Monday, March 02, 2015

Antonio Carlos Cortez

Está na hora de eu rearranjar os títulos dos meus blogs, que pressupõem temas, indicações, algo assim.
Agora não coloco imagens, e aqui era suposto, quando comecei, há anos, "abrir" o leitor ao sentido de um texto ou de uma imagem, ou de ambos.
Assim a Arte, como eu a desejava ir apresentando no blog, foi desaparecendo.
Fica o texto, fica a criação literária, fica a voz dos poetas.
Mas mesmo para um texto  a busca se está a tornar difícil.
Modestamente procurava eu um poeta, na rede imensa da net.
É jovem, é português.
Mas tudo o que me aparecia, no google, por qualquer razão, eram senhores de alguma idade, e oriundos da Colômbia!
Facebook, blogs, etc. - em nada me ajudaram.
O que eu queria era simples, além de alguma informação extra, uma imagem se houvesse.
O que me leva a pensar como o excesso, a abundância, confundem, fazem perder tempo, não ajudam.
O acesso à informação devia ser mais simples, ou mais simplificado, agora que se pode, ao que dizem, fazer tudo.
O tempo é uma das preciosidades que devemos poupar.
Mas como, se a distracção é permanente, rodopia, faz de nós cataventos na net, e pelo meio a dada altura ( a dada idade?) o pensamento se perde?
Volto ao pensamento incial.
Fechar os blogs, abrir um único com um título mais adequado?
Enquanto fiz alguns seminários para adultos, criei, durante dois anos, para duas turmas de vinte e poucos alunos os blogs de cultura visual e de escrita criativa.
Eram textos de ajuda à reflexão e ao estudo, para os seus futuros trabalhos, dando exemplos mais do que teoria excessiva, que não teriam tempo de ler.
Mas de repente reparo que na escrita criativa já publiquei alguns poemas meus - e não era nada disso que devia fazer!
Lembrei-me de uma entrevista da Adília Lopes em que ela dizia um escritor escreve todo o tempo, na sua cabeça, depois aponta ou não num caderno, ou onde fôr, o que esteve mentalmente a escrever.
E é mesmo assim. Quem escreve sabe que é assim.
Outrora eu de noite dava-me a esse trabalho, de pegar no caderno e apontar o que de cabeça, na cabeça, tinha escrito.
Agora, sentada no sofá, nem me levanto.Penso: o que eu não digo agora alguém dirá mais tarde.
E antes procuro um livro para ler.

Estava eu a falar do excesso, mas na verdade tenho já um livro na mão, é de um jovem poeta (para mim, a caminho dos oitenta anos, como digo, é mesmo jovem...) e tal como eu gostou de descobrir e de estudar Fernando Pessoa.
Deixei de escrever sobre Pessoa, a partir do momento em que tantos estudiosos (alguns ajudei nos seus doutoramentos) estavam a dedicar-se à sua Obra.
Fiz bem, pois por mim já sabia o que tinha encontrado nele, de desafio permanente. Foi bom dar lugar a outros.

