Saturday, May 20, 2006

Ary dos Santos


Encontro em RESUMO um pouco da sua voz, que o Fernando Tordo mais tarde iria cantar.
E já nesse tempo, que parece tão antigo, de tão esquecido, o amor pela poesia brasileira.
Aqui fica, para leitores futuros, O GUARDA CHUVA (CARTA CIRCULAR), de José Carlos Ary dos Santos ao João Cabral de Mello Neto, que cita em epígrafe:

"não há guarda- chuva contra o poema"
João Cabral de Mello Neto

O GUARDA CHUVA


Chovem protestos palavras
dramaturgos e profetas:
a chuva dos manifestos
fecunda a horta das letras.
Chovem bátegas de sílabas
chovem doutrinas e tretas
chovem ismos algarismos
que numeram os poetas.

Chovem ciências ocultas
chovem ciências concretas
e nascem alfaces cultas
para poemas-dietas.
Chovem tiros de espingarda
chovem pragas e lamentos
e cresce a couve lombarda
nos quintais do sentimento.
Chove granizo política
dum céu carranca cinzento
constipa-se logo a crítica
que se mete para dentro.
Chovem as poetisas símias
da menina flor dos olhos
surgem canteiros de zínias
salpicados de repolhos.

Chovem as mulheres a dias
com os sonetos nas curvas
lavadeiras de poesia
em barrela de águas turvas.
Chove uma chuva de pedra
chovem astros em cardume
há uma erva que medra
com este estrume de lume.

Medra a erva do talento
medra a baga do azedume
não há erva que não medre
nas estufas do ciúme.
Chove uma chuva miúda
que é chuva de molhatolos
sai o poema taluda
e saem rimas nos bolos.

Para o poeta que chova
por dentro,em razão inversa,
forçoso é ter guarda-chuva
contra a palavra perversa
que foi um chão que deu uva
e hoje só dá conversa.


Escolhi para ilustrar este poema um desenho de JÚLIO CAPELA publicado no último número da revista de Cultura MEA LIBRA ao cuidado de Maria João Fernandes, que felicito, deixando também um abraço ao Director, Fernando Canedo.

Klee, O equilibrista


O EQUILIBRISTA é um quadro de 1923.Anos felizes.
Por uma associação, que no blog tem de ser permitida, lembro-me agora de O DESEQUILIBRISTA de M.S.Lourenço.Esses anos 60 também eram felizes, para quem via publicada a sua poesia. Os editores liam os autores, e a obra não era tratada como produto de mercearia,vendida ou não ao balcão.

Friday, May 19, 2006

Paul Klee


Ao grupo fundador do movimento BAUHAUS leva Paul Klee a sua sensibilidade musical (estudou piano desde criança) muitas vezes transpondo para a sua pintura a ordem, o equilibrío, a harmonia, ou mesmo um exercício como o da "Fuga", que conhecia por força dos estudos musicais.
A busca da forma e da côr era para ele o equivalente da busca da forma e do som nos compositores.O que para ele se desenvolvia no espaço, desenvolvia-se para os outros no tempo.
Mas era idêntico o processo da busca sempre em curso, surpreendente, inacabada ou aberta, como muitas das suas obras.Havia matemática estruturando a obra, como há matemática na elaboração musical. E havia pensamento filosófico, e psicológico, ou não fosse já Freud conhecido na sociedade culta mais avançada.
Enquanto em Berlin uma pléiade de artistas discutia e apresentava a sua visão inovadora, Robert Musil, austríaco que a guerra levaria para a Suiça apresentava, em O HOMEM SEM QUALIDADES, uma sociedade a caminho do abismo da qual emergia um novo ser, aberto (daí sem qualidades) um homem "em formação" a que a utopia do andrógino viria a dar forma final.
Enquanto se aguarda, pela mão de JOÃO BARRENTO, a tradução desta obra-prima, deixo uma imagem alusiva a esse inacabamento tal como Paul KLEE o concebeu.
Pode ser encontrado no magnífico volume PAUL KLEE, THE NATURE of CREATION,Hayward Gallery,London, 2002.
Chama-se L'HOMME APROXIMATIF (1931).

Hein Semke


Neste busto intitulado O POETA (c.1949), anota o crítco que "para além de um simples gesto de relação com a vida parece explanar-se o modo como ela se estabelece, serena e simples."

