPIRO)
Poema escrito por Karl Shapiro na contracapa da tradução de O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, por Edwin Honig e Susan Brown , New York 1971, 1985,1986.
Destaco este livro por ter sido pioneiro no esforço de dar a conhecer a obra de Fernando Pessoa pela voz de Alberto Caeiro, sempre surpreendente (e não teria que ser assim ?) quando o relemos.
Eis o célebre n.9. Sou um guardador de rebanhos:
IX. I'M A KEEPER OF SHEEP
I'm a keeper of sheep.
The sheep are my thoughts
And my thoughts are all sensations.
I think with my hands and feet
And with my nose and mouth.
To think a flower is to see it and smell it
And to eat a fruit is to taste its meaning.
That's why on a hot day
When I ache from enjoying it so much,
And stretch out on the grass,
Closing my warm eyes,
I feel my whole body lying full length in reality,
I know the truth and I'm happy.
Conhecendo a totalidade da obra de Pessoa sabemos como é mentiroso este último verso: nunca o poeta se sentiu dono da verdade e ainda menos desse impossível e indefinível sentimento de ser feliz. Só não mente quando escreve o célebre poema do Fingidor.
Pessoa desdobra-se para se apagar? Para que, no excesso, se possa finalmente reduzir a um único centro, o da sua consciência ?
Continuo com a tradução de Honig, para que os meus leitores de língua inglesa se deliciem. Dos meus comentários eles não precisarão.
XXX. IF THEY WANT ME TO BE A MYSTIC, FINE.I'M A MYSTIC
If they want me to be a mystic, fine, I'm a mystic.
I'm a mystic, but only of the body.
My soul is simple and doesn't think.
My mysticism is not wanting to know.
It's living without thinking about it.
I don't know what nature is: I sing it.
I live on a hilltop
In a solitary whitewashed cabin.
And that's my definition.
This translation was awarded the prize of THE POETRY SOCIETY OF AMERICA
This man was three or five or many poets,
All with their own names, all with their own lives,
Writing in Portuguese and broken English sonnets,
A pagan, a parnassian....
....
And that which poetry is all about,
The metaphysician sick of metaphysics,
SOLEMN INVESTIGATOR OF USELESS THINGS.
Fernando Pessoa, as you saluted Whitman
With one hand tied behind you back.
I salute you, Honig and Octavio Paz.
(KARL SHAPIRO)
Poema escrito por Karl Shapiro na contracapa da tradução de O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, por Edwin Honig e Susan Brown , New York 1971, 1985,1986.
Destaco este livro por ter sido pioneiro no esforço de dar a conhecer a obra de Fernando Pessoa pela voz de Alberto Caeiro, sempre surpreendente (e não teria que ser assim ?) quando o relemos.
Eis o célebre n.9. Sou um guardador de rebanhos:
IX. I'M A KEEPER OF SHEEP
I'm a keeper of sheep.
The sheep are my thoughts
And my thoughts are all sensations.
I think with my hands and feet
And with my nose and mouth.
To think a flower is to see it and smell it
And to eat a fruit is to taste its meaning.
That's why on a hot day
When I ache from enjoying it so much,
And stretch out on the grass,
Closing my warm eyes,
I feel my whole body lying full length in reality,
I know the truth and I'm happy.
Conhecendo a totalidade da obra de Pessoa sabemos como é mentiroso este último verso: nunca o poeta se sentiu dono da verdade e ainda menos desse impossível e indefinível sentimento de ser feliz. Só não mente quando escreve o célebre poema do Fingidor.
Pessoa desdobra-se para se apagar? Para que, no excesso, se possa finalmente reduzir a um único centro, o da sua consciência ?
Continuo com a tradução de Honig, para que os meus leitores de língua inglesa se deliciem. Dos meus comentários eles não precisarão.
XXX. IF THEY WANT ME TO BE A MYSTIC, FINE.I'M A MYSTIC
If they want me to be a mystic, fine, I'm a mystic.
I'm a mystic, but only of the body.
My soul is simple and doesn't think.
My mysticism is not wanting to know.
It's living without thinking about it.
