Traduzindo BASHÔ.
"Quebrando o silêncio
do charco antigo a rã salta
n'água - ressoar fundo.
Qual velha sem dentes
a cerejeira sem folhas
juvenil floresce.
Mal pensas na morte
que cedo espreita: as cigarras
cantam no arvoredo.
Primavera: até
montes sem nome se enfeitam
de véus matinais.
Bendito este vale
onde o vento suave cheira
vagamente a neve.
...
Alta brilha a lua
enquanto o verme escondido
a castanha rói."
Sunday, May 14, 2006
Reckert, sobre a poetica da Asia Oriental

"As duas grandes línguas de cultura da Ásia Oriental caracterizam-se por uma ambiguidade imanente que, ao mesmo tempo que faz de todo o significante um meio para a expressão de significados plurais, faz também das línguas mesmas aquilo a que o outrora célebre MacLuhan designou como COOL MEDIA : quer dizer, para serem inteligíveis exigem da parte de quem recebe a "mensagem" uma activa colaboração no seu deciframento. Mas além desta tendencia inerente, a tradição literária tanto do chinês como do japonês tem cultivado sistematicamente a ambivalência (ou melhor a plurivalência) como recurso estilístico consciente. É difícil não interpretar isto como uma convicção filosófica de que nenhum significante poderá jamais reproduzir totalmente o significado a que pretende corresponder, e que portanto é inútil tentar forçá-lo a atingir essa meta quimérica. Trata-se de uma desconfiança que pode ser rastreada até à doutrina semiótica do sábio taoísta ZHUANG Zî, no século IV a.C. :
'A rede serve para prender o peixe: prende o peixe e esquece a rede; a armadilha serve para prender a lebre:prende a lebre e esquece a armadilha; as palavras servem para prender ideias: compreende a ideia e esquece as palavras.Quem dera encontrar alguém que tenha esquecido as palavras, para conversar com ele! ' "
( Stephen Reckert, BASHÔ E A ARTE DO INACABADO, in UMA RÃ QUE SALTA, Homenagem a Bashô, ed Limiar, 1995 )
Murilo Mendes

Murilograma a Bashô
O grito gris
Das aves altas
Com seu realejo.
Mira estas flores gigantes
Arrumadas em Ikebana:
São sólidas que nem cadeiras.
As hastes do boi
Majestosas determinam
O ritmo do seu andar.
O diamante despertou
Quando sentiu infiltrar-se
O braço branco da lua.
A flecha voa no ar:
Desce, porta uma mensagem
Da minha amiga giróvaga.
O habitante de Hiroshima
Aponta a nuvem no céu
E chora.
( Roma, 1964 )
Eugenio de Andrade, homenagem a Basho...
"As cigarras ardem
nos ramos do verão
como lenha verde.
Um rumor pueril
e doce de abelhas
enganava a sede.
No cimo da torre
da praça mais branca
é que o sol se despe,
e dança dança dança."
nos ramos do verão
como lenha verde.
Um rumor pueril
e doce de abelhas
enganava a sede.
No cimo da torre
da praça mais branca
é que o sol se despe,
e dança dança dança."
Homenagem a Basho I

Adoeço na viagem
meus sonhos vagueiam já
nesses campos secos.
(B.)
UMA RÃ QUE SALTA foi o título dado a uma pequena antologia de poemas de Bashô e de poemas inspirados por ele, em 1995, na ed.Limiar do Porto, iniciativa de um poeta nortenho, Egito Gonçalves, que também colaborou na edição.Ei-lo aqui em diálogo com Bashô:
Uma rã mergulha.
Um velho tanque.
Ruído de água
(B.)
No som
do poema
outra rã mergulha.
(E.G.)
Stephen Reckert escreve sobre BASHÔ E A ARTE DO INACABADO:
"A poesia mais célebre da língua japonesa é um haiku do mestre supremo desse género supremamente condensado, Matsuo Munefusa (1644-94)- Bashô de seu nome poético.
O velho charco...
som da água
onde a rã mergulha
"Não raro o próprio haiku faz ondas concêntricas no subconsciente do leitor. ..O inesperado mergulho da rã ensina que além de superfície o charco é também profundidade.
Em quase todas as línguas existem micropoemas- seguidillas e solares andaluzas, quadras portuguesas, robaiyat persas, ...mas o laboratório em que a micropoesia tem sido submetida ao longo dos últimos treze séculos ao mais aturado e contínuo estudo e cultivo é o Japão.
A preferencia por estrofes de três ou cinco unidades reflecte a aversão pela simetria e a regularidade ( consideradas óbvias e pouco subtis ) sendo reconhecida como uma das bases permanentes da estética japonesa, diferenciando-a da chinesa" (S.R.)
Um monge do séc.XIII, KENKO, justifica o elegante desprezo dos japoneses pela regularidade e a simetria como a outra face da estima pelo fragmentário e o inacabado, observando:" deixar qualquer coisa incompleta dá a entender que há espaço para crescimento".
Esta é uma lição que serve românticos tanto quanto modernistas ou surrealistas, pois deixa a porta aberta à imaginação de quem cria, é certo, mas igualmente de quem se "deixa criar ou recriar ao ler,ver ou ouvir o poema assim oferecido.
Este pequeno livro, só no tamanho, ficou a dever-se ao amor de Casimiro de Brito e Stephen Reckert pela poesia da Ásia Oriental; as ilustrações deste e dos posts seguintes são as caligrafias de YUKIE KITO dos poemas de Bashô.
Foi uma iniciativa do PEN Clube Português, a que se podia ter seguido a versão inglesa dos poetas incluídos, pois numa época de imperialismo linguísitico de que não se escapará o que não for traduzido não será divulgado como seria desejado por parte dos poetas.
É certo que cultivam a FORMA ABERTA, mas tal não implica que não desejem ser lidos, mais do que simplesmemte conhecidos.
Deixo aqui em homenagem o meu contributo para esta belíssima arte:
No velho portão da alma:
o ferrolho bem fechado
(2013)
Thursday, May 11, 2006
Joan Brossa

