Sunday, June 18, 2006

Some More, by Josefa de Obidos



Born in Sevilla ( 1630 ), Josefa was a nun in Portugal, where she delighted the portuguese aristocracy with her beautiful realistic paintings.
The baroque portuguese art was very refined, above all in ceramics, inspiration and technique imported from the ancient orient culture; and the same can be said of silver and gold "orfèvrerie", in the reign of King John the V, with silver and gold actually pouring from Brasil.

Fruit and Vegetables for Gawain


Fruit and Vegetables for Gawain, the brave champion of art and beauty in the world. I think he does not eat properly, although I would not advise him to eat as the Portuguese did in the 17th. century.
This is a Nature Morte aux paniers de fruits et de légumes, by Baltazar Gomes Figueira ( Óbidos, 1604-1674 ).
The interesting thing about it is the combination of colours, and the symbolic meaning intended, a mystical and moral one, according to the" Treatise on the meaning of Plants, Flowers and Fruit " by Frei Isidoro Barreira, published in Lisbon,1622.Such figuration of the flora was above all meant " to gratify the Christian Religion ": melon signifying taste and sweetness, apple the discord, grapes the joy of communion, orange the beauty etc.
It may be true, but I also believe the monks would also eat with their eyes when fasting according to conventual rule, and that is certainly one of the reasons for the numerous natures mortes in this century, after the Counter-Reformation.

Saturday, June 17, 2006

Mais O'Neill

O'Neill, O TEMPO DUM CORISCO

Dos turcos desce a palavra
e aqui entreluz, naufraga.

A palavra a ninguém salva.

Melhor metê-la, sem esperança,
sem recado, na garrafa.

Sempre é da minha lavra.

Friday, June 16, 2006

O'Neill a Manuel Bandeira

ALÔ VÔVÔ
A Manuel Bandeira nos seus 80 anos

Esperei vê-lo por aqui um dia, seu dentuças,
travar-lhe do braço e contar-lhe como o Maximiliano do México
foi parar ao Rossio
(toda a gente julga que é Pedro IV o pedestalizado),
apontar-lhe o frustrâneo cotovelo lusitano
no mármore dos cafés,
comer com Você joaquinzinhos inteirinhos e duma só vez,
fazer boca ou boqueirão com o vinho ( que era ) de tostão,
mostrar-lhe como eu e o Cinatti caprichamos nas saladas
(aqui não põem coentro na salada, calcule Você ! )
saladas de alface, agrião,
coentro,
rabanete, tomate,
mais coentro,
mas "cebola, não! "...
Ch'bola, non !

...que não sai nem com o desodorizante que chamam de halazon.

Um pulo à casa onde nasceu Pessoa, sim ?
(Nós não somos pessoas assim à toa, não ! )

E em minha casa, à Rua da Saudade, a cavaleiro do rio,
Você podia fumar escondido dos adultos
como na outra Saudade do seu Recife de menino.
Depois : broto ou brisa
com Anarina, mas sem Adalgisa...

Atenção, Poeta: re-cepção !

Iríamos deixá-lo à porta da recepção,
da sessão de autógrafos,
de antropófagos,
às mãos dos vestibulantes tão (p)restantes.

À saída lá estaríamos pra levá-lo ao hotel
e, esquecida a poesia, a literatura,
num repente de ternura pegar-lhe na mão:

-Sua benção, Võvô Manuel !

REMESSA

Drinka, trinca
comnosco, Manuel,
sem autógrafo nem cóquetel,
que nós não podemos ter os teus oitenta,
nem com uísque, nem com água de Juventa,
Manuel !