I don't know what nature is: I sing it.
I live on a hilltop
In a solitary whitewashed cabin.
And that's my definition.
This translation was awarded the prize of THE POETRY SOCIETY OF AMERICA
Ramos Rosa,Homenagem a Paul Celan
O António Ramos Rosa sabia como gosto da poesia de Paul Celan.
À sua boa amizade devo este poema que me mandou, de homenagem a Celan, envolvendo a importancia de dizer, e de dizer o Nome. Por ser belíssimo o transcrevo:
HOMENAGEM A PAUL CELAN
"Forma-irmã, coroa vazia
sobre a água, lâmpada e amêndoa,
talvez alma solar,
mas também polvo da sombra
com os nomes queimados.
Onde te escondes? Esperas talvez
uma palavra ou uma carícia nua,
um sopro...Se a torrente branca
do vazio
se ouvir
talvez tu estales
com um só olho de sombra
em que dormem as duas mãos da alba.
Com um latido de urgência
mas sem fatal avidez
reúno as iniciais vazias do teu nome
para te abraçar
antes que tenhas um sentido
antes que te evapores".
António escrevia "em diálogo": a sua poesia adquiria também, deste modo, uma amplidão maior, indiscutível.
Aqui fica a minha homenagem sentida.
À sua boa amizade devo este poema que me mandou, de homenagem a Celan, envolvendo a importancia de dizer, e de dizer o Nome. Por ser belíssimo o transcrevo:
HOMENAGEM A PAUL CELAN
"Forma-irmã, coroa vazia
sobre a água, lâmpada e amêndoa,
talvez alma solar,
mas também polvo da sombra
com os nomes queimados.
Onde te escondes? Esperas talvez
uma palavra ou uma carícia nua,
um sopro...Se a torrente branca
do vazio
se ouvir
talvez tu estales
com um só olho de sombra
em que dormem as duas mãos da alba.
Com um latido de urgência
mas sem fatal avidez
reúno as iniciais vazias do teu nome
para te abraçar
antes que tenhas um sentido
antes que te evapores".
António escrevia "em diálogo": a sua poesia adquiria também, deste modo, uma amplidão maior, indiscutível.
Aqui fica a minha homenagem sentida.
Tuesday, July 25, 2006
Sir Gawain and the Green Knight

" These translations by Marie Borroff not only are one of the great achievements of the translator's craft but are works of art in their own right" Lee Patterson,YALE UNIVERSITY.
Encontramos neste romance de cavalaria, para além da sua alta qualidade literária, o que faz dele um clássico de seu pleno direito, como observa M.Borroff na introdução, a marca da tradição cavalheiresca medieval:serviço leal ao rei, serviço cortês à dama, bravura destemida ao defrontar os cavaleiros adversários.
Neste romance, como nos outros conhecidos, de que Parzival foi o mais celebrizado pelas versões que teve e pelo tratamento que Wagner lhe veio a dar, haverá TENTAÇÃO, QUEDA, REDENÇÃO - momentos que na aventura da vida do herói contribuem para uma exemplar modificação do seu carácter, tornado assim mais nobre e mais humilde, por mais nobre.
Sir Gawain é chamado a defrontar o CAVALEIRO VERDE, que o recebe no seu sumptuoso castelo, lhe oferece magníficas caçadas e usará também a sua própria mulher como isco para o fazer cair nas armadilhas do desejo.
Não vou contar o enredo todo.Mas chamo ainda a atenção para um pormenor muito importante, que é o desvendar do nome: só quando o cavaleiro verde diz a Gawain o seu nome verdadeiro, descrevendo a sua linhagem, podem ambos selar uma amizade feita de perdão e entendimento.
How runs your right name? - and let the rest go.
That shall I give you gladly, said the Green Knight then;
Bertilak de Hautdesert, this barony I hold.
Through the might of Morgan le Fay, that lodges at my house,
By subtleties of science and sorcerer's arts,
The mistress of Merlin, she has caught many a man,
For sweet love in secret she shared sometime
With that wizard, that knows well each one of your knights
and you.