Não houve artista ou movimento criador a que João Cabral não dedicasse especial interesse, amizade ou carinho.
É o caso de Joan Brossa, o poeta catalão que se torna criador de pinturas poemas, objectos, instalações por onde se passeia um público que vê nele, desde as primeiras experiencias poéticas de 1940, a força visual da imagem ultrapassando a fronteira do limite conceptual, seja ele qual for.Interessou-se primeiro pelo surrealismo e sua magia, passa para uma prática de quotidiano "alterado", ou não seria poético, evoluindo já a paritr da década de 70 para o que os críticos definem como"forma idónea de conectar a verdade psíquica com o símbolo"( Pilar Palomer)
Brossa rompe com as convenções da linguagem, e por aí dele se aproxima decerto igualmente João Cabral.
Experimental, vanguardista, são termos que o enquadram bem, mas teremos sempre de recordar que não é o acessório que para ele importa, e apenas o que surge de dentro, com força e imposição própria.
Escreve Brossa: " Para que seja eficaz, a imagem poética deve vincularse à consciencia obscura...se não for assim converte-se em cabeleira postiça retórica e aborrecida...A mensagem, seja ela qual for, deve sair de dentro, e não como algo que se acrescente."
Em PAISAGENS COM FIGURAS (1954-1955 ) dedica João Cabral um belo poema a Brossa:
Fabula de Joan Brossa
Joan Brossa, poeta frugal,
que só come tomate e pão,
que sobre papel de estiva
compõe versos a carvão,
nas feiras de Barcelona,
Joan Brossa,poeta buscão,
as sete caras do dado,
as cinco patas do cão
antes buscava Joan Brossa,
místico da aberração,
buscava encontrar nas feiras
sua poética sem-razão.
....
....
(deixo o resto para quem tenha mais curiosidade e queira continuar a ler, por si próprio).
E MAIS PEDRAS de Joao Cabral, cont.
A EDUCAÇÃO PELA PEDRA
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impesoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistencia fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra ( de fora para dentro,
cartilha muda ),para quem soletrá-la.
***
Outra educação pela pedra: no Sertão
( de dentro para fora, e pré-didáctica ).
No Sertão a pedra não sabe leccionar,
e se leccionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.
João Cabral, se não conheceu, gostaria de ter conhecido o Guillevic das pedras de Carnac, o que vê nelas um imperativo de carácter, como o nosso poeta brasileiro vê nelas a permanencia da condição humana, inalterada, inalterável.
A Educação pela Pedra faz-se pela moral, rígida, e pela ossatura concreta do poema na carne e no papel. É uma cartilha difícil a que nos é oferecida, se não mesmo impossível, na plena exaltação das práticas experimentalistas e quase libertárias.O exemplo do Sertão já é algo diferente: aqui o ser humano virou pedra, é essa a sua tremenda condição.
Podia agora sugerir que lessem, na mesma Educação pela Pedra, o surpreendente, ou talvez não, poema alquímico por excelência neste conjunto de João Cabral:
FAZER O SECO,FAZER O HÚMIDO
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impesoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistencia fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra ( de fora para dentro,
cartilha muda ),para quem soletrá-la.
***
Outra educação pela pedra: no Sertão
( de dentro para fora, e pré-didáctica ).
No Sertão a pedra não sabe leccionar,
e se leccionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.
João Cabral, se não conheceu, gostaria de ter conhecido o Guillevic das pedras de Carnac, o que vê nelas um imperativo de carácter, como o nosso poeta brasileiro vê nelas a permanencia da condição humana, inalterada, inalterável.
A Educação pela Pedra faz-se pela moral, rígida, e pela ossatura concreta do poema na carne e no papel. É uma cartilha difícil a que nos é oferecida, se não mesmo impossível, na plena exaltação das práticas experimentalistas e quase libertárias.O exemplo do Sertão já é algo diferente: aqui o ser humano virou pedra, é essa a sua tremenda condição.
Podia agora sugerir que lessem, na mesma Educação pela Pedra, o surpreendente, ou talvez não, poema alquímico por excelência neste conjunto de João Cabral:
FAZER O SECO,FAZER O HÚMIDO
E Mais Pedras...
João Cabral de Melo Neto, o visionário, só por acaso Engenheiro...
PEQUENA ODE MINERAL
Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.
Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,
informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.
Tua alma foge
como cabelos,
unhas humores,
palavras ditas
que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.
Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.
Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.
Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.
Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,
pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.
Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silencio puro,
de pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que a ausencia
que as vozes ferem.
(in O ENGENHEIRO )
PEQUENA ODE MINERAL
Desordem na alma
que se atropela
sob esta carne
que transparece.
Desordem na alma
que de ti foge,
vaga fumaça
que se dispersa,
informe nuvem
que de ti cresce
e cuja face
nem reconheces.
Tua alma foge
como cabelos,
unhas humores,
palavras ditas
que não se sabe
onde se perdem
e impregnam a terra
com sua morte.
Tua alma escapa
como este corpo
solto no tempo
que nada impede.
Procura a ordem
que vês na pedra:
nada se gasta
mas permanece.
Essa presença
que reconheces
não se devora
tudo em que cresce.
Nem mesmo cresce
pois permanece
fora do tempo
que não a mede,
pesado sólido
que ao fluido vence,
que sempre ao fundo
das coisas desce.
Procura a ordem
desse silêncio
que imóvel fala:
silencio puro,
de pura espécie,
voz de silêncio,
mais do que a ausencia
que as vozes ferem.
(in O ENGENHEIRO )
Joao Cabral de Melo Neto,Obra Completa, 1994