As grandes mãos, a força da criação, seguram uma flôr encostada à cabeça, (a estrela, sede da imaginação):

"Pondo em simultâneo a flôr, motivo estético e natural, a cabeça, lugar de construção mental e poética do mundo ...esta imagem torna-se categórica afirmação do individualismo..."

( in Catálogo da Exposição de homenagem a Hein Semke, Esculturas, 1899-1995, no Museu de José Malhoa )

Para além das notas críticas,o desejo expresso em luminosas palavras, que Teresa Balté, sua mulher, evoca:
" QUE DO TU PARA O TU A LUZ BRILHE...Hein Semke..Há chamas que nunca mais se apagam".

Aqui neste Maio, a minha fraterna lembrança.

Wednesday, May 17, 2006

G.Benn III



NÃO PODE SER LUTO

Nessa cama pequena, quase de criança, morreu a Droste
(pode ver-se no museu dela em MEERSBURGO),
neste sofá Holderlin, na torre, em casa de um marceneiro,
Rilke, George, lá foram em camas de hospital, na Suiça,
em Weimar os grandes olhos de Nietzsche
pousavam numa almofada branca
até ao último olhar-
tudo isso tralha velha agora, ou que se foi de vez,
indefinível, apagada
na ruína indolor e eterna.

Trazemos em nós sementes de todos os deuses,
o gene da morte e o gene do prazer-
quem os separou: as palavras e as coisas,
quem os misturou: tormentos e o lugar
em que se acabam, madeira com fiozinhos de lágrimas,
sede mesquinha de horas breves.

Não pode ser luto.Longe demais, além demais,
intocáveis demais a cama e as lágrimas,
nem não, nem sim,
nascimento e dor física e crença,
uma ondulação, anónima, um deslizar,
algo de supraterreno, a fazer-se sentir no sono,
agitou cama e lágrimas-
trata de adormecer !

(trad. V.Graça Moura)

Veja-se a memória e saudade de uma cultura sempre presente nos grandes artistas : são humildes, na sua arte, reconhecem os outros, não permitem que os tempos os transformem em "tralha velha", mesmo que a isso aludam. Nesta lista de saudade falta Goethe, que é evocado num outro poema como sábio universal.
E deixem que termine com um elogio à antiga O OIRO DO DIA, do Porto, que pela mão de JOSÉ DA CRUZ SANTOS deu sempre voz aos melhores poetas do mundo, viessem de onde viessem poemas e convicções.

G.Benn, II


Embora um dos poemas de Benn que vou transcrever se inspire em Matisse, na realidade as imagens com que ele conviveu, como médico e como médico militar, estão mais próximas de um pintor expressionista como MUNCH e o célebre GRITO; mas eu escolho aqui MORTE NA CÂMARA DA DOENTE, um óleo de 1895. É apesar de tudo menos doloroso, no silencio suspenso, do que a descrição feita por Benn de uma sala de partos onde muitas mulheres pariam em sofrimento e outras certamente morriam.

SALA DAS MULHERES DE PARTO

Mulheres mais pobres de Berlim
-em quarto e meio treze filhos,
reclusas, putas, marginais-
gemem aqui, ventre a torcer-se.
Em parte alguma se uiva assim.
Em parte alguma à dor, desdita,
mais indiferença pode ver-se,
aqui há sempre algo que grita.

'Mulher, avie-se! Tá a perceber?
Não está aqui para o prazer.
Nem deixe as coisas arrastar-se
se nesse parto vai borrar-se!
Não está aqui para o descanso.
Não vem por si.Dê-lhe um avanço!'
Ei-lo: pequeno e arroxeado.
De fezes e mijo vem untado.

De onze camas, sangue e choro,
sai gemedeira em saudação.
Só de dois olhos rompe um coro
de aleluias que ao céu vão.

Tudo esta peça de carne há-de
conhecer: dor, felicidade.
E se o estertor um dia exala
inda há mais doze nesta sala.

(trad.Vasco Graça Moura)

Do realismo cru evolui Benn para uma forma de expressão mais discreta e sofisticada, embora sem nunca perder o sentido da realidade e da experiencia de vida : também os erros ajudam à sabedoria.

CAMPO DOS INFELIZES

Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.

A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.

E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo.