Morgan the Goddess, she,
So styled by title true;
None holds so high degree
That her arts cannot subdue.
Em resumo, foi a fada Morgana que levou o Cavaleiro Verde a desafiar um dos da Távola Redonda, por se ter sabido que era grande (desproporcionado) o orgulho desses cavaleiros. Entra aqui um novo conceito , o de "degree", medida, ordem, de acordo com o que deve ser a harmonia natural do ser humano, sabendo cada um o lugar que lhe compete e o comportamento que dele se espera, em cada situação. Este conceito de degree será muito glosado nas peças de Shakespeare: onde a ordem se quebra ou se altera indevidamente logo a tragédia, ou pelo menos uma grande confusão, se instala.
Mais haveria a dizer sobre o papel de Morgana, apelidade de Deusa, neste texto.
Habitando (sem que se saiba porquê) o castelo do Cavaleiro Verde dá a indicação de ser um alter-ego da sua própria mulher, a tentadora que entra no quarto de Gawain depois de cada uma das caçadas, em que visivelmente o grande prazer é físico e em que cada um dos animais pode representar a força do instinto.
Morgana deusa da vegetação, o verde do cavaleiro sua marca distinta, a aventura toda a aprendizagem da "retenue" do desejo, o amor contido do trovador face à dama a quem não pode entregar senão as suas canções.
O que não significa, como é óbvio, que não se quebrasse, muitas e muitas vezes (todas ?) uma tal obrigação.
Tuesday, July 11, 2006
O Nome
Diz.
Diz o nome.
Escolhe
as sílabas.
Indica
as letras
com a tua marca
de fogo.
As cinzas
em breve apagarão
essa rara
existência.
Diz o nome.
Escolhe
as sílabas.
Indica
as letras
com a tua marca
de fogo.
As cinzas
em breve apagarão
essa rara
existência.
Friday, June 30, 2006
Para a Paula Oliveira compor

É uma cantiga de Amigo de João Zorro, trovador do tempo de D.Dinis :
En Lixboa, sobre lo mar,
Barcas novas mandei lavrar.
Ai mia senhor velida !
En Lixboa, sobre lo ler,
Barcas novas mandei fazer.
Ai mia senhor velida !
Barcas novas mandei lavrar,
E no mar as mandei deitar,
Ai mia senhor velida !
Barcas novas mandei fazer,
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida !
Bibliografia para a lírica de amigo e de amor em: Asensio, Luciana Stegagno Picchio, em Stephen Reckert e Helder Macedo.
Como diz uma pessoa amiga "corre um google ! ".
Por este e outros poemas podemos ver como o nosso fado, lisboeta e marítimo, tem uma raiz antiga, genuína e belíssima.
Podíamos fazer uma selecção temática, em torno do mar, em torno da cidade, ou dos rios e das fontes do campo, ou ainda uma selecção que fosse um "bestiário", à moda medieval, com os principais participantes da lírica de amigo e de amor :
Decid amigo sois flor
u obra morisca de esparto
o lavanco o ruiseñor
gayo o martin pescador
o mariposa o lagarto ?
O menestril o faraute
o tamborino o trompete
o tañedor de burlete
o cantador de cosaute ?
can mayor

Celebram os companheiros de CAN MAYOR dez anos de actividade da oficina de Tradução Literária. Felicito-os pela dedicação, e pelo bom gosto das escolhas feitas ao longo destes muitos anos.
Neste número podemos ler poesia de Keats, Browning, Laforgue, Claudel, W.Stevens, Apollinaire, C.Aiken, C.Riba, Éluard, B.Brecht, H.Crane, Seferis, E. Jabès, M.Luzi, Bigongiari, e Sophia de Mello Breyner. Desta o belo e actual poema do soldado morto. Rimbaud, Pessoa, Sophia, e a imagem recorrente do jovem "que foi julgado e perdido" como hoje continuam a ser.
Escolho deste belo conjunto a tradução de Bertolt Brecht, autor que li, que traduzi, podendo apreciar o mérito de Robayna e José Juan Batista neste caso:
A la muerte voluntaria de Walter Benjamin
Oí decir que levantaste la mano contra ti mismo
Anticipando al matarife.