HOMENAGEM A PICASSO
O esquadro disfarça o eclipse
que os homens não querem ver.
Não há música aparntemente
nos violinos fechados.
Apenas os recortes dos jornais diários
acenam para mim como o juizo final.
A ANDRÉ MASSON
Com peixes e cavalos sonâmbulos
pintas a obscura metafísica
do limbo.
Cavalos e peixes guerreiros
fauna dentro da terra a nossos pés
crianças mortas que nos seguem
dos sonhos.
Formas primitivas fecham os olhos
escafandros ocultam luzes frias;
invisíveis na superfície pálpebras
não batem.
Friorentos corremos ao sol gelado
de teu país de mina onde guardas
o alimento a química o enxofre
da noite.
( in PEDRA DO SONO )
A MESA
O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca
e fresca como o pão.
A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara
e fresca como o pão.
A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca
e fresca como o pão.
E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto, ainda leve, quente
e fresco como o pão.
( in O ENGENHEIRO )
COEUR D'AMOUR...

LE COEUR D'AMOUR ÉPRIS, é a reprodução integral en fac-simile das miniaturas do Codex Vindobonensis 2597 da Bibliteca Nacional de Viena ( ed. Philippe Lebaud, 1981 ).
O texto de René d'Anjou, célebre no seu tempo, já talvez só interesse, como dizem os editores, aos medievalistas. Mas as miniaturas que o ilustram são consideradas ainda hoje como as mais belas que se possam conceber para exprimir a relação de amor.
Representam dezasseis étapas de um percurso amoroso que ficou inacabado; há páginas em branco que deviam continuar a ilustração começada.
É um livro que nos faz regressar ao tempo da Cavalaria Medieval, e do amor escondido por damas que exigiam corações valorosos antes de se entregar.René d'Anjou morreu em 1480,e uma parte do reino em que nascera, a Provença, um ano depois é integrada na França. Daí a homenagem que neste livro se lhe presta, pela mão do Curador e outros especialistas, na edição do fac-simile.
Marie-Thérèse Gousset, Doutora em História de Arte, comenta as miniaturas e resume a acção em que se inscrevem; e pode continuar a explicar a narrativa através de um outro suporte, o do manuscrito de Paris ( Ms. fr. 24399-B.N. Paris ). Assim vamos nós percorrendo, por sábias mãos, que amam a literatura e a arte, todo um panorama da QUÊTE ( a palavra Busca ou Procura não dá o sentido integral da Quête ) religiosa, espiritual, e amorosa com o seu carrego de sofrimento, tanto quanto de alegria e prazer; idealismo e cinismo, diz a crítica, convivem lado a lado.
O livro fecha com um conjunto de poemas próximos do tom do COEUR D'AMOUR ÉPRIS.
René d'Anjou define a obra como conjunto de Parábolas, dando assim a entender que existe uma carga simbólica a decifrar.A utilização de enigmas e parábolas que escondem ao mesmo tempo que de verdade revelam ( vemos o mesmo nos Fiéis de Amor ) é algo de comum na literatura cortês.Mas também se assiste, como será o caso, à transposição da matéria dos sonhos. E isso dá uma dimensão universal ao conjunto artístico oferecido.
René, adormece e tem um sonho que narra: vê-se como cavaleiro CORAÇÃO, correspondendo aos imperativos do Desejo, e disposto a enfrentar todos os nobres da Távola Redonda, se tal fôr necessário: Lancelote, Gawain, Galaad, Tristão...
Assim começa a aventura.
Tuesday, May 09, 2006
G.KUNERT