Alexandre O'Neill



AUTO-RETRATO

O'Neill( Alexandre ), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
( omita-se o olho triste e a testa iluminada )
o retrato moral também tem os seus quês
( aqui uma pequena frase censurada...).
No amor? No amor crê ( ou não fosse ele O'Neill )
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito ) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...
( 1962 )


Outra editora de referencia, a Guimarães, onde era alegria e privilégio poder ser editado.
Alexandre O'Neill, com esta obra, oferece à leitura os seus amigos, muitos, de Breton a Michaux, Éluard, João Cabral, os seus pintores, Júlio Pomar, o seu quotidiano e o de um país a adoecer de cansaço de alma, ao gosto de Pessoa, ortónimo e heterónimo que todos líamos naquele tempo, com grande normalidade. Só hoje, tantos anos depois, é preciso fazer "projectos de leitura para as escolas". Naquele tempo lia-se desde pequeno, sem programas especiais, conversava-se nos cafés, nos escritórios dos editores onde muitos se encontravam sem temor de plágios, as ideias eram abertas, circulavam, as imagens davam consistencia às ideias, discutia-se, enfim, vivia-se ainda que por vezes nas entrelinhas de grandes dificuldades.
Alexandre tem poesia certeira: vejam só como o poema SIGAMOS O CHERNE pode ser relido, na sua mensagem actualizada e para quem não aceite "contratos" incondicionais, algo melancólica, pois os tempos, de que noutros poemas ele também se ocupa, "apodrecem", no reino da Dinamarca de marca Portugal.

Deixo-vos com a última estrofe, esperando que procurem a obra de O'Neill, em antiquários, se não for de outro modo, e a leiam por inteiro:

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentindo o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

De um outro humor é a SAUDAÇÃO A JOÃO CABRAL DE MELO NETO:

João Cabral de Melo Neto,
Você não se pode imitar,
mas incita a ver mais de perto,
com mais atenção e vagar,
o que está como que em aberto,
ainda por vistoriar,o que vive entre pedra e terra
e o que é entre muro e cal,
o que tem "vocação de bagaço"
e o que resiste no osso ou no "aço
do osso", mais essencial.

...

De prosaico há-de ser chamado
pelos do "estilo doutor",
cabeleireiros da palavra,
pirotécnicos do estupor,
que dão tudo por uma ária
de alambicado tenor,
que encaixilham a dourado
morceaux choisis de orador,
mas de prosaico não foi chamado
o nosso Cesário Verde?
O lugar comum se repete
aqui ou do outro lado...

...

Prosaico: o não enfático,
o que não mente a si mesmo,
o que não escreve a esmo,
o que não quer ser simpático,
o que é "a palo seco",
o que não toma por outro
mais fácil trajecto
quando está diante do pouco,
nem que seja um insecto.

Já se deixa ver que prosaico,
assim, mal definido,
não é uma atitude
que se arvore ou um laivo,
uma tinta de virtude:
é um modo de ser,
mesmo antes do verso,
mesmo fora do verso,
mesmo sem dizer.

Será neste sentido,
prosaico Melo Neto,
que no poema "O RIO"
cita Berceo:"Quiero
que compongamos yo e tú una prosa" ?
Será no mesmo sentido
de Pessoa-Alberto Caeiro
(outro prosaico, mas desiludido...) :
"...escrevo a prosa dos meus versos
e fico contente " ?

*

Quanto a mim, ainda o bonito
me põe nervoso, o meu canito
ainda tem plumas- e lindas !-
e o emu verso deita-se muito,
não sobre a terra, mas em sumaúmas,
já com bastante falta de ar...

Ó Poeta,
não é motivo para não o saudar !

(1959 )

Reparei, no meu counter, que tenho vários amigos brasileiros consultando o blog, o que me deixa feliz.
Por isso escolhi a homenagem a João Cabral, entre os poemas com endereço do O'Neill.
Vale a pena, em outro momento, trazer aqui Cesário Verde, seu muito preferido, e referir o excelente e sempre actual ensaio de Helder Macedo, publicado na &ETC.

Wednesday, June 14, 2006

Pimenta, read & mad


De novo na &ETC.
Em 1984, a aventura continua.
Em READ & MAD Alberto Pimenta lança mais um desafio: à nossa cultura (discutindo as teorias e práticas de Marcel Duchamp), à nossa inteligência, à nossa sensibilidade.
Revela-se poeta anarquista e alquimista ao mesmo tempo, algo que só os espíritos tacanhos não serão capazes de entender.
Melhor do que Rimbaud, nesta obra que gosto de considerar um "study-case" de alquimia do Verbo, Pimenta une, funde, em gloriosa CONJUNÇÃO, o Verbo de Camões e de Pessoa, transformando em 14 novos poemas a sublimação inspirada dos poemas de que partiu, sem que deles nada se perdesse, mas tudo se transmutasse:
."..e nada mais há a acrescentar além dos exemplos.além dos exemplos mais nada, a não ser o sorriso silencioso em que se anuncia o gozo de finalmente ter chegado a compreender."