Ocho anõs desterrado, mirando la ascensión del enemigo.
Empujado al final a una frontera intraspasable,
Pasaste, dicen, otra traspasable.
Los imperios se hunden. Delincuentes
Caminan al compás de hombres de estado. Los pueblos
Ya no se ven, cubiertos por las armas.
Negro, el futuro. Frágiles
Los poderes del bien. Veías todo eso
Al destruir tu carne atormentada.
( Bertolt Brecht )
Comovente, premonitório de outras mortes, como a de Paul Celan, outro nome grande da literatura do século XX que foi tempo de trevas para tantos e tantos criadores.
Sunday, June 25, 2006
Li Tai-bo
Saturday, June 24, 2006
O Estilo

A propósito de Estilo, OS PASSOS EM VOLTA, de 1964.
Sairá no Outono uma edição alemã, em tradução de Markus Sahr, que se tornou grande amigo de Portugal e dos seus autores.A casa editora é a ERATA, que hoje em dia se transformou também em galeria e livraria, tendo começado como pequena editora. Cresceu, e a literatura e a arte estão a crescer com ela.Este é um estilo bem alemão: bilden, construir, em vez de destruir.
Mas eu ia falar do Herberto Helder.
O primeiro dos passos em volta é o do ESTILO, a abrir o livro:
" Há, felizmente, o estilo.Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é aquela maneira subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.Faço-me entender ? Não ? Bem, não aguentamos esta desordem estuporada da vida. Então, pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte...Percebe? De uma dessas abstracções tremendas que servem muito bem para tudo.
...
O mundo é assim, que quer? É necessário encontrar um estilo. Imprescindível."...
Até à pergunta, também ela fundamental e colocada com o mesmo humor subtil:
" Gosta de poesia? Sabe o que é poesia? Tem medo da poesia? Tem a terrível alegria da poesia? Pois veja. É também um estilo. O poeta não morre da morte da poesia. É o estilo.
...
Sabe ao menos do que lhe estive a falar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela ?
...
Mas, escute cá, a loucura, a maravilhosa e tenebrosa loucura...Enfim, não seria isso um pouco mais nobre, digamos mais conforme com o grande segredo da nossa humanidade?
Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu."
E quanto ao estilo de cada um, estamos conversados: os dispersos, os intensos, os espertos porque "cultos" ao modo mais adequado, e os eternos cavaleiros da palavra perdida, cujo estilo é feito da interrogação e nunca do sucesso do que é dado em vida.
Aprofundar ou Acumular
Alguns autores, como Julián Rios ou Valère Novarina, no desenvolvimento da minúcia, do detalhe, não aprofundam, acumulam expandindo, como se fosse essa a única intenção, as descrições que fazem.
Outros, como Lautréamont, para citar um clássico, Michaux ou Herberto Helder, contemporâneos, aprofundam o sentido do texto a cada palavra que lhe acrescentam.
Na prosa podíamos citar V.Woolf : o seu discurso é o da intensificação, ainda que pelo detalhe, tal como os poetas que referi acima. Continuando na literatura feminina não se pode esquecer o percurso pioneiro de uma Clarisse Lispector, que li ainda muito jovem, como li Agustina Bessa Luís, durante as "sestas" a que o calor de Tavira nos obrigava.Não havia o furor do bronzeado da praia, e assim se adquiria o hábito da leitura tranquila até se poder sair de novo, mais à noite.No caso de Portugal, já com vozes de contemporânea inovação, impõe-se falar de Maria Velho da Costa, e da obra-prima que CASAS PARDAS continuam a ser.
Os autores que acumulam, sendo a sua prosa ou poesia feita de substância elaborada, podem tornar-se mais cansativos pelo esforço que exigem de recordar por onde começaram.
Os que aprofundam despem-se de tudo o que não serve o impulso primeiro, a energia que os lançou no abismo do discurso.
É certo que com Wittgenstein aprendemos que só se deve falar do que se conhece bem, variante do propósito cartesiano que Boileau resumiu dizendo "ce que l'on conçoit bien s'ennonce clairement" (Arte Poética).