(trad.V.Graça Moura)

HENRI MATISSE:ASPHODÈLES

Ramos-mas as folhas faltam,
Vasos-mas como urnas dilatados
Asphodelos
a Proserpina dedicados.

(trad. V.Graça Moura)

Tuesday, May 16, 2006

Gottfried Benn


Vasco Graça Moura, 50 poemas de Gottfried Benn, Porto, s.d.

Belíssima tradução de GOTTFRIED BENN ( como todas as que Vasco Graça Moura nos tem oferecido ) e que recordo porque passam em 2006 cinquenta anos sobre a sua morte, em Berlin, cidade onde se tinha fixado de novo depois do fim da guerra, continuando a escrever e a exercer clínica como médico militar, que fora a sua profissão.
Como diz Graça Moura, no prefácio, as ideias de Benn e as suas posições políticas "conferem-lhe traços antipáticos" que são resumidos por Michael Hamburger em REASON AND ENERGY:STUDIES IN GERMAN LITERATURE.
Para Benn era incontestável a existência de um POEMA ABSOLUTO, o POEMA SEM FÉ, o POEMA DIRIGIDO A NINGUÉM, como se o absoluto residisse exclusivamente na voz e no labor de quem o escrevia.
Gottfried Benn pertenceu à geração de um Pessoa, de um Valéry, mas conserva na sua poética os traços de um Expressionismo radical e na verdade ultrapassado, ao tempo, pelos Modernistas e post-modernistas, que romperam precisamente com o sistema fechado da Ideia absoluta, ou Poema absoluto.Entretanto acontecera o surrealismo, a segunda guerra mundial e acima de tudo a voz pungente, o apelo da escrita-memória, de Celan.
G.Benn interrompe a escrita a partir de 1936, quando ainda saem os POEMAS ESCOLHIDOS, e retoma a publicação da sua obra em 1948,com POEMAS ESTÁTICOS.

Aqui fica um poema que destoa do realismo cru de muito do que escreveu, mas condensa o mais interessante:o vôo da palavra.

PALAVRA,FRASE

Palavra, frase - E as cifras falam
a vida vivida, súbito sentido,
o sol estaca, as esferas calam,
tudo se concentra a ela volvido.

Palavra - um brilho, um voo, um fogo,
um jacto de chamas, de estrelas um traço -
em redor do mundo e de mim há logo
o escuro medonho no vazio espaço.

Sunday, May 14, 2006

Octavio Paz, Renga


Em 1969 houve quatro poetas que se reuniram num pequeno hotel da Rive Gauche de Paris : Octavio Paz, Charles Tomlinson, Jacques Roubaud,Edoardo Sanguinetti.
Fechados no sótão, escreveram durante quatro dias um poema colectivo em inglês, francês, italiano e espanhol, composto por quatro séries de sete poemas cada um.
Escolhi o poema de Octavio Paz, escrito inteiramente por ele, e que fechará bem o ciclo que aqui tenho deixado :

RENGA (I, 7)

"Calina respiración de la colina.
Bajo sus arcos duerme la noche,
arden las brasa.

Peregrinación serpentina:
la boca de la gruta, lápide que abre,
(abracadabra), la luna.

Entro
en la alcoba de párpados: los ojos
-hamam de los muertos- lavan las imágenes.
Resurreccion sin nombre propio:
soy un racimo de sílabas anónimas.

No hay nadie ya en la cámara subterránea
(caracola, amonita, casa de los ecos)
nadie sino esta espiral somnílocua,
escritura que tus ojos caminantes,
al proferir, anulan

-y te anulan, tu mismo
caracola, amonita, cuarto vacío : lector."


A pintura que ilustra o post é de CHU TA ( 1626-1705 ) : RAMO DE ÁRVORE.
Escreve François Cheng, a seu propósito: " ...trata-se antes de um corpo vivo, com a sua ossatura, a sua musculatura, o nó poderoso das suas articulações.Ramo transformado em braço, ombro, coxa, joelho : incarnação mágica do inanimado."
In L'ESPACE DU RÊVE,Paris, 1980.

Jorge de Sena

Traduzindo BASHÔ.

"Quebrando o silêncio
do charco antigo a rã salta
n'água - ressoar fundo.

Qual velha sem dentes
a cerejeira sem folhas
juvenil floresce.

Mal pensas na morte
que cedo espreita: as cigarras
cantam no arvoredo.

Primavera: até
montes sem nome se enfeitam
de véus matinais.