E aqui fica um exemplo, deixando-se à sabedoria do leitor o prazer de adivinhar de que poemas, de Pessoa e de Camões, nasceu a Pedra Filosofal oferecida:

" Que poderei do mundo, já querer?
Montes, e a paz que há neles, pois são longe?
Paisagens, isto é, ninguém ?

Tenho a alma feita para ser de um monge
Mas não me sinto bem,
Que naquilo em que pus tamanho amor
Não vi senão desgosto e desamor
E morte, enfim, que mais não pode ser.

Se eu fosse outro, fora outro. Assim
Aceito o que me dão
Como quem espreita para um jardim.

Pois vida me não farta de viver,
Pois já sei que não mata grande dor,
Se cousa há que magoa de maior
Eu a verei: que tudo posso ver...
Onde os outros estão.

Que outros?. Não sei.

Há no sossego incerto
Uma paz que não há,
E eu fito sem o ler o livro aberto
Que nunca mo dirá...

A morte, a meu pesar, me assegurou
De quanto mal me vinha; já perdi
O que a perder o medo me ensinou.
Na vida, somente desamor vi.
Na morte, a grande dor que me ficou.

Parece que para isto só nasci ! "

( Poema XI )

Friday, June 09, 2006

Mais PIMENTA







Em 1977 publica Alberto Pimenta o HOMO SAPIENS, experiência que contou com a colaboração do director do Jardim Zoológico e sua equipa e a ajuda de vários amigos, entre eles Alexandre O'Neill, Almeida Faria, António Tabucchi, Jorge Listopad.
O livro, entregue às edições &ETC. transcreve os comentários atónitos ou nem por isso...dos visitantes do Jardim.
A experiencia foi um desafio à inteligência, à perspicácia, ao humor, ao bom senso, do bom povo português e teria feito as delícias da escola surrealista mais severa.
Pimenta esteve "exposto" no dia 31 de Julho de 1977 entre as 16 e as 18 horas,numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico, gravando os comentários que se iam ouvindo.
Por exemplo:
" -Ó pá, anda cá ver isto! Aqui o macaco é um homem.
-Ó pá, isto é um festival do caraças.Vamos embora, que isto é para nos tramar.
-Ai o macacão! É o homem-macaco! Só lhe falta a mulher-eléctrica .
-Dá-lhe uma banana, pá.
-Aos preços que estão as casas, não admira. Qualquer dia vimos cá parar todos.
-Já me estão a lixar. O gajo está a desenhar, está ali a fazer a caricatura da malta.
...
-Não, ele é racional.
-Mas não fala.
-Vamos mas é embora daqui.
-Ele é português?
-Deve ser estrangeiro.
-Ele que ali está, é porque alguma fez.
...
-Ele também dormirá cá?
-Não, tem as calças bem vincadas, gosta da comodidade.
...
-Ainda há bocado cá passei e quem estava era o gorila.
-Não percebo o que ele quer! Que é que quer dizer 'homo sapiens' ?
-Então, é uma espécie de macaco. É um animal como os outros"

E assim por diante...Vale a pena ler.
Será que hoje algum director, sem medo de afrontar o politicamente correcto, daria autorização ?
Temos o livro, a memória divertida recuperada como um espelho onde nos podemos ver: ah, a matemática, o português, a iliteracia, o discutido eduquês, a cultura clássica em perda, a filosofia também...enfim.
O Alberto Pimenta cá está para nos chamar à ordem.
O HOMO SAPIENS foi, como lhe chamou o director de então, "uma questão de cultura", por isso autorizou a experiência.Ler de novo o livro será isso mesmo: uma questão de cultura.

