Mário Avelar, mais ficção

Foi lançado um novo romance de Mário Avelar:
Inveja, uma novela académica, ed. Assírio e Alvim, Lisboa, 2010.
Não podia ser mais actual, no momento que vivemos, num país que celebra a República e os seus valores (como se os valores pudessem ser deste ou daquele modelo de sociedade e governação e não dos homens que deles se ocupam).
A estes valores de memória - que bem longe estão de quem os defendeu, por vezes com a vida, muitas vezes com o exílio e um sofrimento perpetuado - vem Mário Avelar chamar a atenção para "novos valores", os da geração que nascida e criada no post- 25 de Abril descobriu que viver a vida é melhor do que dar a vida- seja lá pelo que fôr- que a esfera do poder é aquela em que melhor poderão actuar - estudar para quê, se no interior dos partidos tudo se aprende e treina, bem depressa e melhor...e se progride social e financeiramente a uma velocidade nunca imaginada.It's all about business...
A República, os seus valores, a frase consagrada e já estafada de tanto uso da ÉTICA republicana...está hoje reduzida a um ávido olhar sobre cargos e lugares subsidiários disponíveis, possível distribuição por família ou amigos cuja obediência subserviente ficará mais do que garantida...enfim.
Estas são algumas das ideias que me atravessam o espírito enquanto leio o livro, com a tendência que tenho de não me desligar do mundo em que escolhi viver, também eu: o da Academia, outrora respirando vocações, hoje envenenada por impertinentes protecções e promoções.
Porque esta novela académica é na realidade mais do que isso: um subtil e cruelmente irónico, para não dizer caricatural, desenvencilhar do novelo político em que nos encontramos todos enredados. E não interessa discutir quando começou. Interessa é tentar ver quando acabará. Será ainda no meu tempo de vida? Dos meus filhos, dos meus netos?
Ultimamente a prosa portuguesa tem oscilado entre a produção centrípeta de alguma reflexão sobre o mundo e nós mesmos e a produção centrífuga mais alargada do novo paradigma que nos rege ( e destrói). Esta é a produção que mais nos convém ler, para termos consciência do que se passa, em todas as esferas do académico, do social e do político - sendo que este último atravessa e contamina impunemente todas elas.
O olhar das novas gerações é agudo, logo descobre onde está o espaço com a presa ( e a pressa!) que se deseja. Não há tempo a perder.
Alguém afirmava que estamos a mudar do tempo do dizer para o tempo do mostrar (de dar a ver). E tudo bem, a questão é o que se dá a ver: nunca a verdade mas a sua imagem deturpada, vivemos entre máscaras e mascarados, uns do lado de cá outros do lado de lá do espelho. E o espelho também já não é espelho, é vidro cortante, vidro que dilacera se nos encostarmos a ele ( foi o que aconteceu, por certo à Ética republicana...)
No Partido aprende-se que nada faz falta a não ser um seguidismo bajulador; esse até garantirá diplomas. Mas quem precisa de diplomas? Actualmente rápida, tipo pudim instantâneo, a Carreira Académica ajudará a uma rápida transição - por mérito evidente, é claro - para outro tipo de carreiras, já no âmbito da política. Tudo serve: um lugar de Deputado de fim de fila, de penumbra e de cauteloso silêncio., de Chefe de Gabinete, de Assessor de seja lá do que fôr, até à tão almejada Administração disto ou daquilo, bem perto dos Presidentes ou dos Vices que se deseja emular.
Ah que saudades do Eça e do Ramalho Ortigão. Alguém ainda os lê? E não compara?
Os solitários podem dizer, como Herberto Helder, "falemos de casas como quem fala da alma".
Os outros, os falsos solidários, abundam em casas de que poderiam falar, mas onde a alma?
A alma perdeu-se pelo caminho, que não foi da inocência, ou então vendeu-se mesmo ao diabo. Nós temos em Portugal esta esperteza saloia de achar que no fim conseguimos sempre enganar uns e outros, e mesmo todos... o diabo ( a Europa severa? ) sairá perdedora face à esperteza do nosso Portugal.
Mas será sempre assim? A isto estaremos condenados, de geração em geração? À fila imensa dos cobiçosos de agora, iguais em tudo aos cobiçosos de outrora? E a esta melancolia do simples constatar? Do triste encolher dos ombros?
Foi o acaso que me fez encontrar na minha livraria preferida um ensaio de Miguel de Unamuno: PORTUGAL Povo de Suicidas.
