Thursday, February 02, 2012

ARNAU PONS : a palavra que ofusca

Nascido em Majorca, em 1965, vive am Barcelona onde alia a criatividade poética ao ensaio e à tradução literária.
Entre os poetas de sua preferência encontramos Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Jacques Dupin, Paul Celan, entre outros. Este veio a marcar profundamente o seu imaginário e o seu meticuloso exercício da palavra.
Desde 2001 integra o grupo de investigação da obra de Celan, criado em Paris por Jean Bollack.
Apresento aqui uma pequena selecção dos poemas que em 1996 foram lidos em Lisboa, num encontro organizado pela Fundação Gulbenkian, agora revistos por mim, em
versão livre de homenagem à sua obra.
Ele, com a sua paixão por Paul Celan, e outros, de voz tão inspirada quanto a dele, merecem entre nós o destaque devido a esta nova geração de poetas da Catalunha.
Sempre tão perto e tão longeHá nesta poesia de Arnau Pons, por um lado tão íntima e ao mesmo tempo tão universal, um apelo que é de sempre: o de buscar (encontrar) na palavra aquela réstea de luz que seja redentora, aquele fragmento de ser que não se negue aos outros, aquele buraco negro da memória onde o nosso tempo não se deve esconder, não deve esquecer nunca que houve outrora um olhar desviado, transviado, e que o negro da História está sempre ali à espreita.
Poesia que relê o sofrimento de um desamparado e desesperado Paul Celan enquanto figura emblemática da própria condição humana: o que viu e não se desviou, viveu para contar e morreu por isso, como tantos no mundo, ainda hoje ( nós somos todos esse judeu errante, perseguido, em busca de si mesmo e do seu deus ausente).
Poesia que busca para lá dessa nigredo o seu própro sentido do dizer.
Encontro em Arnau um olhar discreto, mas severo: de exigência ética e estética.

Ele não pratica, na sua arte, a elegância fácil, a limpidez e o brilho da sua escrita nascem de outras águas, as da consciência moral que busca para lá do Belo o Bom e o Verdadeiro da tríade platónica.
Filosofia que ofusca: a Ética como raiz do Ser, a Estética como fundamento da existência.

RISCAS AS ÁGUAS,
sob o umbigo, encerrado,
puxa-te a mão para um céu que chora,
e sais
entre dedos sedentos do teu negrume,
lodo fétido,
festa louca e de viver tão farto;
passas à beira das árvores, gritas
o monte de visco, a feia besta
que nasceu contigo;
estremece a água, dentro da casca
que te afogou retorces-te
qual morte dentro do olho que te criou.
De um mau sonho, de uma escuridão,
agora cospes fogo e escuridão, escuridão;
amendrontas-te, procuras
como uma serpente aquele mamilo de rocha:
até secá-lo.
Tens amargura no amargo da boca.
Tens o cheiro do pai.

DIMANADA

colhias
o veneno com o corpo; a flor
fechada, tão adormecida do teu sexo,
apenas lábio
cavado na mudez;
cega de amêndoa,
raça de olhos fechados…
Cabelos errantes, provavas
(dente cravado na morte: uma oração desfeita
a fim de ser criada)
o sangue a chorar dos ramos


Do norte
veio o sangue,
e havia de invadir as águas;
do norte desatou-se aquele vento
que agora te inclina,
aninhada nele, entardecida de febre
- a mão amputada que se estende
para ciosamente se saciar
de ti.

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