Alberto Pimenta



A primeira edição foi de 1977.Sucederam-se várias, em Portugal, em Itália, no Brasil.
Esta é de 1987, nas ed. Centelha, de Coimbra.
Espantoso, como o que então nos fazia rir hoje nos faz gargalhar, ainda que com desgosto.Portugal é um país que "divide" os que o amam; qualidade terrível pois atrai e repugna ao mesmo tempo, numa relação perversa e destrutiva.Alberto punha em sub-título ao Discurso.."com notas de Capêlo Filho " (alusão óbvia ao capêlo distintivo dos catedráticos...) "Catedrático de Literaturas Paradas".
Como são certeiras as suas palavras, e mais ainda agora, em que catedráticos ou não nos perdemos pelos corredores do tempo perdido, sem conseguir encontrar nada que valha a pena.
Alberto Pimenta pertence ao escol dos que tiveram e têm voz original, sem complacências, a par de uma erudição inteligente e cada vez mais rara. O SILÊNCIO DOS POETAS, para dar só um exemplo, é uma obra fundadora, de referencia, nas nossas bibliografias.
A sua contribuição para a literatura Experimental, para o exercício da Performance e para uma escrita poética ou de ficção sempre surpreendente, fazem dele um caso muito especial na nossa literatura : o olhar é despojado de intenções que não sejam as de livremente criar ironizando, renovando o discurso crítico ou partindo para uma aventura da alma feita de reflexão íntima, profunda, comovente.
Alberto Pimenta atravessou as ESTAÇÕES que são a marca da vida. Podemos seguir com ele, em boa companhia.

&ETC...



Em 1978, era editada uma obra-prima de Herberto Helder, O CORPO O LUXO A OBRA , com um desenho de Carlos Ferreiro, como já era costume.
A palavra "puxava" a imagem e, vendo bem, não podia haver melhor título: do corpo (que eu entendo como corpo da palavra) nasce o luxo ( o espaço ) da obra; num processo muito semelhante ao dos alquimistas: da pedra ( que como a palavra é substancia ) nasce o espaço ( o brilho ) do ouro.
Herberto Helder abre o livro com uma citação de HÚMUS, de 1966/7 :

"A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
(...)
Sou os mortos- diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu."

E já no interior misterioso do poema do corpo, do luxo e da obra:

"...
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia.Vi
os flancos suados das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas."

E termina: " Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra."

Foi escrito em 22-23-XI-77 e publicado um ano depois.
Deixa no fim, em citação para quem pudesse ler e entender, a transcrição da Tábua de Esmeralda, de Hermes Trismegisto.E conclui, para nós todos, leitores:
" No âmbito das funções e valores simbólicos, o poema é o corpo da transmutação, a árvore do ouro, vida transformada: a obra. O poema faz-se com o corpo, no corpo, de baixo até cima, sagitariamente.Ou num ininterrupto circuito zodiacal."

A referencia ao mistério zodiacal recorda-me o que pretendo ainda fazer : conversar no blog com outro poeta que admiro,
o Alberto Pimenta, também ele na &ETC., também ele com uma voz que é corpo transfigurado.

Fiama




Fiama Hasse Pais Brandão.
Recebe o Prémio da Associação dos Críticos Literários em 2006, que se juntará a um conjunto de outros prémios recebidos pela originalidade da sua produção ao longo de muitos anos.
Quando procuro nas estantes o livro que vou reler é quase sempre com as ediçoes ETC. que deparo, belas, pequenas-grandes edições com capas do Carlos Ferreiro que o Vítor Silva Tavares gostava de associar às obras que publicava.
Trago aos olhos do leitor uma dessas edições, neste caso de Fiama, a peça de teatro" POE ou o Outro Corvo", de 1979, com um retrato seu a abrir o livro.
Outrora, falo assim porque tenho saudade desse tempo, o editor escolhia os seus autores porque apreciava o que eles faziam, viessem ou não a ter sucesso; e as edições eram acompanhadas com carinho: preferia-se a tiragem pequena, e não se "trituravam" restos.Os autores, julgo eu, eram mais felizes.
Celebra-se Beckett agora. Mas porque não encenam os jovens encenadores as peças de teatro que, como as de Fiama, mudaram, a seu modo, a linguagem teatral do nosso tempo? E mais, por que razão nas Escolas de Arte ninguém estuda, ainda que não represente, o que se fez?
Leio, da Poesia 61, Fiama, Gastão Cruz, outros, cuja escrita nunca se interrompeu, mas naquela altura tinha outro sabor: o desafio, a originalidade, a antecipação de um desconcerto que se tornou actual.
Nesta peça, com um actor e três actrizes, todas variantes do mesmo feminino imaginado pelo actor/autor, discute-se o real e o imaginário- discute-se o que é a literatura, para resumir um pouco à pressa.
Não perdeu actualidade, este texto, antes pelo contrário.