Em 1983, um grupo de amigos germanistas decidiu dar a conhecer ao público português, com alguma regularidade, a poesia alemã do século XX.
GUNTER KUNERT foi um dos escolhidos, e na ed. Apáginas tantas, com ilustrações de Mário Botas, fez-se a 1. edição de 90 poemas.
O poeta nasceu em Berlin em 1929, e pode dizer-se que toda a sua vida foi dedicada à poesia.É considerado um dos autores da ex-RDA, mas a partir de 1979 é na Alemanha Federal que o encontramos a viver e a escrever.
No primeiro bloco de poemas, intitulado Recordação dum Planeta,escreve ele "Sobre alguns que escaparam" (referindo-se ao outro lado do sofrimento, o daqueles que também foram vítimas da destruição causada por uma guerra insana).
" Quando o homem
Foi retirado
Dos escombros
Da sua casa
Bombardeada,
Sacudiu-se
E disse: Nunca mais.
Pelo menos não já."
É bom ver que há sempre dois lados na moeda terrível dos confrontos sangrentos, antes de se fazerem juízos de valor que serão injustos se forem alargados e radicais.Com estes poetas da geração que fala, em vez de calar uma culpa secreta que não têm, se desenha de novo um caminho que é, no dizer de Kunert, para mais do que nós todos, um caminho que ambiciona erguer já um futuro.
"Para Mais do que Eu"
Sou aquele que busca
Um caminho.
Para tudo o que é mais
Do que
Metabolismo
Circulação sanguínea
Alimentação
Decomposição das células.
Sou aquele que busca
Um caminho
Que é mais largo
Do que eu.
Não demasiado estreito.
Não a via-de-um-homem-só.
Mas tampouco
A poeirenta estrada
Mil vezes percorrida.
Sou aquele que busca
Um caminho.
Um caminho para mais
Do que eu.
Monday, May 08, 2006
Donizete Galvao


MUNDO MUDO é o mais recente livro de Donizete Galvão (São Paulo,2003), ilustrado com desenhos a tinta de Rogério Barbosa, que ganhou o prémio Gunther de Pintura em 1994.
O meu encontro com Donizete deu-se através do comum amor pela poesia de Paul Celan, mas sou hoje uma leitora fiel do que ele escreve e me vai mandando.
A sua obra poética é publicada desde 1988, sendo logo reconhecida e premiada com o Prémio APCA de autor revelação. Mas a obra define-se pela continuação e não apenas pelo arranque, ainda que já distinto e merecendo distinção.Li com especial prazer DO SILÊNCIO DA PEDRA (1996 ) e A CARNE E O TEMPO (1997 ), entre outros dos seus livros.
Neste MUNDO MUDO, a epígrafe é de Paul Celan :
" Mudo o que entrou
na vida, mudo."
Toda a poesia, como a vida, é feita de mudança. Camões também passa por aqui.Na primeira série, A NOITE DAS PALAVRAS, é patente uma amargura que o olhar simples das coisas simples, noutros poemas, não consegue apagar:
Lady Macbeth
"Que vê
quando me vê?
Um cão,
um ladrão,
um osso,
um fosso,
um traste,
um rapaz
de olhos tristes?
Que diz
a aspereza
das palavras
em ira?
Boa sorte,
boa morte,
fica na tua,
que a serventia da casa
é a porta da rua ? "
Lembrança de Severo Sarduy
" Quando se fere
com a tesoura
a haste
da manga,
escorre
o líquido,
visco
oloroso
que prenuncia
nas ventas
o gozo.
Antecipação
do paraíso
na tarde calorenta
do suco de manga
gelado
que desliza
pela garganta."
No ciclo dos HOMENS SEM MORADAS, caminhando já para o fim do livro, o Crepúsculo, que antecede o Mundo Mudo, o mundo em que de tanto falar (que não é o mesmo que dizer ) e tanto comunicar o que acontece é a noite da solidão e do silencio,surge a imagem da Besta do Apocalipse:
" Este é o espaço da Besta triunfante.
Uns trazem o peito marcado por seus cascos.
Outros, de fora, imploram para ser pisoteados."
Não é preciso que chegue o fim do mundo para que a Besta nos atormente.Esse tormento pode ser aquele a que todos os dias assistimos, sem poder fazer nada. DIZER é então importante, imperativo, para que o mundo não emudeça de vez à nossa volta.
As manchas da indiferença, como as de sangue nas mãos de Lady Macbeth , não serão apagadas.Como diz um dos críticos da obra de Donizete ,a sua poesia já não busca o "efeito". É simples e directa, o seu mundo é o da gente pequena, marcando as suas origens, é o dos mitos e rituais com que aprendeu a entender melhor o mundo que o rodeava, é o do dizer límpido que se situa entre o movimento e o repouso:
" Roçar de andorinha
entre vôo e pouso.
Parábola desenhada
por vento e asa."
(in Notícias do dia )
Saturday, May 06, 2006
A musica de Tabucchi