Bendito este vale
onde o vento suave cheira
vagamente a neve.

...

Alta brilha a lua
enquanto o verme escondido
a castanha rói."

Reckert, sobre a poetica da Asia Oriental


"As duas grandes línguas de cultura da Ásia Oriental caracterizam-se por uma ambiguidade imanente que, ao mesmo tempo que faz de todo o significante um meio para a expressão de significados plurais, faz também das línguas mesmas aquilo a que o outrora célebre MacLuhan designou como COOL MEDIA : quer dizer, para serem inteligíveis exigem da parte de quem recebe a "mensagem" uma activa colaboração no seu deciframento. Mas além desta tendencia inerente, a tradição literária tanto do chinês como do japonês tem cultivado sistematicamente a ambivalência (ou melhor a plurivalência) como recurso estilístico consciente. É difícil não interpretar isto como uma convicção filosófica de que nenhum significante poderá jamais reproduzir totalmente o significado a que pretende corresponder, e que portanto é inútil tentar forçá-lo a atingir essa meta quimérica. Trata-se de uma desconfiança que pode ser rastreada até à doutrina semiótica do sábio taoísta ZHUANG Zî, no século IV a.C. :
'A rede serve para prender o peixe: prende o peixe e esquece a rede; a armadilha serve para prender a lebre:prende a lebre e esquece a armadilha; as palavras servem para prender ideias: compreende a ideia e esquece as palavras.Quem dera encontrar alguém que tenha esquecido as palavras, para conversar com ele! ' "

( Stephen Reckert, BASHÔ E A ARTE DO INACABADO, in UMA RÃ QUE SALTA, Homenagem a Bashô, ed Limiar, 1995 )

Murilo Mendes


Murilograma a Bashô

O grito gris
Das aves altas
Com seu realejo.

Mira estas flores gigantes
Arrumadas em Ikebana:
São sólidas que nem cadeiras.

As hastes do boi
Majestosas determinam
O ritmo do seu andar.

O diamante despertou
Quando sentiu infiltrar-se
O braço branco da lua.

A flecha voa no ar:
Desce, porta uma mensagem
Da minha amiga giróvaga.

O habitante de Hiroshima
Aponta a nuvem no céu
E chora.

( Roma, 1964 )

Eugenio de Andrade, homenagem a Basho...

"As cigarras ardem
nos ramos do verão
como lenha verde.

Um rumor pueril
e doce de abelhas
enganava a sede.

No cimo da torre
da praça mais branca
é que o sol se despe,

e dança dança dança."

Homenagem a Basho I



Adoeço na viagem
meus sonhos vagueiam já
nesses campos secos.
(B.)

UMA RÃ QUE SALTA foi o título dado a uma pequena antologia de poemas de Bashô e de poemas inspirados por ele, em 1995, na ed.Limiar do Porto, iniciativa de um poeta nortenho, Egito Gonçalves, que também colaborou na edição.Ei-lo aqui em diálogo com Bashô:

Uma rã mergulha.
Um velho tanque.
Ruído de água
(B.)

No som
do poema
outra rã mergulha.
(E.G.)

Stephen Reckert escreve sobre BASHÔ E A ARTE DO INACABADO:
"A poesia mais célebre da língua japonesa é um haiku do mestre supremo desse género supremamente condensado, Matsuo Munefusa (1644-94)- Bashô de seu nome poético.

O velho charco...
som da água
onde a rã mergulha

"Não raro o próprio haiku faz ondas concêntricas no subconsciente do leitor. ..O inesperado mergulho da rã ensina que além de superfície o charco é também profundidade.
Em quase todas as línguas existem micropoemas- seguidillas e solares andaluzas, quadras portuguesas, robaiyat persas, ...mas o laboratório em que a micropoesia tem sido submetida ao longo dos últimos treze séculos ao mais aturado e contínuo estudo e cultivo é o Japão.
A preferencia por estrofes de três ou cinco unidades reflecte a aversão pela simetria e a regularidade ( consideradas óbvias e pouco subtis ) sendo reconhecida como uma das bases permanentes da estética japonesa, diferenciando-a da chinesa" (S.R.)