Já agora um pouco de Wittgenstein:
"Wovon man nicht sprechen kann darueber muss mann schweigen"(Tractatus...).
Ao que Novarina, desafiador ilustre respondeu, com toda a sua obra: "ce dont on ne peut parler c'est cela qu'il faut dire".
Pois bem, sempre houve e haverá muitas maneiras de dizer, o que se pode e o que não se pode, por qualquer razão extrínseca ou intrínsica ao criador.
E chegamos à questão do estilo, ineludível.Por mim fico com Herberto Helder, na APRESENTAÇÃO DO ROSTO:
...
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
Vem adequado agora a um vivo sentido de expressão.
...
As pessoas perdem o nome,os acontecimentos libertam-se do seu movimento centrífugo: fica um núcleo cerrado de significações.
..Depois: um ritmo, uma libertação.
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos do esgotamento.
Eu sou- e ali está a minha prova.
(1968 )
Quem não entende a força oculta deste movimento, desta energia cuja substância é a própria alma, a própria carne do poeta, não entenderá nunca o sofrimento e a alegria,que pode ser desbragada, da escrita.
Outros, como Lautréamont, para citar um clássico, Michaux ou Herberto Helder, contemporâneos, aprofundam o sentido do texto a cada palavra que lhe acrescentam.
Na prosa podíamos citar V.Woolf : o seu discurso é o da intensificação, ainda que pelo detalhe, tal como os poetas que referi acima. Continuando na literatura feminina não se pode esquecer o percurso pioneiro de uma Clarisse Lispector, que li ainda muito jovem, como li Agustina Bessa Luís, durante as "sestas" a que o calor de Tavira nos obrigava.Não havia o furor do bronzeado da praia, e assim se adquiria o hábito da leitura tranquila até se poder sair de novo, mais à noite.No caso de Portugal, já com vozes de contemporânea inovação, impõe-se falar de Maria Velho da Costa, e da obra-prima que CASAS PARDAS continuam a ser.
Os autores que acumulam, sendo a sua prosa ou poesia feita de substância elaborada, podem tornar-se mais cansativos pelo esforço que exigem de recordar por onde começaram.
Os que aprofundam despem-se de tudo o que não serve o impulso primeiro, a energia que os lançou no abismo do discurso.
É certo que com Wittgenstein aprendemos que só se deve falar do que se conhece bem, variante do propósito cartesiano que Boileau resumiu dizendo "ce que l'on conçoit bien s'ennonce clairement" (Arte Poética).
Já agora um pouco de Wittgenstein:
"Wovon man nicht sprechen kann darueber muss mann schweigen"(Tractatus...).
Ao que Novarina, desafiador ilustre respondeu, com toda a sua obra: "ce dont on ne peut parler c'est cela qu'il faut dire".
Pois bem, sempre houve e haverá muitas maneiras de dizer, o que se pode e o que não se pode, por qualquer razão extrínseca ou intrínsica ao criador.
E chegamos à questão do estilo, ineludível.Por mim fico com Herberto Helder, na APRESENTAÇÃO DO ROSTO:
...
Uma noite começo a escrever.
Tenho uma memória: nada foi esquecido.
Vem adequado agora a um vivo sentido de expressão.
...
As pessoas perdem o nome,os acontecimentos libertam-se do seu movimento centrífugo: fica um núcleo cerrado de significações.
..Depois: um ritmo, uma libertação.
Há dentro da gaveta uma rima de folhas escritas de ambos os lados.
Escrevi-as para os sombrios tempos do esgotamento.
Eu sou- e ali está a minha prova.
(1968 )
Quem não entende a força oculta deste movimento, desta energia cuja substância é a própria alma, a própria carne do poeta, não entenderá nunca o sofrimento e a alegria,que pode ser desbragada, da escrita.
HERBERTO HELDER, FLASH

FLASH, de 1980, foi dedicado ao pintor Cruzeiro Seixas.
Também aqui leremos como se escreve a carne da palavra, como a sua energia animal e mental vai transformando, num relâmpago mágico, aquele que ousa sonhá-las, desejá-las, desenhá-las.