TRISTANO MORRE, de António Tabucchi, trad port. D.Quixote, 2006
" A história é como o amor, é uma música, e o músico és tu, e ao tocá-la revelas um enorme talento, és um intérprete que sopra a plenos pulmões no trompete ou faz deslizar arrebatadamente o arco sobre as cordas...admirável, uma execução perfeita, palmas. Mas não conheces a partitura.Só a decifras mais tarde, muito mais tarde, mas entretanto a música evaporou-se..." (p.91)
António Tabucchi publica, se bem me lembro, desde a década de 70.
O primeiro dos seus romances que li, e segui como quem viajasse com ele, nesse mesmo nocturno, já musical e muito "pessoano", foi NOCTURNO INDIANO, de 1984.
Depois vim encontrar em AFIRMA PEREIRA um país, uma Lisboa, um conjunto de personagens que faziam parte de uma história social e política de que não estávamos afinal ainda muito longe. A Revolução tinha alargado o horizonte habitual, mas a pequena rotina, o espírito burguês do pequeno e assustado funcionário agora iludido com um outro poder, mantinha-se, e fazia daquela história que devia retratar um passado recente, um presente ainda indefinido.
A música era tocada, por muitos, por todos, mas não se conhecia a partitura.
Com TRISTANO MORRE encontra-se outro país, mas na verdade o que nele se descreve é um espaço universal, o da condição humana, consciente e sofredora. Passa nas páginas do livro um sopro de melancolia dolorosa, que a coragem dos lutadores contra o nazi-fascismo não chega a fazer esquecer.Esses morreram bem, sabiam por que viviam e por que morreriam.A sua vida tinha razão de ser. Ainda que pobres, nada lhes faltava.
Mas aos heróis da vida de hoje, que o são apenas porque estão vivos, tudo falta.É essa a razão de tanta melancolia e não as cefaleias atrozes :
"Sabes o que significa cefaleia?...Para já é um leve ruído, porque é assim que começa, uma campainha esquisita que é como um silvo ou um lamento agudo, um sonar, chega de muito longe, das profundezas, dás por ele, e de repente as coisas assumem contornos ameaçadores,como se aquele silvo se tivesse introduzido na vista, aguçando-a, distorcendo-a, e ficas com a sensação de ter um prisma no lugar dos olhos, porque os contornos, as arestas, os objectos ampliaram a sua existencia no espaço, dilataram-se, mudaram de geometria, e ao mudarem deixaram de significar aquilo que significavam...e a partir daí tudo ondeia, o espaço cresce como uma maré...o chão liquefaz-se, e um pulmão que parece todo o universo respira à tua volta, ou melhor, dentro de ti, e tu estás em cima dele e ao mesmo tempo dentro dele,és um grão de pó ..." (p.89).
O leve ruído da cefaleia, que depressa se transforma num conjunto de sensações infernais, é a antecipação do cântico da morte.
E relembro, não sei porquê, mas relembro, Rilke, nos Cadernos de Malte Laurids Brigge:
" Antigamente sabia-se (ou talvez se pressentisse) que se trazia a morte dentro de si, como o fruto o caroço.As crianças tinham dentro uma pequena e os adultos uma grande. TINHA-SE a morte, e isto dava às pessoas uma dignidade particular e um calmo orgulho.
Meu avô, o velho camareiro Brigge, a esse ainda se lhe via que trazia dentro de si uma morte. E que morte! durou dois meses, e era de voz tão forte que se ouvia até lá fora na quinta. "
E segue: " Era uma VOZ, a voz que sete semanas atrás ninguém conhecia ainda,porque não era a voz do Camareiro..."
Era a voz da morte do Camareiro, uma voz atroadora e exigente. Exigia, e "exigia mesmo morrer. Ele morreu a sua morte difícil " (trad.Paulo Quintela)
Será essa a razão de tanta melancolia ? Já nem a morte se poderá escolher, o progresso , com o seu excesso e a sua vacuidade, não nos deixará TER o pouco que sempre foi nosso.
Há mais um grito, nas últimas páginas do livro de Tabucchi, e não é por acaso:
"Eu sou voz, e a tua é mera escrita, a minha é voz...a escrita é surda..estes sons que ouves agora no ar sobre a tua página hão-de morrer, a escrita fixa-os e mata-os."(p. 164)
Contudo sabemos que neste jogo especular e crepuscular ao mesmo tempo, nem a voz nem a escrita morrerão.
O avô de Malte," espacializou " a sua morte: não cabia no quarto, nem na sala, exigia que o seu corpo fosse arrastado de um lado para o outro e explodia em cóleras terríveis se os espaços se tivessem esgotado antes do dia terminar.A casa precisaria de asas para se alargar e conter uma tal morte.
Podíamos dizer, com Wagner, que ali o tempo se tornava espaço, mas não um tempo edénico e sim o seu inverso, infernal.
Tabucchi faz o contrário: "temporaliza" o espaço, se assim se pode dizer. O espaço pemanece imóvel, e é na memória do tempo, dos muitos tempos, atravessados pelas vidas de uns e outros, e também dos muitos nomes -que afinal são um só - o da paixão que também ela morre, que a história da morte de Tristano se vai desenrolando.O espaço ali torna-se tempo.
A cefaleia cruel que começa com um ruído inquietante, culminará na distorção do espaço, precisamente porque não é do espaço que ele deseja tratar, mas sim do tempo, uma verdadeira aventura da consciencia que se procura recuperando no mais fundo da memória o que ainda lá está guardado, à espera de ser contado, revivido, para desse modo adquirir uma eternidade desejada, e que só uma tal "voz" permite.
O que não é dito não existe.
"O espaço cresce como uma maré...o chão liquefaz-se..", Tristano sente-se dentro e fora desse pulmão gigante que é o universo inteiro, e ei-lo transformado em grão de areia, no centro do universo. Pelo SOPRO conhecerá finalmente, como um místico, a primeira e última realidade que é a sua.
Para terminar, um poema de Lindley W. Hubbell :
I am not a person.
I am a succession of persons
Held together by memory.
When the string breaks,
The beads scatter.
Thursday, May 04, 2006
Guillevic III