Um monge do séc.XIII, KENKO, justifica o elegante desprezo dos japoneses pela regularidade e a simetria como a outra face da estima pelo fragmentário e o inacabado, observando:" deixar qualquer coisa incompleta dá a entender que há espaço para crescimento".
Esta é uma lição que serve românticos tanto quanto modernistas ou surrealistas, pois deixa a porta aberta à imaginação de quem cria, é certo, mas igualmente de quem se "deixa criar ou recriar ao ler,ver ou ouvir o poema assim oferecido.

Este pequeno livro, só no tamanho, ficou a dever-se ao amor de Casimiro de Brito e Stephen Reckert pela poesia da Ásia Oriental; as ilustrações deste e dos posts seguintes são as caligrafias de YUKIE KITO dos poemas de Bashô.
Foi uma iniciativa do PEN Clube Português, a que se podia ter seguido a versão inglesa dos poetas incluídos, pois numa época de imperialismo linguísitico de que não se escapará o que não for traduzido não será divulgado como seria desejado por parte dos poetas.
É certo que cultivam a FORMA ABERTA, mas tal não implica que não desejem ser lidos, mais do que simplesmemte conhecidos.
Deixo aqui em homenagem o meu contributo para esta belíssima arte:
No velho portão da alma:
o ferrolho bem fechado
(2013)

Thursday, May 11, 2006

Joan Brossa


Não houve artista ou movimento criador a que João Cabral não dedicasse especial interesse, amizade ou carinho.
É o caso de Joan Brossa, o poeta catalão que se torna criador de pinturas poemas, objectos, instalações por onde se passeia um público que vê nele, desde as primeiras experiencias poéticas de 1940, a força visual da imagem ultrapassando a fronteira do limite conceptual, seja ele qual for.Interessou-se primeiro pelo surrealismo e sua magia, passa para uma prática de quotidiano "alterado", ou não seria poético, evoluindo já a paritr da década de 70 para o que os críticos definem como"forma idónea de conectar a verdade psíquica com o símbolo"( Pilar Palomer)
Brossa rompe com as convenções da linguagem, e por aí dele se aproxima decerto igualmente João Cabral.
Experimental, vanguardista, são termos que o enquadram bem, mas teremos sempre de recordar que não é o acessório que para ele importa, e apenas o que surge de dentro, com força e imposição própria.
Escreve Brossa: " Para que seja eficaz, a imagem poética deve vincularse à consciencia obscura...se não for assim converte-se em cabeleira postiça retórica e aborrecida...A mensagem, seja ela qual for, deve sair de dentro, e não como algo que se acrescente."

Em PAISAGENS COM FIGURAS (1954-1955 ) dedica João Cabral um belo poema a Brossa:

Fabula de Joan Brossa

Joan Brossa, poeta frugal,
que só come tomate e pão,
que sobre papel de estiva
compõe versos a carvão,
nas feiras de Barcelona,
Joan Brossa,poeta buscão,
as sete caras do dado,
as cinco patas do cão
antes buscava Joan Brossa,
místico da aberração,
buscava encontrar nas feiras
sua poética sem-razão.
....
....

(deixo o resto para quem tenha mais curiosidade e queira continuar a ler, por si próprio).

E MAIS PEDRAS de Joao Cabral, cont.

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impesoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistencia fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra ( de fora para dentro,
cartilha muda ),para quem soletrá-la.

***

Outra educação pela pedra: no Sertão
( de dentro para fora, e pré-didáctica ).
No Sertão a pedra não sabe leccionar,
e se leccionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


João Cabral, se não conheceu, gostaria de ter conhecido o Guillevic das pedras de Carnac, o que vê nelas um imperativo de carácter, como o nosso poeta brasileiro vê nelas a permanencia da condição humana, inalterada, inalterável.
A Educação pela Pedra faz-se pela moral, rígida, e pela ossatura concreta do poema na carne e no papel. É uma cartilha difícil a que nos é oferecida, se não mesmo impossível, na plena exaltação das práticas experimentalistas e quase libertárias.O exemplo do Sertão já é algo diferente: aqui o ser humano virou pedra, é essa a sua tremenda condição.

Podia agora sugerir que lessem, na mesma Educação pela Pedra, o surpreendente, ou talvez não, poema alquímico por excelência neste conjunto de João Cabral:

FAZER O SECO,FAZER O HÚMIDO

E Mais Pedras...

João Cabral de Melo Neto, o visionário, só por acaso Engenheiro...

PEQUENA ODE MINERAL

Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.

Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,

informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.

Tua alma foge
como cabelos,
unhas humores,
palavras ditas

que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.

Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.

Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.

Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.

Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,

pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.

Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silencio puro,

de pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que a ausencia
que as vozes ferem.

(in O ENGENHEIRO )

Joao Cabral de Melo Neto,Obra Completa, 1994


HOMENAGEM A PICASSO

O esquadro disfarça o eclipse
que os homens não querem ver.
Não há música aparntemente
nos violinos fechados.
Apenas os recortes dos jornais diários
acenam para mim como o juizo final.



A ANDRÉ MASSON

Com peixes e cavalos sonâmbulos
pintas a obscura metafísica
do limbo.

Cavalos e peixes guerreiros
fauna dentro da terra a nossos pés
crianças mortas que nos seguem
dos sonhos.

Formas primitivas fecham os olhos
escafandros ocultam luzes frias;
invisíveis na superfície pálpebras
não batem.

Friorentos corremos ao sol gelado
de teu país de mina onde guardas
o alimento a química o enxofre
da noite.


( in PEDRA DO SONO )


A MESA

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto, ainda leve, quente

e fresco como o pão.

( in O ENGENHEIRO )

COEUR D'AMOUR...


LE COEUR D'AMOUR ÉPRIS, é a reprodução integral en fac-simile das miniaturas do Codex Vindobonensis 2597 da Bibliteca Nacional de Viena ( ed. Philippe Lebaud, 1981 ).
O texto de René d'Anjou, célebre no seu tempo, já talvez só interesse, como dizem os editores, aos medievalistas. Mas as miniaturas que o ilustram são consideradas ainda hoje como as mais belas que se possam conceber para exprimir a relação de amor.
Representam dezasseis étapas de um percurso amoroso que ficou inacabado; há páginas em branco que deviam continuar a ilustração começada.
É um livro que nos faz regressar ao tempo da Cavalaria Medieval, e do amor escondido por damas que exigiam corações valorosos antes de se entregar.René d'Anjou morreu em 1480,e uma parte do reino em que nascera, a Provença, um ano depois é integrada na França. Daí a homenagem que neste livro se lhe presta, pela mão do Curador e outros especialistas, na edição do fac-simile.
Marie-Thérèse Gousset, Doutora em História de Arte, comenta as miniaturas e resume a acção em que se inscrevem; e pode continuar a explicar a narrativa através de um outro suporte, o do manuscrito de Paris ( Ms. fr. 24399-B.N. Paris ). Assim vamos nós percorrendo, por sábias mãos, que amam a literatura e a arte, todo um panorama da QUÊTE ( a palavra Busca ou Procura não dá o sentido integral da Quête ) religiosa, espiritual, e amorosa com o seu carrego de sofrimento, tanto quanto de alegria e prazer; idealismo e cinismo, diz a crítica, convivem lado a lado.
O livro fecha com um conjunto de poemas próximos do tom do COEUR D'AMOUR ÉPRIS.
René d'Anjou define a obra como conjunto de Parábolas, dando assim a entender que existe uma carga simbólica a decifrar.A utilização de enigmas e parábolas que escondem ao mesmo tempo que de verdade revelam ( vemos o mesmo nos Fiéis de Amor ) é algo de comum na literatura cortês.Mas também se assiste, como será o caso, à transposição da matéria dos sonhos. E isso dá uma dimensão universal ao conjunto artístico oferecido.
René, adormece e tem um sonho que narra: vê-se como cavaleiro CORAÇÃO, correspondendo aos imperativos do Desejo, e disposto a enfrentar todos os nobres da Távola Redonda, se tal fôr necessário: Lancelote, Gawain, Galaad, Tristão...
Assim começa a aventura.

Tuesday, May 09, 2006

G.KUNERT


Em 1983, um grupo de amigos germanistas decidiu dar a conhecer ao público português, com alguma regularidade, a poesia alemã do século XX.
GUNTER KUNERT foi um dos escolhidos, e na ed. Apáginas tantas, com ilustrações de Mário Botas, fez-se a 1. edição de 90 poemas.
O poeta nasceu em Berlin em 1929, e pode dizer-se que toda a sua vida foi dedicada à poesia.É considerado um dos autores da ex-RDA, mas a partir de 1979 é na Alemanha Federal que o encontramos a viver e a escrever.
No primeiro bloco de poemas, intitulado Recordação dum Planeta,escreve ele "Sobre alguns que escaparam" (referindo-se ao outro lado do sofrimento, o daqueles que também foram vítimas da destruição causada por uma guerra insana).