Comparado, se houvesse comparação, a Julián Rios, Herberto Helder poderia ser descrito como poeta CENTRADO, e Julián como excêntrico, centrífugo, em expansão, como o universo, ao passo que Herberto implode com a própria criação que nele se origina.
Assim, ler Herberto obriga a um esforço mais atento, mais dirigido, não permite distracção, absorve por completo o seu leitor, que só pensa mesmo em deixar-se encantar no seu incantamento.
Viktor Kalinke disse, num seu recente ensaio de história das religiões, que nós somos a carne de Deus: GOTTES FLEISCH.
Assim é o poema de Herberto, carne de Deus, carne do Sopro que foi o do Verbo primordial.
" Que tenha Deus um sonho em carne viva.
Uma noite que trema pelo poder astronómico.
Mas que me poupe assim concêntrico
ao campo, e divagante, a curva
tensa:
o arco, o braço.
E as cispas súbitas, frechas
tão ferozmente pela carne dentro até ao escuro
do próprio astro, deixando um orifício
fulgurante:
um tubo de som,
sopro de ponta a ponta
- aquela baixa música mortal.Vêm os animais, alvorecendo, os cornos a rasgarem a cabeça:
outra espécie de luxo,
de melancolia.
E o corpo é uma harpa de repente.
Animal de Deus, eu.
Uma ferida."
JULIAN RIOS

Já citei a sua obra-prima, LARVA, um romance que é um perpetuum, a prosa espanhola mais perturbadora deste século, na referencia da ENCICLOPEDIA BRITÂNICA.
A esse primeiro, compacto, volume, seguiram-se outros, como POUNDEMONIUM, Homenagem a Ezra Pound,o mal amado, e
AMORES QUE ATAN, a narrativa de uma sucessão de casos que importam mais pelo permanente delírio verbal em que nos envolvem do que propriamente pelos factos em si que são contados. Tudo é pretexto para uma fusão-devoração entre as palavras e seus jogos ambíguos de grande intesidade também sexual, mais do que sensual.
Expõe-se, como diria Celan, não se impõe, uma prosa que nunca deixa, pelo ritmo alucinante, de ser ao mesmo tempo poesia. A prosa posta a nú, como se fosse um corpo: babélico o ambiente descrito, desconstruído a seu modo, voraz, algo brutal.
O livro é apresentado, na contracapa, como um conjunto de cenários londrinos, cidade onde Julián viveu e a que regressa, quando escreve, espaço mítico da sua educação sentimental feita através de vários encontros com várias mulheres de outras cidades e culturas.
Para além das relações amorosas que se tecem, o que se tece e entretece é de facto o jogo da linguagem, na fuga permanente que uma das mulheres A FUGITIVA, muito bem simboliza.
É patente a marca de Proust, no cinzelar cuidado das situações, mas é mais forte a marca de Joyce, ele próprio um grande devorador-desconstrutor de palavras. A grande heroína do livro é a linguagem, todo o processo é estético e para o fruir deveremos despir-nos de outras categorias definidoras do romance como género.
Uma última referencia: IMPRESIONES DE KITAJ o LA VIDA SEXUAL DE LAS PALABRAS .
Boa leitura !
Sunday, June 18, 2006
Vase Balustre
Polymnie

Panel of AZULEJOS, 17th. century.
Lisbon, National Museum do Azulejo.
A very unique form of art where the subtle changes of blue color intensify a certain melancholy atmosphere.
Bibliography:
FIGURES ET PERSONNAGES, une Histoire en Céramique.L'Azulejo au Portugal du XVIe. au XXe. siècle.Catalogue, Museu Nacional do Azulejo.
Some More, by Josefa de Obidos

Born in Sevilla ( 1630 ), Josefa was a nun in Portugal, where she delighted the portuguese aristocracy with her beautiful realistic paintings.
The baroque portuguese art was very refined, above all in ceramics, inspiration and technique imported from the ancient orient culture; and the same can be said of silver and gold "orfèvrerie", in the reign of King John the V, with silver and gold actually pouring from Brasil.
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