Deixo uma sugestão: representem Fiama, fazendo brilhar a obra junto com o prémio...

Wednesday, May 31, 2006

Amores Secretos



A ilustração e a capa são de Mariana Viana.
Buscou no texto os detalhes que mais apelavam à sua imaginação.
Fez um quadro, e a partir do quadro fez a capa. Foi comovente ver como fui lida por outros olhos e outra geração, muito mais nova.

Em Portugal, a aventura da PO.EX



Neste volume dos anos setenta encontramos uma recolha dos textos teóricos e outros documentos da poesia experimental portuguesa que, tal como os outros movimentos do género, floresceu na realidade mais cedo, nos anos sessenta.
Ana Hatherly foi sem dúvida a Musa inspiradora, embora se deva a E.M.de Melo e Castro a elaboração dos organigramas que ele, poeta-engenheiro, se esforçou por deixar como referencia .
Temos assim o que ele chama " A ROTURA de 1960,e a POESIA 61", num dos braços, com o seu:

"radicalismo
semântico/textual

Reformulação de um
discurso outro

Neoplatonismo teorizante."

E no segundo braço a POESIA EXPERIMENTAL, com o seu :

"Radicalismo morfológico
A palavra objecto
O texto matéria
Empirismo sensual
Visualização
Sintaxe combinatória
Uma semântica outra."

Cita, em nota, O PRÓPRIO POÉTICO, eds.QUIRON, São Paulo, como fonte a consultar para um maior desenvolvimento.
Em organigramas seguintes, na deriva da PALAVRA,faz desembocar em arte experimental, nem sempre poesia mas sempre palavra poética, correntes várias que evoluem a partir da tradição oral, da tradição escrita literária, passando por todos os "ismos" conhecidos até à chamada "literatura psicológica" de influencia freudiana (o surrealismo) ou Junguiana com a abertura que ele faz ao inconsciente colectivo, na altura um conceito inovador e muito discutido, sendo hoje plenamente aceite.

Foram muitos os praticantes da Arte experimental, e talvez omita algum, mas sem maldade. Recordo os que conheci e admirei:
Ana Hatherly que, tal como Henri Michaux, deu pintura à poesia, e poesia à pintura, em exercícios de rara beleza.
Melo e Castro, o organizador de ideias, numa época em que fazia falta des-organizá-las para respirar melhor.
Salette Tavares, Musa também ela, autora de formas concisas convidando ao olhar e ao pensamento.
António Aragão, Alberto Pimenta, inspirados e contraditórios, com obra em prosa, em poesia, e com performances que, no caso de Alberto Pimenta, foram sempre exercícios de verdadeira imaginação e criação em liberdade, como agora de novo nos fariam muita falta. A voz de Alberto Pimenta é ao mesmo tempo sábia e irreprimível, quando não explosiva; e o seu olhar é crítico, não separando a experiencia individual da colectiva, com suas amarguras.
Recordo o Alexandre O'Neill e, claro, o Herberto Helder, da Electrónicolírica e de tudo o mais que se segue na sua obra de tão grande fôlego e inspiração continuada.

o poema,cont.e fim




E podemos então concluir, com o poeta:

" mais do que caligrafia, arte da escrita."

""O chinês,língua feita para a caligrafia.A que INDUZ (sublinhado meu), que provoca o traço inspirado."