Tenho então um livro à minha frente: LINHA DE FOGO, de António Carlos Cortez.
Páginas de poesia e prosa que se seguem em curso natural como o rio que Ricardo Reis gostava de contemplar, incitando Lídia a fazer o mesmo.
Ficar, para poder ser, enquanto ser é possível:
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)"
A ode segue, num apelo ao não chegar a ser, não chegar a sentir, ou mesmo existir, num paganismo que se diz inocente, mas que de inocente nada tem. Bebeu o imaginário clássico antigo, de mistura com o esoterismo mais recente, de anulação e entrega.
Este rio é o que noutro poema, que Eduardo Lourenço gostou de nos citar outrora, num primeiro seminário que nos deu na recém fundada Universidade Nova é o mesmo rio perante o qual Pessoa se interroga "o que é ser rio e correr/ o que é está-lo eu a ver..."
A interrogação é o que distingue o nosso poeta, neste caso Reis, no contexto do Modernismo e do experimentalismo exacerbado de outros contemporâneos seus, como Almada Negreiros, e os seus outros heterónimos. A interpelação distingue melhor A.Cortez.
A interrogação é o enfrentamento com os vários patamares da consciência, por exemplo os três do Zohar, na Kabbala Revelada, ou nos vários graus da iniciação maçónica, de que o de Mestre é para ele sem dúvida o de maior elevação (perplexidade?).
Nada de arroubos como os de Álvaro de Campos, na sofreguidão bebida em Whitman, ou na curiosidade insaciável escondida nas   célebres iniciações da Golden Dawn de Israel Regardie, ou de mistificações sedutoras como as de Aleister Crowley, fundador dessa sociedade secreta junto com S.L.MacGregor Mathers, que traduziu do latim a KABBALA DENUDATA, contendo os três livros do Zohar: O Livro do Mistério Oculto ; A Grande Asembleia Sagrada; A Pequena Assembleia Sagrada.
A tradução é feita a partir da versão latina de Knorr von Rosenroth, fundador do movimento Rosa-Cruz, no século XVII (sendo As Bodas Químicas de Christian Rosencreutz, 1459 - um dos livros mais lidos, por Goethe, entre outros, e cuja simbólica se redescobre nos vários momentos da iniciação maçónica e hermética). Tudo isto Pessoa leu, as obras de referência podem ser encontradas na sua biblioteca ( se não foram vendidas para o Brasil...).
Mas falava eu de  outro poeta, António Carlos Cortez: pessoano, como se costuma dizer dos estudiosos. Apontava, nos seus poemas, uma interpelação: ao quotidiano, horizontal, que logo se pode esquecer, mas talvez mais ao tempo da memória vertical, revelada, mais perto da experiência da palavra . Um dos patamares do Mistério acima referido. Pois todo o mistério revelado é feito da Palavra.
Encontro em LINHA DE FOGO uma realidade (uma objectividade lírica) por vezes detalhada, por vezes aguardada ou recusada, mas sempre interpelada, de exigência absoluta, uma palavra-corpo em carne viva. Memória e sofrimento, como se na memória nunca parasse o tempo. Não sendo eu capaz de fazer melhor ( o tal copy-paste) e porque um blog para ser lido não deve nunca alongar-se, farei como fez E.Lourenço, não por preguiça, mas para meditação, minha e dos outros, escolhendo do poema AO LEITOR uns últimos versos:
"...
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dôr e os actos

aos pouco sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
(p.44)

A.Cortez tinha antes deixado um desafio: "se somos o que fazemos...", dirigindo-se a esse leitor imaginado.
Mas sabe que não é assim, escava nas fábulas, usando as suas palavras, isto é,  escava no tempo e na memória, escava como Celan escavara, gota a gota de sangue na palavra, pois só escrever salvava.
Não é por acaso que abre o seu livro com uma referência à "matéria inflamável da grafia", unindo deste modo matéria e energia (o fogo) ou tempo e espaço. O título deste poema inicial é MARÉ VAZA. A onda anímica, aquática, da criatividade atravessa a obra, e também não será por acaso (será antes por alguma sincronicidade, ao modo Junguiano) que o livro é fechado com uma LITANIA DO TEMPO, que lida em voz alta nos embala e comove. Vejamos um pouco do que digo:
" Em vagas vem o tempo ter contigo
e traz consigo a pedra transitória
tempo mortal e vivo do destino
...
O tempo é um mar soterrado e limpo
e à superfície reconheces rostos
...
(os livros que tens escrito são a opaca
recordação do sangue aquático
ardendo de cada vez no texto morto
os episódios vibrando biográficos
vindos da adolescente claridade)
...
O tempo linear uma ilusão... "
(p.62-63)

E ficarei por aqui.
É em verdade de Tempo que se fala, e se é certo que Pessoa não morreu, este poeta é na mesma chama que vai ardendo e vive. Se o fogo é água, se o tempo é mar, António Cortez, como Pessoa-Reis,
em silêncio, contempla.
Belos poemas, belo livro!









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