Cont. de LES ROCS
V
La danse est en eux,
La flamme est en eux,
Quand bon leur semble.
Ce n'est pas un spectacle devant eux,
C'est en eux.
C'est la danse de leur intime
Et lucide folie.
C'est la flamme en eux
Du noyau de braise.
VI
Ils n'ont pas voulu être le temple
Où se complaire.
Mais la menace est toujours là
Dans le dehors.
Et la joie
Leur vient d'eux seuls,
Que la mer soit grise
Ou pourrie de bleue.
VII
Ils sentent le dehors,
Ils savent le dehors.
Peut-être parfois l'auront-ils béni
De les limiter:
La toute puissance
N'est pas leur faible.
VIII
Parfois dans leur nuit
C'est un grondement
Qui longtemps résonne.
Et leur grain se noie
Dans un vaste effroi:
Ils ne savaient plus
Q'ils avaient une voix.
IX
Il arrive qu'un bloc
Se détache et tombe,
Tombe à perdre haleine
Dans la mer liquide.
Ils n'étaient donc bien
Que des blocs de pierre,
Un lieu de la danse
Que la danse épuise.
X
Mais le pire est toujours
D'être en dehors de soi
Quand la folie
N'est plus lucide.
D'être le souvenir d'un roc et l'étendue
Vers le dehors et vers le vague.
Não há cântico maior, nem mais simples, nem mais forte, do que este de Guillevic , do seu amor à terra , o espaço que nos foi dado, e temos de merecer.
A sua voz ficou comnosco, desde essa noite de 1965, ficou comigo até hoje, que o leio e o releio, quando a simplicidade da força me faz mais falta, por alguma razão.
Guillevic nasceu em 1907, faleceu em 1997, em 2007 passam 100 anos sobre o seu nascimento.Deixo aqui a memória e o desejo de que possa voltar a ser ouvido.
Prometo a tradução portuguesa deste pequeno ciclo.
Guillevic II

Percebem-se melhor os seus poemas quando nos é dado contemplar a paisagem que os inspirou.Guillevic é terráqueo, como diz,o seu coração bate fundo no interior da terra, no interior do mar, e vive ele próprio essa estranhíssima união, para sempre misteriosa e que ele não se cansa nunca de cantar.
CARNAC
Quand le géant noir
Qui dort parmi les fossiles du fond des mers
Se lève et regarde,
Les astres au creux du ciel ont froid
Et viennent se chauffer coude à coude.
Les yeux morts de cent mille morts
Tombent dans les rivières
Et flottent.
MONTAGNES
Il faudra bien laisser à leur place, à leur sort,
Ces montagnes de terre,
Qui ont forme de seins pourtant
Et qui respirent.
Il faudra leur laisser de former ce front bleu
Devant lequel ont passe -
Nous avec la furie en nous
Et trop de chair.
Como não recordar aqui a terra-mãe que alimenta e embala os seus filhos, e os acolhe no seio, quando a ela regressam transformados e feridos de morte, pelo excesso, a morte que a vida aceita.
De TERRAQUÉ, o ciclo dos Rochedos, LES ROCS, é para mim dos mais comoventes.
A poesia de Guillevic ia sendo, com o tempo, tocada pelo anjo, como ele próprio escreve num poema que assim termina:" La honte soudaine d'éprouver sur moi/ Le toucher de l'ange".
O Anjo toca quem ama, quem grita, quem sofre, se entrega e se redime. Sente-se ,na obra de Guillevic, essa emoção profunda que é reconhecer a necessidade de uma reconciliação do homem consigo mesmo, e com a natureza contraditória do mundo que o rodeia. Será pelas coisas simples, mais uma vez, que tal pode acontecer. As coisas, os elementos, a fúria apaziguada e :
-Patience,quelques siècles
Et nous pourrons peut-être
Nous faire ensemble une raison.
LES ROCS
I
Ils ne le sauront pasles rocs,
Qu'on parle d'eux.
Et toujours ils n'auront pour tenir
Que grandeur.
Et que l'oubli de la marée,
Des soleils rouges.
II
Ils n'ont pas besoin du rire
Ou de l'ivresse.
Ils ne font pas brûler
Du soufre dans le noir.
Car jamais
Ils n'ont craint la mort.
De la peur
Ils ont fait un hôte.
Et leur folie
Est clairvoyante.
III
Et puis la joie
De savoir la menace
Et de durer.
Pendant que sur les bords,
De la pierre les quitte
Que la vague et le vent grattaient
Pendant leur sieste.
IV
Ils n'ont pas à porter leur face
Comme un suplice.
Ils n'ont pas à porter de face
Où tout se lit.
V
La danse est en eux,
La flamme est en eux,
Quand bon leur semble.
....
Continuo adiante com o resto do ciclo, mas chamo desde já a atenção para uma certa "alquimia " do verbo que ele recusa, por contemplar a vida na sua essencia mais livre e depurada, como a pedra, o rochedo a que se identifica, sólido , permanecendo (fiel) sem ter de esconder o rosto que é o seu, ao contrário de muitos do seu tempo.
Guillevic