E lá está: " Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver, sim, mas para quê? Mais vale não viver."
De facto o impulso de viver o imediato e depressa não é compatível com qualquer sentido de transcendência na vida, pessoal e colectiva.
Assim é o nosso colectivo herói, na obra de Mário Avelar: sem qualquer noção de algo de superior, como o serviço à res publica, toma posse de um cargo para chegar a melhor casa, melhor carro, a chauffeur ainda que sem farda, a mais mulheres ( se a que tem se revelar menos interessante,ou menos compatível com o novo cargo) mais viagens, almoços e jantares, etc.,etc.
Este acha que sim, assim vale a pena viver. Ignora por quanto tempo, mas o lema é precisamente: rápido, que temos pouco tempo.
Na verdade, se não morrerem pelo caminho com alguma overdose, de poder ou alguma outra substância igualmente tóxica, viverão um pouco. Mal, do ponto de vista tão ultrapassado, da tal transcendência. Contarão os cavalos dos carros, deixando à míngua os cavalos da alma.
A seu lado o povo, a tal massa indefinida que até se chama res publica, cala e consente, como diz Unamuno, afundada em triste e resignada melancolia.
Unamuno cita, sem referir o nome, a carta que um amigo português lhe escreve, onde conclui:
" O pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Camilo, mesmo do próprio Alexandre Herculano (que se suicidou pelo isolamento como os monges) não são flores negras e artificiais do decadentismo literário (...). São nossas: são portuguesas; pagaram por todos; espiaram a desgraça de todos nós. Dir-se-ia que foi toda uma raça que se suicidou (...).Neste malfadado país tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa".
II
Mudámos de século, mudou-se de paradigma: os suicidários desistentes abrem agora alas e saúdam os lutadores.
Nesta categoria dos lutadores incluo Mário Avelar.
Académico e erudito, de carreira límpida, pode escrever e escreve, pode falar e fala: como se diz num conhecido hino que ouvi há pouco tempo " queremos un pueblo que hable"!!!
Avelar pertence a esse povo, que o mundo tem de saudar.
Eu ainda não me referi à sua prosa directa, ao seu humor que caustica, à sua imaginação criadora que não se perde nos fios da intriga. Podia resumir a novela com um simples ridendo castigat mores!
Mas julgo ter referido o principal: que estamos perante um livro que faz pensar e quem sabe se ao pensar nos fará agir. Ao engenho da prosa tem de somar-se a agudeza do espírito e da crítica.
Em plena mudança de ano, 2011 vem aí, estará na hora de agir.
Estes heróis caricatos, que confundem tomadas de Posse com os "quero posso e mando" de que temos sofrido, terão os dias contados.
Citei Unamuno? Citarei então, nestes dias de celebração da República, um passo talvez mais actual:
"Pois todos esses figurões se vendem ao governo. O juiz quer uma comarca mais rendosa.O lente quer passar em Lisboa vida regalada, e abandona a sua cadeira; se as côrtes estão abertas, porque estão abertas, e em se fechando as côrtes ficam por lá em comissões, onde nada se faz e vão comendo o ordenado sem trabalhar".
Podia seguir com citações deste género - esta não é do conservador Unamuno, mas sim de um pai fundador da República, José Falcão, em A Cartilha do Povo...
Labels: Inveja, Mário Avelar

6 Comments:
Venho agradecer a sua excelência sobre a política e o pensamento crítico na visão do Portugal de hoje.
Ana, festejemos hoje Herberto Helder, e já agora, para um silêncio criador, o livro que bloguei, De Frente para o Mar.
Ver o mar é ver a Alma.
Muito obrigada pelas suas palavras.
Preciso de ver a Alma.
O mar sempre gostei de ver e, realmente, nunca tinha pensado que ao vê-lo é olhar a Alma.
Precioso o seu comentário.
Já vivi nos Açores, Pico, e o mar era a minha fuga, a minha alegria, o meu repouso.
Bem- haja, bom domingo!
Repetir a triste citação de Unamuno «Portugal povo de suicidas» é cada vez mais um lugar comum, sem sentido, porque obnubila ao leitor desprevenido o suicídio do próprio autor (da citação).
Deixei-me levar pela verve. O que eu queria dizer era que concordo com tudo o que diz o post. E confesso achar este blog sensacional.
#:)
Parabéns! Vivemos numa sociedade de inveja...a nossa portuguseinha, por isso o título foi mesmo acertado!
Jinhos
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