"Os chineses eram chamados a um outro destino.

Abstrair é libertar-se, desenlamear-se."

"Ser calígrafo como se é paisagista.Em melhor.Na China é o calígrafo o sal da terra."

"Tal como a natureza, a língua na China propõe à vista e não decide."

"Caracteres abertos a várias direcções."

"Toda a língua é universo paralelo.Nenhuma mais bela do que a chinesa."

" A escrita é um comportamento."


Com estas reflexões, que da arte da caligrafia conduzem à Ética do artista, julgo que posso concluir bem.O artista é o mediador entre o Belo,o Bom ( ou justo) e o Verdadeiro.

o poema, cont.

Tuesday, May 30, 2006

H.M. o poema



Da meditação da imagem, surge o poema; deixo-o digitalizado, em toda a extensão, para que se faça de Michaux uma fiel leitura.

Monday, May 29, 2006

H.M.Continuando

" Passagem.
Venceu o gosto de esconder. A reserva, a prudencia, levaram a melhor, a contenção natural, a instintiva tendencia chinesa de apagar os rastos, evitar pôr-se a descoberto.

Venceu o gosto de esconder.
Assim o escrito ficou protegido, secreto; segredo entre iniciados.

Segredo difícil,demorado, difícil de partilhar, segredo para fazer parte de uma sociedade no interior de uma sociedade.Círculo que durante séculos e séculos permanecerá no poder.Oligarquia dos subtis.

O prazer da abstracção levou a melhor.
O pincel permitiu o passo, o papel facilitou a passagem.

O real original, o concreto e os sinais que lhe eram próximos, eram algo de que se tornara possível abstrair sem dificuldade; abstrair, avançar, depressa com traços escorregando sem resistencia no papel, permitindo um outro modo de ser chinês.

Abstrair-se tinha levado a melhor.
Ser mandarim tinha levado a melhor."

Michaux,Ideogramas



" Ideogramas sem evocação.

Caracteres variados que nunca mais acabam.
A página que os contém: vazio dilacerado.
Dilacerado por múltiplas vidas indefinidas.

Houve contudo uma época em que os sinais ainda eram falantes, ou quase, já alusivos, mostrando, mais do que coisas, corpos ou matérias, antes grupos, conjuntos, expondo situações.

Houve uma época.E houve outras. Sem tentar simplificar, nem resumir, cada uma delas entregue à missão de desconcertar por conta própria, puseram-se a baralhar as pistas, a manipular os caracteres de modo a afastá-los ainda mais da legibilidade primitiva."

Henri Michaux



Em 1975 as edições FATA MORGANA publicam, de Henri Michaux, IDÉOGRAMMES EN CHINE.Por este pequeno livro passa o saber e a poesia de uma língua, a chinesa, que é a língua viva mais antiga do mundo.
Para Michaux poeta e pintor o fascínio é duplo.Nos ideogramas chineses contemplam-se as imagens, soltam-se as palavras-pensamento.

"traços em todas as direcções.Em todos os sentidos virgulas, caracóis, ganchos, acentos, aparentemente, ao alto e em todos os níveis.Desconcertantes arbustos de acentos.

Rascunhos, fracturas, princípios subitamente interrompidos.

Sem corpos, sem formas, sem rostos, sem contornos, sem simetria, sem um centro, sem evocar nada de conhecido.
Sem regra aparente de simplificação, unificação, generalização.
Nem sóbrios, nem limados, nem despojados.
Tudo como que espalhado,
é assim a primeira aproximação. "

Thursday, May 25, 2006

E Mais Ary




Ary dos Santos passa da exclamação jocosa (mais séria do que pode parecer) de um poema como POETA CASTRADO, NÃO! a uma suavidade melancólica, mística, que surpreende quem se habituou à sua produção mais crítica.Deixo uma estrofe do primeiro exemplo,reproduzindo na imagem o poema de inspiração franciscana, em que invectiva o santo:CANTO FRANCISCANO.

Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lanzudo
publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
poeta castrado, não!

....

Mais Ary

SONETO PRESENTE

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que fôr o meu.