Em 1965 o poeta Guillevic veio a Lisboa, a convite de David Mourão-Ferreira.
Bretão, comunista militante e exigente, o seu verbo era a própria força da natureza em movimento, como as vagas daquele mar da Bretanha que ele tanto amava.
Mar e terra, matéria e espírito, o da força das ideias condutoras, que o levavam a escrever:
"Les mots
C'est pour savoir"
ou ainda:
" Les mots, les mots
Ne se laissent pas faire."
Sente-se, na poesia de Guillevic, o esforço e o respeito, que não permitem subterfúgios ligeiros, enganadores, e muito menos modismos como os que foram muitas vezes praticados pelos seus contemporâneos.Há no seu verbo uma entrega despojada e absoluta,uma força ao mesmo tempo comovida e implacável, perante as realidades da vida.
Teve uma infância dura, como bretão que partilhava ,com a simplicidade do olhar, a miséria que descreve por vezes em CARNAC. Mas é também neste ciclo que encontramos o "casamento da terra e do céu" tal como não existe em nenhum outro lugar:
" Nulle part comme à Carnac
Le ciel n'est à la terre,
Ne fait monde avec elle...
Para lá de qualquer enquadramento político, nunca negado, ou estético, o que fica é a "integração orgânica" como escreve um dos seus críticos,pois toda a sua poesia parte e é feita do "vivido". Ao recordá-lo como bretão vemo-lo rodeado de rochedos antigos, vagas alterosas, cozinhas com lareiras onde arde um fogo acolhedor.Os seus poemas são, no verdadeiro sentido "evocações" da sua condição, da condição humana quando a sua experiencia pouco a pouco se alarga.
Há um lado religioso, místico, panteísta, se se quiser, no Guillevic materialista.É homem nascido na pátria dos druidas, onde os rochedos marcam espaços sacrificiais, um "sangue místico" no dizer dos seus críticos, atravessa o seu vocabulário poético.
Nasceu em Carnac em 1907.O seu pai era marinheiro, a aventura corria-lhe no sangue.
Guillevic lê Marx, e em 1943 junta-se ao partido comunista clandestino. Já em 1942 se tornara amigo de Éluard,cujos poemas também bebiam nas mesmas convicções.
Deixo o leitor com alguns dos textos que a meu ver representam a marca forte do seu olhar, como em TERRAQUÉ:
Choses
L'armoire était de chêne
Et n'était pas ouverte.
Peut-être il en serait tombé des morts,
Peut-être il en serait tombé du pain.
Beaucoup de morts
Beaucoup de pain.
( 1942)
Sunday, April 30, 2006
Mais Boris Vian

No artigo dedicado à "Mitologia Vianesca", Pierre Baratay recupera as estruturas e imagens de mitos tradicionais como o de Édipo, o de Orfeu, o das Ménades - para apresentar a sua visão de alguns dos importantes romances de Boris Vian:
L'HERBE ROUGE ; L'ÉCUME DES JOURS; LE VOYEUR.
Outro estudioso, Noel Arnaud, também convida os colegas do COLLÈGE DE PATAPHYSIQUE a descobrir, em L'AUTOMNE à PÉQUIN, uma estrutura alquímica, pois entende que ali " o sol ocupa um lugar determinante", como na obra alquímica.É neste romance que Angel, que sofre um processo iniciático, dirá : " Mon système est trop parfait pour pouvouir jamais être réalisé: en outre, il est incommunicable."
Quanto às mulheres, nas obras citadas, são identificáveis aos quatro elementos, diz Baratay. Recorde-se o Imaginário da Matéria nas obras de G.Bachelard e a compreensão desta ideia será logo mais fácil.
Os processos do autor podem ser conscientes ou inconscientes, mas isso em nada altera o seu valor simbólico real.
Finalmente, como nos tratados de alquimia, Baratay descreve o "Bestiário Psicológico" que encontra nestas obras de Vian, sobretudo em L'Écume des Jours e L'Automne à Péquin; na primeira, as imagens nascem do mar, nota ele; na última nascem da terra; na primeira são imagens-peixe; na última, imagens-serpente. Mas todas correspondem a uma dinâmica oriunda das energias do inconsciente.
( OBLIQUES, pp. 183-197)
BORIS VIAN, le jazz est dangereux