" Quando o homem
Foi retirado
Dos escombros
Da sua casa
Bombardeada,
Sacudiu-se
E disse: Nunca mais.

Pelo menos não já."

É bom ver que há sempre dois lados na moeda terrível dos confrontos sangrentos, antes de se fazerem juízos de valor que serão injustos se forem alargados e radicais.Com estes poetas da geração que fala, em vez de calar uma culpa secreta que não têm, se desenha de novo um caminho que é, no dizer de Kunert, para mais do que nós todos, um caminho que ambiciona erguer já um futuro.

"Para Mais do que Eu"

Sou aquele que busca
Um caminho.
Para tudo o que é mais
Do que
Metabolismo
Circulação sanguínea
Alimentação
Decomposição das células.

Sou aquele que busca
Um caminho
Que é mais largo
Do que eu.

Não demasiado estreito.
Não a via-de-um-homem-só.
Mas tampouco
A poeirenta estrada
Mil vezes percorrida.

Sou aquele que busca
Um caminho.
Um caminho para mais
Do que eu.

Monday, May 08, 2006

Donizete Galvao




MUNDO MUDO é o mais recente livro de Donizete Galvão (São Paulo,2003), ilustrado com desenhos a tinta de Rogério Barbosa, que ganhou o prémio Gunther de Pintura em 1994.
O meu encontro com Donizete deu-se através do comum amor pela poesia de Paul Celan, mas sou hoje uma leitora fiel do que ele escreve e me vai mandando.
A sua obra poética é publicada desde 1988, sendo logo reconhecida e premiada com o Prémio APCA de autor revelação. Mas a obra define-se pela continuação e não apenas pelo arranque, ainda que já distinto e merecendo distinção.Li com especial prazer DO SILÊNCIO DA PEDRA (1996 ) e A CARNE E O TEMPO (1997 ), entre outros dos seus livros.
Neste MUNDO MUDO, a epígrafe é de Paul Celan :
" Mudo o que entrou
na vida, mudo."

Toda a poesia, como a vida, é feita de mudança. Camões também passa por aqui.Na primeira série, A NOITE DAS PALAVRAS, é patente uma amargura que o olhar simples das coisas simples, noutros poemas, não consegue apagar:

Lady Macbeth

"Que vê
quando me vê?
Um cão,
um ladrão,
um osso,
um fosso,
um traste,
um rapaz
de olhos tristes?

Que diz
a aspereza
das palavras
em ira?
Boa sorte,
boa morte,
fica na tua,
que a serventia da casa
é a porta da rua ? "


Lembrança de Severo Sarduy

" Quando se fere
com a tesoura
a haste
da manga,
escorre
o líquido,
visco
oloroso
que prenuncia
nas ventas
o gozo.
Antecipação
do paraíso
na tarde calorenta
do suco de manga
gelado
que desliza
pela garganta."


No ciclo dos HOMENS SEM MORADAS, caminhando já para o fim do livro, o Crepúsculo, que antecede o Mundo Mudo, o mundo em que de tanto falar (que não é o mesmo que dizer ) e tanto comunicar o que acontece é a noite da solidão e do silencio,surge a imagem da Besta do Apocalipse:

" Este é o espaço da Besta triunfante.
Uns trazem o peito marcado por seus cascos.
Outros, de fora, imploram para ser pisoteados."

Não é preciso que chegue o fim do mundo para que a Besta nos atormente.Esse tormento pode ser aquele a que todos os dias assistimos, sem poder fazer nada. DIZER é então importante, imperativo, para que o mundo não emudeça de vez à nossa volta.
As manchas da indiferença, como as de sangue nas mãos de Lady Macbeth , não serão apagadas.Como diz um dos críticos da obra de Donizete ,a sua poesia já não busca o "efeito". É simples e directa, o seu mundo é o da gente pequena, marcando as suas origens, é o dos mitos e rituais com que aprendeu a entender melhor o mundo que o rodeava, é o do dizer límpido que se situa entre o movimento e o repouso:
" Roçar de andorinha
entre vôo e pouso.
Parábola desenhada
por vento e asa."
(in Notícias do dia )