Boris Vian, nesta Europa que se quer tão arrumada, tão normalizada que mete medo, deveria poder ressuscitar, com as suas canções, os seus textos, de todo o género, o seu humor/amor,como o que dedicou a Ursula, o seu jazz, tão mal amado naquela França que se divertia nas noites longas de Saint-Germain e vir gritar aos ouvidos de hoje o irónico artigo que escreveu sobre os "malefícios "do Jazz.
Não vou transcrevê-lo aqui por inteiro, mas deixar só a conclusão:
" ATTENTION! Il y a danger. SUPPRIMEZ LE JAZZ et vous aurez tué dans l'oeuf tous les germes de rébellion sociale qui, à brève écheance, engendreront, tôt ou tard, la guerre atomique."
Escrito nos anos 50, por que será que este protesto parece ainda, em Portugal, de tão grande actualidade?
Para quem não conheça a sua música (ele tocava trompete), os seus livros, a sua pintura, os seus muitos amigos do chamado colégio de "PATAPHYSIQUE", ver: BORIS VIAN DE A à Z, OBLIQUES, n. 8-9.
Como primeira leitura talvez L'ÉCUME DES JOURS ?
E entre outras canções, a VALSE DINGUE, "Une chanson d'Hamour".
Deixo uma estrofe, para ser saboreada, tanto quanto cantada:
"Un' valse en forme de chaise
a repriser des bas
Un' valse en forme de fraise
qu'on mange avec ses doigts
Un' valse avec des écailles
comme un petit poisson
Un' valse pour les volailles
et pour les saucissons
...
Un' valse en peau d' anchois
Un' valse en paté d' foie
Allons chanter dans les bois "
Friday, April 28, 2006
Sa-Carneiro

O aliciante, na leitura de um bom livro, é que nos remete para outras leituras.
Neste caso, depois de ter lido o estudo de Fátima Inácio Gomes, lembrei-me de um outro, que igualmente aconselho, de Maria José de Lancastre, intitulado O EU E O OUTRO ( para uma análise psicanalítica da obra de Mário de Sá-Carneiro).
Publicado em 1992, não perdeu a sua actualidade, neste ano em que em torno da obra de Pessoa se devem voltar a ler Almada Negreiros e Mário,o infeliz companheiro que desejava mudança, mas a si mesmo não se conseguiu mudar.
As Cartas fornecem, como é natural, o maior suporte para a análise que Maria José se propõe fazer: descrever o itinerário de uma situação melancólico-depressiva que o poeta terá atravessado durante a estadia em Paris, em 1912, e a seguir, novamente regressado, em 1915/16, data do seu suicídio.
A memória do jovem amigo perdura na de Pessoa: num poema de 1934, dedicado a Sá-Carneiro, escreve: " Como éramos só um falando.Nós eramos como um diálogo numa alma". (in F.Pessoa, Poesias Inéditas, ed. Ática, 1960)
A este propósito Maria José de Lancastre observa, nas notas, que este "diálogo numa alma" podia representar simbolicamente o que se passa numa sessão psicanalítica. Estaríamos aqui perante um caso de "transfert".
Dieter Woll, citado pela autora e ainda hoje um dos estudiosos que não podemos esquecer( REALIDADE E IDEALIDADE NA LÍRICA DE SÁ-CARNEIRO,Lisboa, 1968 ) fala de "depressão" ao abordar o estado de espírito do poeta.
Àcerca do retrato que Almada fez de Sá-Carneiro, a autora observa que é o único em que o vemos de corpo inteiro. Feito em 1963, retrata-o sentado à mesa de um café, onde numa folha de papel se pode ler a palavra "quasi".O seu rosto, gordo, como ele se descreveu tantas vezes, está virado para o alto, numa pose lânguida que, como diz Maria José tanto podia vir da memória de Almada como dos textos do poeta.
Certeira é a anotação do quase : pois ele foi quase, e só por não ter chegado a ser se transformou, na memória dos amigos e leitores, o símbolo mesmo da OBRA inacabada.Obra que numa interpretação de simbólica junguiana nos permitiria ver Pessoa como o Espírito, Sá-Carneiro como a Alma e a ligação profunda entre ambos como o momento que não foi possível viver, ultrapassando-o.
A questão do transfert é pertinente, e pode aplicar-se tanto a um como a outro dos poetas de "alma unida" , Na impossibilidade de haver integração sublimada, a fractura instalou-se em ambos de forma irremediável. Mas o jovem exilado em Paris lia Nerval, o romântico decadente, enquanto o Pessoa lisboeta, digerindo Freud, procurava na heteronimia os desdobramentos redentores.
Kati Kustner : OKTAV
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